Manhunt, o segundo episódio de American Crime Story ilustra as inseguranças de quem sabe quem é e os perigos dos que não sabem quem são.
Os anos 90 foram especialmente ruptores para a comunidade gay. Depois dos anos 80 serem o período mais escuro, em que o hiv não só devastou populações como também implantou a terrível ideia de que aquele tratava-se de um “apocalipse gay”, os anos 90 começaram os reajustes, com a medicina avançando no tratamento, a TV e o cinema avançando nas representações midiáticas e a sociedade começando a discutir aspectos importantes da orientação sexual e das questões de gênero. O preconceito e o julgamento ainda eram marcantes, mas os 90 foram a ponte para muitos avanços alcançados depois dos 2000.
Andrew Cunanan era um jovem que sabia o que queria: SER. Durante muito tempo ele pensou que precisava TER para chegar a alcançar esse objetivo. Começou a dar-se conta de que os pais não se davam muito bem na mesma época em que começou a estudar numa escola de gente rica e passou então a ilustrar a própria família de acordo com os códigos que o faziam não só parecer amado como também “especial”. O jogo funcionou e muito cedo Andrew aprendeu que suas mentiras lhe abriam portas e também o protegiam da completa irrelevância. Ele queria ser todos que roubava, manipulava, matava… Mas, também os roubava, manipulava, matava, porque tinha uma complexa consciência de que não passava de um acachapante ninguém.
Vez ou outra, Andrew deixava escorrer pela garganta alguma verdade irreconhecível. American Crime Story é mais uma dessas obras de Murphy que se descrevem com texto e voz. Em dado momento da primeira conversa entre Andrew e Ronnie, ele afirma ter perdido “seu melhor amigo e o amor de sua vida”. Ele afirma que isso teria acontecido naquele mesmo ano e nesse instante, está – na turva e equivocada maneira como funcionam suas conexões emocionais – colocando suas duas primeiras vítimas (ambos seus amigos e amantes) nessas posições. Mais para frente, no mesmo diálogo, enquanto fala de Versace, Andrew se refere a ele como alguém que ele gostaria de ser. Ronnie o corrige perguntando se ele seria alguém com quem Andrew gostaria de estar e só então, Cunanan corrige a afirmação.
Do outro lado, as idas e vindas no tempo desafiam nossa memória na hora de montar a timeline da trama. Vamos da noite da cremação de Gianni para anos antes do crime, depois dias e enfim, até a véspera. O quadro que se pinta do estilista é sensível. A família Versace não confirmou jamais que ele tivesse HIV, mas a série assume essa possibilidade como certa e usa-a como ferramenta dramática. De 1994 a 1997, Gianni lutou ferozmente contra o vírus e acabou sendo morto por circunstâncias que fugiam completamente ao seu controle. Durante esses saltos no tempo, o que vemos é um homem que desafia suas próprias inseguranças pessoais valendo-se daquilo que ele tem de mais nobre: seu talento. Versace sabe quem é e sabe lutar pelo estabelecimento dessa condição.
Missing Flyers
Manhunt é um episódio melancólico, sombrio, que te obriga a reassistir o primeiro para que os eventos não te deixem com uma sensação de incompletude. O primeiro bloco – que mostra as horas antes do funeral – é pesado como são quaisquer horas tomadas de luto, mas que não se esquece de seus propósitos principais. The Assassination of Gianni Versace é também um depoimento de pesar sobre julgamentos pré-estabelecidos acerca dos hábitos e direitos dos gays. Donatella e Antonio tem diálogos sensacionais em que ela é dura com ele por ser incapaz de compreender a separação que ele faz entre sexo e sentimento. Para ela, seu irmão aceitou essa relação aberta como inevitável para se estar com Antonio e sua mágoa reside em não enxergar no namorado do irmão alguém disposto a ceder por amar na mesma proporção em que Gianni o fizera. Esse imbróglio separatista de impulsos físicos e emocionais é parte da gênese da homoafetividade há muito tempo e o texto do show tem sido delicado na forma como aborda-o como parte das tensões que envolvem esse período da vida do estilista, mesmo porque a pressa em eleger a “vida permissiva” do casal como porta para o perigo era completamente baseada em preconceitos.

Saltamos então para a chegada de Andrew em Miami, dois meses antes do crime. Na premiere, vimos a polícia invadir o quarto de Ronnie, mas apenas agora ficamos sabendo que Ronnie foi a principal fonte de informações da escritora do livro onde se baseou a série a respeito dos dias de Cunanan nos arredores da mansão Versace. Max Greenfield está irreconhecível, entregue ao papel inclusive fisicamente, de uma maneira desconcertante. Ele e Darren Criss pesam o ambiente com seus ciclos sombrios de drogas e prostituição, o que ainda reforça essa dinâmica de impressões tortuosas a respeito da rotina da comunidade gay. Engraçado como a sociedade tira suas conclusões moralmente superiores, esquecendo-se que o gueto e a marginalização são responsabilidade dos que oprimem, não dos que são oprimidos.
A sequência na polícia é emblemática no que diz respeito a tudo isso. Cunanan matara quatro pessoas, três delas eram homens gays e com tanta coisa mais “importante” para fazer, distribuir flyers que pudessem ajudar na captura do criminoso não estava nas prioridades das autoridades. A premiere mostra centenas de flyers que não foram distribuídos e ainda mostra a dona da loja de penhores reclamando que enviara todas as informações sobre Cunanan para a polícia seis dias antes do crime, inclusive seu endereço. As informações pararam na mesa do funcionário responsável (que estava de férias) e ninguém se importou. Cunanan, se não tivesse escolhido uma vítima famosa, teria continuado a matar por onde quer que estivesse, simplesmente porque suas presas eram “invisíveis”.
O Nada Que Eu Sou
Revisitamos o passado novamente, nove dias antes do crime, no último desfile da vida do estilista. A atenção à edição da série pode ser cansativa para alguns espectadores, mas isso pode ser compensado pelo texto seguro e pelas atuações dedicadas do elenco. Edgar e Penelope se enfrentam para saber quem mais defende seus personagens enquanto seus personagens defendem ideias. Penelope ganha na atuação, Versace ganha na passarela. Conhecido por transformar cores, texturas e brilhos que poderiam ser considerados cafonas em obras de arte, Versace implica até mesmo com a aparência “morta” das modelos, enquanto Donatella (dura e soturna) prefere alimentar as ideias inalcançáveis de beleza e estilo propostas por um setor específico da moda. Ele quer vestir, ela quer estampar. A cena transmite isso muito bem e abaixo está, inclusive, o vídeo desse último desfile. Ele não acontece no mesmo lugar, mas a série usou alguns mesmos looks (inclusive o icônico vestido de noiva usado por Naomi Campbell) e até as mesmas músicas. Dá uma imensa angústia quando Gianni entra para os agradecimentos e sabemos que ele está a nove dias de ser assassinado.
A última dança do tempo proposta pelo episódio termina na noite anterior ao crime. Narrativamente falando, essas inserções de detalhes enriquecem muito a experiência e embora não haja nenhuma informação oficial sobre Andrew vigiando a casa na noite do dia 14, isso não deve estar tão longe da verdade. Toda vez que os episódios vão longe no passado dele, vemos Andrew com uma empolgação perante as próprias mentiras e o próprio destino. Quando chegamos perto do crime, Andrew já está melancólico, obscurecido e tenso. É como se de certa forma ele já soubesse que o assassinato seria seu fim da linha e que esse fim da linha também era o mesmo que enfrentar que ele jamais seria alguém.
Escolher Rick Martin como aquele que interpretaria Antonio D’Amico significava dar ao personagem a mesma chance de redenção midiática. Manhunt ainda não é o episódio que faz isso com eficácia ou mesmo que transmite a certeza de que os propósitos sejam esses. Antonio até diz de noite o mesmo que disse pela manhã, mas falta convicção. O verdadeiro Antonio já falou em entrevistas sobre sua difícil relação com Donatella, mas logo questionamentos surgirão sobre a natureza da relação dele com o estilista. Talvez mais para frente tudo fique mais claro, mas deve ter sido extremamente delicado para os roteiristas encontrar um meio termo que não fosse agressivo e nem condescendente com todos essas figuras reais que podem estar acompanhando o show.

Os dias e noites de Andrew pouco tempo antes do crime são parte importante da psiqué do personagem e acho que voltaremos a eles. Dia 12 ele deixou o hotel (que está lá até hoje), não pagou pela última noite e passou os próximos dias – até a manhã do dia 15 – vagando pelos arredores. Ele visitou uma agência de viagens, deixou um número errado de quarto do hotel dentro do carro que roubou antes de chegar a cidade (e que estava estacionado por dois meses perto da mansão), deixou revistas de moda no quarto que ocupou… Ele estava claramente esperando, esperando o momento em que arrancaria a vida daquele que representava tudo que ele queria ser, que ele queria enxergar quando tirava a fita adesiva do rosto, quando a arrancava do rosto de suas vítimas.
Em sua última cena no episódio, Andrew desiste da caçada da noite vomitando suas personalidades num completo estranho. American Crime Story está descrevendo uma vida de latências que passaram da fuga para a manipulação e chegaram até o mortal, enfim.
Blood Pages: Versace realmente inventou um tipo de tecido chamado Oroton, que surpreendeu por conta de seus elementos metálicos.
Blood Pages 2: A cena que mostra Andrew colando fita adesiva no rosto do cliente da praia remete à sua terceira vítima, o Sr. Miglin. Provavelmente ainda veremos esse crime acontecer.
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Blood Pages 3: Andrew foi mesmo reconhecido por um atendente de uma lanchonete na véspera do crime, mas ele não chamou a polícia. Além disso, Andrew naquela noite foi visto no Liquid, e não no Twist, onde teriam ido Gianni e Antonio.