
Provando que aves racistas estão em falta nas séries de televisão.
Spoilers Abaixo:
Depois de um episódio que soube aproveitar de maneira sublime a característica principal de uma excelente personagem ao associa-la a um tema como o Natal, Happy Endings decide seguir um caminho muito mais simples com esse divertido “Fowl Play/Date”, um episódio que aproveita muito bem a energia que a série possuiu, criando pequenas piadas ao associar o núcleo dos seus diálogos (as referências a diversos aspectos da cultura pop) a situações referentes exatamente a isso, como no caso da divertidíssima cold open sobre as convenções. Todo esse esquema é bem cuidado porque Happy Endings precisa desse tipo de conversa para ser engraçada, sendo que a série é perfeita aqui ao fazer com que nenhuma das palavras ditas saia de maneira aleatória, chegando até a brincar com uma questão social simples como a que as outras pessoas enfrentam quando determinado grupo está falando muito alto com uma linguagem que é perfeita para o momento. Essa cena é um momento perfeito para mostrar o que a série se tornou com o passar do tempo, um programa com uma presença de espírito tão forte que faz com que qualquer situação tenha grandes chances de ser divertida.
Somos visitados mais uma vez pelo papagaio de Alex, uma peça perfeita para complementar aquele grupo por trazer a questão da vergonha a um nível tão direto que acaba sendo um auxílio ótimo para Brad, que termina sendo a maior vítima da ave. O roteiro aborda a questão do pássaro morto de uma maneira bem comum em diversas séries que tentaram contar essa história, mas a presença dos diálogos criativos cria uma atmosfera muito mais favorável a gargalhadas. Brad se destaca nesse contexto graças a o seu desespero exacerbado ao enfrentar a situação de uma forma quase realista, criando piadas perfeitas como o seu processo de ressuscitação e o ataque no final do episódio, uma reação que encerra “Fowl Play/Date” com o twist que ele precisava por tratar de situações consideradas previsíveis. Penny é essencial para o funcionamento de tudo ao servir como o contraponto do desespero de Brad, representando dois opostos que operam de forma exagerada, mas tolerável ao longo dos vinte minutos.
Essa previsibilidade está longe de atrapalhar a narrativa por ser contornada com um excelente trabalho de todas as partes envolvidas, dos próprios atores até a direção do experiente Rob Greenberg. O último se esforça para que os paralelos de Jane e Dave com seus amigos apareçam de forma orgânica ao longo do episódio, como, por exemplo, no momento em que ele mostra o modo de sentar da primeira e seu escolhido, uma sutil demonstração que faz com que a piada da situação não seja essencialmente a semelhança que eles possuem, focando na competição dos dois em busca de um companheiro para Max. Essas analogias são ótimas para Jane e não tão favoráveis para Dave, pois a personagem da primeira é tão melhor definida quando comparada ao segundo que não é necessariamente necessário se importar com o fato de clone de Dave falar do mesmo jeito que ele. Entretanto, o clima da competição traz de volta um fator importante que vem se destacando nessa temporada: o simples fato de que mesmo em um relacionamento destinado a falhar, Dave vem se tornando uma pessoa muito mais engraçada do que víamos anteriormente e pareá-lo com Jane é o teste perfeito para ver se pode-se descobrir uma nova dinâmica. Mesmo pecando um pouco com os clones, as interações entre eles são ágeis e combinam com a série, um indício de que essa foi uma boa decisão.
O modo como somos levados ao clímax é sensacional por fazer com que Alex tenha uma tarefa adequada no episódio, permitindo que o roteiro possa questionar a sua inteligência no momento do funeral da maneira mais natural possível por trazer uma coleção de gags que combinam com o que conhecemos da personagem.
3×09: Ordinary Extraordinary Love

“Ordinary Extraordinary Love” se resume a um conjunto de conclusões sensacionais que são tiradas a partir de um caminho bem doloroso. Happy Endings utiliza aqui uma grande quantidade de situações que dificilmente se interligam e terminam não aproveitando o sentimento de união que a série construiu, sendo que parte delas falha graças a motivos diferentes enquanto que Jane e Max estão sensacionais por abordar o que parece ser o arco atual da série: a vida amorosa do segundo.
O interessante é que isso se encaixa de forma incrível no universo da série. Max é o membro do grupo mais isolado (o que não quer dizer necessariamente menos divertido) por trazer determinado egoísmo que faz com que o personagem seja mais uma máquina de piadas do que um personagem de televisão. O grande trunfo do roteiro de “Ordinary Extraordinary Love” é retomar essa questão que já recebeu o holofote diversas vezes no passado e aproveita o que foi estabelecido antes (o fato dele estar sozinho foi um dos principais alvos das piadas dos últimos episódios) para simplesmente seguir com a corrente. A continuidade aqui é um fator incrível por tratar da questão da identificação pelo qual diversas pessoas acabam passando, o que é ainda melhor quando o roteiro decide adicionar Jane nessa equação porque ela é uma personagem cuja característica principal é sua obsessão de realizar determinados objetivos do seu jeito. Isso traz os momentos mais divertidos do episódio, como a montagem que mostra os personagens buscando o local ideal para Max sair e o final do episódio, onde todos descobrem o tipo de gay que eles são. Esse tipo de história é um exemplo perfeito de como boa televisão pode ser feita nos dias atuais.
Enquanto isso, todos os acontecimentos restantes soam bastante desconexos, o que não seria necessariamente um problema, mas a motivação dos personagens para agir daquela maneira é extremamente tola. Brad e Dave encontram-se em uma procura por sua masculinidade, o que poderia ser um interessante paralelo com a situação de Max acaba soando incrivelmente fútil por ser essencialmente temático e voltado para si mesmo, tentando atribuir graças a situações que não possuem a mínima razão para existir. Além disso, a situação acaba interrompendo o fluxo das ações em diversas oportunidades, como no momento da explosão do dimer, algo que é repetido de modo tão previsível que termina tendo seu efeito cômico anulado, não conseguindo poupar nem o timing cômico de Damon Wayans, Jr., que acaba fazendo Brad ser irritante ao longo do tempo. Mesmo com um caminho ruim, a situação segue a lógica abordada anteriormente, com Brad e Jane possuindo uma ótima reflexão sobre o novo contexto do seu relacionamento.
O segmento que intitula o episódio possui problemáticas semelhantes a da busca pela masculinidade por subverter diversas características das personagens em questão. Penny, por exemplo, tem um histórico muito mais positivo quando a personagem é colocada em situações desfavoráveis e tem que reagir de maneira desesperada, resumindo suas piadas em discursos mais rápidos que o normal (o contrário completo de Jane), o que faz com que a lógica do episódio de coloca-la para gerenciar a crise da cantora seja algo demais para a personagem. Perceba como ela possui piadas mais longas que o comum e que dificilmente conseguem ser engraçadas graças a isso. Alex sempre foi uma personagem mais ingênua do que necessariamente ignorante, o que faz com que sua vontade de ganhar publicidade para a loja* transforme-se em algo intragável com o passar do tempo.
* É interessante observar como a situação estava em uma direção adequada no início do episódio. A recusa de Alex em fazer aquilo e a reação de Penny para convencê-la é algo propício para os dois lados da moeda, como pode-se ver quando a segunda canta Ordinary Extraordinary Love para provar um ponto, mas isso terminou sendo isolado para dar espaço para a crise de celebridade.
Porém, o resultado final finaliza com uma conclusão doce de tudo aquilo que foi mal construído. Penny sacrificando sua cabeçona para despistar os paparazzis traz de volta aquela pessoa divertida que conhecemos, sendo que Alex serve o mesmo caminho ao fazer com que Winnie possa ter um encontro real. Precisamos passar por muitos problemas, mas o resultado final de “Ordinary Extraordinary Love” é muito bonito. Agora fica para cada um decidir se isso é positivo ou não. Dica: usa o espaço dos comentários para isso!