
Disseram por aí que a sala de redação de The Newsroom nada se assemelha com uma da vida real. Também disseram que a série, que estreia neste domingo, não tem nada a ver com a HBO. Mas quem se importa, quando ela tem tudo a ver com Aaron Sorkin.
Spoilers Abaixo:
Will McVoy, um âncora de um noticiário de TV a cabo, é conhecido por não emitir opiniões pessoais ao relatar noticias — o Jay Leno do jornalismo televisivo, como bem definiu o mediador do debate que abre a série. Will, sentado entre uma democrata e um republicano, passa o debate se esquivando das perguntas, com tiradas espirituosas e cinismo. Até que uma estudante pergunta: “Por que os Estados Unidos é o melhor país do mundo?” Diversidade é a resposta da democrata, o republicano apela para a liberdade. Will, mantendo a posição neutra, a princípio concorda com os dois até ter a visão de uma mulher com uma placa na qual se lia: “Não é, mas pode ser.”. Isso o instiga. Assim, ele sai de sua apatia, disparando dados, argumentando que a América não é o melhor país do mundo, mas que tem potencial. “O primeiro passo para resolver qualquer problema é reconhecer que há um.”, conclui o discurso (o primeiro do episódio), chocando a todos. Adeus, Jay Leno?
Não tão rápido. Como se postar em público depois desse “colapso” verbal? Daria para permanecer na posição de Jay Leno? Como se reinventar, se for o caso? Mas três semanas de férias depois, Will parece o mesmo e volta a sua redação para encontrá-la vazia. Sua equipe, liderada pelo produtor executivo Don, debandou. E, pior, seu chefe contrata sua ex para ser a nova produtora. Don alega que o temperamento difícil de Will foi o motivo de ele ter deixado o posto. Ninguém questiona mesmo a arrogância do protagonista. É talentoso, mas não uma pessoa agradável de conviver. E, pelo o que Charlie sugeriu, ele virou essa pessoa desagradável há 3 anos, exatamente o tempo que ele está distante de Mackenzie.
Mackenzie MacHale, a mulher da placa, filha de britânicos, mas mais patriota do que muito americano de mãe e pai. A natureza dos conflitos dela com Will ainda é incerta. Fato é que eles estão cheios de ressentimentos e assuntos mal resolvidos, e que ela o magoou de alguma forma. Por ainda estar ferido, ele fez questão de pagar a emissora para ter domínio sobre o contrato dela e poder despedi-la, mas não está ferido o suficiente para ignorá-la por completo. Tanto que o embate entre os dois permeia boa parte do piloto com direito a discursos calorosos sobre o jornalismo por parte de Mackenzie. Will se mantém aparentemente descrente diante da empreitada de Mackenzie em honrar a profissão. “Não há nada melhor para democracia do que um eleitorado bem informado”, ela bem exalta o quarto poder a cargo da mídia. E, pra ela, se pode ter qualidade e ser popular ao mesmo tempo, ela acredita na inteligência do povo americano e que os noticiários podem fazer melhor. No final, já vislumbramos uma certa mudança em Will, já mais empolgado com esse negócio de fazer notícia como uma missão. Agora também esperamos ver o que tanto Mackenzie vê nele como profissional e ser humano.
Se você leu isso tudo e começou a se perguntar se eu estou falando de The Newsroom mesmo, não se espante. O episódio piloto possui exatamente a mesma premissa do piloto de Studio 60 on the Sunset Strip. Está tudo ali, sem tirar nem por. A diferença é que não se trata de um programa de entretenimento, e sim de notícias. Aliás, a decisão de situar a série em 2010 e utilizar notícias já veiculadas não se mostrou problemática. Mas, se o intuito era mostrar uma sala de redação com todo aquele clima de incerteza sobre o que está para acontecer, essa decisão nega o espectador dessa experiência.
Com Mackenzie, vem para o time da News Night, Jim Harper, um jovem produtor e típico personagem sorkiano: neurótico, sagaz, de bom coração e viciado no trabalho. Que tem a “sorte” de sair como o herói do dia ao insistir na cobertura do derramamento de óleo no Golfo do México (em abril de 2010). Outros personagens que conhecemos no piloto foi a jovem Maggie, promovida logo de cara por Mackenzie por sua lealdade e que conseguiu mostrar que pode mesmo ser mais que uma assistente. Maggie namora Don (que parece um personagem raso e sem carisma a primeira vista), mas tudo indica que Jim vai transformar isso num triângulo amoroso; e, por fim, Neal, que toma conta do blog que Will nem sabia que tinha.
Aaron Sorkin, ao encher suas séries com personagens inteligentes e articulados, soltando o verbo e discutindo com propriedade sobre assuntos relevantes, parece acreditar no mesmo que Mackenzie a respeito de como os programas podem fazer melhor e, de certa forma, devem educar os “estúpidos”. Esse, entre outros elementos que o orientam criativamente e marcam Sorkin como roteirista, estão na sua nova série.
Começando pelo ambiente de trabalho, ainda está muito no início, mas tudo indica que deve ter um tom familiar como as de suas outras séries. Os personagens, além de inteligentes e articulados, são geralmente bem intencionados workholics, idealistas apaixonados pelo o que fazem. Sorkin não nega essa visão romântica de suas séries. Em entrevistas recentes, ele, inclusive, chegou a afirmar que, nesse sentido, The Newsroom era uma espécie de comédia romântica. E ele deixou claro que a série não é sobre um noticiário, mas sim sobre as pessoas que fazem o noticiário.
O problema disso surge no exagero. Tanta nobreza e sabedoria dos personagens podem soar como presunção ou ainda como personagens sem falhas. As lições de morais pregadas vão no mesmo caminho. Nada disso é necessariamente um problema, os personagens são cativantes e boa parte de nós tende a concordar com os discursos pregados por eles. No entanto, a política, por exemplo, cabe completamente em The West Wing (segunda e mais aclamada série de Sorkin) como destaque, mas em The Newsroom necessitaria de mais sutileza na sua presença, como vimos em Sports Night (primeira e mais desconhecida por aqui série de Sorkin). Aliás, se The Newsroom for a mistura equilibrada dessas duas séries será perfeita. Claro que nos bastidores de um noticiário, a política tem muito mais espaço do que nos bastidores de um programa de esportes, como era o caso de Sports Night, por isso falo num equilíbrio, não só com os temas políticos, mas com tudo. O mesmo vale pros personagens, a sutileza os tornariam mais delimitados e profundos, como costumam ser os personagens de dramas da TV a cabo. Só que correria o risco de não soar como autênticos personagens e tramas de Aaron Sorkin, que sempre tiveram leveza e otimismo, indo de encontro com o “padrão” HBO, com seus seriados mais pesados, nos quais predominam violência, sexo, palavrão e uma áurea pessimista. Enfim, Sorkin continua o mesmo, mesmo estando na HBO . Só torço para que o drama não seja coadjuvante das visões de mundo de seus personagens, mas sim o contrário. É importante não deixar The Newsroom se perder na síndrome de Clark Kent, a do jornalista Super-homem.
Fora essas ponderações, We Just Decided To é um episódio delicioso de se assistir, com toda aquela magia de um ambiente e dos rápidos diálogos sorkianos, que continuam nos encantando.
Mais alguns pontos:
● Will como republicano moderado me parece que será algo como o sensato Arnold Vinick, personagem de Alan Alda na sétima temporada de The West Wing (já sem Sorkin), o que seria muito bem-vindo.
● C.J Cregg (Allison Janney em The West Wing) e Dana Whitaker (Felicity Huffman em Sports Night) são personagens femininas fortes e marcantes. Espero que The Newsroom nos traga mais alguma pro time, não coloquei ainda muito fé em Maggie e Mackenzie que me parecem mais com Jordan McDeere (Amanda Peet em Studio 60).
● Senti falta de um bromance típico das séries de Sorkin, como Dan e Casey (Sports Night), Sam e Josh (The West Wing) e Danny e Matt (Studio 60). Será que Don e Jim podem surpreender e terem esse potencial?
● O ator John Gallagher, Jr. (Jim Harper) já trabalhou com Aaron Sorkin anos atrás, num episódio da quarta temporada de The West Wing, como um adolescente do interior, esperto e apaixonado, que ajuda a equipe do Presidente Bartlet quando esses se perdem da comissão durante um comício.
● O blog Vulture listou todos os personagens de Aaron Sorkin, desde Sports Night até Studio 60. Concordam com a ordem?