Gilmore Girls está de volta e junto com ela a pulsação das grandes mudanças em Winter.
Quando soube que Gilmore Girls ia retornar resolvi rever todas as temporadas para estar com tudo fresquinho na memória e assim poder desfrutar do revival com toda propriedade de detalhes. Também foi a chance que dei ao show de me convencer que sua sétima temporada era boa e que eu só estava implicando com a ausência de Amy Sherman-Palladino a frente da produção. Quando negociaram a renovação da sexta para a sétima temporada, os executivos da CW queriam apenas mais um ano e Amy Sherman queria dois. O impasse provocou o afastamento dela e seu pupilo David Rosenthal assumiu o controle.
Mesmo que tenha escrito algumas coisas durante a trajetória do show, David não segurou as pontas e Gilmore Girls se perdeu num emaranhado de plots amorosos que nunca foram a cara da série. A presença dos coadjuvantes diminuiu, a presença de Emily e Richard diminuiu, Stars Hollow perdeu parte de sua essência porque David não estava interessado em Michel, Paris, Hep Alien, Taylor… Ele só queria Rory as voltas com Logan e Lorelai num casamento esdrúxulo com Christopher. Ainda havia bons momentos, mas aquela não era a série que estávamos acostumados a amar e a mínima chance de uma renovação ficou para trás. Cancelaram sem aviso prévio e Lauren Graham reclamou anos depois numa entrevista que nunca teve a chance de dizer adeus.
O Netflix acendeu uma luz no fim do túnel e deu a Amy Sherman a chance de retomar sua criação e encerrá-la como sempre quis. A autora sempre declarou que sabia quais seriam as exatas últimas quatro palavras ditas no show e os fãs foram atormentados por isso desde então. A Year in the Life surgiu como um especial em quatro partes, com 90 minutos cada uma, representando as estações do ano. Veríamos como as vidas das garotas Gilmore se transformaram depois de quase dez anos e como questões importantes como o luto afetaram a vida delas desde que Carole King cantou Where You Lead pela última vez.
Last Time I Saw Richard
A primeira parte do especial se passa no inverno, uma estação nublada, fria e sombria, o que se correlaciona completamente com a primeira história que Amy precisa contar. A morte de Edward Hermann na vida real obrigou Richard a se despedir também da ficção. Assim que Rory retorna para Stars Hollow depois de alguns anos fora cuidando da carreira, o episódio logo se foca nos eventos que lidaram com a perda do patriarca Gilmore. Um funeral arruinado pelas estranhezas de Lorelai, uma Emily entregue a um desnorteio… O cenário está pronto para que Amy fale de como a vida pode acabar te obrigando a mudar ainda que você não queira. Cada uma a seu modo, elas estão prestes a serem forçadas a isso.

Winter é um episódio que começa devagar justamente porque temos muito tempo. A série não é conhecida por suas grandes reviravoltas e por isso tudo é uma questão de pulsações internas. Após a morte de Richard, Emily aparece ainda achando que pode levar a vida conforme suas antigas diretrizes. Quando volta para casa, Rory acha que ter escrito para a New Yorker lhe abrirá as portas definitivas. Enquanto isso, Lorelai segue na sua rotina de absoluto controle sobre o que lhe cerca. Ela não expande os negócios e nem as próprias relações. Até mesmo encontrar um chef para substituir Sookie se torna um problema que ela adia por meses.
Essa lentidão é necessária no começo, porque assim que o flashback do funeral de Richard começa, a série volta a promover suas mudanças sem que a gente nem perceba imediatamente. A briga entre Lorelai e Emily termina o trabalho de nos transmitir direto para o espírito do show. É sensacional. As mágoas, ressentimentos, pesares, tudo trazido à tona enquanto a matriarca Gilmore grita com os empregados. Nenhuma das duas sabe naquele momento o quanto o confronto vai transformá-las adiante, mas a cena é violenta sobretudo para Lorelai. Emily tem absoluta razão sobre como a filha é controladora e individualista, e sobre como ela coloca tudo que sente num pedestal usando a forma como escreveu seu passado como justificativa. Ela realmente nunca abriu espaços plenos em sua vida para os homens por quem se apaixonou e por mais duro que seja para ela admitir, sua relação com Luke ainda tem algumas sutis barreiras.
Então, para rebater o que a mãe lhe diz, resolve considerar ter um filho (ter um filho lhe soa mais viável que admitir um casamento). Se até aqui a essência de Gilmore Girls já estava quase toda de volta, a aparição de Paris como dona de uma clínica de fertilização que atende até mesmo Angelina e Brad (que consideraram fazer devoluções) deixa tudo ainda mais brilhante. Se já era inebriante ver como Lauren, Alexis, Kelly, retomaram suas personagens com total segurança, contemplar Liza Weil reviver Paris como se nenhum dia tivesse passado é maravilhoso. De fato, na visita que Rory faz a Lane, é que vemos como aqueles atores são bons. Zach, Brian, Gil, a própria Lane, todos absolutamente confortáveis em seus intérpretes.
Poor Paul
Ver Paris e Rory juntas é uma emoção sem tamanho… Rory cuida dos filhos de Paris, passa noites na casa dela, as duas se apoiam. Quando colocamos a história dessa amizade em panorama é simplesmente comovente. Por outro lado, um dos “esperados” retornos na vida de Miss Gilmore é um pouco indigesto para mim. Rory aparece namorando o “Esquecível Paul”, um rapaz gentil e atencioso que ela larga nos lugares como se fosse um guarda-chuva, enquanto tem um caso secreto com Logan, que está noivo, vai se casar e continua tratando-a como se ela fosse um bichinho de estimação que precisa de um afago para sossegar no tapete.
Vou pedir licença para avançar um pouco nos textos que virão e dizer que me incomoda a maneira como Amy absolve e enfeita a presença de Logan na série como se ele fosse especial, lúdico, com sua ridícula brigada e sua condescendência barata. Ele nunca me desceu e continua não descendo. É claro que nesses tempos de empoderamento feminino, Gilmore Girls só reafirma o que já vinha sendo dito lá atrás, veladamente, fazendo com que as trajetórias de suas protagonistas não fossem sobre suas relações com os homens, mas com o que a vida tem a lhes oferecer em todas as esferas. É muito confortável ver a maneira como Amy Sherman situa as três meninas Gilmore num ponto de convergência totalmente correlacionado: Emily viveu anos para uma outra pessoa, totalmente comprometida. Agora, ela precisa aprender como viver só. Lorelai passou anos cuidando de si mesma, agora precisa aprender a dividir, com tudo que isso representa. Já Rory está num processo de adequação profissional e tentando ser independente nas relações pessoais (não conseguindo tanto, contudo).

Quando, enfim, vemos Emily com seus jeans, expulsando coisas que não lhe trazem alegria… Quando vemos Lorelai investigando o que existe de conformista em sua vida e Rory ficando insegura do futuro, é que percebemos que Amy fez a mágica de novo e GG está no seu devido lugar. Estamos respirando de novo o ar de uma Stars Hollow dominada pelas loucuras de Taylor, pelas letras bizarras da Hep Alien, pelas excentricidades de Kirk e pela vida daquelas mulheres que exalam charme, força e inteligência de maneiras inesquecíveis. E o texto voltou… Aquele texto brilhante, esperto, cheio de cultura pop… Que prazer ter você de volta Gilmore Girls. Você está melhor do que nunca e tem muito mais a dizer do que todos nós podíamos esperar. Você está forte e relevante. E como você nos faz feliz.
> Entrevista com o elenco de 3%!
Kirk’s Rates: Lorelai tem um adesivo da Sadness no computador. Como não amar essa mulher?
Kirk’s Rates 2: Luke não ia querer wi-fi no seu restaurante e é claro que para não perder tempo explicando isso o tempo todo, inventa senhas novas para todo mundo que pergunta, hahhah. Muito sagaz também o momento em que Lorelai encontra dicionários no balcão e conclui que “chegou carta da April”.
Kirk’s Rates 3: Lindo ver as transformações em Emily acontecerem aos poucos. Em tempos antigos, ela jamais ficaria com uma empregada como aquela nem por um dia.
Kirk’s Rates 4: Participação especial de Jason Stiles (com quem o tempo não foi tão gentil).
Kirk’s Rates 5: Paris dizendo que Lorelai era como sua segunda mãe: <3.
Kirk’s Rates 6: Genial a cena com Emily vestindo jeans, mas com um colar caríssimo no pescoço. E ela com a Lorelai na terapia vai ser sensacional.
Kirk’s Rates 7: Meu carinho especial por Amy Sherman, que agora mostrou Michel falando abertamente sobre sua sexualidade e seu casamento. Ela deve ter querido muito fazer isso antes e não encontrou brechas.
É isso, galera. Vou dividir essa tarefa com a Camis Barbieri e ela estará com vocês para o episódio 2 e 4. Eu volto no terceiro. Até lá e vamos nos divertir.