Zé do Caixão: realidade tão interessante quanto a ficção

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Não há muitos nomes conhecidos na indústria do horror aqui no Brasil. Não há sequer muitos profissionais envolvidos na área se compararmos ao restante do mundo — algo que pode ser mudado de acordo com os projetos independentes de diversos diretores que se arriscaram no gênero nos últimos anos. Zé do Caixão, entretanto, é um nome que ultrapassa essas barreiras e ganhou notoriedade justamente por ser uma figura ligada ao sobrenatural. Seu intérprete, o cineasta José Mojica Marins, muitas vezes é confundido pela personagem, em um daqueles casos em que a separação não é uma tarefa fácil. Depois do grande sucesso de sua criação, ele mesmo decidiu dar-lhe vida fora da tela e se tornar alguém conhecido através dela, sendo mais conhecido pelo nome do coveiro do que pelo próprio.

Além de filmes, Zé do Caixão e a vida de seu criador já foram retratados em livros, documentários e programas de TV, que o ajudaram a se tornar parte da cultura popular brasileira. O cineasta, nem sempre a pessoa mais agradável na sala, teve uma vida de reviravoltas tão interessantes quanto a ficção que criou, indo de filmes de faroeste a filmes eróticos, sempre abusando dos extremos em qualquer categoria. Mesmo hoje, ele ainda é notícia, e muito se fala sobre o legado deixado por seus mais de trinta trabalhos.

“O rosto do ator é como uma página branca, dentro da qual o diretor, o roteirista escreve. É por isso que a neutralidade é necessária. A neutralidade é o trampolim da emoção verdadeira e genuínica (sic) do ator.”

José Mojica em Zé do Caixão, a série.

Utilizando desse vasto material disponível, a Space Brasil desenvolveu uma série que foi ao ar no final do ano passado e contou a história do agente funerário e como ele ganhou vida por seu autor. Mais do que isso, na verdade, a série investiga as desventuras de Mojica e se divide em seis episódios para apresentar seu auge e principais dificuldades. Diferente do que poderíamos imaginar, a série não abusa de um clima sobrenatural para nos apresentar , contentando-se com os erros e lutas de quem lhe inventou. Sendo assim, a produção pode não ter foco no horror, como as séries citadas por aqui durante outubro, mas fala sobre uma pessoa que dedicou boa parte de sua vida ao gênero no país quando ele ainda nem existia por aqui.

Comparação entre Zé do Caixão / José Mojica, à esquerda, e Matheus Nachtergaele, à direita, caracterizado
Comparação entre Zé do Caixão / José Mojica, à esquerda, e Matheus Nachtergaele, à direita, caracterizado

Cada episódio foca-se em um filme produzido pelo diretor, pulando anos no processo e indo de 1958 a 1980. Além do diretor, acompanhamos sua equipe, suas motivações, como ele resolvia diversos problemas relacionados a orçamento, como dirigia os atores, como produzia os efeitos especiais de seus filmes e como se relacionava com os pais. Outro ponto interessante na trama é o quanto a censura atrapalhou sua obra e restringiu sua personagem.

A série foi dirigida por Vitor Mafra e tem, entre seus roteiristas, André Barcinski, que é biógrafo de Mojica. Ela foi estrelada por Matheus Nachtergaele, que mostra todo o seu talento na hora de modelar a voz, assimilar o sotaque e os trejeitos do diretor. Sua mudança conforme os episódios também é muito perceptível, principalmente quando começa a se perder entre a vida real e a ficção, já que as aparições públicas de Zé do Caixão lhe obrigaram a trajar e se perder dentro dele.

Zé do Caixão parece uma série de comédia bem escrita, e não a retratação da vida de alguém. São tantos momentos cômicos e bizarros, que o impulso é sempre fazer pesquisas após o episódio para saber se aquilo aconteceu de fato. Mesmo que alguns fatos tomem liberdade, a realidade não está muito distante daquilo. A série também sabe brincar com o caráter de seu protagonista, mostrando um lado condenável dele, por mais que Matheus sempre o faça parecer carismático.

Em cena: O ator Matheus Nachtergaele interpreta Zé do Caixão.
Em cena: O ator Matheus Nachtergaele interpreta Zé do Caixão.

No primeiro episódio, assistimos ao desenvolvimento de um filme de faroeste que não termina muito bem quando um acidente fatal ocorre durante as filmagens. A partir do segundo, vemos Mojica entusiasmado com um novo roteiro, inspirado em um pesadelo que teve. Na ausência de um ator que soubesse interpretar o papel da forma como ele imaginava, decidiu por tomar a responsabilidade para si. A interpretação lhe coube bem e logo o diretor se achou confortável o bastante no papel para dormir em caixões durante os intervalos das gravações. Mesmo o primeiro filme do Zé do Caixão, À Meia-Noite Levarei Sua Alma (1968), sendo um sucesso, foi preciso que José vendesse o filme muito barato a um produtor por conta dos custos de produções, não conseguindo a rentabilidade merecida.

No começo do terceiro episódio, assistimos aos preparos para uma sequência do filme anterior, mesmo que a personagem tenha morrido em seu final. Mojica passa a torturar atores e atrizes durante os ensaios, além de utilizar animais de verdade, como cobras e aranhas, nas gravações. Quanto ao quarto, o foco é um filme que é, aparentemente, a resposta de Mojica a ditadura e repressões da época, O Despertar da Besta (ou O Ritual dos Sádicos), que misturava horror às drogas e, graças a isso, foi censurado e teve seu lançamento somente dez anos depois.

Os dois últimos episódios começam a mostrar a fase de decadência na vida do autor, quando ele recorre à produção de conteúdo adulto para ganhar dinheiro. Para resumir o absurdo das películas, digamos que há um cachorro em cena.

Atriz em cena de Esta Noite Encarnarei no Teu Cadáver (1967). O diretor utilizou de cobras e aranhas de verdade durante as filmagens.
Atriz em cena de Esta Noite Encarnarei no Teu Cadáver (1967). O diretor utilizou de cobras e aranhas de verdade durante as filmagens.

A série conquista em sua primeira cena. Além de falar de temas importantes, como a censura, a série mostra a relação entre diretores e produtores, diretores e atores e zomba diversas vezes da arrogância do diretor. Com um elenco secundário dedicado, diálogos interessantes, ótimo ritmo e boa adaptação, a recomendação não é só para quem já conhece a figura, mas para o público em geral, principalmente aqueles que gostam de cinema e pensam em produzir conteúdo independente de alguma forma — pode inspirar, nesse caso.

(A série pode ser conferida no site da Space. A biografia do diretor foi relançada pela DarkSide Books e está disponível no catálogo deles.)

ps: Acho quase um descaso a forma como a Space trata a série. Não há muitas informações no site oficial deles, diferente das séries internacionais, que ganham sites, conteúdos exclusivos… A maior parte das informações do texto vieram de outros sites, não da própria emissora. Uma pena.

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#MêsDoHorror

Esse post faz parte do projeto #MêsDoHorror que tem como objetivo falar, durante outubro, de séries de horror/mistério/fantasia que não tiveram textos aqui no SM no período de 01/10/2015 a 30/10/2016.