Wolf Creek, completando o que não precisa de complemento

4
715

Algumas obras não deveriam deixar seus formatos, transgredir suas mídias. É aquele livro que não deveria virar filme, por exemplo. Algumas obras não deveriam se complementar, dar continuidade às suas histórias. Falo de sequências e derivações. (Justificar, nenhuma precisa. Quando o artista/autor precisa se justificar muito, algo está errado.) No caso das séries, algumas fizeram um bom caminho na adaptação de suas tramas do cinema para a televisão. Como exemplo, dentro da temática horror, temos Ash vs Evil Dead, que complementa de forma interessante todo o conteúdo mostrado nos três filmes, adaptando seu herói para nossa realidade e passeando pela mitologia tão bem construída por Sam Raimi. O mesmo ocorre com Bates Motel que, mesmo desajeitada, ainda oferece novas perspectivas sobre os filmes. Infelizmente, não ocorre o mesmo com Wolf Creek.

Wolf Creek: Viagem ao Inferno (!) é um filme de 2005, dirigido e escrito por Greg McLean, supostamente baseado em fatos reais e vendido dessa forma ao público. O filme sempre figurou na minha lista de favoritos do gênero, ainda da época em que eu tinha mais estômago e perdoava muito dentro dos filmes. Para quem não conhece, a história segue um trio (Liz, Kristy e Ben), mochileiros, que estão viajando pela Austrália. Quando chegam ao Wolf Creek National Park, uma das paradas turísticas que queriam visitar, um incidente com o carro os impede de prosseguir. É quando aparece Mick Taylor, e oferece ajuda ao grupo. O homem, aparentemente um caipira qualquer, é prestativo e os leva para sua casa. Quando Liz acorda, na manhã seguinte, após ter sido drogada, e ouve sua amiga a ser torturada, percebe que o homem é tão cruel quanto temia.

Cena do filme Wolf Creek de 2005, escrito e dirigido por Greg McLean, no qual a série é baseada.
Cena do filme Wolf Creek de 2005, escrito e dirigido por Greg McLean, no qual a série é baseada.

Violento e com um roteiro de gosto duvidoso, o filme teve uma continuação que estreou em 2013 — e mesmo ela já foi desnecessária à história original, oferecendo formas de complementar aquilo que funcionava sozinho, mesmo que talvez só funcionasse aos fãs do gênero, afinal, o filme de 2005 oferece muito do que seu público espera. A continuação focou no jogo de gato e rato entre Mick (aqui reprisado pelo ator John Jarratt) e Paul, jovem inglês.  Diferente do primeiro, não gostei da sequência e é daqueles filmes que sabemos não gostar antes mesmo de assistir. Ryan Corr é o protagonista, mas recomendo assistir Holding the Man e deixar esse passar. O ator, aliás, também está em Cleverman, que conversamos por aqui, o que mostra que no #MêsDoHorror está tudo conectado.

Depois do sucesso considerável dos filmes e da popularidade do antagonista de ambos, Greg McLean resolveu desenvolver um projeto para a televisão, mesmo que não tenha se envolvido no roteiro ou na direção, como nos filmes — ele assume a direção apenas do último episódio. Nesse caso, fica evidente que a personagem, Mick, por mais que siga os mesmos passos, comete alguns erros e toma decisões estranhas em comparação ao que fez nos filmes. A inconsistência começa a partir disso e o que vemos é uma paródia do vilão.

A fotografia de Wolf Creek abusa da beleza da Austrália e é uma de suas qualidades.
A fotografia de Wolf Creek abusa da beleza da Austrália e é uma de suas qualidades.

A série foi transmitida pelo Stan, serviço de streaming, e se há algo a ser celebrado é o conteúdo original sendo produzido pelos serviços. Em maio desse ano, todos os seis episódios foram disponibilizados juntos. Quem assina os roteiros, dessa vez, é a dupla Peter Gawler e Felicity Packard, ambos experientes com séries de televisão. A direção dos cinco primeiros fica por Tony Tilse, que já trabalhou com a citada Ash Vs.

Dessa vez, a história que acompanhamos é a de Eve (Lucy Fry de 11.22.63), atleta norte-americana que está viajando com os pais e o irmão caçula. Este é salvo do ataque de um crocodilo por um estranho: ninguém menos que Mick. Mesmo contando com quase cinquenta minutos, o episódio não se alonga muito para estabelecer sua história e nos dez primeiros já temos uma chacina envolvendo a família de Eve. Ela sobrevive e descreve a polícia o que aconteceu. Os policiais não acreditam no começo, mas a liberam e lhe oferecem ajuda para voltar a seu país. Não tendo nada para o que voltar, entretanto, ela decide ficar por lá, roubar a ficha com todas as informações de casos que podem estar ligados ao assassino e persegui-lo pelos arredores.

Eve e sua família encontram Mick Taylor, um estranho que conhecem na Austrália. Wolf Creek.
Eve e sua família encontram Mick Taylor, um estranho que conhecem na Austrália. Wolf Creek.

A história de vingança se desenvolve no conhecido jogo estabelecido pelos filmes. Enquanto dirige pela Austrália, Eve vai conhecendo as terras, as pessoas — e nós vamos conhecendo também. Esse é um bom aspecto do seriado e a fotografia ganha muito em saber explorar a beleza e vazio do lugar. Além disso, mesmo que ela, Eve, cometa erros estúpidos, consegue ser inteligente a maior parte do tempo, e amamos personagens inteligentes. A atriz é boa, está bem no papel e compramos sua missão sem muito esforço. A empatia entre herói e público acontece muito rápido, e isso favorece a série.

Mick, por outro lado, é um bom vilão, mas acho que o ator perdeu o tom da personagem e se havia alguma sutilidade, aqui não há nenhuma. O que lhe beneficia, também, é ser tão inteligente quanto mau. Ele sabe cobrir seus rastros e percebe rápido em quais situações está metido. Para fechar o trio de protagonistas, temos Dustin Clare (Spartacus) como Sullivan Hill, o policial da história. Este é uma boa contribuição ao elenco, mostra simpatia e calma, por mais que tenha seu lado justiceiro. Nos importamos com ele também, e é visível a química construída com a protagonista, de quem assume um lado quase paternal.

Em cena: Mick Taylor, interpretado pelo ator John Jarratt. Wolf Creek.
Em cena: Mick Taylor, interpretado pelo ator John Jarratt. Wolf Creek.

Com essas qualidades, o que desfavorece Wolf Creek é o desenvolvimento de seu roteiro. Enquanto se mantém na ideia de que é uma garota de dezenove anos tentando ser mais inteligente que um assassino em série, por mais improvável que isso seja, até aceitamos, mas quando ela decide enfrentá-lo em uma luta corpo a corpo, o texto soa estúpido demais. Há a inclusão de algumas participações que não contribuem em nada, mas alongam uma história que poderia ser contada em três episódios. O encontro dos protagonistas, quando acontece, não tem a tensão que esperávamos, principalmente por parte do desejo dela de como abordar esse conflito.

Há muito sangue e cenas gráficas, então fãs desses recursos se sentirão satisfeitos com isso. O último episódio decide contar a história de Mick e dar explicações a seu comportamento, mas é um desastre nesse sentido. Não precisamos desse tipo de complemento, assim como a série não precisava existir para completar os filmes. Há momentos divertidos que justificam uma maratona bem descompromissada. É uma série que tem uma proposta simples e que entrega os defeitos já esperados. Dá para reclamar deles, mas não dá para reclamar de sua falta de honestidade.

—-

#MêsDoHorror

Esse post faz parte do projeto #MêsDoHorror que tem como objetivo falar, durante outubro, de séries de horror/mistério/fantasia que não tiveram textos aqui no SM no período de 01/10/2015 a 30/10/2016.

  • vinland

    O seriado mais bosta que ja vi. Assisti ate o 4 episodio e desisti. Tudo muito de mal gosto essa serie.

  • Marco A

    Nem sabia que existia uma série. O filme de 2005 é ótimo, um dos meus prediletos.

  • Clébio Cabral

    É engraçado que o autor fale mais das qualidades do que dos defeitos, que são muitos!
    Não aguentei mais que dois episódios dessa série e nem sei pq ainda insisti depois do assassinato da família ter sido tão pessimamente executado. Não recomendo nem para quem gosta de gore.

  • João Vitor Maia

    Bem fraco, mas pra quem é fã dos filmes recomendo, eu no caso kkk