Um Olhar Maníaco Sobre Haja Coração

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Romance, humor e mistério marcaram a composição da trama Haja Coração, novela que contou com um elenco excelente, algo que não via desde Sangue Bom (2013). Daniel Ortiz soube se apropriar da obra Sassaricando (1987), de Silvio de Abreu, escrevendo uma nova história com uma roupagem atual, sem fazer com que o telespectador busque, incessantemente, comparações entre as duas novelas. Bem, não assisti a primeira versão. Minha opinião em relação ao texto original se baseia nos comentários das pessoas mais velhas que a viram. Logo, eu posso estar errado. Uma das principais dúvidas em relação ao sucesso da novela seria a dificuldade em construir uma nova Tancinha, imortalizada pelos bordões e o jeito atrapalhado de Claudia Raia. Quando soube que Mariana Ximenes “ocuparia” esse lugar, fiquei com receio, pois, apesar de gostar de seus trabalhos, não sabia como ela iria se transpor para uma personagem tão forte como esta. E foi aí que me surpreendi. Mariana Ximenes não ocupou o lugar de Claudia Raia e sim criou uma nova personagem: uma Tancinha mais doce, menos exagerada e que me convenceu como uma criação baseada em uma releitura.

Infelizmente, a Tancinha de Mariana Ximenes, em alguns momentos, foi apagada por dividir o protagonismo da novela com Malvino Salvador, que aparenta interpretar a mesma personagem desde Cabocla (2004). O encontro de João Baldasserini me empolgou muito mais do que esse amor de infância entre Apolo e Tancinha. A passagem do triângulo amoroso para quarteto, com a inserção de Tamara (Cléo Pires), demorou bastante e pouco empolgou. Enquanto estávamos com Beto e Tancinha: química, boas atuações e uma história fofa. Já quando assistíamos a Apolo e Tamara: boring, boring, boring.

As referências intertextuais da novela foram muito boas. A hilária Grace Gianoukas fez uma Teodora com o visual e alguns gestos da temida Úrsula, vilã do filme A pequena sereia (1989). O seu enterro, quando todos pensávamos que ela estava morta, fez referências a dois filmes ingleses: Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban (2004), ao lembrarmos que Pedro Pettigrew, de maneira suspeita, morreu e somente deixou um dedo para trás e ao filme Morte no funeral (2007), quando algumas pessoas caem em cima do caixão do morto e armam a maior confusão. Ri demais com essa cena. Além disso, tivemos a história de Shirlei (Sabrina Petraglia) e Felipe (Marcos Pitombo) que foi desenvolvida nos moldes do conto de fadas Cinderela. Aqui, a mocinha perdeu a sua bota e o seu príncipe a encontrou. O trio Penélope (Carolina Ferraz), Rebeca (Malu Mader) e Leonora (Ellen Roche) pareciam As panteras nas cenas em que elas estavam tentando desvendar quem era o homem que estava perseguindo a ex-BBB. Voltando a trama de Teodora, não teve como não lembrar, com saudosismo, a tão icônica Uga-Uga, nos anos 2000, com a chegada do Tarzan perambulando de tanga em plena cidade.

Outro ponto forte da novela foi a direção de núcleo de Teresa Lampreia e Fred Mayrink. É raro ver uma trama que consegue dar espaço e relevância para todos os núcleos. Haja Coração fez isso com maestria. A história dos três irmãos, por exemplo, emocionou, fez com que torcêssemos por eles, mesmo sendo, no início da novela, parte de um galho coadjuvante da história. Foi um grande acerto colocar a subtrama da adoção dentro da história principal, integrando-a ao casamento de Tancinha e Beto. A história de Carol (Bruna Griphao) e seus irmãos foi tocante e verossímil: quantas famílias são separadas por conta da ausência repentina do pai e/ou da mãe? A predileção por crianças mais novas, algo cruel e que separa irmãos e irmãs, também foi bem abordada nesse núcleo.

Vários casais deram certo na novela. Giovanni (Jayme Matarazzo) e Camila (Agatha Moreira) não me empolgaram no começo, até porque a paixão do rapaz teve um início, no mínimo, esquisito e mal elaborado. Depois, com a bondade de Camila e maldade de Bruna (Fernanda Vasconcellos), o casal foi me conquistando aos poucos. Certos maniqueísmos, como este, não favoreceram a criação de um bom roteiro. Aparício e Rebeca (Malu Mader) fizeram um ótimo par, porém, achei essa invenção de ser faxineiro e tentativa de reconquista da amada inverossímil e muito cansativa. O raposão, Leozinho, e a Fefê (Tatá Werneck) protagonizaram os momentos mais engraçados da novela. Foi um casal que cresceu e não teve uma trama repetitiva.

Haja Coração teve um fundo feminista que me agradou. Na mansão dos Abdalla, Teodora era quem mandava em Aparício, sempre deixando claro, de forma agressiva, que a última palavra era sempre a dela. Na casa de Fracesca, as mulheres sustentavam a casa enquanto o irmão estava na cadeia e o pai desaparecido. Ao que me consta, no texto de Silvio de Abreu, essaa personagem, que hoje foi de Marisa Orth, passava a novela inteira sozinha. Na releitura, ela não só encontrou um novo amor, como também se recusou a reatar com Guido (Werner Schünemann), o esposo desaparecido. Penélope também entra nesse circuito ao enfrentar todos os preconceitos de uma mulher mais velha ao namorar um “baby bophe”.

Haja Coração
Haja Coração

Por esse viés em que coloca as mulheres no centro da trama, ressaltando a sua fibra e independência, não gostei do final de Tancinha. Preferia o final em que a personagem terminava sozinha (que, inclusive, foi gravado), pois seria mais coerente com a atmosfera da novela. Haja Coração soube combinar, dentro de um molde já um tanto batido, pitadas de romance, humor e mistério, fazendo jus ao horário das sete. O grande trunfo da novela não foi o texto, que ora agradou (pelos momentos de drama) ora desagradou (pelas soluções fáceis), e sim a direção e o excelente elenco (que possuiu alguns atores canastrões ofuscados pelo talento da maioria) A novela cumpriu bem a sua proposta e nos proporcionou muitas risadas e bonitas histórias de amor, ainda que algumas bem clichês, durante esses últimos cinco meses.

E vocês, curtiram a trama e as personagens de Haja Coração?

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Take 1: A cena de Tancinha encontrando Claudia Raia numa apresentação de dança no teatro foi maravilhosa. Foi inevitável não lembrar de A favorita (2008), quando ambas interpretaram, respectivamente, Lara e Donatella, filha e mãe.

Take 2: As vilãs tiveram um final previsível e bem “mexicano”: Jéssica (Karen Junqueira), que prezava tanto por sua beleza, terminou desfigurada. Já Bruna (Fernanda Vasconcellos) teve a sua morte já esperada. A psicopatia da personagem, desde a revelação do motivo da explosão do Grand Bazzar até o sequestro de Giovanni, foi bem desenvolvida e interpretada por Fernanda, que finalmente ganhou um papel de vilã, depois de tantas mocinhas.

Take 3: O pedido de desculpas de Tancinha para Fedora levou o telespectador para o primeiro episódio, onde tudo começou. A confusão na festa de aniversário entre as duas redirecionou os caminhos de ambas, pois Beto e Leozinho entraram em cena a partir daí.

Take 4: Ouvi muitos comentários criticando Tatá Werneck, afirmando que ela estava ainda na pele de suas duas personagens anteriores. Discordo. Fedora teve tiques e trejeitos bem particulares e, nas suas poucas cenas de drama, como o término com Leozinho e o reencontro com Teodora, Tatá se saiu bem.

Take 5: Como eu ri com Paulo Tiefenthaler e as manias do Rodrigo. Outra personagem pequena, que somou a história, foi a prima Safira de Cristina Pereira (sempre engraçada!).

Take 6: Como é de costume na Globo, uma novela extremamente branca, não é? Ana Carbatti foi a única negra da novela.

Take 7: Gabriel Godoy, o raposão, João Baldasserini, o Beto, Mariana Ximenes, a Tancinha e, por fim, Marisa Orth (provando que é boa no drama também) foram os grandes destaques da novela.

Take 8: De mulher mangaba (Sangue Bom) a mulher toupeira, Ellen Roche era a personagem com a história mais int

  • Caio Vinicius Viana Lima

    Haja coração está badaladíssima ein kkkkkkkk

  • Walber Lima

    Pessoal daqui já gosta dessa novela. Novela das 7 há anos não acompanho e geralmente é a que mais vejo flashes ou cenas da novela, e essa parecia bem simpática. Queria tecer só alguns comentários :

    1 – Malvino Salvador é ruim demais, mesmo personagem desde sempre que ele interpreta, que é ele mesmo. Mariana Ximenes que eu adoro, achei chata nessa personagem, e para mim ainda não ficou tão bom.

    2 – Pessoal anda tendo mt birra da Tatá ultimamente, acho que ela foi bem e lembrou as outras personagens só pq era de comédia como as outras…

    3 – Gostei de ver Ellen Roche mostrando seu talento, desde Casa Dos Artistas que torço por ela, e ela é uma graça de pessoa.

    4 – Fernanda Vasconcelos como vilã é muito estranha, ela só fazia mocinha demais rsrs, mas todo mundo elogiou o seu trabalho

    5 – Quem dominou mesmo a novela foi esse casal Shilipe, tiraram o protagonismo dos principais, tiveram fãs shipando e etc. E adorei ver a Karen Junqueira tendo tão destaque, aliás essa novela, mts atores de Malhação da epoca que acompanhava tiveram destaque massa.

  • Maria do bairro

    Fizeram review de Haja Coração e não fizeram do final de Velho Chico! Uma trama tão boa, profunda, bem dirigida, onde todo o elenco brilhou. Não entendi todo esse “amor” de vcs por Haja. Obs. Velho Chico tinha vários atores negros em papéis de destaque. Estilista, dona de casa, fazendeira, empregada, dono de bar e etc.. todos os núcleos tinham atores negros e ninguém falou nada sobre a novela. Uma pena!

  • Ronaldo

    Malvino Salvador e Heriberto Leão só tem um personagem, a cada novela é sempre a mesma coisa.

  • Danny

    um novelão desses, já estou com saudades