Trapped, uma série que não se enfeita

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Hjörtur e sua namorada Dagný têm seu esconderijo particular em uma fábrica abandonada. No que parecia um entardecer romântico e comum, ambos se encontram vítimas de um incêndio que destruiu o lugar e lhes deu um destino diferente para cada um. Enquanto a moça sucumbiu em meio às chamas, porque não pôde ser resgatada pelo namorado, este, por sua vez, com o rosto deformado por queimaduras, vira o mártir da cidade. Todos acreditam que ele foi o responsável pelo incêndio, mesmo que as investigações não tenham provado isso. Sete anos dolorosos se passam, e ele decide voltar à cidade durante o inverno. No momento em que a balsa em que ele se encontra chega ao local e fica presa por conta de uma nevasca, entretanto, um torso mutilado é encontrado no mar. Como ele pode ter sido descartado por um dos passageiros, a polícia local decide impedir que a embarcação parta, afinal, todas as centenas de pessoas ali são suspeitas.

“O silêncio é tranquilizante, melancólico e suave.”

verso traduzido de “Vor í Vaglaskógi”, canção que embala as primeiras cenas da série, da banda islandesa Kaleo.

A Série:

Trapped (ou no original Ófærð, que seria algo como Não Reconhecido) é uma série de mistério islandesa, que mistura elementos de séries noir (o conhecido nordic noir) e cujo cenário é o próprio território do país, mais precisamente Seyðisfjörður, uma vila remota na ilha. A história é contada em dez episódios, cada um com pouco mais de cinquenta minutos, e do jeito que a gente gosta: com começo, meio e fim. Criada e desenvolvida pelo ator e diretor de cinema e teatro islandês Baltasar Kormákur, que também dirige alguns episódios, o roteiro fica por conta do britânico Clive Bradley, veterano no mundo das séries, e pelo escritor e produtor islandês Sigurjón Kjartansson. Foi ao ar pelo canal RÚV, rede de televisão da região, a partir do dia 27 de dezembro de 2015 e teve sua transmissão encerrada no final de fevereiro. Depois da boa recepção, a série teve sua transmissão estendida para o Reino Unido, a Alemanha, a Austrália, Suécia, entre outros países.

Além de todas as qualidades da série, sobre as quais falarei a seguir, ela já se torna interessante pelo local onde se passa e por se afastar da produção norte-americana/inglesa com a qual estamos tão acostumados. Através dos episódios, por mais que brevemente, afinal, o gênero não permite que se saia muito da proposta, visualizamos o comportamento, a cultura e diversas diferenças ou mesmo semelhanças entre nós e o pessoal da vila onde a história acontece. Clive Bradley, britânico já citado, exaltou essas diferenças em entrevistas, dando exemplos básicos de coisas que tiveram que ser alteradas porque faziam mais sentido para um inglês do que para um islandês, como trocar um copo de uísque por um copo de leite na mão das personagens entre as cenas.

A história de Trapped / Ófærð acontece no inverno islandês, na vila de Seyðisfjörður.
A história de Trapped / Ófærð acontece no inverno islandês, na vila de Seyðisfjörður.

A nevasca que deixa a balsa presa na vila também é responsável por impedir que um time de investigadores especialistas chegue por lá para assumir o caso. Como a nevasca se prolonga por dias, os três policiais do local são responsáveis por ficar com o corpo e esperar novas ordens. Andri (talvez o único nome de personagem que eu saberia falar) é o chefe de polícia e conta com a ajuda de Hinrika, uma policial inteligente e leal, e Ásgeir, policial experiente, que possui diversas habilidades que ajudam na resolução do caso.

Andri (interpretado pelo ator islando-americano Ólafur Darri Ólafsson, talvez reconhecido por nós por pequenas participações em séries como Banshee e True Detective) mora com os pais da ex-esposa, com quem tem uma boa relação, estabelecida através do convívio que seus filhos têm com os avós. Além disso, ele é muito dedicado, passa pouco tempo realmente em casa. Aos poucos, descobrimos que o policial é atormentado por um caso do passado, que pode ou não ter sido a causa principal para a ruína de seu casamento com Agnes. Esta, por sua vez, mesmo com esse clima terrível para viajar, resolve vir visitar os filhos. Dagný, a jovem que morreu no incêndio e foi citada no começo, era irmã de Agnes, e sua morte trágica ainda fragiliza a família, mesmo tendo se passado sete anos.

Como Andri é muito talentoso com investigações, mas pouco hábil para seguir ordens, decide fazer pequenas investigações, primeiramente nos passageiros da balsa, depois nos moradores da cidade. O que parece uma tarefa difícil, afinal, sem cabeça e membros é impossível reconhecer a pessoa, vai aos poucos se tornando menos nebuloso. Ele conta com a ajuda de seus dois subalternos, os quais, cada um com suas habilidades, contribuem significantemente no desenrolar do mistério.

Em cena: Os atores Ólafur Darri Ólafsson (Andri), Ilmur Kristjánsdóttir (Hinrika) e Ingvar Eggert Sigurðsson (Ásgeir), protagonistas da série.
Em cena: Os atores Ólafur Darri Ólafsson (Andri), Ilmur Kristjánsdóttir (Hinrika) e Ingvar Eggert Sigurðsson (Ásgeir), protagonistas da série.

Trapped é uma série que não se enfeita, o que só contribui positivamente. Isto é, além de não abusar de momentos dramáticos (eles acontecem, mas não são explorados com frequência, mesmo tendo uma história que providenciasse isso), a série tem diálogos duros, diretos, sem poesia, sem lirismo. As personagens são convincentes e comuns. O roteiro explora problemas comuns, que podem ser associados a diversas cidades, talvez às nossas. O crime, a motivação do crime e a forma como tudo ocorre também não é fabuloso demais, o que é  facilmente um dos maiores motivos para que histórias de mistério percam seu público na reta final. Para que isso ocorra, a história se desenvolve em um ritmo lento, mas que jamais se arrasta e que consegue gerar aquela vontade de não parar de assistir enquanto não descobrimos o que aconteceu.

Uma coisa que pode incomodar alguns, como me incomodou nos primeiros episódios, é como a série abre espaço para cenas desnecessárias e que não contribuem em nada com o enredo principal, com crianças brigando e se perdendo em meio a nevoeiros. Só que, conforme avançamos na trama, percebemos que sim, aquelas cenas aparentemente avulsas tem relação direta com tudo! Além de ser pego de surpresa com isso, fiquei maravilhado. Creio que as séries, filmes e livros precisam sim fazer certo esforço para que absolutamente nada possa ser descartado de suas obras sem que isso prejudique alguma coisa. É então que percebemos se uma história foi realmente bem pensada. Trapped faz um esforço elogiável em só contar o necessário, algo que nos damos conta próximo ao final e que faz a experiência toda ter valido a pena.

Os atores desempenham bem o difícil papel de parecerem pessoas comuns. Alguns passam tão bem a impressão de serem pacatos que nem nos atrevemos a suspeitar deles — fato que a direção utiliza muito a seu favor. Gosto muito de Hinrika, tanto da atriz quanto da personagem. Ela é muitas vezes o lado forte e pacífico da investigação, servindo perfeitamente de base para Andri, além de não se deixar abalar com críticas e com surpresas no caso, como o sumiço do corpo. Ela tem bons momentos divididos com Rögnvaldur, homem misterioso e solitário em cadeira de rodas que passa seus dias observando os moradores da cidade com seu telescópio.

Em cena: a atriz Ilmur Kristjánsdóttir, que interpreta a policial Hinrika, uma das melhores coisas sobre a série.
Em cena: a atriz Ilmur Kristjánsdóttir, que interpreta a policial Hinrika, uma das melhores coisas sobre a série.

Além de um bom desenvolvimento, a produção tem uma boa conclusão. O desfecho parece levar a história a uma versão contemporânea de algum romance policial de Agatha Christie, o que é obviamente um elogio. Descobrimos alguns segredos obscuros da cidade, participamos de intrigas e temos uma revelação agridoce, que abre debate diante do certo e errado. A forma como a trama se complica ainda mais é cativante. Se não bastasse o enigma em torno do torso, há outros incêndios e outras mortes que podem ou não ter relação com ele. Há também momentos poderosos e bem dirigidos, como o encontro do pai de Dagný e Hjörtur, o sobrevivente do incêndio que vive em tormento.

Novo incêndio ajuda a complicar a trama conforme os episódios.
Novo incêndio ajuda a complicar a trama conforme os episódios.

Há algumas cenas de nudez que não condizem muito com o restante da série, mas que não incomodam. A ambientação é idealmente sufocante, o que se espalha pela fotografia. A natureza também protagoniza a série, sendo às vezes a antagonista. Os planos pela cidade deixam o telespectador tão dentro da série, que é capaz que ele sinta falta quando acabar, como eu senti. Ideal para maratonar em dias de frio, Trapped está confirmada para uma nova temporada, que infelizmente só sairá em 2018. Ainda se tem muito tempo para ficar em dia, eu sei, mas já recomendo a partir de agora. Até porque eu preciso encontrar pessoas que tenham assistido para poder comentar.

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#MêsDoHorror

Esse post faz parte do projeto #MêsDoHorror que tem como objetivo falar, durante outubro, de séries de horror/mistério/fantasia que não tiveram textos aqui no SM no período de 01/10/2015 a 30/10/2016.

  • Alan

    Pensei que ninguém fosse falar da série 🙂

  • Mro Ldsma

    To adorando esse mes do horror!! Com certeza vou baixar todas essas series e volto aqui pra comentar o q achei

  • intell

    A palavra “mártir” foi usada errada, tem sentido oposto ao que o reviewer quis dizer. Pela descrição ele é um “pária”, que está à margem da sociedade, excluído do convívio social.

    • bom dia, intell, tudo bem? durante o processo de revisão do texto, eu parei para refletir sobre o uso dessa palavra dentro do contexto e tudo mais. na verdade, ele é uma pessoa convicta das próprias verdades e princípios, e que sofre justamente por conta disso, já que toda a cidade pensa diferente — e a palavra se refere aos tormentos de sua convicção diante da própria inocência.

      uma das definições de mártir (amo essa palavra) é:

      pessoa submetida a suplícios, ou mesmo à morte, pela recusa de renunciar à fé cristã ou a qualquer de seus princípios.

      ou

      vítima da tirania de certas convenções.

      claro que também dá para ser usada como hipérbole, né? um dos meus usos favoritos, afinal, assim como eu, meus textos são bem dramáticos. enfim, legal saber que alguém lê e questiona o uso das palavras assim como eu, obrigado pelo comentário. 😉

      • intell

        Por definição de dicionário pode até estar correto, mas repito, lendo o texto o sentido que passou é o contrário do que você quis dizer. Seria como usar a palavra “formidável” (que sempre usamos num contexto favorável, de algo bom), no sentido de medonho ou assustador, que tecnicamente está certo, mas em desuso, e levaria a interpretação no caminho contrário ao que se espera. Mas enfim, belo review, fiquei curioso com Trapped.

        • então, intell, entendi que assim que leu você interpretou de uma forma diferente da que eu propus, e realmente consigo ver a frase sendo interpretada de outra forma. por isso temos que estar atentos a todos os significados possíveis para uma palavra — a gente faz muito isso em outros idiomas, mas acaba não fazendo em português.

          costumo fazer isso sempre durante minhas leituras, e no processo de revisão e escrita. critico de forma quase absurda o que escrevo, então diversas vezes paro o texto e vou procurar a acepção da palavra, para ver se realmente cabe — com mártir eu fiz o mesmo.

          um site que eu sempre levo em consideração é o Aulete Digital, recomendado por minha professora de tradução da época da faculdade porque possui a regência do verbo, entre outras coisas. enfim, lá se define Mártir (o segundo significado) assim:

          2. Fig. Quem sofre intensamente por alguma coisa; VÍTIMA

          reconheço que é uma forma mais moderna de interpretar a palavra, mas é daí que vem o conceito de neologismo, que não só amo, como sou adepto.

          releia o paragrafo dessa forma, leia a sinopse da série e você vai pegar o sentido que eu quis passar. sempre uso o dicionário como apoio e, honestamente, a forma como as palavras caem ou não em desuso não me interessa muito. gosto de ser claro, mas sei que dificilmente consigo, e não consigo ser responsável por todas as interpretações que alguém pode ou não fazer do texto — nenhum autor é.

          enfim, a palavra não foi usada de modo incorreto. muito obrigado pelo comentário! 😉

  • ÐiŁmå ÐimiĶå

    Estou com ela completa baixada no meu hd mas até agora não tive tempo pra vê-la. Depois do que li, até me empolguei.