Top 15 Álbuns Que Poderiam Virar Séries, Parte 2

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Música também é dramaturgia e alguns álbuns são tão bem planejados, que poderiam facilmente resultar em peculiares séries de TV.

Para os que estão passando por aqui agora, segue o texto de apresentação da parte 1 dessa lista:

Sempre digo que toda boa canção tem um pequeno senso de dramaturgia nela. Ela precisa ter um planejamento, começar preparando atmosfera, apresentar uma ideia, convencer-nos de que vale a pena continuar acompanhando e enfim, nos impactar com um clímax que faz com que desejemos encontrar o “episódio” seguinte. Sendo assim, álbuns podem ser uma versão ainda maior dessa dramaturgia e em alguns casos, oferecerem o que pode ser entendido como uma temporada completa.

Não são todos os álbuns que podem ser vistos assim. Há artistas muito bem-sucedidos que não lançam discos com uma analogia forte, coesa. São apenas boas músicas sem costura entre elas. Já outros, pensam num conceito e escrevem as canções em torno dele. O resultado é um trabalho conceitual que pode ser facilmente dramatúrgico. Título, capa, faixas, melodias, tudo unido por uma unidade metafórica que é – enfim – aquilo que o artista quer dizer, a ideia que ele quer instigar em todos que pegarem aquilo para ouvir.

Por causa disso, resolvi brincar de imaginar alguns dos álbuns que mais gosto, como bases para dramaturgias de séries de TV. É claro que há centenas de discos que se enquadram nessa categoria, mas me ative a 15 que conheço melhor e que sempre que ouço, me remetem a boas histórias, a bons panos de fundo. Imaginei como seria a trama, a mídia, título, showrunner, slogan e até canção de abertura (que sempre sai do álbum que vem a seguir na lista). Mesmo que essas ideias não sejam boas ou profissionais, é extremamente divertido pensar nelas e convido vocês a enlouquecerem comigo.

Então, aqui estão as 8 últimas séries saídas de álbuns que mais gosto. Como sempre, muita coisa boa fica de fora, mas os comentários estão aí para vocês viajarem comigo. E não esqueçam, ouvir cada um deles depois dessa leitura é OBRIGATÓRIO.

Apesar de ser um artista muito jovem, o álbum de estreia do cantor Troye Sivan surpreendeu a crítica especializada com arranjos muito sólidos e cheios de detalhes. Assumidamente gay, Troye aproveitou a plataforma da notoriedade e produziu uma trilogia de videoclipes que contavam a história de uma trágica relação de amor entre dois amigos. Não demorou, então, para que isso inspirasse algumas redes, que se mostraram interessadas em levar a trama para a TV.

Troye recebeu propostas – segundo ele – de várias redes, mas a escolhida foi a LogoTV. Mais conhecida pelo seu carro-chefe (o reality show RuPaul’s Drag Race), o canal foi atrás de Troye para convencê-lo a ceder os direitos de Blue Neighbourhood para que ele virasse a primeira série de TV totalmente produzida na rede. Mesmo com outras propostas financeiramente mais vantajosas, Troye comprou a ideia da LogoTV e alguns meses depois, a série Suburbia, baseada no álbum, chegou ao horário nobre da emissora.

O conceito da trilogia de videoclipes foi usado na essência do show, com uma expansão que o tornou ainda mais interessante. O título do álbum de Troye usa a palavra “Blue” de forma ambígua e ela tanto representa uma atmosfera bucólica e prazerosa de um lugar que lembra o lúdico da infância, como também representa a pressão de uma vida dominada por um meio opressor. Então, com uma abertura de filtros azuis fortes e sorrisos, a série revela personagens que enganam uns aos outros com ideias de perfeição que não refletem o que eles são por dentro.

A premissa se encaixa perfeitamente com a história dos dois amigos. Henry é o azul literal, claro e honesto sobre si mesmo e sobre o mundo. Scott é o “azul”, entre aspas, que apenas finge clarões que escondem sua alma escura. A paixão dos dois é embalada por Talk Me Down, enquanto Youth, Lost Boy e The Quiet ilustram as facetas sempre ambíguas dos moradores de Blue, o bairro litorâneo fictício onde se passa o show. O sensível texto de Tom Bidwell (responsável por My Mad Fat Diary) e a direção de Paris Barclay fizeram com que o piloto da série fosse aclamado como um dos melhores dos últimos anos. A longa sequência final que mostra Henry e Scott andando pela cidade, ao som de Suburbia, olhando para os mesmos moradores com olhares distintos (enquanto Henry vê um homem olhando o mar romanticamente, Scott vê o mesmo homem como um solitário melancólico), transformou-se numa referência de força e ambivalência. 

Título da Série: “Suburbia”

Criada Por: Troye Sivan

Estrelando: John Karna e Chris Colfer

Número de Episódios Na Primeira Temporada: 13

Tagline: The Truth Runs Wild

Canção de Abertura: “Retread” by Embrace

Sinopse: Henry e Scott são apaixonados desde a infância, embora ignorem isso com uma amizade que oscila entre a devoção e a agressividade. Os dois representam os dois lados da cidadezinha chamada Blue, que apesar de ser ensolarada e bela, tem residentes cheios de segredos e obscuridades.

A promo foi ao ar discretamente no intervalo da temporada passada de Transparent, no Amazon, e pegou todo mundo de surpresa. As fortes cenas eram embaladas pela canção Retread, do Embrace, e mostravam três personagens jantando juntos: um casal e uma provável amiga deles. De súbito, as cenas de riso se transformavam num corte frenético de imagens e enquanto víamos o homem quebrar desesperado um banheiro público, a mulher chorar de modo sufocado dentro de um armário e a outra personagem revelar-se um travesti sendo violentado, o vocalista do Embrace gritava a plenos pulmões: Will You Fight?

Jill Soloway, criadora de Transparent, ofereceu aos executivos do Amazon uma nova série que coloca sobre o ser humano a responsabilidade de “deixar o bem sair”. Jill foi bastante categórica sobre seus motivos para produzir o show: “Um amigo me presenteou com um álbum de uma banda chamada Embrace e não só o título dele era The Good Will Out, como a frase se repetia em várias canções. Eu já tinha feito uma série sobre libertar-se e aquilo me comoveu imensamente. E aí foi só uma questão de tempo… Quando terminei de ouvir o álbum, a série estava pronta na minha cabeça”. 

O texto cru e às vezes debochado de Jill encontrou uma direção extremamente emocional na criação de Retread. À primeira vista, pode parecer que a história do casal que se vê afetado demais pela nova amiga  (que por ventura vem a ser travesti) é só uma desculpa para falar sobre sexualidades enrustidas. Porém, a cada episódio da já encerrada primeira temporada, a dinâmica entre os três personagens vai revelando que a promo que berrava Will You Fight está berrando com os próprios personagens do show. Nenhum deles está confortável onde está e a cada semana, esse desconforto das próprias vidas vai se tornando insuportável.

A série é bastante ousada… Passou um episódio inteiro num jantar cheio de latências, iniciou o inevitável romance entre Tamara, a travesti, e Leo, o marido paranoico de Debra, ao som de Higher Sights e enfrentou uma inesperada aprovação do público. A sequência final da temporada, contudo, lançou sobre o show uma nuvem de dúvida. Numa festa, a canção That’s All Changed Forever demarca a transição definitiva dos personagens ao dizer “No more worries and doubts, the good will come out” e esse é exatamente o ponto que todos os espectadores do show esperavam ver chegar. Contudo, a baixa audiência ameaça uma renovação, onde veríamos justamente como seguiriam as vidas de Debra, Leo e Tamara se supostamente seus demônios fossem devidamente exorcizados. 

Título da Série: “Retread”

Criada Por: Jill Soloway

Estrelando: David Harbour, Katie Holmes e Laverne Cox

Número de Episódios na Primeira Temporada: 11

Tagline: The Good Will Come Out

Canção de Abertura: “Do lado de Dentro” by Los Hermanos

Sinopse: Leo e Debra são casados há muitos anos e administram suas neuroses tratando-as como naturais para uma relação de tanto tempo. A dinâmica entre os dois muda quando conhecem Tamara, uma prostituta travesti que tem uma visão bastante peculiar do mundo. 

O investimento da HBO em produções nacionais sempre foi discreto em comparação com o que o canal faz no seu eixo principal. Mesmo assim, séries como O Negócio conseguiram alguma estabilidade com o público brasileiro e isso resultou numa promessa de investimento contínuo, ainda que dentro dos mesmo padrões discretos que já foram estabelecidos. Sendo assim, o anúncio da série Ventura não pegou ninguém de surpresa por sua realização, mas sim pela forma peculiar como ela foi idealizada.

Juli Zeh já tinha chamado a atenção com A Menina Sem Qualidades, da MTV e quando anunciou que sua próxima adaptação seria de um álbum, ninguém levou muito a sério. Isso até o primeiro nome do elenco ter sido anunciado… Juli escolheu o álbum Ventura, dos Los Hermanos, e deu ao show o mesmo nome. Apesar do ceticismo perante a ideia, logo que os primeiros episódios foram indo ao ar, ficou muito claro que os títulos – do álbum e da série – eram homônimos de formas essenciais.

O álbum é uma espécie de reunião de experiências, sempre tomadas de saudosismo, melancolia e otimismo. Uma contradição típica do trabalho dos Los Hermanos. Coube a Juli encontrar o fio condutor entre as canções e formar com isso a narrativa dessa primeira temporada. A comovente Conversa de Botas Batidas (criada a partir de uma notícia sobre a morte de um casal idoso num desabamento no Rio de Janeiro) se tornou a protagonista da adaptação, enquanto A Outra, O Vencedor, Cara Estranho, entre outras, serviam de títulos para os episódios, formando uma dramaturgia de idas e vindas no tempo que realmente conseguiu construir uma trama extremamente segura. 

O sucesso do primeiro ano já garantiu um segundo e Juli Zeh afirmou que será a primeira investida brasileira no formato antológico. Ano que vem, um outro álbum servirá de inspiração para a produção, que deve surgir com novo elenco, nova ambientação e até – vejam só – um novo título.

Título da Série: “Ventura”

Criada Por: Juli Zeh

Estrelando: Teodoro Cochrane e Graziela Moreto

Número de Episódios na Primeira Temporada: 15

Tagline: Quem é maior que o amor?

Canção de Abertura: “The Day Before You Came”, by Abba

Sinopse: Roberto e Maria tem cada um sua família, são maduros e se encontram todas as tardes num hotel do centro do Rio de Janeiro para reviverem o amor de outrora. Eles fogem do mundo por algumas horas e em uma dessas tardes, estalos nas estruturas do prédio avisam aos presentes que tudo está prestes a desabar. Antes que tudo venha a baixo, os dois repassam suas vidas para entenderem porque se separaram há anos atrás.

A longa trajetória do grupo Abba encerrou-se no ano de 1982, quando o último álbum do grupo foi lançado em meio a separações e preocupações com a Guerra Fria. O disco não é o mais popular do quarteto, sobretudo se considerarmos que suas canções de maior sucesso hoje são usadas em comédias e dramaturgias otimistas. Mas, o amadurecimento atravessado pelos integrantes e sua preocupação política resultaram num conjunto de canções que funcionou muito com a crítica especializada. 34 anos depois, The Visitors, o álbum em questão, se tornou inspirador da premissa básica de One Of Us, nova série de Carlton Cuse (co-criador de Lost e Bates Motel) e principal aposta do A&E para a fall season de 2016.

A primeira promo, exibida na Comic-Con de San Diego em julho deste ano, revelou uma produção grandiosa, que lidará com as paranoias da Guerra Fria de perspectivas muito inusitadas. “Essa é uma série que começa depois do “viveram felizes para sempre’”, disse Carlton no painel. “Eu queria fazer um programa de época, que pudesse usar um painel histórico grandioso, mas viável do ponto de vista orçamentário e a Guerra Fria pareceu a melhor decisão. Eu já sabia que o álbum do Abba seria parte da minha inspiração, mas ao ouvi-lo numa das minhas viagens de carro até em casa, notei que a separação era um tema insistente no disco e aí tudo fez sentido para mim”.

A promo mostrou pouco, mas a entrevista com o criador entregou pontos específicos da relação entre o álbum e a história. Enquanto canções como Soldiers e Under Attack cumprem seu papel de ambientadoras políticas, a bela When All is Said an Done parece surgir em meio as imagens como o relato melancólico da antiga paixão que unia os dois protagonistas: um russo e uma americana. Cuse afirma que não se trata de um outro Romeu & Julieta, justamente porque a série oferece o maior diferencial de todos: “One Of Us começará com o casal já separado e eles nem mesmo se encontrarão em cena nessa primeira temporada”. A ideia é justamente perseguir os sentimentos e impressões deixados por uma relação encerrada por razões que não tem a ver com as nacionalidades que os afastaria, caso ainda estivessem juntos quando o sino da guerra passou a tocar. “Não é uma história de amor”, disse Carlton. Os EUA e a URSS estão separadas quando a série começa, assim como os personagens (cada um de uma nacionalidade), formando uma grande analogia sobre finais que sem dúvida, chocará o espectador. 

Título da Série: “One of Us”

Criada Por: Carlton Cuse

Estrelando: Debra Messing e Kevin McKidd

Número de Episódios: 10

Tagline: I’m pretty sure it must have rained, the day before you came

Canção de Abertura: “Forward” by Beyoncé Feat James Blake

Sinopse: Em duas narrativas paralelas, acompanhamos a rotina da diplomata americana Lia e do jornalista russo Devin. Cada um em seu país, eles se veem envolvidos com a Guerra Fria a cada nova reviravolta das tensões entre seus países de origem. Ao mesmo tempo, os dois tentam superar o fim de seu relacionamento, anos antes, quando moraram juntos num país que não era o de nenhum deles. O antigo relacionamento os persegue não através de encontros, mas de experiências que tiveram enquanto ainda eram uma União Soviética e uma América passíveis de união. 

Há um senso comum entre artistas de que uma das maiores vantagens de sê-lo é poder filtrar seu espírito através do trabalho. Muitas das grandes obras da nossa civilização foram criadas enquanto os artistas que as concebiam passavam por grandes atribulações. Sendo assim, embora nunca tenha havido uma confirmação direta, o álbum Lemonade, de Beyoncé, poder ser facilmente incorporado a essa teoria.

Lançado depois de muito segredo (junto com todo um trabalho imagético também), o álbum causou estranheza entre os fãs do pop mais rasgado. Beyoncé, contudo, nunca foi somente uma artista pop. Lemonade veio tão complexo quanto as dores e pesares que o inspiraram. Através do uso de elementos culturais fortes da história do afrodescendente, as canções contam a história de uma mulher que foi traída… Não demoraria muito para que alguém na TV se interessasse pelo argumento.

Ali Adler, que está no ar como uma das showrunners de Supergirl, foi aquela que conseguiu convencer o Showtime a produzir uma série que usasse o trabalho de Queen B como premissa. Ali já tinha trabalho ao lado de Ryan Murphy em alguns dos seus shows e em Supergirl conseguiu incutir corretamente um senso de empoderamento feminino que transpassasse a barreira do “essa é só uma série de superpoderes”. A missão, contudo, era mais complicada, porque Beyoncé não parecia disposta a permitir liberdade plena. 

Lemonade – o show – foi ao ar sob um imenso trabalho de marketing e mesmo sem ter conseguido escapar de ser um homônimo do álbum (a metáfora de fazer algo bom do que poderia ser “azedo” não podia ser perdida), a série foi intensamente planejada para não se apoiar superficialmente nele. Saiu a grande estrela pop e entraram três personagens: Linda, Kathy e Tina. Cada uma delas representa um momento do álbum. Linda está desconfiada de que está sendo traída, Kathy descobriu uma traição de modo brutal e Tina tenta perdoar uma que fora sofrida há algum tempo. Cada uma delas tem uma profissão ligada a música (uma é backing vocal, a outra compõe e a outra produz), mas elas não se conhecem. A série começa quando elas são coincidentemente contratadas para trabalharem na produção do álbum de uma jovem artista negra (vivida por Alex Newell) que fracassou em seu último disco e está sendo descartada pela gravadora aos poucos. O marido dessa jovem é, vejam só, o maior rapper do mercado fonográfico.

Com esse cenário pronto, Ali conseguiu uma série que é – segundo a crítica – “um constante exercício de confronto”. Empoderamento feminino, preconceito, racismo, assédio, são só alguns dos pontos levantados por Lemonade a cada semana, sem tirar do público a sensação de uma dramaturgia de superação que é simplesmente irresistível. Os episódios se dividem entre as três protagonistas, refletindo-se na jovem artista, completando a convergência de modo incrível, enquanto o processo de construção das músicas é descrito com maestria pelos roteiros. Já sabemos, aliás, que canções como Daddy Lessons, Sorry e Don’t Hurt Yourself (do álbum de Beyoncé), serão usadas como composições criadas pelo trio de protagonistas na segunda metade da temporada. A grande dúvida, contudo, é com relação do futuro. Segundo Ali Adler, não houve ainda nenhuma conversa sobre como será o possível segundo ano do show, que precisará de mais limões se quiser continuar provocando com sua limonada. 

Título da Série: “Lemonade”

Criada Por: Ali Adler e Beyoncé

Estrelando: Kerry Washington, Cush Jumbo, Danai Gurira e Alex Newell

Número de Episódios na Primeira Temporada: 12

Tagline: I Ain’t Thinking ‘Bout You

Canção de Abertura: “Sick” by Barcelona

Sinopse:  A vida de três mulheres negras, moradoras de Nova Orleans e envolvidas com música de alguma forma, muda quando elas são contratadas para trabalharem juntas na gravação do álbum de Willa, uma jovem cantora casada com um rapper poderoso e que nunca foi levada a sério pela própria gravadora. 

Foi preciso esperar que os rapazes do Barcelona lançassem todos os EP’s que dariam vida plena ao projeto Melodrama, para que fosse revelado  que ele dizia respeito a muito mais que simples música. Ninguém poderia imaginar que as canções, junto com o trabalho dramatúrgico criado pela equipe de Michael Lannan, fossem resultar num dos estudos mais completos acerca do sentimentalismo humano. Após chegar como uma zebra na última fall seasson, Melodrama faturou o Globo de Ouro de melhor série dramática e deixou todas as outras grandes e eloquentes produções querendo saber exatamente o que aconteceu.

A série, assim como o álbum, foi dividida em três atos: Love Me, que traçava paralelos sobre o amor nas suas formas melancólicas: perda, traição, indiferença, não ser correspondido ou ser trocado. Love You, que dava uma perspectiva interna do que era amar: dedicar-se, declarar-se, investir e cultivar. E por fim, Know Love, uma espécie de convergência dos dois primeiros, na tentativa de concluir o papel do amor na engrenagem existencial: o quanto nos movemos a partir dele ou por causa dele.

Lannan, que já tinha conseguido alguma atenção com Looking, seu primeiro trabalho, vendeu a ideia para a concorrência e a Netflix (no seu plano de lançamento massivo de séries) encomendou uma temporada de 13 episódios, com 25 minutos cada, em que essas três ideias sobre os sentimentos de amor convergem numa interpretação do gênero melodramático, exagerado e passional por essência. Porém, o mais sensacional, é que a série é mesmo dividida em três atos e os episódios não contam a história demarcando qual ato estamos vendo. É extremamente provocativo, porque em um episódio um dos personagens está no ato “Me Ame” e parece enlouquecido. Tudo para no seguinte, aparecer no ato “Te Amo”, completamente tranquilo e sereno. O que leva de uma coisa para a outra, só os outros episódios dirão. 

O Projeto Melodrama (como o próprio Lannan chama), é uma parceria e envolveu primeiro o Barcelona, depois ele mesmo (com a série) e pretende expandir-se para o cinema e a literatura. A ideia é criar um panorama completo sobre a relação do indivíduo com seus conflitos amorosos, indo de um extremo a outro. “Queremos que a paixão plena vista em canções como I Choose You, funda-se com a melancolia absoluta de uma canção de perda como Background e se transforme numa síntese do que é a química das emoções afetivas, como se canta em Lose Control”.

Título da Série: “Melodrama”

Criada Por: Michael Lannan

Estrelando: Murray Bartlet, Adam Brody, Rachel Griffths e Sandra Oh

Número de Episódios na Primeira Temporada: 10

Tagline: I Didn’t Know Love

Canção de Abertura: “Light”, by Sleeping At Last

Sinopse: Quatro personagens que inicialmente não se conhecem, atravessam o período de um ano vivendo três estágios de envolvimento romântico: amar sozinho, ser amado sozinho e conhecer a experiência de amar junto. Mas, esses estágios se misturam numa dramaturgia fragmentada e não sabemos se a história começa quando eles se conhecem ou quando eles terminam. 

Uma das grandes características da série Grey’s Anatomy, de Shonda Rhimes, é sua trilha sonora. Entre algumas canções do Snow Patrol e algumas outras do The Fray, o drama médico tem no Sleeping At Last, um grande provedor de músicas de fundo. A “banda” – que não é bem uma banda – tem uma identidade musical muito eficiente para comoções, com seus arranjos de piano e violino que são realmente de cortar o coração.

Há cerca de dois anos, o homem por trás do Sleeping At Last anunciou um projeto independente chamado Yearbook. Ryan O”Neal havia acabado de se desligar de uma grande gravadora e para manter o trabalho vivo, convergiu suas possibilidades restringidas a um conceito, lançando a cada mês um EP de três ou quatro canções, o que formaria ao final de um ano, uma grande coletânea. A iniciativa deu tão certo que esse ano Ryan repetiu o feito e anunciou o lançamento de Atlas.

Krista Vernoff, que trabalhou como roteirista principal de Grey’s Anatomy por alguns anos, foi atrás do Sleeping At Last, inicialmente, para garantir que algumas canções de Yearbook entrassem em seu novo projeto, uma série sobre casais que ela preparava para a ABC. Ryan apresentou a ela o conceito e algumas faixas de Atlas e foi então que as ideias de  Krista sofreram um looping e a série sobre casais morreu na praia. No lugar dela, uma produção homônima da coleção de EP’s surgiu e junto com ela, uma forma diferente de idealizar um show. 

AtlasThe TV Show, parte da mesma premissa das 30 canções que formam a coleção: a relação entre as obscuridades e epifanias humanas. A coleção Atlas é toda sobre sair da escuridão, o que se refletirá no show. As canções são metaforizadas por localidades lúdicas como Sun, Space, Moon, Earth, North e há sempre uma atmosfera perceptível nessa relação. Na série, além de usar essas canções, outras localidades – até mesmo mais literais – serão utilizadas para manter o conceito vivo. 

A grande sacada de Atlas está na forma como ela será exibida. O primeiro bloco de episódios, chamado Atlas – Light, será exibido em agosto pelo ABC. Nele, conheceremos a história de quatro personagens que estão vivendo no limite da escuridão emocional. O segundo bloco de episódios, chamado Atlas – Space, só será exibido dois meses depois, em outubro, quando conheceremos outros quatro personagens, relacionados aos quatro primeiros de alguma forma, e que sofrerão algum tipo de convergência em blocos de episódios futuros.  Dessa forma, a série ficará no ar por todo o ano, sem ter números de temporadas marcadas (será a primeira vez que uma série não será chamada por temporadas e sim por blocos) e fechando seus arcos de maneira super fragmentada. Uma ideia extremamente ousada (já garantida por pelo menos 12 meses) e que pode vir a ser a grande virada no universo das séries de TV. 

Título da Série: “Atlas”

Criada Por: Krista Vernoff and Ryan O’Neal

Estrelando: Apenas o elenco do primeiro bloco foi anunciado. Ele será protagonizado por T.R Knight, Jacob Artist, Neve Campbell e Jinkx Moonson (ex-participante do reality RuPaul’s Drag Race no seu primeiro papel na TV).

Número de Episódios em Cada Bloco: 4

Tagline: Darkness Exist To Make Light Truly Count

Canção de Abertura: “Empty Spaces” by Pink Floyd

Sinopse: Divididas em blocos espalhados pelos anos, Atlas contará sempre a história de quatro personagens que se relacionarão com outros que ainda conheceremos, em tramas que tem como premissa a obscuridade e que tem como pano de fundo uma localidade literal ou metafórica.

Quando The Sopranos encerrou sua trajetória na HBO todos se perguntaram qual seria o novo trabalho de David Chase, criador do show e responsável por mudar  a forma como as séries de TV passaram a ser produzidas. Chase, excêntrico e reservado, jurou que jamais voltaria a fazer televisão nos mesmos termos em que Sopranos foi feita. Seus pupilos se espalharam para várias outras produções de sucesso, mas Chase realmente não lançou mais nada no mercado.

Isso até o ano passado, quando um projeto baseado no legendário álbum The Wall, do Pink Floyd, começar a circular pelos corredores do canal. A ideia teria partido dos próprios executivos (apostando no sucesso de outras adaptações) e um nome forte para ficar a frente da produção era o único empecilho para que ela fosse possível. O projeto foi parar nas mãos de Chase logo após o boato de que Tim Kring iria assumi-lo. Foi provavelmente para impedir que isso acontecesse que The Wall acabou se tornando a nova empreitada do showrunner na TV.

Inicialmente, a produção seria uma homônima do álbum, mas uma das primeiras procidências de Chase foi mudar o nome do projeto para The Bricks (tijolos): “The Wall é um disco imensamente complexo e seria um engano tentar traduzi-lo de modo literal. Acho que as noções de isolamento e torpor que a obra propõe são muito mais relevantes para o mundo moderno”. Assim, os “tijolos” que compõem esse “muro” metafórico que separa o protagonista do álbum do resto do mundo, se tornaram a base da premissa de The Bricks.

O episódio piloto (exibido na semana passada) foi uma amostra poderosa do que está por vir nas próximas sete semanas. Chase parece ter aproveitado todos esses anos de reclusão para apurar seus modos artísticos… The Bricks abriu para uma primeira sequência que diz na tela “Is not here were”, – numa clara alusão a última frase do álbum – e conhecemos os olhos apáticos de Paul, um jovem egocêntrico e soturno que passa os primeiros dez minutos do piloto falando para o teto do quarto sobre como gostaria de morrer.

Sem entregar muito da história, podemos dizer que naquele dia que Paul decide que será o seu último dia na escola, o texto e a encenação teatralizada que o perseguem formam a síntese extremamente ousada de The Bricks. Numa interpretação mental do que seria um massacre de estudantes como o de Columbine, David Chase não derrama uma gota de sangue, mas faz com que a mente do protagonista seja afiada, cruel e até desumana, desarmando o sistema, aniquilando colegas populares, destruindo – em uma dia de aula – toda a engrenagem do High School, promovendo um caos psicológico que ao final do episódio levanta o primeiro tijolo daquele que será o muro que separará Paul do mundo (com até mesmo uma inscrição na tela, antes dos créditos, onde se lê “Another Brick on the Wall” e que aparecerá toda vez que o personagem escolher os mesmos passos). “Essa é uma história sobre destruir-se, destruindo”, diz Chase. Sem dúvida, The Bricks já começa devastando uma das coisas mais fortes acerca do olhar do espectador: o seu conforto. 

Título da Série: “The Bricks”

Criada Por: David Chase

Estrelando: Evan Peters

Número de Episódios na Primeira Temporada: 8

Tagline: We Don’t Need No Education

Canção de Abertura: “Blue” by Troye Sivan

Sinopse: A partir do álbum The Wall, do Pink Floyd, a nova série de David Chase viaja pela mente do jovem Paul, que a partir de sua melancolia, cinismo e até maldade, oferece perspectivas pessimistas e anarquistas de uma sociedade em ruínas. A cada investimento de Paul contra ela, um novo capítulo do isolamento que o consumirá é fechado.

É isso, gente… Acho que seria bem bacana que vocês compartilhassem nos comentários quais são os álbuns que vocês ouvem e que lhes fazem pensar numa história. Mas, tentem pensar nessas diretrizes: álbuns conceituais, com unidade. Nossa lista final tem pop, rock, indie, música e série para tudo que é gosto; e ficou assim:

  1. Keane – The Iron Sea
  2. Lady Gaga – Artpop
  3. Radiohead – OK Computer
  4. Legião Urbana – O Descobrimento do Brasil
  5. Madonna – Erotica
  6. Live – The Distance To Here
  7. Maroon 5 – Songs About Jane
  8. Troye Sivan – Blue Neighborhood
  9. Embrace – The Good Will Out
  10. Abba – The Visitors
  11. Los Hermanos – Ventura
  12. Beyoncé – Lemonade
  13. Barcelona – Melodrama
  14. Sleeping At Last – Atlas
  15. Pink Floyd – The Wall

Agora vão… Vão ouvir música de novo.

  • Arthur Hitchcock

    Parabéns ao escritor desta matéria, que me conquistou quando eu vi o nome do ABBA, mesmo tendo apenas 14 anos eu amo o quarteto sueco. E ainda dizem que a geração atual não tem bom gosto pra música… Ou é isso, ou eu sou uma exceção huahuhauhaua

  • Arthur Hitchcock

    Parabéns ao escritor desta matéria, que me conquistou quando eu vi o nome do ABBA, mesmo tendo apenas 14 anos eu amo o quarteto sueco. E ainda dizem que a geração atual não tem bom gosto pra música… Ou é isso, ou eu sou uma exceção huahuhauhaua

  • Guilherme

    The Fame Monster da Lady Gaga daria uma boa série! A primeira temporada podia ser sobre a busca incessante pela fama, a segunda sobre a fama em si e suas partes boas e ruins e a terceira sobre a decadência de um artista, a forma como a midia pode te por no topo, mas também pode te derrubar. A série poderia abordar também o que os artistas fazem para ter sucesso, os bastidores da fama, etc.

  • Keilla Teixeira

    Que lista linda. Amei ver The Iron Sea aí.
    Acho que Turn Blue do Black Keys dá uma série sobre relacionamentos bem bacana. Toda a melancolia das músicas e a história por trás do disco rendem história.

  • Keilla Teixeira

    Que lista linda. Amei ver The Iron Sea aí.
    Acho que Turn Blue do Black Keys dá uma série sobre relacionamentos bem bacana. Toda a melancolia das músicas e a história por trás do disco rendem história.

  • Ilo Rafael

    minha gente
    é muita criatividade
    tá muito de parabéns o sr. henrique!
    bem legal essa ideia tua e mais ainda os álbuns escolhidos

  • Ilo Rafael

    minha gente
    é muita criatividade
    tá muito de parabéns o sr. henrique!
    bem legal essa ideia tua e mais ainda os álbuns escolhidos

  • Do you bleed ?

    Cara da uma olhada no album DANGER DAYS THE TRUE LIVES OF THE FABOLOUS KILLJOYS do MY CHEMICAL ROMANCE daria uma boa série d futuro pós apocalíptico com tecnologia

  • Do you bleed ?

    Cara da uma olhada no album DANGER DAYS THE TRUE LIVES OF THE FABOLOUS KILLJOYS do MY CHEMICAL ROMANCE daria uma boa série d futuro pós apocalíptico com tecnologia

  • Patrick Soares

    Muito bom, The Wall é meu álbum favorito. Outro álbum que eu acho que tem uma boa história é Immaginations from the other side do Blind Guardian(Não sei quantos conhecem).

  • Patrickzzz

    Muito bom, The Wall é meu álbum favorito. Outro álbum que eu acho que tem uma boa história é Immaginations from the other side do Blind Guardian(Não sei quantos conhecem).

  • G Factor

    Poderia ter a parte 3……

  • G Factor

    Poderia ter a parte 3……