This Is Us 1×08: Pilgrim Rick

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THIS IS US --

This is Us sabe como promover a emoção, mas não deve exigir isso do espectador.

Essa é a primeira review que faço de This Is Us e eu vou começá-la de um jeito bem esquisito. Vou falar de quadribol. Calma, eu explico… O universo maravilhoso e pleno de Harry Potter foi uma das experiências literárias mais incríveis de toda a minha vida. Porém, havia uma coisa sobre a saga que sempre me incomodou e que eu gosto de usar como exemplo de como um autor pode se atrapalhar na sua diarreia criativa. O jogo de quadribol é um elemento importante da história de Harry e na primeira vez que foi descrito soou confuso para mim. Segundo algumas das regras, o grupo lida com as bolas no “campo” quase da mesma forma que no futebol, com a diferença das vassouras, traves, por aí vai… O problema reside no fato de que enquanto um time inteiro está lá fazendo gols, um jogador é encarregado de pegar o “pomo-de-ouro”, que se for capturado vale pontos suficientes para tornar completamente inútil toda a disputa que ocorre paralela. E o mais louco: o jogo só acaba quando a captura é feita.

É claro que o detalhe do pomo, da luta pela captura, da estética do jogo, torna tudo mais digerível. Depois de um tempo a gente aceita que isso é estabelecido como natural na trama e esquece. Contudo, olhando friamente, a autora JK Rowling estava num momento de inspiração plena quando criou o jogo e pensou menos nos aspectos práticos e mais nos propósitos estilísticos. Não que a vida real não possa ter sistemas interativos absurdos, mas a coisa boa do campo da ficção é que ela pode organizar a “realidade” como lhe convir. Faria muito mais sentido que o jogo de quadribol fosse só como um futebol com vassouras mesmo, sem pomo, ou que todos tentassem capturar o pomo, já que ele é que interessa de verdade.

O que quero com essa aparente digressão de assuntos é afirmar que em This is Us a emoção é o objetivo principal dos roteiros, mas que não pode valer tudo para cumprir o sabor de uma estética. A série nasceu como uma obra comprometida com o afeto, com o lirismo, com a delicadeza. Sabemos que a dramaturgia desse tipo de show é pontuada pelo seu poder de nos fazer acreditar que aquela é uma vida recortada de um ponto com o qual nos identificamos. É um drama de reflexões e percepções. Porém, a teatralidade – que é linda, mas não se aplica aqui – não presta bons serviços a uma história que tem força no comum.

No Thanks Giving em Pilgrim Rick

Eu sabia que o episódio 8 dessa linda temporada de estreia de This Is Us seria o episódio de thanksgiving e isso me fez ter altas expectativas. Desde que começou, a série conseguiu me levar para onde queria e em sete semanas de vida, me fez chorar sete vezes seguidas. Não acho, porém, que ter achado Pilgrim Rick um pouco abaixo da média seja culpa dessas expectativas. A impressão que tive foi que a série estava tão eufórica com a percepção das mágicas que sabe fazer, que achou que precisava fazê-la em todos os quadros. Pilgrim Rick foi um episódio excessivamente teatralizado e afetado, o que acabou resultando numa coisa que nunca pode acontecer nesse programa: distanciamento.

THS IS US -- "Pilgrim Rick" Episode 108 -- Pictured: (l-r) Parker Bates as 8 year old Kevin, Milo Ventimiglia as Jack, Lonnie Chavis as 8 year old Randall -- (Photo by: Ron Batzdorff/NBC)
This Is Us — Pilgrim Rick

A coisa toda com as duas linhas temporais é maravilhosa e ainda é usada pelos roteiros de forma brilhante. Randall acorda animadíssimo para o Dia de Ação de Graças e vamos acompanhando, no curso de Pilgrim Rick, os eventos do passado que transformaram um menino cético num grande apaixonado pela data. Estruturalmente, a série não cometeu erro nenhum. Meu incômodo começou a surgir quando o roteiro passou a jogar camadas de “detalhes lúdicos” uma por cima da outra, continuamente, até que chegássemos ao ponto de nos perguntarmos se aquilo tudo era minimamente plausível.

E não, não era. Não só o passado de circunstâncias que levaram até o momento em família na pousada soava encomendado demais, organizado demais, como o presente em que tudo precisa se repetir igualzinho por anos a fio, também era. Dá para entender que o propósito é manter essas correlações vivas, que esse é o charme. Entretanto, a perspectiva prática vai por água abaixo. Aquele espírito de A Vida é Bela no passado precisa ter tantas liberdades criativas para acontecer, que sai do comum e por isso, perde força. Isso resvala no presente, quando a ridícula ideia de ficar passando um novelo de lã, de mão e mão, na hora de fazer o clássico arrependimento, não revela lógica alguma.

Não me entendam mal, eu amo a série de todo coração. Mas, nesse episódio as coisas não pareciam confortáveis. A mulher que sai fazendo confissões para uma estranha no avião depois de uma rápida turbulência, o sermão sem propósito que William dá um Olívia cinco minutos depois de conhecê-la, a falta de aprofundamento ao tópico da cirurgia levantado por Kate. Tudo um tom acima ou um tom abaixo e isso me impressiona, porque foco e equilíbrio sempre foram características de This is Us. Foi uma semana atípica e eu espero que tenha sido a única.

O barraco no final foi uma boa ideia e funcionou. Vai ser curioso ver Randall e Rebbeca brigados, porque a contrapartida dessa relação sempre se apoiou num passado de privilégios provocados justamente pelo medo de não oferecer privilégios. Essas questões humanas sempre foram o forte do show e não aquele estabelecimento de um cenário emocional que não se pergunta se é crível antes de ser comovente. Essa emoção que o show vende tão bem não pode ser forçada ao espectador, não pode exigir dele o tempo todo. Se cada olhar e cada respiração for apresentado com essa obrigação de fazer brotar lágrimas, as lágrimas pararão de brotar. This is Us não precisa cobrar afeto e nem as demonstrações dele… Ela é maravilhosa o suficiente para saber que o trivial também esconde a beleza. O trivial é, concluindo, parte do DNA da felicidade. É para ele que This Is Us fala: o ser do trivial, ainda especial e intenso, mesmo sendo simples.

> Entrevista com o elenco de 3%!

Nota: O Laio Andrade precisou se ausentar pelos episódios 8 e 9. Mas, logo ele está de volta. Eu sou só o Pilgrim Rick, rsrs.

  • LUIS HEBER

    Se tem algo que pode fazer as pessoas quebrarem qualquer padrão de convivência é a morte. No caso do episódio a visão iminente dela. A mulher no avião só falou aquilo porque estava em choque. Ela quase morreu numa vida de merda e, ao menos para mim, foi algo totalmente aceitável fazer um desabafo daquele para uma mulher que minutos atrás ela olhava com desprezo. Com a Kate o efeito foi decidir fazer a cirurgia. O mesmo se pode dizer sobre o diálogo (lindo por sinal) do William, que está vendo a morte no espelho e respondeu, algo que lhe foi perguntado, de forma crua e direta.

    Esse episódio pode soar artificial pra quem está de fora e provavelmente nunca teve um pai perfeito como o Jack ou viveu em uma família de comercial de margarina (me encaixo nos dois casos). E mesmo assim ele funcionou pra mim. Foi tocante ver que cada detalhe do feriado veio de uma viagem que deu errado décadas atrás.

    E seja bem-vindo Henrique. Quanto ao quadribol….sempre pareceu sem lógica pra mim.

    • henriquehaddefinir

      Pois é, Luiz. Eu achei tudo espalhafatoso demais. Para mim a série prima pelo minimalismo.

  • crisguilhon

    Laio Andrade volta…..

  • carla machado

    Não poderia discordar mais, Henrique!
    Amei a teatralidade, amei o Milo.
    Chorei, mais uma vez vieram as lágrima ao ver este excelente episódio nota A.
    Roteiro bem escrito,doce, suave, preciso, mais uma vez mostrando o que acontece em famílias. O lance da nossa amada no avião foi emocionante pra mim.

    ( achei uma puta viagem-errada- este lance do quadribol ai!!!)

    • Lord

      Concordo em tudo! Mais um episódio emocionante que não vi e gostei.

      • carla machado

        sticker da Ivana…..

  • Libriane

    ENTENDI A COLEGA DO AVIÃO. ELA VIU A MORTE DE PERTO E DESABAFOU COM A DESCONHECIDA. QUEM NUNCA? E NEM PRECISAMOS ESTAR EM PERIGO.
    ACHO QUE A OLÍVIA SOBRA NA SÉRIE. MOÇA CHATA, SEM GRAÇA, PARECE MIMADA. O PAI SACANEOU A MÃE DELA E ELA CONTINUOU O TRABALHO DELE. KEVIN É UM DOCE PRA FICAR COM ESSA PÉSSIMA FILHA.
    COMO SEMPRE, KATE É A ESTRAGA PRAZERES.
    OS MENINOS SÃO BRONQUEADOS COM O PADRASTO E O MOTIVO NÃO DEVE SER APENAS O NOVO CASAMENTO DA MÃE, MAS GOSTEI DO KEVIN REPASSAR O CHAPÉU PARA MARIO.
    NÃO SEI COMO É NOS EUA, MAS EM TUDO QUE É FILME/SÉRIE, SEMPRE TEM CONFUSÃO E NINGUÉM QUER SE REUNIR.
    A MINHA BRONCA VERDADEIRA COM A SÉRIE É A ESCOLHA DO CASAL DE ATORES PARA VIVER MARIO E REBBECA. TINHAM QUE TER MUDADO, UMA VEZ QUE MUDARAM O WILLIAN E ISSO DEU MUITO CERTO. PODERIAM TER ESCOLHIDO A Gena Rowlands OU ATÉ Joan Allen, POR EXEMPLO. A ATRIZ FAZ COM PERFEIÇÃO A PERSONAGEM NOVA, MAS QUANDO “ENVELHECE”, NÃO SEGURA A PERFORMANCE.

    • henriquehaddefinir

      Estou esperando pra ver como a Mandy evoluiu nesse lugar da maturidade. Ainda não sei o que penso.

  • crisguilhon

    Não entendi por quê deletaram meu comentário.
    Não pode discordar?
    Não fui desrespeitosa só achei a review ruim.

  • Bruno

    Discordo do reviewer em tudo. Kevin (que é o mimado) está aprendendo horrores com Olivia. E por que não dizer que ela também está aprendendo com ele e a família dele (“sua família é massa!”)? Relacionamentos são sempre de mão dupla.

    William sempre surpreendendo. Não sei se é a morte que traz sabedoria ou o SOUL (música). A conferir.

    Já passei por um avião perdendo sustentação sobre Guarulhos e uma moça que nunca havia viajado de avião que estava ao meu lado quase arrancou minha mão com o aperto que deu. Acho plenamente justificável a confissão à Kate. Quanto a cirurgia, foi no minuto final do episódio, com certeza será focado no próximo.

    Criar uma tradição não é algo fácil e pode parecer forçado para quem não vem de uma família grande que ao se reunir só dá confusão (a minha faz isso).

    E sim o quadribol é confuso. Lembre que Rowling juntou no mesmo balaio um monte de fontes para fazer HP funcionar. No que ela inventou do zero, claro que fico confuso. Mas não me leve a mal, eu gostei de HP. O que vale é a aventura, não o final.

    • henriquehaddefinir

      Bruno, pegar na mão eu acho super natural (eu pegaria). Fiquei mais chateado com as confissões todas. E claro que toda família tem uma tradição, só não acho que ficar passando um rolo de lã na hora de fazer agradecimentos tenha uma lógica (ou uma ilógica) bela para o episódio.

  • Henrique, só uma correção das regras do quadribol a título de curiosidade.
    O jogo acaba com 150 pontos, ou seja, 15 gols. A captura do pomo-de-ouro vale 150 pontos.
    Se algum time fizer 150 antes de que alguém pegue o pomo, esse time vence, ai o jogo acaba e não só quando o pomo é capturado.

    Ótima crítica, btw!

    • henriquehaddefinir

      Richard, eu fui relembrar as regras antes de fazer o texto e li que só acabava quando pega o pomo. Acho que era uma fonte ruim, hahahaha. Brigado.

    • Pabline Miranda

      (comentário irrelevante sobre o episódio)
      Desculpe, mas o jogo acaba só após a captura do pomo, independentes dos pontos, tanto que na copa de quadribol de 1994, Krum capturou o pomo e mesmo assim sua equipe perdeu, pois estava bem atrás de 150 pontos de diferença.

    • Clébio Cabral

      Pabline tem razão: o jogo só termina com a captura do pomo, porem já aconteceu de um time estar mãos de 150 pontos na frente e a captura do pomo não influenciar no resultado da partida.

  • Allan Fábio Carnaúba

    Desculpa Henrique, mas disconcordo totalmente da sua review, achei o episódio lindo, bem escrito e o clima estava ótimo. Acredito que se eu estivesse num avião e passasse por aquela situação eu poderia sim me abrir com a colega do lado. Minha vida quase foi pro espaço, tenho que tomar outros rumos, valorizar mais ela.

  • Ramon Vitor

    Meu episódio preferido da temporada. Interessante que o personagem pelo qual tinha total antipatia de início, tenha ganhado meu gosto com um bom desenvolvimento. A morte iminente de William será doída. E eu ainda nem me conformei com a perda do pai.

  • nathitah

    As pessoas desabafam com as outras até em fila de banco, já aconteceu de eu estar na fila da lotérica e a mulher começar a falar dos problemas dela, que estava se separando , que estava devendo no cartão e blablabla… Imagina então quase morrendo dentro do avião… achei o epi maravilhoso!

  • Cristina Guilhon Vianna

    Acho que o DISQUS está com algum problema e fica deletando o que eu escrevo nesse tópico.
    Vou tentar reformular.
    Henrique adoro quase tudo que você escreve inclusive suas críticas fortes de The Walking Dead. Ler os textos de The Leftovers chega a ser melhor que assistir a série em si. Agora eu não posso discordar mais dessa review. O episódio foi lindo como todos os outros 7 e essas referencias que parecem as vezes exageradas tem um toque de licença poética para fazer as ligações do episódio. Assim como no episódio passado com a máquina de lavar.
    Desculpe, mas senti muita falta de ler a opinião do Laio que como você em The Leftovers trás um lindo complemento ao episódio. Mesmo que aja atraso gostaria de pedir a volta dele. Obrigada.

    • henriquehaddefinir

      hahahahah Cristina, o Laio vai voltar, fica tranquila. Eu não gostei mesmo, não podia mentir.

  • Vitner Santos

    Tinha que ser esse Henrique que se acha o maior critico do mundo e sempre reclama de todas as séries que faz review nao gostar de um dos melhores episódios da série, só vejo coisas boas em vários lugares e venho aqui e vejo essa idiotisse…

  • Matheus Rocha Andrade

    um dos melhores episodios do ano, simplesmente excepcional

  • Alípio

    Não vou pontuar as partes do review que discordo, mas vou na contramão. E muito. Acho que esse episódio foi dos melhores até aqui e ri, me aborreci e chorei na mesma intensidade dos personagens.
    Acho que é preciso ter cuidado com as expectativas e o caminho que nós desejamos para a série, em vez de apenas desfrutar do que ela nos oferece.
    Abs.