The Living and the Dead 1×05: Episode 5

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Nos primeiros dois episódios, The Living and the Dead parecia uma minissérie criada para celebrar e revisitar os elementos sobrenaturais estruturados na televisão através dos últimos anos, quando o gênero horror ganhou tanta força que seria concorrido em premiações, caso elas decidissem prestigiar essa área tão rica da ficção. Essa zona de conforto ficou mais evidente no primeiro episódio, quando fomos apresentados a uma estrutura de procedural que, evidentemente, seria repetida nas semanas seguintes. Conforme os episódios desenvolveram suas tramas para cada vez mais longe disso, transição introduzida pelo terceiro episódio, mas fixada com o quarto, foi perceptível que a minissérie usaria sim dos elementos narrativos repetidos por outras produções, mas faria o possível para deixar sua marca e sua contribuição.

Algo que está muito presente em histórias de horror tanto no cinema quanto na tevê é a relação individualista criada entre o sobrenatural do ambiente e o protagonista. Este, sortudo, sempre o único a poder ver e testemunhar aquilo que tem certeza que existe. Pessoalmente, eu não gosto tanto desse recurso, e, se não usado de forma inteligente, pode deixar a narrativa cansativa. A série utilizou desse recurso até então, deixando Nathan como uma espécie de médium renegado e o povoado do campo ao lado de sua esposa na lista de quem não via ou não queria ver o que estava acontecendo por ali. Há uma diferença entre a Sra. Appleby e os camponeses, entretanto, uma vez que boa parte deles sentia estarem a caminho do sobrenatural.

A tensão entre Nathan e Charlotte vinha se agravando episódio após episódio, para explodir nesse quinto em desabafos emocionais e reações físicas inesperadas. A cegueira do doutor é compreensível pela singularidade de sua situação. Ter a possibilidade de seu filho por perto, mesmo que assombrando-o em forma de espírito, é suficiente para que ele desista de salvar os empregados e a família e se isole nessa esperança medonha. É preciso lembrar, entretanto, que suas ações aqui não são movidas pelo egoísmo de navegar pelo sobrenatural, mas o remorso de não ter estado por perto para cuidar do filho. Os gritos do menino lembram-no sempre de sua ausência ao ecoarem “pai, onde está você?”. Nathan sabe que não estava por perto, e a sobrevida do filho é uma forma de tentar consertar as coisas. Tarde demais, sabemos. Nos últimos episódios, diferente da ênfase dada na premiere, a série e o doutor esqueceram brevemente do menino, e estranhei isso. O final está aí para reatar as menções dos primeiros episódios com o clímax da história.

Fico me perguntando por que Charlotte não vai embora de uma vez, mas entendo a complexidade de sua situação, e é preciso nos colocarmos na época e um pouco dentro de sua mente. Talvez ela fique por teimosia, em resumo. Gostei da forma como a série finalmente utilizou as fotografias dela, dessa vez com mais eficiência que no terceiro episódio, quando a moça supostamente apareceu ali atrás ou não.

Como citei antes, há uma mudança nas regras aplicadas nas semanas anteriores, e o sobrenatural invade a realidade dos vivos (ou supostamente vivos) e ambos convivem e se enfrentam na noite de Halloween. Como série que se baseia constantemente na cultura e história do povo da região, há também menção ao massacre sofrido pelos Roundheads (ou Cabeças Redondas por aqui) e sua população. Nós, já assombrados pelas tragédias contemporâneas que testemunhamos, mesmo à distância, todos os dias, talvez tenhamos mais medo dos vivos, enquanto o povo à época tinha pesadelos com o passado. Ainda temos nossos prédios assombrados e nossas lendas urbanas, mas o jornal da tarde tem estado bem mais aterrorizador. Enfim, é sempre bem-vindo esse complemento histórico ao texto. Enriquece-o todas as vezes.

Há diversos seguimentos bons no episódio. Charlotte finalmente diante daquilo que não acreditava, na floresta, e Nathan de frente a essa pessoa do nosso presente estão entre os principais. Esse segundo meu favorito. Fiquei esperando que começassem a conversar a qualquer instante e que a desconhecida explicasse o que veio procurar ali e por que quer tanto conversar com o psicólogo. Algo me diz que são parentes distantes, de alguma forma. Não creio que o bebê com ela esteja ali por acaso.

A série britânica se tratava da luta da tecnologia e da ciência contra o tradicionalismo, a fé e a cultura, e assim se manteve até o episódio anterior. Assim como não se manteve dentro das barreiras que a zona de conforto anterior estabelece, entretanto, a produção não ficou com esses temas e desenvolveu seu diálogo para reflexões maduras e questionamentos mais elaborados. Nesse caso, The Living and the Dead é sobre culpa, rancor e egoísmo; é sobre a realidade inevitável de que estamos todos no mesmo plano: os vivos, os mortos, os crentes, os descrentes e as almas perdidas que ainda não encontraram sua categoria.