The Living and the Dead 1×04: Episode 4

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O processo de tentar representar às pessoas aquilo que elas acreditam não precisar é complicado. Por mais que cada um saiba, lá no fundo, das próprias necessidades, há sempre uma barreira ligada ao reconhecimento que nem todos estão dispostos a ultrapassar. Não é fácil receber o outro quando o outro representa tanto do que precisamos. Essa relação de dependência estabelecida entre duas pessoas, dois membros, dois povos, não é celebrada porque é criada uma subordinação, e a subordinação tem gosto amargo na boca da maioria. Talvez por isso o caminho da negação seja tão fácil e tão usado. Talvez por isso o ataque direto e indireto tornam-se armas: eles nos dão uma autoridade que a realidade não comprova.

Mais do que a tecnologia chegando ao campo, o casal Appleby instalou-se na casa principal da fazenda com a tarefa de salvar a todos. É perigoso, entretanto, oferecer salvação a quem acredita que não precisa dela. Os camponeses, assustados com a metodologia, com as ferramentas e com a filosofia pessoal deles, não se sentem confortáveis com a situação. Talvez saibam que aquele é o caminho, mas será necessário que abram mão dos elementos que compõem suas tradições, e isso é pedir demais para eles.

Ficamos com a falsa sensação de que tudo se assentaria, pelo menos por um tempo, no episódio passado, mas temo que isso jamais acontecerá. Nathan, que cresceu com aquele povo, jamais fará parte dale e, mesmo que não tivesse se envolvido com o que se envolveu, ainda assim, nunca será aceito como pertencente à região. Na cabeça das pessoas, ele representa a cidade e sua arrogância diante do campo, ele representa o estudo para aqueles que não tiveram oportunidades (como vimos no episódio anterior), representa a ciência para quem sobrevive com a fé, e o pior de tudo, segundo os rumores recentes: ele representa a blasfêmia para um povo tão abraçado aos limites entre a vida e a morte, a crença e a heresia.

Episode 4 começa com fragmentos estranhos que demoram a se interligar. Os primeiros minutos nos trazem uma sensação de história mal contada, de enredo turvo. Demora um pouco para que tudo engate e percebamos aonde o roteiro quer chegar. Antes de mais nada, vejo a preparação para o clímax da série, que deve se dar no próximo episódio. A trama vai nos conduzindo através de elementos desconexos à primeira vista, mas que se relacionam conforme o episódio avança. Sendo assim, adianto que o saldo final é muito positivo por, principalmente, preparar bem o terreno para os possíveis acontecimentos do final dessa história.

Nathan e Charlotte pouco se relacionavam nos episódios anteriores, o que não era de fato um defeito grave, mas que deixava uma sensação estranha sobre como as subtramas de cada um eram divididas de modo tão brusco. Esse episódio, entretanto, consertou isso e vimos o casal lutando e tentando resolver os mesmos conflitos. Ela sente-se negligenciada pelo marido, e é interessante constatar que há motivos suficientes para que se sinta assim. Não é uma construção de minutos, mas um comportamento adotado pelo psicólogo desde o momento em que se instalaram na fazenda. É nessas pequenas coisas que percebemos um roteiro escrito com a preocupação de costurar sua trama. Ele, por outro lado, se torna símbolo daquilo que acredita ser necessário à população, como a lei e a justiça, mas tem a si estabelecida uma administração de fachada e  um governo fantasma, pois ninguém naquelas terras realmente valoriza a autoridade que ele se esforça em demonstrar — não só o rapaz que fora expulso não vai embora, como é preciso que um dos moradores mais velhos diga que o aconselhou a não voltar.

O “caso da semana” não tem tanta força quando analisado sozinho, e é até bem previsível — ou foi para mim. Sua força está na relação que estabelece com a trama principal. É através dessa ótica que percebemos que Nathan é realmente capaz de ver os mortos. Não há, por enquanto, explicação direta para o fenômeno, mas creio que o fato de que alguém do futuro esteja tentando se comunicar com ele lhe proporcione esse dom. É estabelecido um triângulo, no qual cada ponta se esforça para alcançar os dois outros lados, mas não tem muito sucesso por não conseguir deixar a própria base. As pessoas do presente/futuro tentam se comunicar tanto com o doutor quanto com os que já morreram, enquanto ele faz a mesma coisa.

O retorno de Jack nesse episódio pareceu-me desnecessário no começo, mas logo percebi sua importância. Sua personagem, acima de tudo, demonstra a necessidade de um povoado que precisa criar vilões e justificativas para sobreviver. Algumas pessoas só encontram paz quando primeiro encontram a quem atribuir culpa, e Jack foi necessário para visualizarmos isso: se o que assombrava a fazenda era a maldição que foi vencida com os atalhos de Charlotte, logo arrumariam alguém para servir de martírio. Sua morte foi patética, mas necessária, porque ajudou a reforçar também essa crise que o casal Appleby trouxe e essa onda de mortes que tanto os aterroriza.

Charlotte, cada vez mais perto da fragilidade que a gravidez pode proporcionar, é inteligente o bastante para reconhecer a estranheza do lugar. Ela também ouve vozes e sente a presença de estranhos, o que exclui a possibilidade de ser um privilegio apenas do marido. Talvez a região inteira esteja contemplada com esse dom. Penso em diversas teorias, mas complicadas demais para explicar, como fendas abertas através da comunicação que os vivos do futuro desejam realizar com os mortos. Assim: a moça do futuro chama por Nathan, e isso o coloca no mesmo plano que as pessoas que estão mortas, pois ele já se tornou passado também, pelo menos para essa moça do futuro. Sendo assim, os vivos e os mortos que o título se refere não são as pessoas da aldeia e os fantasmas que eles veem, mas as pessoas do futuro e essas do passado. Sim, complicado demais para explicar, mas interessante se for esse mesmo o caminho que a série seguirá.

Gostei muito dos aspectos técnicos desse episódio. As cenas de corrida na floresta foram ótimas, e a fotografia soube captar bem a beleza do lugar. A sequência de enforcamento de Charlotte também foi interessante, e o fato de gostarmos da personagem deixa tudo mais aflitivo.

Levei certo tempo pensando em como começaria esse texto, porque o episódio falou de muitas coisas e me fez refletir sobre diversos aspectos da narrativa. Mesmo que demore no desenvolvimento de sua tensão, ainda assim, valoriza cada minuto quando isso ocorre. O final é instigante e me fez criar diversas teorias, como a que tentei explicar no outro parágrafo. The Living and the Dead deixa sua zona de conforto e está cada vez mais distante da série que jogava só no lado seguro, como foi sua premiere. Em um mundo tão acostumado com a verdade suprema de que nada é original, é bom ver algumas séries se esforçando para contradizer isso.

  • Marcos Bastos

    Eu gostei bastante da série. Já assisti todos os seis e o cliffhanger pro próximo ano é maravilhoso. Ótima produção.

  • Marcos Bastos

    Eu gostei bastante da série. Já assisti todos os seis e o cliffhanger pro próximo ano é maravilhoso. Ótima produção.

  • Roberto Pereira

    O que eu gostei desse episódio foi a floresta no outono. Linda e totalmente fantasmagórica. Aquele casarão do casal também.

  • Roberto Pereira

    O que eu gostei desse episódio foi a floresta no outono. Linda e totalmente fantasmagórica. Aquele casarão do casal também.