The Crown 1×02: Hyde Park Corner

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Mulher & Liderança.

Engana-se quem pensa que The Crown é somente uma série biográfica. Se observarmos o contexto histórico (atual principalmente), o que o Netflix realizou com The Crown desde o seu lançamento foi incomodar cenários políticos que ainda percorrem diversas nações e culturas. Os EUA, por exemplo, estão enfrentando uma eleição polêmica com a possibilidade de colocar pela primeira vez uma mulher na posição governamental mais influente do mundo e isso, querendo ou não, mexe com a fragilidade de diversas pessoas retrógradas que ainda encaram a situação com medo. O Brasil por sua vez colocou a culpa de diversos problemas sociais e econômicos nas costas da primeira mulher que governou o país e ironicamente a primeira mulher a sofrer um impeatchment. A adversidade do tema “mulher no poder” é a espinha dorsal de The Crown, por mais que o roteiro explore com afinco o reinado de Elizabeth II, e principalmente: a maneira que o mundo estava quando ela se ascendeu ao trono.

The Crown --- Hyde Park Corner
The Crown — Hyde Park Corner

Outra impressão que tive ao assistir o 2º episódio foi a genialidade da narrativa em polarizar o poder monárquico com o cenário político britânico da época. São duas formas de poderes que podem ser o tempo todo confrontadas dentro de uma balança moral e visitando consequentemente contextos éticos. A coroa de uma rainha/rei garante uma influência muito parecida com a de políticos/diplomatas, mas também carrega um peso invisível de responsabilidade que vai além da vida “humana”, por assim dizer.

É claro que isso é arduamente romantizado na série, ainda mais por se tratar de uma grande produção e etc. Mas imagine você ter que passar pela perda repentina de um ente querido, a morte de uma figura pública amada pelo povo e a pressão de ter que enfrentar um novo emprego? Tudo isso dentro de poucas horas, longe de casa e num país com uma cultura diferente da sua. Foi exatamente isso que Elizabeth teve que encarar durante sua tour pelo Quênia. Foi algo que se observado macroscopicamente reacendeu a chama da realeza que na época era bem mais condecorada do que hoje. Tanto que desde o instante que as pessoas ao seu redor souberam da morte do pai, o tratamento que ela ganhou foi completamente diferente. Elizabeth teve que a partir dos primeiros segundos de luto compreender que sua vida dali pra frente seria mais “divina” do que “humana”. Ela poderia estar usando o figurino mais simples possível, descendo a escadaria de um chalé recheada de empregados atentos, mas nos olhos do mundo sua figura era somente o contorno da atual Rainha da Inglaterra. Abaixo você pode conferir o momento em que a (verdadeira) rainha desembarca do avião em que tinha viajado para o Quênia e cumprimenta Winston Churchill e os demais membros do parlamento inglês. É um vídeo simples mas que exemplifica exatamente o cenário em que ela teria que enfrentar: um mar de homens poderosos e condecorados prontos para assumir um país que começava a esquecer os traumas de uma guerra terrível. Sem falar que dá pra sentir como a produção de The Crown vem buscando evidenciar cada vez mais a veracidade dos fatos.

“Hyde Park Corner” é praticamente o verdadeiro início do reinado de Elizabeth. O episódio teve momentos gloriosos e foi estruturado de forma que fui pego de surpresa, já que a morte de George vinha sendo martelada como previsível desde o primeiro minuto da série mas não veio da forma que eu imaginava. Ao fugir do óbvio de colocar a morte dele como gancho para o próximo episódio, a narrativa preferiu apontar como um ponto de virada no meio dos acontecimentos; bem direcionado ao que foi realmente a morte dele: inesperada. Num minuto a princesa estava vivendo uma semi-lua-de-mel com o marido, no outro ela era a Rainha de um império (sim, na época o poder de influência do seu reinado era dessa proporção). E toda a dinâmica por trás dessa reviravolta foi tratada de uma forma belíssima, com uma trilha sonora marcando a cada instante a angústia de ter que se abdicar de uma existência, para dar lugar a outra mais forte, rígida e autoritária.

E por conta dessa reviravolta que o episódio conseguiu se dividir em dois grandes momentos. O primeiro focando em George ciente de sua despedida e preparando o terreno para o retorno da filha e o segundo com todo o clima de luto e apreensão que envolveu a morte e a pressão política em cima da jovem Elizabeth. Foi bem orquestrado, e conseguiu balancear muito bem entre a vida pública e privada dos Windsors. O dueto íntimo entre pai e filha (Margaret) foi uma das cenas mais lindas e emocionantes que já assisti, e não to brincando quando digo que a vontade de chorar chegou num nível arrasador. A ideia de centralizar a câmera no início do dueto somente neles para depois revelar uma pequena plateia foi para exemplificar esse equilíbrio público/privado. A realeza possui essa magia de misturar dois campos que se chocam de uma forma que atrai o espectador tão acostumado a diferenciá-los. Isso ficou bem claro depois quando pude observar as duas formas de luto que Elizabeth teve que enfrentar. Ao receber a notícia da morte do pai no Quênia: chorando timidamente, se distanciando dos fotógrafos e caminhando friamente ao veículo de volta para o aeroporto. E depois encarando o corpo do pai deitado na cama e imóvel, chorando como qualquer filha choraria ao perder um pai querido e atencioso, mas com as roupas apropriadas para a ocasião. Vida pública e privada se misturando em questão de minutos.

Isso e outros detalhes presentes em “Hyde Park Corner” que fizeram da experiência de The Crown uma catarse reflexiva muito além de uma simples biografia. O reinado de Elizabeth II pode estar só começando, mas já deu vários indícios de que o peso de uma coroa vai muito além das aparências. É liderança, da mais pura e honrada.

> Veredito da 3ª temporada de Black Mirror!

PS1: Tive a impressão de que o show foi bem tímido ao tratar do assunto colonialismo versus imperialismo. Compreendo que o foco do episódio não acabou sendo a relação da Inglaterra com a pré-colônia Nairóbi, mas acho que poderiam ter explorando de uma forma menos romântica e mais diplomática.

PS2: Winston Churchill vem sendo caracterizado brilhantemente por John Lithgow e como citado na review anterior, o sarcasmo político dele vai servir e muito para confrontar estas duas formas de poderes.

PS3: E falando em Churchill, que frase forte essa hein? “You need to be a monster to defeat Hitler!”

  • Sthefani Cordeiro

    Gostei do texto e concordo com vc sobre o seu PS 1… Senti falta de uma visão mais ácida com relação ao colonialismo/imperialismo

    • Natanael Lucas

      Obrigado! 🙂

  • Vitor Hugo Santos

    Churchill está maravilhoso, o ator captou muito bem a personagem.

  • Daniel Tartaglia

    Esse episodio foi muito emocionante!

    • Natanael Lucas

      Eu já assisti até o 4º e o 2º é o meu favorito até agora.

  • Caio R

    – O que foi aquela cena final, com a Rainha Mary se ajoelhando diante da neta, como se bradasse ao mundo: – Respeitem a rainha!
    – Por mais Churchill!
    – A mãe da rainha Elizabeth está bastante apagada, não se parece em nada com a Rainha-Mãe carismática que foi apresentada ao mundo.

    – Margareth Bitch, por mais cenas do núcleo menos puritano.
    – Rei George, impecável!
    – Philip, sei não… tenho dúvidas sobre suas intenções.