The Crown 1×05: Smoke and Mirrors

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Nem sempre a maturidade de uma série está em seu visual ou na estrutura adotada para contar sua história. Muitas vezes, essa maturidade se encontra no roteiro. Ele é capaz de alcançar seu telespectador e afirmar a relevância de um seriado e de um episódio quando a fotografia e a direção sozinhas não conseguem. Algumas séries não recorrem à necessidade de comprovar a maturidade de si através de seu texto porque não se beneficiariam em nada com isso. Ou seja, há também o momento do imaturo, e é essencial que cada um entenda sua proposta e se leve ou não se leve a sério quando lhe favorecer.

“Quem quer transparência quando se pode ter magia? Quem quer prosa quando se pode ter poesia? Se afastarmos o véu, o que resta? Uma jovem comum, de modestas capacidades e pouca imaginação. Mas, se vesti-la assim, ungi-la com óleo, pronto, o que você vê? Uma deusa.”

Duque de Windsor, The Crown.

Em cena: a atriz Claire Foy, que interpreta Elizabeth II, protagoniza uma das cenas essenciais para se entender a proposta do episódio.
Em cena: a atriz Claire Foy, que interpreta Elizabeth II, protagoniza uma das cenas essenciais para se entender a proposta do episódio.

Em Smoke and Mirrors, The Crown dá outro passo para estabelecer a importância de seu enredo, além da relação que tem com a história. Isso porque a tentativa de educar o telespectador a beneficia somente até certo ponto — quem realmente quer aprender mais sobre monarquia não faria isso através da romantização de séries de tevê. Dito isso, somente aqui eu pude sentir mais próxima a intenção da série, seu valor ao nosso contemporâneo e sua possível proposta. Há evidente profundidade em Smoke and Mirrors que lhe destaca dos episódios anteriores e que ajuda sua série a se distanciar da ideia de que se assiste a pessoas muito ricas e muito poderosas brincando de casinha.

Como bem traduzido pela Netflix Brasil, o título do episódio fala sobre ilusões; mais precisamente, sobre o jogo de mostrar e esconder — smoke and mirrors é uma expressão que se origina dos truques de mágica. Na série, os truques são bem feitos e a brincadeira do que dizer ao telespectador e o que apenas mostrar ou não mostrar funciona bem. Mesmo quem não entende como funciona a forma de governo aqui representada, com pouco tempo e alguns diálogos expositivos conseguem se ambientar, e isso lhe favorece. Em alguns momentos, é feito o contrário, o que não deixa quem assiste muito acomodado.

O título, que fala sobre aparência (espelho) e transparência e pouca durabilidade de algo (fumaça), chega bem perto de fazer uma crítica, e, se é isso que a série se propõe, temos uma boa justificativa para sua produção. Começando pela cena que dá início ao episódio, na qual, novamente, é quebrada a linearidade da narrativa, somos apresentados à expectativa da cerimônia de coroação. Esta tem muito da igreja e da crença no sagrado consigo, afinal, esta é a maneira mais inteligente de criar uma tradição e convencer o povo da importância de algo. Fomos introduzidos, nos seguimentos anteriores, ao papel da igreja na política da época (papel exercido até hoje, principalmente em nosso país), então seria essencial que a visão do sagrado aos olhos dos britânicos estivesse presente por aqui. O título é uma pista para entender a linguagem do episódio, suas metáforas e acidez. Ele se relaciona à ideia de que aquilo dito como santo pode ser apenas uma construção de humanos para elevar um deles ao estado inquestionável e soberano. Se pararmos para pensar, esse processo de canonização acontece em graus menores e sem muito alcance em nosso dia a dia e basta que o identifiquemos.

Em cena: o ator Matt Smith como Prince Philip (Filipe, Duque de Edimburgo), captura bem a essência do episódio.
Em cena: o ator Matt Smith como Prince Philip (Filipe, Duque de Edimburgo), captura bem a essência do episódio.

Sendo assim, Smoke não fala só de aparência, mas o quanto ela importa para o outro e para nós mesmos; fala de uma aparência da qual podemos fingir não nos identificarmos, mas que nos faz falta quando a sua possibilidade lhe é tirada. O roteiro faz suas personagens girarem em torno do mesmo dilema e da valorização de ideais construídos através do que pode parecer ao alheio — e do nossos aspectos, refletidos no outro. Isso fica evidente (quase gritado) na figura da personagem de Alex Jennings, mas aparece dissimulado em outros. Philip, por exemplo, não consegue decidir como considerar a esposa e como separar o cargo exercido por ela de questões pessoais, o que gera momentos de hipocrisia que denigrem a personagem dele. Aparentemente, ele sabe seu lugar, mas não só ficou triste quando seu nome não foi adotado, como decidiu usar a sua influência sobre Elizabeth para assumir o cargo de presidente na organização de sua cerimônia de coroação. Ao conseguir o posto, entretanto, ele decide mudar diversos aspectos, incluindo a necessidade de se curvar diante dela. Nesse caso, durante diálogo, ele se esquece dos deveres dela e da tradição que lhe envolve para reclamar seu direito como marido.

Elizabeth, sente literalmente o peso da coroa que carrega, mas, por mais que tecnicamente ela já esteja no posto, é sempre preciso que alguém lhe diga isso para que acredite, o que demonstra o quanto a opinião e visão de outras pessoas contribuem para a formação de nosso poder pessoal. O momento em que ela pede para ter a coroa emprestada é muito importante e  marca isso.

A transmissão televisiva da cerimônia é outra questão que deve ser analisada partindo da intenção do episódio. Ela nada mais é do que a vulgarização daquilo que se conserva muito tempo como santificado — faz com que algo tão inalcançável e tão restrito seja banalizado nos lares de cidadãos pelo mundo, que é o que ocorre quando o Duque de Windsor fala sobre a solenidade em questão e a explica para seus convidos. A personagem dele é um dos grandes acertos da série, provando que o investimento na personalidade das personagens (além do excelente casting) pode trazer profundidade a uma série de linguagem cinematográfica, principalmente porque isso nem sempre lhe beneficia.  Às vezes a fotografia e uma edição duvidosa, com cenas muito longas, dão uma sensação de beleza vazia, então é importante que personagens como ele consigam nos cativar e entreter. A morte de sua mãe, a Rainha Mary (ou Maria de Teck no Brasil), é narrada por ele através de carta. O roteiro foi inteligente na escolha de como fazer isso e deixar os comentários dele no mesmo tom ácido do restante do episódio.

A morte da Rainha Mary ganha importância e contexto dentro da proposta do episódio.
A morte da Rainha Mary ganha importância e contexto dentro da proposta do episódio.

Vale mencionar que conhecemos Wallis Simpson, interpretada pela atriz Lia Williams. Anteriormente, o lado místico de sua personagem fora bem utilizado, mas foi necessário que lhe conhecêssemos para entender a relação de seu marido com a história do episódio. Claire Foy esteve fantástica, mas é redundante apontar isso.

Em cena: os atores Alex Jennings (Duque de Windsor) e Lia Williams (Wallis Simpson) fundamentais ao episódio.
Em cena: os atores Alex Jennings (Duque de Windsor) e Lia Williams (Wallis Simpson) fundamentais ao episódio.

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A partir de agora, The Crown ultrapassa a metade da temporada e começa sua contagem regressiva. A série gastou sua premiere no vislumbre de seu mundo e foi aos poucos apresentando a intriga e o jogo de aparências por trás do reinado que deseja cobrir. Com Smoke and Mirrors, possivelmente o melhor episódio, por enquanto, o saldo não só é positivo, como funciona como autoafirmação para que a série não seja aquilo que existe para ser bonito, mas que não justifica sua passagem pela televisão e logo cai no esquecimento, assim como a fumaça de seu título.

  • Alessandra Ghagsdgd

    Nossa engoli o choro nesse episodio. Como rejeitar um cara q largou tudo por amor e tem TANTOS PUGS??

    • Carol

      Sabendo que ele era simpatizante do Nazismo ajuda 🙁
      Hitler achou uma grande perda ele ter abdicado, senão o Reino Unido e Alemanha seriam próximos.

  • Danny

    Oii

  • Caio R

    Até o momento, a abordagem de personagens como o Duque de Winsor (que esteve fantástico) e sua mulher, Churchill, Tommy, Philip e a Rainha Mary estão excelentes. É bom conhecer o quanto cada um foi importante para moldar a Rainha.

    ¹Goodbye, Mary.