Tallulah

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Se tivesse que viver a minha vida de novo, eu começaria com os mesmos erros, só que antes

– Talllulah Bankhead

Às vezes, encontrar uma pessoa tão quebrada quanto nós, de alguma forma, pode nos reerguer das sombras e dos medos que nos aprisionam, de gravidades que nos engessam de uma vida que não desejávamos. Uma história sobre abandono, perdas e solidão. É assim que vejo o argumento de Tallulah (2016), nova produção do serviço de streaming Netflix, escrita e dirigida por Sian Heder. Quando vi o trailer do filme, fiquei muito empolgado por conta de Ellen Page e Allison Janney, atrizes que comandam toda a narrativa com uma leitura humana e franca de suas personagens. De um outro lado, temos Tammy Blanchard dando a vida a uma personagem complexa e controversa, que deixa o telespectador irritado ao mesmo tempo em que enche os olhos de lágrimas.

A história de Tallulah (Ellen Page) tem um início trivial: uma moradora de rua ao lado de outro morador de rua, Nico (Evan Jonigkeit), em um relacionamento sujeito a uma separação iminente, pois a vida daqueles que não tem um teto convencional aparenta ser mais desencontro do que encontro, pelo menos na trilha que a primeira parte do filme segue. Sian Heder começa a contar a história de Tallulah de modo tímido e não pretensioso e, aos poucos, avança muito bem na construção de sua personagem, utilizando as duas co-protagonistas, Carolyn (Tammy Blanchard) e Margo (Allison Janney), como figuras que complementam e fornecem um novo olhar sobre a sensação de estar só nesse mundo.

É inevitável não rememorarmos a nossa doce e atrapalhada Juno (2007), dirigido por Jaison Reitman e escrito por Diablo Cody. Aquela Ellen Page que há 9 anos vivia uma adolescente que pretendia dar o seu filho para adoção (e que, coincidentemente, tinha Allison Janney como madrasta) agora encarna uma personagem que, sem condições financeiras e emocionais, decide cuidar de uma criança quando vê que sua mãe, Carolyn, é uma mulher desequilibrada para exercer tal função. A primeira cena em que vemos Carolyn é de uma tristeza imensa: estamos diante de uma mãe em que deixa uma criança de menos de dois anos nua, perto de uma janela aberta e a mercê de bebidas alcoólicas e cigarros. Movida pelo encontro de seu passado, uma vez que, em outras condições, Tallulah também já foi aquela criança, o sequestro da criança é realizado, num ato impensado e maternal.

Uma mulher sem algumas regras de educação formal e sem planos de vida. É assim que Tallulah é, inicialmente, apresentada. A sua personalidade ganha mais vigor no filme quando encontra Margo, fato que promove mais um crash de abandonos. O que há em comum entre elas? Ambas foram abandonadas por Nico. Margo dá um abrigo físico para Tallulah e Tallulah dá um abrigo emocional para Margo. A cumplicidade entre as duas cresce quando as suas experiências são compartilhadas. Como Margo pode cobrar de uma garota que nunca teve cuidados parentais um conhecimento detalhado de como cuidar de um bebê? Como Tallulah pode cobrar de sua sogra ser uma pessoa mais aberta depois de anos encarcerada e sozinha em um apartamento? Aquilo de mais diferente entre essas duas foi um dos pontos mais consistentes que transformou a relação delas em algo sincero e verdadeiro.

Margo é uma personagem que traz uma dor tão grande em seu olhar que, a todo momento em que ela estava em cena, eu visualizava o quanto dela está espalhado por aí, em pequenas porções do nosso dia a dia. Largada pelo marido gay, ela precisou lidar com situações desconfortantes e ultrajantes. Para quem estava fora do seu campo de visão, o marido era um exemplo de coragem, pois se assumiu e foi morar com um rapaz. Mas para ela, o ex-esposo não passava de um mentiroso que a traiu e talvez até a prendeu em um longo casamento. Não bastasse isso, Margo convivia com a dor do seu ofício: escrever livros sobre unidade familiar enquanto a sua casa estava partida em variados pedaços, enquanto vivia a dor de ter um filho desaparecido. Essa ironia produziu um sangramento silencioso na personagem. A sua convivência com as pessoas, em qualquer tipo de relação, era atravessada por essa dor, fato que a isolava cada vez mais da projeção de pessoa que ela realmente sonhou para si.

Em uma direção diferente, mas tão oposta assim, Carolyn também vivenciava a aflição do desaparecimento do filho. Porém, nesse caso, a culpada da situação foi ela, ao deixar a filha sob cuidados de uma estranha. Uma mãe que não desejava ser mãe e que teve coragem de assumir isso na frente de outras pessoas. Podem me criticar, mas gostei muito dessa atitude. Carolyn, é claro, fez essa escolha ao casar com um homem de negócios, rico, porém, é preciso considerar que ainda vivemos numa sociedade que supervaloriza e impõe a maternidade, como se a ausência dessa característica desfigurasse a “natureza” da mulher. Será que colocar uma pessoa num mundo nos faz melhor do que as outras pessoas? O problema aqui é que Carolyn caminhou em rotas perigosas, e acabou descontando o descaso do marido em sua filha, repassando para ela a falta de atenção e amor. A cena do quase encontro com Maddison no metrô mostra o total desespero de Carolyn, apresentando de forma mais clara ao telespectador que estamos diante não apenas de uma mãe em conflito consigo mesma, como também de uma pessoa que está perdida dentro de uma vida de propaganda de margarina, onde a felicidade (se é que realmente isso existe) não pode ser mais sentida.

Voltando à Tallulah, o seu comportamento ao levar Maddison é, no meu ponto de vista, bastante questionável. Ela se manteve na mesma zona em que a criança estava, não possuía residência própria e nem emprego fixo. O que ela pensava que iria acontecer? Suas ações, na maior parte do filme, são guiadas pelo ápice da mistura de muitas emoções, fato que a faz afundar cada vez mais. Aqui, vejo uma proximidade dessa personagem com a Aileen Wuornos de Clarlize Theron em Monster (2003), filme de Patty Jenkins. O desenvolvimento da cinebiografia da primeira serial killer mulher noticiada pela mídia norte-americana expõe como, às vezes, uma atitude tomada no calor do momento pode nos colocar em becos sem saída.

Os minutos finais do filme caíram um tanto na obviedade, todavia, isso não desmerece o excelente trabalho que o elenco dessa produção fez com o roteiro de Sian Heder. No início da narrativa, não entendi aquele instante que Tallulah levitou. Quando chegamos ao final, e vemos Margo passando pela mesma situação, a metáfora da gravidade começou a fazer sentido. Em um diálogo lindo, Tallulah fala para Margo como é bom existir a gravidade, pois se ela um dia morresse no apartamento sozinha, seria muito triste pensar que seu corpo ficaria vagando no ar, sem tocar em nada ou em ninguém. Tallulah, em seu instante de levitação, foi levada de seu furgão, já Margo estava sendo levada do parque. Penso que a mensagem do filme, com essa metáfora, foi, talvez, dizer ao telespectador que precisamos (ainda que achamos que não precisamos) ter um lugar para voltar, alguém para nos tocar, um lugar para nos acolher. O desprendimento é algo maravilhoso, porém, ter onde fincar os pés, de certa forma, se torna um consolo, um descanso.

Recentemente, conheci, num desses acasos da vida, um menino de rua. De todos os grupos que são marginalizados pela nossa sociedade, sempre fui tocado, não sei por qual razão, por essas pessoas que, pelas mais variadas razões, possuem a rua como o seu “lar”. Ao ver as atitudes de Tallulah lembrei de algumas coisas que ouvi daquela criança quando conversamos e que me fizeram sentido na construção da personagem de Sian Heder. Como poder julgar as atitudes dessas pessoas que não possuíram referências de família, de escola ou de amigos? É um terreno complexo, que sugere muitas discussões. Por isso, irei deixar a pergunta em aberto para vocês.

Como já comentei no início desse texto, vi essa história como um encontro, ou melhor, uma colisão de abandonos: Tallullah abandonada por sua família, Margo abandonada por seu marido e filho, Maddison abandonada pela mãe e, por fim, Carolyn abandonada pelo marido e também pela filha, como consequência de suas irresponsabilidades. Três mulheres com histórias completamente diferentes, mas unidas pelos descaminhos que a vida nos coloca e pelas frustrações de não termos sido aquilo que sonhávamos ser.

Take 1: A cena final de Tallulah lembrou mais uma vez o filme Monster, na última cena em que Aileen Wuornos é levada do tribunal. A sua expressão de “I don’t care”, de alguma forma, estava desenhada no sorriso de Tallulah.

Take 2: Como foi bom ver Uso Aduba fora da pele de Crazy Eyes. A atriz, no pouco tempo em que esteve em cena, expressou muito bem a maternidade que Carolyn não tinha (fato que deixou essa cena ainda mais comovente), numa performance em que nada lembrou a sua personagem em Orange Is The New Black.

Take 3: Gostei muito quando falaram sobre a origem do nome de Tallulah.  A primeira referência foi pensar no glamour da atriz norte-americana, quando, na verdade, o nome veio de um bar que a mãe da personagem frequentava, como se fosse mais uma forma de dizer que, desde sempre, a rua está encarnada em Tallulah, até nas entrelinhas de sua identidade.

Take 4: De todas as personagens do filme, aqui mais me impactou, e que eu consegui me relacionar mais, foi Margo. Já imaginaram como é ter uma vida em que o seu objeto de pesquisa se torna a sua vida, só que do lado quase oposto?

Take 5: Que bela a cena de Tallulah no píer com Maddison. Acho que numa situação daquelas, no fundo, no fundo, ficamos à espera que alguém grite o nosso nome…

Take 6: Uma das cenas mais tristes do filme foi ver Carolyn chorando perto das roupas de sua filha, todas espalhadas na cama, provavelmente pensando que, ao menos, Maddison poderia ter saído vestida, ou que, se tivesse a filha de volta, iria vesti-la, cuidá-la.

Take 7:

– Carolyn: Eu sou uma pessoa horrível?

– Margo: Nós todos somos. E somos apenas pessoas.

  • Fernanda

    Gostei muito da review, bem interessante e completa. Não assisti o filme ainda, na verdade. Apenas assisti o trailer e adicionei o filme na minha ‘fila’. A resenha me deixou com vontade de ver ainda!

  • Fernanda

    Gostei muito da review, bem interessante e completa. Não assisti o filme ainda, na verdade. Apenas assisti o trailer e adicionei o filme na minha ‘fila’. A resenha me deixou com vontade de ver ainda!

  • unrenan

    Ótima revivew. O filme é tocante e repleto de metáforas. Foram quase duas horas bem gastas.

  • unrenan

    Ótima revivew. O filme é tocante e repleto de metáforas. Foram quase duas horas bem gastas.

  • Nuno

    Bom Dia Diogo,
    Apenas vi ontem o filme e adorei toda a história e a review acima mas discordo de um ponto que é referido no Take 3.
    Durante o almoço a personagem principal confirma ao ex da Margo que o nome é inspirado na actriz americana, no entanto e após ela olhar para a tristeza da Margo com a frase escolhida pelo ex ela resolve inventar a história da origem.
    Pretendeu assim chocar e proteger a Margo. Foi este o meu entendimento.
    Abraços
    Nuno.