Slasher ou como abusar do estilo sem contribuir

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Há algumas características básicas para se definir um slasher, o gênero, mas ele é, basicamente, aquele filme de horror que conta com um assassino colecionando vítimas. A forma como isso acontece varia de filme para filme, mas, na maioria, temos um grupo de adolescente em perigo, e eles vão morrendo um por um. Lembra dessa sinopse chamativa da época das locadoras? É assim que definimos essa subcategoria. O auge aconteceu entre as décadas de setenta e oitenta, mas temos exemplos até hoje. Já se foi produzido muito de acordo com a fórmula, desde filmes bem recebidos às séries de televisão. Além da terrível Scream, temos Harper’s Island, Scream Queens e American Horror Story brincando com algumas características dos filmes. Bates Motel também pode entrar no meio, e mesmo Pretty Little Liars chega bem perto.

Em cena: a atriz Katie McGrath interpreta Sarah Bennett.
Em cena: a atriz Katie McGrath interpreta Sarah Bennett.

Outra característica, além do assassino em série, que é essencial, é uma ligação com o passado, que influencia, de alguma forma, os eventos do presente. Em Slasher começamos com o acontecimento em questão: durante o Halloween de 1988, Bryan e Rachel são assassinados por Tom Winston, que é encontrado ninando a filha recém-nascida do casal, que o próprio executor retirou da barriga da mãe. Enquanto o assassino é mandado para a prisão, a garota cresce longe da cidade. Ela, Sarah Bennett, decide voltar à Waterbury, entretanto, após vinte e oito anos, com o marido, Dylan, e começar uma vida por lá. Sarah quer se dedicar à galeria de arte que decide abrir no Centro. O marido, enquanto isso, assume o cargo de editor do jornal da cidade. Os dois fazem amigos pela cidade, conhecem os vizinhos (mesmo os menos amigáveis) e se estabelecem.

Sarah decide visitar Tom na prisão para descobrir por que ele lhe privou de crescer com seus pais biológicos. Os dois conversam e, aos poucos, uma estranha ligação é formada entre eles, com direito a diversas pistas sobre os motivos que o levaram a fazer o que fez. Sarah, então, enquanto começa a se sentir perseguida, de alguma forma, descobre que seus pais se dedicavam a vídeos eróticos caseiros: o pai filmava, a mãe atuava e a cidade inteira participava. É nesse cenário que alguém fantasiado decide fazer uma limpeza na cidade e matar diversas pessoas baseado nos sete pecados capitais, tão conhecidos por nós graças ao uso excessivo na ficção.

Em cena: Sarah (Katie McGrath) decide voltar à cidade e encontrar Tom Winston (Patrick Garrow), o assassino de seus pais.
Em cena: Sarah (Katie McGrath) decide voltar à cidade e encontrar Tom Winston (Patrick Garrow), o assassino de seus pais.

Slasher é uma série canadense que foi ao ar esse ano a partir de março e finalizou sua transmissão em abril. Ela foi ao ar pelo canal Chillier, sua primeira série original, e foi produzida em associação com o canal Super Channel. Aaron Martin, produtor e escritor canadense, foi responsável pela criação da série e escreveu todos os oito episódios. Em forma de antologia, a primeira temporada tem sua história iniciada em um Piloto com bastante potencial e encerrada no oitavo episódio. Não muito conhecida, a produção foi bem recebida por mídias e canais voltados ao horror e fãs do gênero, principalmente fãs de slashers, e essa é uma boa maneira de identificar se a série deve ou não figurar em sua futura watchlist.

A protagonista é interpretada por Katie McGrath (Merlim), mas o resto do elenco não é tão conhecido. Gosto da atriz, mas a personagem é desinteressante, e em poucos momentos ganha nossa torcida ou nossa atenção. Isso se arrasta para o restante das personagens, piorando em alguns casos. Brandon Jay McLaren interpreta o marido de Sarah, que guarda um segredo, e este, quando revelado, torna o relacionamento dos dois instável. Steve Byers é Cam Henry, um policial, velho conhecido da artista e às vezes intermediário entre ela e Tom.

Em cena: os atores Katie McGrath, como Sarah Bennett, e Brandon Jay McLaren, como Dylan Bennett.
Em cena: os atores Katie McGrath, como Sarah Bennett, e Brandon Jay McLaren, como Dylan Bennett.

A temporada da série tem altos e baixos, com momentos bem divertidos, mas sempre regados com furos no roteiro e acontecimentos inverossímeis. Temos um assassino com uma fantasia bem legal, e uma obsessão por Sarah que é explicada aos poucos. Há influências muito nítidas aqui e a repetição de diversos formatos e subtramas que vimos em outros lugares, e só pelo parágrafo anterior você já deve ter lembrado de uma coleção de séries e um filme. Mesmo assim, a série sabe abusar de seu estilo e dar ao público muito do que ele espera, como cenas de sangue, mortes criativas e cenas de perseguição.

A fotografia não se esforça muito, então em poucas situações a vemos inspirada. Muitas vezes a câmera está apenas lá. Isso é compensado pelo gore, que sempre favorece a experiência e está tão pouco presente em séries que não podemos dispensá-lo. Cada assassinato é relacionado ao conselho bíblico de como puni-lo, e pensar sobre como a punição acontecerá é um exercício que fazemos junto às personagens.

A exploração do passado de algumas personagens é criativa. Como exemplo, temos a avó maternal de Sarah, Brenda Merrit (interpretada pela atriz Wendy Crewson), que foi responsável por uma tragédia no passado e terá que confrontar o serial killer para se redimir de seus pecados. Outro segredo envolve o desaparecimento de uma garota, Ariel, cinco anos antes — um mistério que é resolvido em paralelo e tem seu desfecho no sexto episódio, que quase funciona independente.

Falta personagens interessantes, mas temos Alison Sutherland (Mayko Nguyen) para compensar. Ela é responsável pelo jornal onde Dylan trabalha e tem uma enorme ambição e obsessão por notícias. Conforme os episódios passam, e ao perceber que seu funcionário está ganhando mais atenção que ela (em boa parte por explorar a dor da esposa, que é a perseguida e aparente musa do assassino), ela toma decisões questionáveis, como encontrar o assassino para entrevistá-lo — a entrevista acontece, por mais bizarro que isso seja, e este é um dos momentos de maior tensão no seriado, principalmente porque a única personagem que vale a pena acompanhar está em perigo.

Temos ainda um casal homossexual, que é sempre bem-vindo, mas que são tão chatos que não podemos torcer muito por suas vidas.

A atriz Mayko Nguyen interpreta Alison Sutherland, que protagoniza uma das cenas mais bizarras do seriado.
A atriz Mayko Nguyen interpreta Alison Sutherland, que protagoniza uma das cenas mais bizarras do seriado.

Infelizmente mesmo as melhores cenas acontecem em episódios que se arrastam e com cenas inúteis. Não só a protagonista faz coisas estúpidas, naquele sentido de que ninguém faria, como o restante. A impressão é de que ficamos esperando pela cena da morte e que o restante é dispensável. Além disso, depois de um tempo, fica meio questionável o motivo de Sarah continuar pela cidade, principalmente quando está em perigo o tempo todo. O relacionamento dela com Tom também é bem estranho, mas o sétimo episódio dá conta (de um modo bem desajeitado) de explicar. Neste episódio, aliás, ficamos sabendo da identidade do assassino.

O final é regado de muito flash-back explicativo e momentos embaraçosos. Sarah atravessa a cidade sendo perseguida, entre outras escolhas duvidosas do roteiro. Temos uma resolução, entretanto, e uma protagonista que decide ser interessante nas últimas cenas. Como quanto maior a pretensão maior o erro, e aqui ela não era tão grande, não posso dizer que a decepção seja total. Perto de Scream, Slasher parece ter sido dirigida por Hitchcok. Perto de outras grandes produções, misteriosas e “inteligentes”, que levantam muitas perguntas, mas não respondem nenhuma, Slasher se sai bem. Não chega ao nível de pecado capital deixá-la passar, contudo, e a torcida é para que o canal Chiller acerte mais na próxima temporada e série.

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#MêsDoHorror

Esse post faz parte do projeto #MêsDoHorror que tem como objetivo falar, durante outubro, de séries de horror/mistério/fantasia que não tiveram textos aqui no SM no período de 01/10/2015 a 30/10/2016.

  • Alan

    Sou fã de slashers, mas a série é muito fraca, na época eu vi dois ou três episódios. Os atores são fracos e o roteiro ruim.

    • Danilo

      Tbm não curti.
      Assisti 3 ou 4 episódios e larguei!

  • Cristian Baier

    Comparado a bombas como AHS, Scream, Scream Queens, Slasher é quase uma obra de arte.

  • Carlos

    Assisti e curti. Vale o entretenimento e acredito que a série respeitou o gênero.

  • Vine

    Acho que foi um “Slasher” com menos slash que já vi.

  • Rei Gelado

    Por ter tido 6 episódios só até que entreteve. Tava mais interessante até o fechamento da história da menina sequestrada. O último episódio que deveria ser o ápice foi muito fraco, justamente por terem revelado o assassino no final do anterior, culminando também com uma cena pra lá de tosca quando a protagonista vai matar o assassino… Outro ponto negativo, o assassino ser apenas uma pessoa. Conhecido da cidade e de todos, só se tivesse poder de se teletransportar para se dividir entre o assassino e sua pessoa pública, até porque ele aparecia diversas vezes de dia.

    Valeu a tentativa, adoro antologias, verei a próxima temporada (bem que poderia ser num acampamento de verão, estilo Jason).

  • João Vitor Maia

    Não é boa gente, mas pra quem é fã do gênero e não for muito critico pode ver de boa.

  • Carolina Favero

    Gostei de slasher fui ate o final só odiava mesmo a protagonista que pra mim era uma terrivel atriz, claro que tinha muitas coisas q eram obvias ou ridiculas mas da pra se divertir hahah. no aguardo da s2