Shameless 7×04: I Am a Storm

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Fiona e sua busca por autonomia.

A questão central que está sendo construída aos poucos na sétima temporada de Shameless é indispensável. A relação de Fiona e sua família precisa de um futuro, e somente ela até agora foi capaz de observar isso. Durante I Am a Storm, ela discute com Lip sobre a ideia de se desvencilhar completamente da responsabilidade de cuidar dos irmãos (e da forma mais brusca possível). Acontece que Lip enxerga o cenário por um ângulo de proteção familiar, e isso óbvio que entristece Fiona por estar cansada de ter que estar o tempo todo conectada com tudo o que está acontecendo entre eles. Ela acusa Lip de estar usando esse argumento apenas para benefício próprio, enquanto ela concentra energia na reestrutura econômica do Patsy’s para redimir o tempo em que – por razões claras – não pôde investir nela mesma.

Apesar de tudo essa decisão continua sendo complicada por diversas razões. Será que a Fiona da 7º temporada esqueceu que – por condição jurídica – é a guardiã legal dos seus irmãos? Esse é outro ponto que pode complicar essa decisão. Veja bem, não estou criticando o fato de Fiona realizar essa mudança para benefício próprio, entretanto seria ótimo ela ter alguma conciência dos resultados que isso pode acarretar. A Fiona da 7º temporada não é a mesma da 5º, por exemplo, onde ficou o tempo todo lidando com os absurdos que as crianças se envolviam. Mas continua sendo a Fiona jovem, rebelde e resistente que não desiste fácil quando coloca uma ideia na cabeça. O episódio acertou demais ao ilustrar isso, especialmente na cena da festa no restaurante. Ela segue na árdua rotina rumo ao seu futuro, mas com um olhar preocupado no futuro de todos que ama. E foi belíssimo de assistir essa transformação.

A temporada está sendo inteligente ao focar em dois grandes plots – Fiona e seu desejo por independência versus Lip e sua ambição – que acabam servindo de colunas para os demais personagens. Gostei demais dessa linha de raciocínio que Shameless sutilmente monta para o espectador e o resultado final nunca decepciona; a diferença é que esse ano a narrativa parece estar mais pé no chão em comparação com as temporadas passadas.

Ian em I Am a Storm - Shameless
Ian em I Am a Storm – Shameless

O mesmo se aplica à Ian Gallagher e seu primeiro contato com o movimento LGBT e as diversas definições que envolve a comunidade. O episódio claramente se preocupou em exibir a ignorância do jovem em relação ao discurso contemporâneo tão perto do seu núcleo familiar mas ao mesmo tempo distante. Distante pois Ian cresceu sem a instrução de alguém capaz de desconstruir todos os conceitos que ele aprendeu dentro do seu universo miserável e desprovido de uma educação livre. Tanto que seus primeiros relacionamentos foram reflexos dessa heteronormatividade vigorosamente estampada na sua personalidade. Confesso que esse detalhe não me deixava confortável e por isso foi ótimo ver que Ian (assim como muitos jovens hoje em dia) está aberto pra compreender melhor sobre identidade de gênero e orientação sexual. Ao figurar ele como um completo ignorante Shameless abre portas para discutir um assunto valioso, atual e que pode ser uma baita experiência para o público se familizar com esses avanços.

O episódio acertou em diversos fatores, até mesmo no plot filosófico (e levemente sarcástico) que envolveu Frank e a vizinhança. I Am a Storm marcou a estreia de Emmy Rossum na direção e já deu pra notar muito bem o olhar que ela tem ao lidar com Fiona. Sua perspectiva foi ótima para ampliar essa dissociação da protagonista com a família. Acho ótimo quando a produção oferece essa oportunidade para atrizes/atores tomarem partido na direção pois eles são (em comparação com o resto da equipe) os que mais compreendem as nuances dos personagens. Foi de uma emoção singular observar Fiona travando uma batalha silenciosa na frente do Patsy’s após a festa ilegal que promoveu como marco inicial de sua decisão. Nesse momento Rossum conseguiu capturar a vulnerabilidade de Fiona e só enriqueceu mais sua caracterização. Foi lindo, emocionante e o melhor, foi Shameless mais uma vez provando que consegue nos emocionar no meio de tanta tribulação.

Foi Shameless sendo Shameless por uma perspectiva ímpar.

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PS1: Eu sempre adorei os momentos “Anteriormente em Shameless” em que usam um personagem para nos xingar e repassar os fatos dos episódios anteriores. Mas o desse episódio (com a tradução simultânea do choro do bebê Yevgeny) foi MEMORÁVEL.

PS2: Quando eu começo a me entediar com Debbie ela vai lá e faz algo interessante. Pena que a cena do encontro que ela teve foi cortada. Não sei se irão explorar isso nos próximos episódios, mas uma imagem do encontro foi divulgada pela imprensa e segue abaixo como curiosidade:

debbieencontro

  • João Carlos

    Feliz por Fiona está cumprindo o que prometeu. Acho que essa questão dela ser a guardiã legal dos irmãos não ira atrapalhar, muito, já que ela estava cansada mais dos problemas mudanos que viam para ela resolver. Ao menos Lip no final viu que estava sendo turrao e prece que apoiara a irmã na decisao que ela tomou.
    Essa abordagem da identidade de genero achei super valido nesse episodio e espero que seja explorado pela série.