River, o horror construído a partir da perda

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John River está conversando com sua parceira. Além de uma química que se nota de primeira, ambos têm aquele modo divertido de conviver através de implicância. São parceiros e passam boa parte do tempo dentro de um carro, então precisam arrumar um modo de deixar as coisas divertidas, nem que seja através de citações fora de hora de curiosidades inúteis. A noite parece comum, ambos lancham enquanto dirigem pela cidade, Stevie, a parceira, até mesmo canta uma música de Tina Charles — que sabemos que ficará em nossas cabeças. Tudo muda quando River reconhece um carro que passa por eles: o carro que viu noites antes; o carro que passou por ele e a parceira enquanto se preparavam para comer; o carro cujo passageiro atirou em Stevie e tirou a sua vida.

“Amor. Tenho tentado me lembrar como é se sentir assim — apaixonado. Faz um tempo. Seja qual for a razão, isso me fugiu. O mais próximo que eu cheguei pareceu-me intoxicação alimentar. Em livros, filmes e peças, ele é tão atraente e complexo. Deveria haver mais de uma palavra para o amor. Eu já vi o amor que mata, o amor que redime. Eu já vi o amor que acredita no culpado, e o amor que salva o abandonado…  O que nós fazemos pelo amor… Morrer, até.”

— John River, River.

É essa perseguição de carro que abre River, a série britânica que já apareceu por aqui no SM no TOP 11 Séries/Minisséries Britânicas Imperdíveis de 2015. Tendo um bom desenvolvimento como drama, mas sendo constantemente classificada como Crime, temos um mistério durante a primeira temporada, assim como em Trapped, e isso já é desculpa suficiente para fazer um texto-complemento ao de Fernanda. Além disso, mesmo disponível há tanto tempo na Netflix, não vejo a série sendo muito comentada por aí, o que é uma pena, afinal, ela não só entregou um dos melhores Pilotos do ano passado como uma das melhores temporadas.

River é um policial metropolitano cuja parceira foi assassinada. Isso não o impede de conviver com ela, de certa forma — pelo menos com a visão dela que sua mente cria a partir da reunião de várias características e do convívio deles. A doença da personagem principal não é explicada ou explorada, então tudo o que sabemos é que ele tem essa condição e que não há nada de sobrenatural sobre ela. Ou seja, não é uma série sobre fantasmas. River, inclusive, não acredita em fantasmas. Ele não só vê a parceira, como diversas vítimas de casos trágicos que ele precisa resolver e um serial killer do século dezenove — uma das coisas mais estranhas na produção. A série começa três semanas após o assassinato e nós o acompanhamos enquanto ele tenta descobrir quem foi o autor do crime e vê sua saúde mental cada vez mais debilitada.

Em cena: Os protagonistas Stellan Skarsgård (River) e Nicola Walker (Stevie).
Em cena: Os protagonistas Stellan Skarsgård (River) e Nicola Walker (Stevie).

A série foi criada e escrita pela premiada roteirista britânica Abi Morgan, que venceu o Emmy há três anos pela minissérie The Hour. Ela escreve todos os seis episódios da série, o que sempre é um ponto positivo, mesmo que nunca paramos para reparar nisso. Indo ao ar a partir de 13 de outubro e finalizando sua transmissão em novembro pela BBC One, a série está atualmente disponível no catálogo da Netflix Brasil. Cada episódio tem duração de pouco mais de cinquenta minutos.

Não há muitas personagens, e a série se concentra em apresentar e explorar as personalidades de River e Stevie, por mais que sempre a enxerguemos através da perspectiva dele. O tipo de relacionamento que eles tinham, a importância dela na vida dele e o passado de ambos são mostrados aos poucos, sem pressa e deixando o telespectador digerir com calma mesmo as coisas mais incômodas. O roteiro utiliza de muitas referências e citações tiradas da Literatura e da cultura pop, que acabam servindo como enfeite, mas que não deixam de ser bem-vindas.

“Se você se sente solitário quando sozinho, você está em má companhia.”

Jean-Paul Sartre, citado por John River na série.

O ator sueco Stellan Skarsgård interpreta o protagonista, e ele já é razão suficiente para se ver a série, como Fernanda mesmo comentou em seu já citado TOP 11. O ator sabe dar credibilidade a seu personagem, deixando que ele deslize entre arrogância e fragilidade — às vezes confundindo as duas. Como a câmera o abandona raras vezes, torna-se óbvio apontar que ele carrega a série e não deixa transparecer o esforço que é ter essa responsabilidade. O elenco inteiro, devo dizer, faz um bom trabalho e casa muito bem com um roteiro inteligente, que não se resume em frases de efeito e apresenta personalidades fortes, complexas e enigmáticas.

Eddie Marsan interpreta Cream, um assassino do século dezenove que atormenta River.
Eddie Marsan interpreta Cream, um assassino do século dezenove que atormenta River.

A inglesa Nicola Walker é Stevie e também assume um papel difícil. Stevie nunca se mantém a mesma, e a atriz sabe acompanhar essas nuances. As mudanças ocorrem porque quanto mais River descobre sobre o passado da ex-parceira, mais ele muda a forma como a vê — e sua mente acompanha-o no processo. Stevie vai de carinhosa e maternal à cruel e misteriosa rapidamente. Mesmo nossa percepção sobre ela muda e só na resolução que talvez percebemos se ela é uma vítima de uma vida complicada, ou se acabou sucumbindo diante de escolhas ruins e duvidosas. Ou ambos.

“Sexo é uma coceira para se coçar. Amor é uma coceira tão embaixo e longe em suas costas que é impossível coçar com sua própria mão.”

— Stevie, River.

A química entre esses dois atores é ótima, e as cenas que dividem juntos são as minhas favoritas. Temos ainda Rosa, interpretada pela atriz Georgina Rich, a psicóloga responsável por ajudar o protagonista a lidar com suas questões. As cenas que ambos dividem também se destacam, uma vez que ela é a única que tem coragem para fazer com que ele enfrente e reaja a coisas que ele não admite a existência. Também se destacam Lesley Manville interpretando a inspetora chefe Chrissie Read, cuja vida passa por uma reviravolta caótica, e o detetive Ira King, novo parceiro de River, interpretado pelo ator Adeel Akhtar. Este é um ótimo exemplo da qualidade do roteiro, uma vez que não se torna alívio cômico forçado, como outras séries fazem, mas alguém essencial no curso da investigação.

À esquerda, o ator Adeel Akhtar, que interpreta o detive Ira King, e à direita a atriz Georgina Rich, que interpreta a psicóloga Rosa.
À esquerda, o ator Adeel Akhtar, que interpreta o detive Ira King, e à direita a atriz Georgina Rich, que interpreta a psicóloga Rosa.

Além de falar dos temas óbvios à história, o texto trabalha com diversos outros sem nunca parecer se esforçar muito. Entre outras coisas, falamos sobre preconceito e discriminação, culpa, amizade, fidelidade e feminismo — este último está lá, basta que prestemos atenção. Por mais que abra espaço para diálogos carregados, a série não perde tempo preenchendo seus minutos. Há sempre a sensação de que estamos caminhando, de que a investigação está nos levando a algum lugar. Em série com esse ritmo, é importante que isso ocorra para que não confundamos ritmo lento com roteiro estagnado.

Lá pela metade da temporada, e depois de várias dicas, fica até previsível a resolução do crime/mistério para os mais atentos, mas isso não tira o peso e a melancolia da verdade quando descoberta. O final é cruel, assim como a saga do River. Se você acompanha The Leftovers e se sentia incomodado, como eu, com a doença claustrofóbica de Kevin e seu relacionamento com uma Patti que só existe para ele, vai sentir certo desespero aqui, onde as coisas são piores. Falando em séries, a série pode servir de recomendação para os órfãos de The Night Of, porque tem suas semelhanças — se bem que eu a considero, River, como uma versão melhor editada, e sem episódios que passam de uma hora por capricho.

“A pessoa a quem se deve temer mais é aquela a quem você entregou toda a sua confiança.”

John River, River.

A relação do protagonista com suas visões pode nos sobrecarregar depois de um tempo e ficar cansativa, mas é preciso refletir sobre até que ponto isto foi feito de propósito. Algo que me incomodou foi a irresponsabilidade com a qual todos a volta de River lidaram com sua condição, porque em diversos momentos ele pareceu inapto sequer a dirigir. A série poderia ter recorrido à fórmula de procedural, mas isso não acontece, e só a favorece. Temos um caso no primeiro piloto muito bom e que serve perfeitamente para nos apresentar River, suas habilidades e seus problemas. No terceiro episódio, ganhamos o último caso, mas este é fraco e tem uma resolução boba. Depois desses dois, a série se volta ao caso de Stevie, que é tudo o que nos interessa.

Não há notícias sobre segunda temporada, e isso é algo positivo. Tudo o que era para ser resolvido o foi no último episódio. Além de inteligente, a série pode servir de gatilho dependendo do momento em que você está, então recomendo precaução. Você pode ser acometido pela realidade da falta, que, conforme deixa transparecer John River, não vai passar. Assim como o detetive não encontra paz ou cura milagrosa para sua condição, ele não encontra cura para a saudade e uma forma de aliviar a perda. Há uma cena de dança, mas que não nos enganemos: a saudade é eterna.

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#MêsDoHorror

Esse post faz parte do projeto #MêsDoHorror que tem como objetivo falar, durante outubro, de séries de horror/mistério/fantasia que não tiveram textos aqui no SM no período de 01/10/2015 a 30/10/2016.

  • Val Carnaval

    Essa série é MARAVILHOSA.
    Uma das poucas que me emocionou de verdade e fez refletir sobre sobre a vida.
    Faz parte do meu top 5 de melhores séries de todos os tempos ♡

  • Euron_Greyjoy

    Baita série, me surpreendi, mesmo com o ritmo um pouco lento mas condiz com a proposta da série

  • Alan

    Nunca me interessei, um dos cartazes mais fracos que tem. E pelo artigo, não me interessei também 🙁

  • carol

    Essa série é incrível!!! <3

  • Aleski

    Uma das melhores séries que eu assisti! Ela é incrível, tocante, com uma história profunda e bem conduzida.

  • Rita Machado

    Descobri “River” aqui mesmo, num artigo sobre séries britânicas imperdíveis, e a autora do texto estava certíssima. “River” é sensacional, e eu a recomendo para todos os amigos. Agora vou enviar também essa review, que está excelente. Parabéns, Welson!

  • Maria Clara

    Excelente minissérie. Eu não sei nem descrever direito as sensações. O ator sueco Stellan Skarsgard imprime uma verdade tão intensa ao personagem que é impossível não se envolver. Recomendo. Parabéns pela review, muito boa também. ; )