Representatividade Negra nas Mídias Importa Sim!

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O ideal seria vivermos em um mundo onde quando falássemos de atores e atrizes não precisássemos adjetivá-los como negros, gordos, homens, mulheres, gays… E, simplesmente, nós os chamaríamos de atores ou atrizes, nem mais e nem menos. Mas, definitivamente, o mundo ainda não é o ideal e talvez nunca seja! Infelizmente ainda utilizamos de adjetivações quando queremos nos referir a atores como Denzel Washington e Idris Elba, ou quando falamos de atrizes como Viola Davis e Taraji P. Henson. Não pretendo com esse texto levantar o velho debate sobre se existe ou não racismo e/ou exclusão de negros nas produções midiáticas e muito menos pretendo fechar os olhos para a crescente representatividade negra que desponta timidamente dentro desse segmento na atualidade, vide os trabalhos de Shonda Rhimes e Ava DuVernay. Porém, sou de um tempo onde o negro na TV era apresentado quase que exclusivamente ou de forma caricata (Os Trapalhões com piadas de cunho racista destinadas para Mussum) ou nas séries de comédias (Um maluco no Pedaço e Eu a Patroa e as Crianças) ou sofrendo os horrores do período escravocrata brasileiro nas inúmeras novelas de “época” veiculadas na TV aberta brasileira que me causavam um verdadeiro pânico.

Mussum, personagem icônico de Os Trapalhões vivido por Antônio Carlos Bernardes Gomes
Mussum, personagem icônico de Os Trapalhões vivido por Antônio Carlos Bernardes Gomes

Não tiro o mérito dessas produções, não nego a sua relevância em incluir, mesmo que de forma equivocada, a figura do negro e também não as condeno completamente, afinal, era o pensamento que se cultivava naquela época. Mas é extremamente mais difícil para pessoas negras em formação de identidade se enxergarem de forma positiva quando não há uma representatividade negra positiva no conteúdo midiático que ela consome diariamente ou quando o negro é retratado em papéis que só reforçam estereótipos negativos convencionados. A televisão necessariamente não é o espaço da narrativa do real, mas da construção do real. Sendo assim, ela (a televisão) preenche muitas lacunas subjetivas identitárias não trabalhadas no bojo familiar quando o assunto é representatividade (negros, mulheres, gays…). Vem daí a necessidade de uma maior representatividade negra nesse segmento e é extremamente importante que essa representatividade seja positiva, que não obedeça aos padrões de beleza previamente estabelecidos e que não seja meramente decorativo ou para cumprir uma suposta cota.

Viola Davis exibe seu Emmy após histórica premiação. Representatividade Negra nas Mídias Importa Sim!
Viola Davis exibe seu Emmy após histórica premiação. Representatividade Negra nas Mídias Importa Sim!

Hoje é 20 de novembro, Dia da Consciência Negra e, como dramaturga, atriz e mulher negra, venho pensando muito sobre a representatividade negra nas mídias e em como a possível ausência dessa representatividade pode causar uma morte simbólica nas gerações vindouras, já que na atualidade o conteúdo midiático ocupa um grande papel na vida das crianças e jovens do mundo inteiro. Em 20 de setembro de 2015, a atriz Viola Davis entrou para a história ao ser a primeira atriz “negra” a receber um Emmy na categoria de Melhor Atriz de drama por sua brilhante atuação na série How to Get Away with Murder e por emocionar o mundo com o um potente e significativo discurso onde dizia em um dos trechos que:

“A única coisa que diferencia as mulheres negras de qualquer outra pessoa é a oportunidade.”

A fala pró-igualdade racial da estrela Viola Davis, em um momento tão pessoal e emblemático suscitou muitas discussões e até algumas controvérsias sobre a função social de prêmios como o Emmy.

A atriz Nancy Lee Grahn (General Hospital), chegou a escrever em uma rede social que a cerimônia do Emmy não era um fórum para a igualdade racial de oportunidades. Se o Emmy não é o “lugar” para esse tipo de debate, onde seria esse “lugar”, Nancy? Mulheres negras só tinham ganhado Emmy em categorias de comédia e minissérie e, curiosamente, na história dos 67 anos do Emmy Awards somente atrizes brancas haviam levado este prêmio de melhor atriz na categoria dramática. Por esse motivo, por estar em um local de grande visibilidade mundial, o discurso de Viola Davis atingiu em cheio o alvo, foi oportuno, emocionante e relevante. Em épocas onde situações de injuria racial ou mesmo de racismo escandaloso acontecem com Michelle Obama, Maria Júlia Coutinho e Tais Araújo, pessoas públicas e carismáticas, que gozam de grande exposição das suas figuras em vários tipos de mídias sociais, por isso, urge a necessidade da igualdade de oportunidades para os atores e atrizes, independente das suas especificidades, para que a representatividade não fique no campo da utopia ou para que tudo não se resuma à máxima Hollywoodiana do dark skinned black X light skinned black.

Empire, How to Get Away with Murder e Scandal. Representatividade Negra nas Mídias Importa Sim!
Empire, How to Get Away with Murder e Scandal Representatividade Negra nas Mídias Importa Sim!

O mundo mudou! Diferente da época em que eu era adolescente, hoje podemos assistir séries como: Empire, How to Get Away with Murder, Scandal, Mister Brau, Luther, Black-ish, Insecure, The Get Down, Queen Sugar, Luke Cage, American Crime Story e a estreante Pitch, onde a figura negra é apresentada de forme positiva, coerente, com ações comuns e concretas como as ações efetuadas por quaisquer outras pessoas, independente da etnia.

Atualmente me agrada muito observar a naturalidade que as crianças esboçam ao assistir desenhos com protagonistas que representam a diversidade tais como: Doutora Brinquedos (a série narra a história de uma menina negra de seis anos chamada Dottie “Doc” McStuffins, que sonha em um dia ser uma médica bem-sucedida como a sua mãe), Static Shock (mostra as aventuras de Virgil Hawkins, um estudante afro-americano) e Go, Diego, go! (onde a latinidade está presente na série através da etnia de Diego e da sua irmã Alícia). Ainda nos resta um longo caminho pela frente para alcançarmos uma mídia mais representativa, respeitadora, inclusiva e igualitária, mas como sabiamente falou Nelson Mandela:

“Ninguém nasce odiando outra pessoa pela cor de sua pele, por sua origem ou ainda por sua religião. Para odiar, as pessoas precisam aprender, e se podem aprender a odiar, elas podem ser ensinadas a amar. E, quando se aprende a amar, o mundo passa a ser seu!”

Representatividade negra nas mídias importa sim!

Ainda em tempo:

Gratidão ao Michel Arouca por sempre nos oportunizar um espaço no SM para a publicação de textos opinativos. Valeu, Big Boss!

Gratidão a Sthefani Cordeiro, Professora e Historiadora, que contribuiu muitíssimo para que esse texto existisse.

  • Helaine Marina

    Sensacional! Parabéns, Vera.

    • Vera Tocantins

      Brigadão, Helaine!

  • Luiza Silva

    Sim um longo caminho pela frente,ótimo texto ,não sou otimista como você,mas sempre bom palavras de otimismo ,sucesso.

    • Vera Tocantins

      Sempre opto pelo caminho do otimismo. A vida em si já nos oferece inúmeras razões para a desesperança. Daí conservar esse ar otimista é até um mecanismo de defesa contra a crueza do cotidiano.

  • Jose X.

    muito bom!

    minha impresão é que nos EUA a representatividade de mulheres negras na televisão é algo superado, haja visto o grande número de atrizes negras com sucesso…não parece ser o caso com atores negros, no entanto

    • Vera Tocantins

      Superado ainda nao está, José. Basta observar a discrepância entre o número de mulheres não negras que são protagonistas nas produções televisivas americanas e comparar com o percentualde mulheres negras que executam o protagonismo nesse mesmo tipo de produção. A conta não bate. Apesar de o mundo ser extremamente numérico e quantitativo, nao devemos nos fixar somente nesse ponto. Precisamod observar que essa situação está mudando e, muito por conta das histórias escritas ou produzidas por mulheres negras empoderadas (Shonda, DuVernay..) para mulheres emponderadas, conscientes e representativas. Essas novos produções correm por fora e ajudam a dar maior visibilidade para essas atrizes, mas já há boas histórias escritas para atores “negros” (Luther, Luke Cage). O que falta mesmo é oportunidade, como falou a Viola Davis.

      Gratidão pelo seu comentário, José!

  • Sthefani Cordeiro

    Parabéns Vera pelo texto maravilhoso e ao SM por dar espaço a um texto como este. É extremamente importante que um site com o grau de alcance do SM veicule esse tipo de conteúdo para refletirmos. Fico feliz de ver esse debate aqui. Parabéns aos envolvidos.

    • Vera Tocantins

      Olá, Sthefani!

      Manifesto o mesmo sentimento que você em relação ao SM e ao espaço que nos é oportunizado para expressarmos a nossa opinião sobre temas tão relevantes e necessários.

      O Debate sobre questões reflexivas, atuais e controversas tem que ser levado para todos os lugares, todas as plataformas e para todas as pessoas. E o SM também é o lugar para se debater tais temas.

      Gratidão pela parceria constante, amiga!

      • Sthefani Cordeiro

        Feliz por essa parceira Rainha!!!

  • Maurício

    Texto excelente. Palmas!

    • Vera Tocantins

      Texto necessário também!
      Gratidão, Maurício!

      • Maurício

        Obrigatório, Vera.
        Parabéns novamente.

  • Texto lindo, emocionante. Debate mais que necessário. Parabéns, rainha. Vera e Heda, que parceria maravilhosas <3

    • Vera Tocantins

      Isso mesmo, Dácio!
      Debate mais que necessário mesmo.
      Beijão, Stranger!

  • Kin Jordan

    Parabéns por esse texto incrível Vera!! Adoro ver o SM abrindo espaço para temas como esse, assim como para outros tão importantes quanto.

    • Vera Tocantins

      Kin, amigão!
      Fico feliz pelo SM nos oportunizar esse espaço para discorrer sobre um tema tão importante. Nós, colaboradores do SM, somos gratos ao Michel por ele sempre embarcar nas nossas ideias sem medos ou reservas.

  • Ótimo texto Vera, e parabéns ao Série Maníacos, por abrir espaço para esse debate. Isso é muito importante.

    Tem um pequeno detalhe, que me deixou curioso. Onde “Um Maluco no Pedaço” é caricato? O protagonista? Um dos motivos da série me agradar, é justamente por representar o negro de diferentes formas, em variados papéis. Até então, nunca havia pensado nela como uma representação errônea.

    • Vera Tocantins

      Olá, Nicolas!

      O caricato faz referência aos Trapalhões e ao tratamento direcionado ao Mussum e não a Um Maluco no Pedaço.

      “…Ou nas séries de comédias…” é que faz referência as séries Um maluco no Pedaço e Eu a Patroa e as Crianças.

      A série Um Maluco no Pedaço não é caricata, ela é apenas comédia com arquétipo do negro engraçado, apesar de ser apresentada em um núcleo com pessoas negras bem sucedidas, permanece reproduzindo um simulacro muito comum para a época em que esteve em exibição. Como disse no texto, tem os seus méritos, mas hoje precisamos cultivar um outro tipo de mentalidade. uma mentalidade mais expansiva e menos restritiva.

      Obrigada pelo comentário, Nicolas.

  • Marcelo

    Parabéns pelo fantástico texto e ao site que dá espaço para lermos e debatermos assuntos importantes como esse e de outras minorias como os LGBT+.

    • Vera Tocantins

      Obrigada por comentar aqu, Marcelo. Que as chamadas minorias sempre possam encontrar voz nos espaços mais inimagináveis e diferenciados.

  • Lucas Vale

    “Na minha mente, eu vejo uma linha. E sobre essa linha que eu vejo campos verdes e flores lindas e belas mulheres brancas com seus braços esticados para fora sobre essa linha. Mas eu não consigo chegar lá, não sei porque. Eu não consigo superar essa linha.” – Harriet Tubman

    Com este texto que a Viola falou no seu discurso, eu digo que tenho fé que essa linha começara a se apagar. Belíssimo texto Vera.

    • Vera Tocantins

      Lucas, acho esse texto do discurso da Viola tão impactante, reflexivo e cheio de uma esperança tão profunda que nos faz acreditar no amanhã.

      Me emociono toda vez que o revisito, porque foram e são palavras muito poderosas de uma mulher com um passado sofrido, mas que usou um espaço privilegiado e um momento tão particular para dar voz a todas as outras mulheres que sequer foram cogitadas um dia.

      Gratidão por você ter comentado aqui, Lucas!

  • Carolina Alvarenga

    Um maluco no pedaço, era pejorativa ? Eu gostava na minha opinião era diferenciada por mostrarem negros bem sucedidos.

    Eu tenho muitos ídolos negros muitos desses citados por você, eu sei que tanto lá como cá existe racismo mas eu tenho impressão que eles estão anos luz de nós, porque no Brasil só consigo citar Lázaro ramos, tais Araújo e Camila pitanga como atores recorrentes na globo agora nos EUA temos bem mais Denzel, foxx,halley Berry,viola,lupyta,will Smith, thandie newton,jhon boyega,idris(ingleses Ok) Eddie Murphy,etc etc, td bem que lá são milhares de seriados mais os filmes mesmo assim no Brasil percebo que somos mto atrasados

    • Vera Tocantins

      Olá, Carolina!

      Não disse que a série “Um Maluco no Pedaço” é/era pejorativa. Conforme respondi a um coleguismo mais abaixo: A série Um Maluco no Pedaço não é pejorativa, ela é apenas uma comédia com arquétipo do negro engraçado, apesar de ser apresentada em um núcleo com pessoas negras bem sucedidas, permanece reproduzindo um simulacro muito comum para a época em que esteve em exibição. Como disse no texto, tem os seus méritos, mas hoje precisamos cultivar um outro tipo de mentalidade. Uma mentalidade mais expansiva e menos restritiva.

      Sobre a questão da Representatividade americana e a brasileira

      • Carolina Alvarenga

        A entendi não sabia disso. Até pq na época assistia pouco seriados era só no SBT mesmo

        • Vera Tocantins

          É, não tínhamos uma percepção ampla naquela época. Já agora podemos avaliar de forma desapaixonada as entrelinhas quando a questão se refere a representatividade negra na mídia.

  • DarkAngelblue

    eu concordo com vc mas quem é Nancy comparada a Viola Davis, hahaha.Ela carrega um seriado nas costas sem contar que esta sendo cotada para o próximo Oscar pelo filme que ela fez com o queridissimo Denzel Washington. De fato racismo não foi abolido em nenhum lugar do mundo mas seguindo o raciocínio da coleguinha debaixo, aqui no Br estamos muito mais atrasados, enquanto lá vemos presenças quase onipresentes de Morgan Freeman, Samuel L Jackson, Denzel, Eddie Murphy nos anos 90, Whoopy Golberg tb nos anos 80,90 aqui patinamos nas estaca 0, só melhora um pouco quando falamos de cantores.

    • Vera Tocantins

      E eu estou na torcida por esse Oscar da Viola Davis.

      Até lá!

  • Matheus Souto Bastos

    Muito lindo o texto! Arrasou!

    Ver séries como how to get away no ar e com tanta audiência é maravilhoso. Mas ainda pode melhorar bastante.
    E a TV Brasileira está muuuuito atrasada ainda. É gritante! O que vemos nela não reflete a riqueza de diversidade que temos.

    • Vera Tocantins

      É revigorantem ver algumas séries americanas atuais trabalhando dignamente as situações que circundam as tematicas sobre a diversidade, a representatividade e as questões de genero.

      O que nos leva a voltar o olhar para o nosso próprio umbigo. A visão não é das melhores. A TV Brasileira ainda precisa evoluir bastante e deixar de reproduzir modelos ultrapassados de protagonistas-antagonistas-famílias.

      Com isso não quero descartar a qualidade da totalidade do que é produzido em terras verde-amarela, vide o exemplo da série Justiça. Mas ainda podemos ir além dessa linha de fronteira para construir uma.nova história.

      Gratidão pelo comentário, Matheus.