Rectify 4×02/03: Yolk/Bob & Carol & Ted Jr & Alice

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Vidas que seguem.

Quando entramos em contato com outras pessoas, existe uma probabilidade alta de que tenhamos algum impacto em suas vidas. Se tratando de família, essa probabilidade é ainda maior, principalmente porque é difícil ignorar auxílio e conforto. A família de Daniel nunca negou suporte, seja financeiro ou emocional. Agora que o protagonista partiu para Nashville, o que resta em Paulie são as feridas de sua passagem e de sua partida também. Se na premiere da temporada acompanhamos inteiramente Daniel em sua nova vida, nos dois próximos episódios somos reapresentados à família toda. A instabilidade emocional é aparente, mas nem tudo é “culpa” de Daniel. Uma das qualidades de Rectify é a capacidade de tornar seus personagens secundários independentes em questões narrativas. É claro que a vida encarcerada de Daniel teve consequências em Amantha, Janet, Ted e companhia, mas suas dificuldades também são de cunho extremamente pessoal.

Isso fica aparente na relação entre Ted Jr e Tawney. Daniel pode ter sido o propulsor de seus problemas, a gota d’água, mas dificilmente foi o único fator. Já existia uma infinidade de problemas, como a dominância de Ted Jr e o complexo de inferioridade de Tawney, sempre disposta a se diminuir pelo bem do próximo. Mas o que vemos aqui não é um fim definitivo no casamento, mas a constante busca por reconciliação, ainda que existam dúvidas severas sobre a possibilidade de que tudo funcionaria. Ted Jr está visivelmente mudado, isso porque a série parece ter abandonado a ideia de que o personagem era o antagonista de Daniel. Com o protagonista longe, Ted Jr fica mais livre para ser um personagem independente. Nos dois episódios assistidos para essa review, Ted Jr está incrivelmente simpático, presente e disposto a ouvir. Por outro lado, Tawney está mais alerta, disposta a se encontrar e se amar. Mas ainda existem dúvidas sobre um retorno ou divórcio, porque Ted Jr sempre esteve presente, ainda que em momentos inoportunos. O casamento dos dois é intrigante, complexo e Rectify lida com ele de forma brilhante.

Legenda: A série coloca um antigo colega no caminho de Amantha.
Legenda: A série coloca um antigo colega no caminho de Amantha.

E se vemos evolução, de alguma forma, no arco de Ted Jr e Tawney, em Amantha vemos completa estagnação. Fica a sensação de que Amantha abriu mão de sua vida para tomar conta da família por causa da situação de Daniel. E agora o irmão foi embora, e o que restou é um emprego que não é sonho de ninguém, em uma cidade humilde onde não existe muita coisa para se fazer. A fragilidade de Amantha é aparente, andando de carro por aí enquanto fuma maconha, acompanhada pelo nada. O que Rectify resolve fazer é introduzir um possível interesse romântico, mas não por acaso. Ao reencontrar um colega de escola, Amantha cai no estigma de uma pessoa comum que viverá na mesma cidade, cercada pelas mesmas pessoas pelo resto de sua vida, uma espécie de aceitação de seu destino medíocre.

Amantha vê em seu futuro a própria mãe, e a julgar pelo estado em que Janet se encontra, isso não é nada bom. Janet é provavelmente a personagem mais afetada pela partida de Daniel. A mãe foi privada de uma vida com seu filho por vinte anos, e agora que Daniel está livre, parte em uma jornada solitária, privando-a novamente do contato humano. Através dos dois episódios Janet está claramente depressiva, e a família parece compreender isso. Ted Pai, que sempre foi compreensivo de toda a situação, parece começar a se afastar. O fardo de lidar com toda a bagagem emocional dos Holden é grande. Uma surpresa introduzida no episódio é a possível venda da loja de pneus, coisa que pode de uma vez por todas separar Teds e Holdens.

E se todos estão enfrentando problemas basicamente “comuns” em Paulie, Daniel está se envolvendo em algo mais sublime e psicológico. O que Rectify consegue fazer com qualquer situação é torná-la interessante pelo fato de que Daniel vê o mundo e o compreende de forma diferente. Em contato com a artista Chloe, o “danger man” parece mais perigoso para si mesmo do que para os outros. Daniel afirma que o tédio é o sentimento que move sua vida (provavelmente uma adaptação da doutrina do grupo de aconselhamento onde reside). Daniel não pode se expor demais porque isso pode afastar as pessoas, mas sua introspectividade também pode assustar. É por isso que a relação com Chloe parece interessante, onde a personagem coloca Daniel em constante questionamento e fora de sua zona de conforto.

Legenda: A família observa Jared retornando de sua aventura acampando sozinho.
Legenda: A família observa Jared retornando de sua aventura acampando sozinho.

Outras observações:

Jon Stern segue tentando inocentar Daniel. Não sei até que ponto a investigação criminal é interessante para a série, mas Jon segue sendo um bom personagem, guiado por sua obsessão pelo caso.

A polícia também, ainda que lentamente, acompanha o caso. Exemplo claro dos problemas da instituição, que podem acabar colocando inocentes na prisão.

Sinto que Jared se tornará um personagem maior nesta temporada. Podemos vê-lo agindo pelas sombras nesses episódios, sempre calado e isolado, mas sempre tramando algo.

Daniel sofre de PTSD (transtorno de estresse pós-traumático). Se o personagem realmente procurar acompanhamento psicológico ou psiquiátrico, será interessante acompanhar as sessões de tratamento.

  • Bruna

    Como Rectify é brilhante!!!! Não tô sabendo lidar com o fim da série… Daniel descobrindo a vida é da uma boniteza sem tamanho… As cenas dele no último episódio foram demais… Acompanhar as vidas que sempre estiveram envolvidas com Daniel e que agora precisam se reconstruir sem ele tem sido de uma angústia tremenda…

  • Libriane

    SÉRIE INCRÍVEL.