Quarry 1×05/06: Coffee Blues/His Deeds Were Scattered

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Só para não perdermos tempo adiantando o óbvio: esses dois episódios foram ótimos; tão consistentes e ricos quanto Seldom Realized, fazendo da sequência dos três mais recentes capítulos de Quarry a melhor até o momento. Nessa consistência eu consigo enxergar em Quarry o potencial para ser algo menos tradicional do que os primeiros episódios davam a entender que ela seria.

Foram episódios sobre o mundano, em que a série sabiamente colocou o relacionável antes do impacto dramático. Os momentos pequenos se tornaram grandes e foram tratados com carinho e, quando necessário, uma proximidade da realidade que chegava a desconfortar. A câmera segue uma menininha enquanto ela brinca de esconde-esconde com a mesma atenção que seria dado à uma sequência de ação. Se às vezes Quarry dá aquela estagnada porque o protagonista parece ser menos competente nas coisas que faz do que deveria, na maioria dos casos ela prevalece por esse mesmo motivo. Todo mundo é gente como a gente, então quando a coisa descarrilha, a gente sente na pele. E felizmente, Quarry também sabe que as tempestades não seriam tão aterrorizantes se não fossem precedidas por uma longa calmaria.

No quinto episódio, temos Mac e o Corretor jogando pôquer e se embriagando num vilarejo de festanças. E é quase só isso mesmo, não tem muita coisa acontecendo. Temos umas pistas aqui e ali do que está por vir no contexto maior das coisas, mas o texto em nenhum instante finge estar focado em outra coisa senão a relação do assassino de aluguel e o seu patrão. Já no sexto, a vibe é parecida, mas quem é mais humanizado é Felix, com o sentimento genuíno que ele parece estar desenvolvendo por Ruth e sua família. Confesso que teria achado mais bacana se ele não tivesse atrapalhado o carro dela para depois oferecer a carona e engatilhar os eventos do episódio, mas talvez seja melhor assim mesmo; as más intenções sendo sobrepostas pelas boas.

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No geral, quem saiu ganhando mais quando o assunto é crescimento como personagem foi o Corretor, sem sombra de dúvidas. É sempre muito legal ver que mesmo sabendo somar o entretenimento ao trabalho, o velho gosta mesmo de se divertir. Além disso, a série continua carregando nos traços mais particulares do personagem, como a sua preocupação com os direitos civis. Em His Deeds Were Scattered ele manda Mac atrás de Linwood (que espancou um garotinho negro), mas não há nenhum cliente por trás do ato. Aliás, fica aí a possibilidade: será que o Corretor não tem cliente nenhum e que as mortes que ele comanda são as suas ações de justiça?

E quando não era o Corretor crescendo em tela, era o Mac crescendo por causa dele. O Mac adotando o hábito do patrão de colocar manteiga no café teria funcionado melhor com um pouco de sutileza, mas eu pessoalmente adorei a cena em que ele explode na mesa de pôquer e bate num cara folgado. É o Mac que espero ver mais e mais: problemático e vulnerável, mas capaz de se impor quando o pavio chega ao fim.

A introdução do sexto episódio então, faz maravilhas pelo personagem sem que ele tenha de proferir uma única palavra. Mac tendo aquele distúrbio e levantando da cama ainda nu e dormindo para avançar pelas ruas achando que ainda está no Vietnam foi uma das melhores cenas do personagem até agora. Talvez a melhor. E depois, no mesmo episódio, temos aquele momento singelo entre o Marcus e ele no carro, onde vemos mais do senso de dever que o Mac tem pela família de Arthur. Marcus que aliás, parece sentir mais curiosidade pela morte do pai do que tristeza.

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Só acho que a Joni está voltando a ser um pé no saco por nenhuma razão, o que me deixa um pouco triste. A preocupação e o medo dela pelo marido sair no meio da noite com o Corretor no quinto episódio conseguiu a minha empatia, mas os discursos morais que ela começou a jogar pra cima do Mac sobre matar o Linwood foram terríveis. Será mesmo que Quarry não podia pular esse clichê estúpido? Eu não consigo imaginar alguém se importando tanto com a vida de um cara que quase espancou uma criança até a morte com um pé-de-cabra. Temos mesmo de ter a figura feminina chata que só repreende o que o marido faz? Se o caso fosse outro e não soubéssemos todos que Linwood não merece a misericórdia de Mac, a conversa seria outra, mas foi duro de engolir ver ela se importando mais com a vida do bandido do que com a dívida de Mac e a segurança da família de Arthur.

Mas com a exceção disso e as sempre horríveis aparições do detetive Tommy Olsen, Coffee Blues e His Deeds Were Scattered foram tremendos episódios. Só faltam dois episódios para a temporada acabar e fica difícil de saber para onde ela está indo, até porque não aconteceu exatamente muita coisa mas tudo indica que assim como vimos no flashforward do piloto, nós teremos Mac se transformando no homem que o Corretor quer que ele seja.

  • Roberto Aprigio

    “Aliás, fica aí a possibilidade: será que o Corretor não tem cliente nenhum e que as mortes que ele comanda são as suas ações de justiça?” É possível brother.. Também acho que ele não intermediário nenhum e sim é o chefão dos hitmans..

    Outra coisa que está ficando claro, quando vimos no episódio 5 e 6, parece que o negócio maior é as drogas.. tanto na transação dos orientais naquela casa na vila, quanto na escuta, o comércio de drogas é evidenciado como o grande negócio. Quem não vai ficar satisfeito com isso é Mac..

    E finalmente o policial descobriu o envolvimento de Joni e o amante.. agora as coisas podem ficar mais complicadas para Quarry.

    Espero dois episodios finais excelentespara consolidar a ótima estreia de Quarry.