Quarry 1×03: A Mouthful of Splinters

3
383

O terceiro episódio de Quarry é, sem sombra de dúvidas, o mais humano até aqui. E essa humanidade existe justamente na incapacidade do protagonista de resolver sozinho os problemas que o seu novo estilo de vida trouxe àqueles ao seu redor. Joni é sequestrada pelo perneta e toda a masculinidade e potencial para violência de Mac não significam nada, ao mesmo tempo que o episódio encontra saídas fora do convencional para a eminente tragédia e surpreende ao investir em momentos mundanos.

E quando falo de humanidade, falo do aspecto literal da coisa. A humanização de Mac tem início logo na abertura do episódio, quando ele deixa Gwen na cama para buscar algo para comer e uma cerveja gelada para beber. Ajuda a tornar relacionável um personagem que às vezes parece tão inalcançável. É bom ser lembrado que um assassino de aluguel e veterano de guerra também gosta de comer besteira. Assim como ele vendo que a estatueta no criado-mudo não pertence a Joni e que não é ela que dorme ao lado dele. Também foi bacana ver o argumento se dando a oportunidade de acrescentar ideias como a de que Gwen faz sanduíches gostosos. Eu teria gostado de ver os dois conversando enquanto ela preparava um (talvez resultasse num blocking mais interessante para o diálogo na cozinha), mas o esforço de fazer a personagem parecer uma mulher real já é de se admirar. São coisas assim que inspiram vida e que nos fazem acreditar que são as figuras de Quarry são, no fim do dia, pessoas.

quarry-1x03-img1

Quarry pareceu pela primeira vez querer se explorar, descobrir onde estão escondidas as coisas que podem transformar esse mundo num lugar vívido. O silêncio nos minutos iniciais é cru e adiciona mais peso a cada olhar, a cada passo, a cada ataque de ódio de Mac. O desespero é palpável e contribui para a performance de Marshall-Green, que esteve fantástico durante uma boa parte do episódio. Ele entrega muito bem a raiva de um homem que tem muita força e descobre que às vezes ela não serve para nada. Ainda não escapando do assunto, Ann Dowd (The Leftovers) esteve magnífica na sua pequena aparição e os momentos que Buddy passou com a sua mãe certamente estiveram entre alguns dos mais ricos do episódio (embora pareçam fora de lugar). Da sutil sugestão de que o personagem tem problemas com álcool e drogas (quando ele bebe o drink da mãe com o remédio) à revelação de que ele precisou de apenas meia década para construir a sua reputação e consequentemente ser emocionalmente desgastado, nós aprendemos muito sobre Buddy. É a mesma coisa: pela primeira vez nós tivemos um olhar melhor na vida do Buddy e ele agora parece mais do que uma caricatura divertida.

É por esses mesmos motivos que a cena do Corretor no clube é uma das minhas prediletas. Apesar dos close-ups descarados nos artistas ainda serem gritantes e me incomodarem bastante, eu achei que muita coisa nessa cena funcionou. O associado misterioso que tinha invadido a casa da família de Arthur está lá e faz o mundo parecer muito maior do que Mac e os seus problemas. O Corretor também é mais do que apenas uma sombra que segue o Mac, ele tem a sua própria vida e hábitos. Ele é claramente um simpatizante dos direitos civis, se é que já não tinha ficado claro na luta de wrestling do episódio passado. Aqui ele está disposto até a ter relações interraciais na década de 70. Ele parece estar se divertindo, fascinado pela música, pela bebida e pelas mulheres, ao invés de estar apenas aguardando o chamado de Mac para a sua existência ser validada. E quando ele deixa o lugar para ouvir o que Mac tem a dizer, ele parece razoável e realmente querer resolver a situação ao invés de simplesmente o manipular como um avatar da malícia. É Mac que leva o dilema para um outro lado e deixa as coisas menos amigáveis.

quarry-1x03-img2

Já a cena na delegacia, bem como qualquer outra envolvendo esses policiais vazios, foi terrível. Os personagens não passam de caixotes de papelão ambulantes. Cada frase que sai do buraco de fala de cada um dos caixotes é mais óbvia do que a anterior e você não aprende nada de novo acerca de nenhum deles. O policial x continua determinado e tem a certeza de que há um homicídio a ser investigado, o policial z permanece o mesmo fanfarrão desinteressado e o y é o clássico delegado negligente. Nada de novo. Se apontassem uma arma para a minha cabeça e me obrigassem a escolher, acho que eu preferia ver um remix de 40 minutos do pacote de bolachas que o perneta atira contra Joni mudando de lugar entre as tomadas do que seguindo  esses policiais entediantes.

Mas como não deve ser difícil de adivinhar, a parte mais legal do episódio foi a fuga de Joni. A sequência foi magnífica e o olhar no rosto dela depois de triunfar sobre o raptor foi ótimo. Uma solução inesperada pra situação, exatamente como eu vinha pedindo de Quarry. A personagem escapar pelo próprio mérito é importante não apenas pela representação menos frágil de uma mulher, mas também pela confirmação da verdade mais crua de Quarry: Mac não tem qualquer poder. No final das contas, nenhuma das suas ações teve qualquer importância para a sobrevivência de Joni.

quarry-1x03-img3

É uma pena que não tenham dado um momento desses para a personagem antes da revelação de que ela é uma completa babaca. Não falo de um momento frenético de ação e sim de uma instância em que ela tenha expirado alguma personalidade, algo que nos faça sentir que devemos nos preocupar com ela, que a faça ser mais do que um interesse romântico. Não teria sido um desafio muito grande, já que ela colocando água para o cachorro foi igualmente simplório e significante. Naquela hora, ela entendia o animal, já que não havia passado muito tempo desde que ela estava precisamente no mesmo lugar que ele.

A Mouthful of Splinters é rico no que respeita a vários campos: na ação, no sentimento, nos personagens, na atmosfera e principalmente no senso de humanidade. Pela primeira vez senti que havia um perigo real assombrando aquelas pessoas e que talvez a violência que estivesse caindo sobre elas fosse mais do que uma fórmula para se avançar o plot. Espero que Quarry mantenha esse sentimento vivo no seu próximo episódio e que conheçamos mais semelhanças entre esse mundo e o nosso.

  • Bundalelê

    Eu resolvi desistir da série após esse terceiro episódio. A trama me parece muito vazia e, sinceramente, não me empolgou.

    Até curti o primeiro episódio, mas a coisa já desandou no segundo e piorou nesse terceiro. Não falo nem do ritmo lento, mas do próprio desenvolvimento da história.

    Quarry não é ruim, mas diante da enorme quantidade de séries que estou assistindo no momento, ela ficou pelo caminho.

  • Roberto Aprigio

    Gostei de ver a força de Joni e a limitação/humanização de Quarry como você falou na review. O seriado está num ritmo legal, só espero que aprofundem mais o enredo Corretor e todo o esquema por trás.

  • Nuno

    Alguem sabe o nome daquela musica/Banda que toca quando o corretor Buddy aparece na boate e o pessoal dançando?