Primeiras Impressões: The Good Place

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THE GOOD PLACE -- "Everything Is Fine" Episode 101-- Pictured: Kristen Bell as Eleanor -- (Photo by: Justin Lubin/NBC)

A gente sabe que quando a sigla NBC vem, a nossa cabeça não consegue associar uma atração como “The Good Place” à grade da emissora. Porque a série protagonizada por Kristen Bell tem tantos predicados e segue tão diferente do que passa por lá que a gente até estranha.

Só começa a achar familiar quando descobre que Michael Schur (de “Parks and Recreation” e da aclamada “Master of None”) está por trás de uma das gratas surpresas deste fall season, uma série de humor, que tem em seu bojo um delicioso deboche e um texto tão bacana quanto.

Quando Eleanor Shellstrop (Bell) morre, é recebida em um “Lugar Bom” por Michael (Ted Danson). Durante uma curta entrevista de apresentação, alguns valores religiosos são desconstruídos e Eleanor não apenas tenta se habituar ao novo lar, como vai descobrindo algumas coisas que por hora parecem ser muito importantes; a primeira delas: ela está ocupando um espaço em um lugar que – em tese – não lhe pertence. Afinal de contas, o “lugar bom” é o equivalente ao céu (com sorvete de iogurte), onde só é possível estar por conta de uma intrincada conta de boas ações versus má ações. A meritocracia do caráter é quem aponta a sua direção. E aparentemente Eleanor não fez nada para que estivesse ali.

A série começa acertando na maneira bem televisiva de trabalhar valores densos e filosóficos de como a condução da nossa vida nos levará a resultados satisfatórios ou não. A maneira leve e até “anos sessenta” – na estética colorida, nos takes de moldura (aqueles que se parecem com um quadro fechado), na assepsia das imagens  – contrastando com um discurso politicamente incorreto com um sorrisão no rosto. Genial.

Em todo o piloto de TGP sabemos que nada ali é real, mas é justamente o fato de ser surreal que o texto irônico serve bem como um “bom lugar” (com o perdão do trocadilho) para as figuras de linguagem e o deboche sobre a perfeição. E é tão bom ver Ted Danson, excelente como sempre, em um figurino apropriado para seu papo de vendedor de felicidade, um lugar que ele projetou para perfeição.

Se a gente estivesse diante apenas do relicário de metáforas e até alguma metalinguagem cuidando de fobias e mitos (medo de palhaço, por exemplo), TGP já teria passado do teste do piloto logo nos seus minutos iniciais. Ele é sutil e didático, ao mesmo tempo que vai fazendo com que a gente enxergue Eleanor e dê uma olhadinha sorrateira pra nosso comportamento diário. Quem não sacou o lance de “alma gêmea”, aqui tratada como uma utopia da vida? Mais uma vez genial.

Em algum momento ao lembrar-se dos instantes em que fora cruel, a informação óbvia de que seu “reproved behaviour” poderia lhe incomodar em algum momento, é que ela considerou seu comportamento realmente reprovável e – ao menos pra mim – aquele papo de querer aprender como ser “boa” através de aulas com Chidi, é apenas mais uma falsa pista de como Eleanor vai aprender a ser quem ela é, com uma velha fórmula: apenas mudando um pouco da forma como vê o mundo e o conduz. Uma grande pista disso é como ela vê Tahani, que sob as regras de um perfil menos arrogante, deveria ser sua vizinha?

E o mais irônico dessa história toda é como ela pode ser responsável por trazer distúrbios a um lugar perfeito e paradoxalmente é justamente uma resposta ao que ela não fez no passado. Não estar em um mundo perfeito, contribui para uma vida de valores morais e éticos sob júdice. Achei uma tirada fantástica a maneira como aquilo foi mostrado, todos de roupas coloridas, enfrentando insetos e animais citados em algum momento de maneira pejorativa. Um pesadelo? Foi um ponto alto do episódio.

Mesmo em situações inusitadas como aprender a voar, reparem na beleza delicada do texto:

“Pense numa imagem que lhe traga alegria pura…”

Há mensagens por todo a série, desde o cenário até a forma como cada um se veste, revelando um pouquinho da intenção do show: propor o entretenimento com uma carga filosófica não desmembrada da diversão. Tarefa dificílima, mas que até aqui feita com louvor.

E Kristen Bell? Ela é boa atriz e que bom que saiu do estigma da heroína de boutique, daquelas que espalha um comportamento por conta de uma imagem de “boa moça”, pecha que Veronica Mars lhe impôs. House of Lies já exorcizou essas marcas que podem ficar na carreira e meter-lhe um carimbo que possa impedi-la de desafios como este.

Sem exageros e muito alinhada com a proposta de redenção lenta que a personagem deve lhe pedir, Bell emprestou uma sedução no sorriso, que por vezes é simpatia, por vezes ironia e em outros momentos é o desespero de uma personagem que aceitou o destino, sem perguntar o quanto daquilo tudo foge de todas as questões existencialistas (ou pós existencialistas) que os homens se fazem.

TGP é tão divertida que começa dizendo que quem acertou sobre a vida “após morte” foi um morador de Calgary (há uma piada com canadenses aqui, ao que pude perceber) que estava extremamente “chapado” quando da revelação, ou seja, uma velha referência  – ou informação – de que quem sempre esteve certo na verdade foram os “errados”; uma outra pista do quanto surreal é o cenário que Eleanor foi  parar.

TGP merece atenção pois traz consigo um raro casamento entre humor “inteligente” (não gosto desta expressão, como se houvesse o humor burro), atuações dignas e um roteiro gera ótimas expectativas.

1×03: Tahani Al-Jamil

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Uma vez apresentados os personagens, o cenário e as situações, “Tahani Al-Jamil” veio menos adocicado e reflexivo quanto os dois primeiros episódios e TGP continua funcionando embora tenha diminuído o ritmo de uma maneira até pouco explicável.

Eleonor está buscando – como disse no primeiro texto – a redenção por conta da mudança de comportamento. O objetivo é merecer o lugar onde está. Para mim essa busca só se justifica como enredo, porque “bem ou mal” ela já está lá! A preocupação é de que façam alguma auditoria e descubram que na verdade ela está no assento errado. Como roteiro, ok. Como plot, não.

Algo bastante óbvio é que Eleonor não vai ser uma aluna dedicada pelo caminho da filosofia. Ela está é mais curiosa por saber porque está ali e quem foi que deixou o recado da sua verdade por debaixo da porta. Por isso a implicância com Tahani vai gerar um episódio, que se não foi com a mesma vibe dos dois primeiros, manteve a qualidade da produção da série.

Mesmo com Chidi dizendo que não foi sua vizinha a responsável pelo “recadinho”, Eleonor vai tentar descobrir isso por si mesma. Pelo caminho da (falsa) reciprocidade vai ao encontro de Tahani, que até abre o coração para ela. E aí vão alguns destaques:

– Há uma clara colaboração entre o elenco, dosando a participação de cada um na cena. Se Kristen tem uma personagem que estrela todos os episódios, cada integrante dentro deste novo universo é importante para contar a história.

– Seriados, séries, minisséries, filmes, clipes, são imagens contando histórias e nada pode ser mais fundamental que a mensagem seja passada e mesmo que o tema não seja recorrente na TV de maneira humorada, os espaços estão bem distribuídos. Ponto para direção e produção ao escalar um elenco bem equilibrado.

– Que bom que saindo dos diálogos pelo jardim, é possível ver o cuidado da produção para com um cenário meio cartoon, o que me faz pensar que tudo não passa de um sonho, mas isso vamos explorar em outros reviews. Há muita informação alinhada a outros paradigmas e preconceitos do mundo real.

Só não deu pra entender bem o plot de Chidi / Michael. Se o personagem que veio do Senegal precisa aprender algumas lições (lembrou os plots da série “Ilha da Fantasia”), forçando o professor a ter uma relação mais íntima com Michael, todo aquele papo de hobby não me pareceu interessante, pra dizer a verdade, entediante. De engraçado só o jeito como Janet foi “atrevida” com Chidi, fora isso, a harmonia que eu elogiei entre Bell e Jamil, não foi a mesma entre esse núcleo.

Não houve surpresa com relação ao dono dos recados. Se Jianyu não falava nada durante os três episódios é porque isso deveria revelar alguma faceta escondida do personagem do ator Manny Jacinto. Ele é apenas “ok” e espero que a economia das falas nos três primeiros episódios, reserve algo maior e melhor para o personagem.

O que tenho achado de maneira positiva em TGP é essa vocação para o humor negro, com doses muito boas de humor convencional, com uma pegada bastante interessante, porque, repito, a temática não é das mais triviais e mexe com alguns dogmas que, muitas vezes, podem mexer com parte de uma audiência politicamente correta, que não tolera a desmitificação de certas propostas. Ela entrega – de maneira sinuosa – debates bacanas como a busca de um melhor ser, mesmo que isso seja após a morte! Um intenso e assumido discurso de crescimento, sem que seja panfletário, aliás, foge de qualquer tipo de proselitismo nominal a qualquer filosofia.

Espero que a NBC tenha coragem de renovar uma das séries mais inteligentes deste fall season e ofereça à obra e ao seu casting uma oportunidade de bater de frente com atrações mais manjadas e que com recursos textuais batidos. Vamos ver se TGP tem na NBC um bom lugar para ficar.

  • Juliano Guilherme

    Gente! Achei MUITO ruim. Só ri com os flashbacks!

    • Marina Assis

      Viu errado, vai ver de novo!

      • vinland

        O fato de ele nao ter gostado, nao quer dizer que ele viu errado. Por isso que existe publico pra diferentes tipos de series.

    • duda

      vai olhar o lop!!!!!!!!! bjs

  • dan_atwood

    será que aquilo não seria um purgatório Eleanor, tipo ter q lhe dar com todo tipo de gente que ela detesta, para assim aprender e crescer para aí sim ir para o Good Place ? Pq mtus ali tem defeitos graves como soberba e ngm me tira q o casal do segundo epi q levou a lixeira na cabeça tem uma ponta de sociopatia hehe, talvez seja o purgatório dela com Chidi sendo meio q o anjo da guarda para ajudar ela pro bom caminho.
    Sei, teoria bizarra haha mas vendo os epis pensei nisso

  • Mateus

    Essa série é maravilhosa, uma grata surpresa da fall season

  • wesley

    uma das gratas surpresas dessa fall season

  • Alan

    Comédia com a cara da NBC, como é bom às comédias do canal.

    Texto inteligente e cheia de piadas sagazes. Tomara que mantenha o nível.

  • Bruno Souza

    A melhor parte é a Eleanor não conseguir falar palavrão kkkk.

    Série muito boa e com muito potencial, tomara que tenha um bom desenvolvimento.

  • Mauro Lopes

    Nossa ainda bem que não fui o único que achou essa série não tão boa assim.

    • Mp.

      por enquanto ta bem 7… mas pela hype vou tentar mais uns eps.

    • Juliano Guilherme

      Achei bem fraquinha. Ria só nos flashbacks, porém gostei do terceiro episódio.

  • Rod

    Eu só quero saber quem é o bartender gato do terceiro episódio

  • Gabriel Pereira

    Não sei o que achar disso ainda…..eu não sou do tipo comédia, então em algum ponto sei que irei largar a série mas assisti aos 3 episódios, eu sinceramente não gostei da Eleanor, personagem bem chatinha, o lance com os palavrões ficou chato bem rápido…..mas aí veio o 3 episódio, já estava na cabeça que esse seria o fim, a “conversa” da Eleanor com a Tahani foi muito bom (por mais que não tenha gostado da Eleanor, Bell faz um ótimo trabalho, dou risada com as caras e bocas que ela faz), e aquele final foi o suficiente para me segurar por mais um tempinho, vamos ver se consigo acompanhar….eu achei todo o tema da série interessante e realmente espero que ela me empolgue dado ao meu histórico com comédias 😛 (a única que de fato terminei foi Friends)

  • João Carlos

    Esse foi um dos pilotos que irao estrear que eu assisti a promo e sabia do que era. Eu gostei muito dos três episódios. Gosto de séries de comédia desse estilo e me empolgou a continuar.
    Gostei dos personagens logo de cara mesmo sabendo que vão ser desenvolvido ainda mais para frente.
    Quando Eleanor está fazendo/aprendendo algo e vemos o passada dela e como ela agia achei sensacional.

    • Alan

      Isso foi uma das coisas que mais gostei, esse flashbacks

  • Gulliter Henrique

    Achei a série divertida, mas não tudo isso que estão falando. Vou continuar e espero que a NBC renove.
    Não concordo que o canal, atualmente, só tenha conteúdo ruim. No quesito comédia, Superstore supera TGP, que foi taxada como “a melhor série novata da fall” sem nem estrear. Muito hype para algo comum.

    • Juliano Guilherme

      Também não achei tudo isso e estava me sentindo um estranho no ninho mas insisti e achei o terceiro episódio em melhor que os dois primeiros!

      • Gulliter Henrique

        Eu assisti o terceiro episódio após comentar. Foi bem melhor que os dois primeiros. Conseguiu me prender e vou continuar a acompanhar.

  • Lisiane Ortiz

    Eu assisti a essa série devido a indicação do SM e adorei.
    Não sou muito fã de comédia,na verdade não suporto algumas como 2 broke girls e Superstore que todo mundo ama,mas o sarlcasmo e o humor negro são ótimos.
    Adorei a Janet, a roupa amarela com azul, a casa sem escada e claro, a única pessoa que sabe 92% da verdade sobre o good place.
    Ela é bem diferente do humor pastelão que vemos bastante, mas acredito que como os tempos áureo de Community, é para um público restrito

  • RS Martins

    Apesar de Kristen Bell ser excelente, não gostei dos três primeiros episódios. Assim como Angel from Hell é uma serie de humor exclusivamente pra Americano ver, ou seja, na minha opinião, sem graça.

  • Lucas

    Não esperava nada da série mas quando vi que saiu e que era estrelada pela Kristen Bell (eterna Veronica Mars) quis muito gostar. Infelizmente a série não me pegou, não achei engraçada, tem algumas coisas non sense (fantasiosa), enfim. Achei a premissa bacana mas o desenvolvimento fraco, não continuarei :

  • Priscilla Arradi Martins

    não to com grandes expectativas, mas continuarei vendooo, tá legal