Primeiras Impressões: Frontier

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Pra qualquer canto que se olhe no piloto de Frontier, seja para a premissa, a cenografia e figurinos, o elenco, temática, paleta de cores ou enquadramentos, é inquestionável que a primeira série de ficção original do Discovery Channel canadense em parceira com a Netflix é mais uma das dezenas de produções – notavelmente Vikings e Marco Polo, outra aposta da Netflix – que pegam carona no sucesso estrondoso e sem precedentes de Game of Thrones, carro-chefe da HBO e uma das séries mais bem sucedidas de todos os tempos. Particularmente, e aqui estou na esmagadora minoria, não tenho muitos elogios pra distribuir ao épico de Westeros nessas seis temporadas, e esse capítulo inicial de Frontier, portanto, acaba me desagradando por vários dos mesmos motivos e sofrendo dos mesmos defeitos – e claro, dispondo algumas mesmas qualidades também.

É final do século XVIII. O piloto é didático, nos avisa em texto mesmo que essa é a história sangrenta dos conflitos multinacionais entre franceses, americanos, escocêses e ingleses pelo domínio do comércio de peles na Hudson’s Bay, região atualmente canadense e que perdeu o “apóstrofe s”, e parte da extensa colônia europeia no fim dos anos 1700. A cena que segue é uma reiteração: Declan Harp (Jason Momoa) – que mais tarde aprendemos ser filho de irlandeses e nativo-americanos -, degola soldados britânicos e envia o único sobrevivente de volta aos seus superiores como o aviso de que aquele território não deve mais ser perturbado. A exposição excessiva é um dos pontos mais incômodos desse episódio inicial, uma prática constante nas produções de grande orçamento da qual Game of Thrones também sofre consideravelmente, e que empobrece diálogos e reduz muitas cenas outrora importantes e reveladoras a meros ornamentos e requintes visuais.

Embora a reduzida campanha de marketing da série tenha pintado Momoa como grande estrela, Frontier é um clássico seriado de elenco ensemble, sem protagonistas definidos e com o quebra-cabeça da trama montado por diferentes perspectivas. Momoa, inclusive, dá as caras nesse piloto em três breves cenas, sendo duas delas a de abertura e que fecha o episódio. Sua presença, porém, é forte do imaginário dos personagens da história, seja como grande obstáculo para Lord Benton (Alun Armstrong), comandante responsável pelas atividades britânicas na Hudson’s Bay ou como objetivo para o pobre Michael Smyth (Landon Liboiron), que por desventuras do acaso acaba mergulhando involuntariamente na truculência do Novo Mundo.

Frontier
Frontier

As atuações são convincentes por boa parte do elenco, e caracterização do universo colonial da virada do século é também eficaz, tanto locações quanto cenografia, maquiagens e figurinos. São atuações, entretanto, que encarnam personagens não raramente razos e gritantemente arquetípicos, “a donzela em perigo”, o “herói do povo” e o “vilão sem escrúpulos” são só alguns dos clichês que Frontier risca da lista logo minutos iniciais de seu piloto. O mesmo se repete com a escolha do período histórico, muito bem reimaginado e trazido à vida pela equipe de direção de arte, mas que tem sua complexidade e potencialidade pouquíssimo explorada, e acaba tornando-se quase descartável à história que os criadores Brad Peyton, Rob Blackie e Peter Blackie pretendem contar, servindo apenas como uma espécie de carta branca para o tom violento, grotesco e opressor que circunda a Hudson’s Bay, como faz também Game of Thrones com sua releitura ficcionalizada e quase fetichizada da dita “idade das trevas”.

Dou exemplos. Para uma série que pretende documentar a complexa teia de relações e intrigas na costa americana, esse piloto passa pouquíssimo tempo investigando o universo da colônia britânica, os embates entre nações e, mais alarmantemente, ignorando o papel de algumas classes historicamente oprimidas, sendo ausentes, mesmo aos olhos atentos aos figurantes fora de foco, escravos ou negros libertos, indígenas não-cristãos ou mesmo nativo-americanos, que supostamente compõe um dos núcleos principais da série, liderados por Harp, descendente de irlandeses com seu inglês fluente e impecável. O que o piloto de Frontier faz, em vez disso, é tecer cenas como a de Benton e Smyth no convés da embarcação, na qual ambos negociam o futuro do jovem irlandês enquanto duas mulheres, nunca nomeadas e as quais não proferem uma fala sequer, se beijam e acariciam explicitamente. A montagem, como se não bastasse, insiste em suas presenças, alternando incansavelmente as falas com breves espiadas das jovens.

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Embora plenamente previsível a partir do momento que Smyth aceita os termos de Lord Benton, a sequência final desse piloto é promissora, e sugere maior exploração do universo dos nativo-americanos em seu segundo episódio, bem como alguma parcela de redenção com a representatividade feminina com a figura de Grace Emberly (Zoe Boyle), ainda desconexa das intrigas maiores da Hudson’s Bay, mas que certamente promete ter papel decisivo nos eventos seguintes. A julgar por esses primeiros 45 minutos de história, entretanto, Frontier parece ter caído em muitas armadilhas da televisão pós-golden age para conseguir escapar delas num futuro próximo.

  • Alain Regis Furtado

    Olá! Fiquei com vontade de assistir o episódio só para ver o violão sem escrúpulos!

    • Pedro Monte Kling

      HAHAHAHAAH boa, Alain! Passou despercebido na revisão hehe, mas quem sabe um violão sem escrúpulos não dava um up nesse piloto chocho

  • Caio Vinicius Viana Lima

    “Particularmente, e aqui estou na esmagadora minoria, não tenho muitos elogios pra distribuir ao épico de Westeros nessas seis temporadas” https://uploads.disquscdn.com/images/0b72ece9db82ab86b22cd58d1787f2cf341f3cc0e38a7d223a4df68452477b2b.gif

  • edujakel

    E agora? o cara q é parceiro do Henrique em nao gostar de GoT nao gostou da série. Isso deveria ser um alerta q a grande maioria vai gostar? Vou esperar comentarem no Podmaniacos ou Derivado pra ter uma segunda opiniao.

    • Alexandre Bonfá

      Já está na pauta deste podmaniacos, Edu.

      • edujakel

        opa…curti. minha grade ta muito cheia e sem espaco…entao tem q pensar bem antes de adicionar algo. ehehhehe
        eu deixaria o Bruno clemente orgulhoso em dizer q pelo menos nao tenho iZombie na grade…rs

  • Douglas Damacena

    Eu nem sabia que essa série existia, até agr, e vou assistir só pq o Pedro falou que não gosta de GOT e Frontier é na mesma pegada kkkk

  • Rafael

    Ninguém é obrigado a gostar (ou não gostar) de coisa nenhuma, respeito muito opiniões diferentes da minha, mas quando o texto começa com “não tenho muitos elogios pra distribuir ao épico de Westeros nessas seis temporadas” já ascende um sinal de alerta… Fora que não vejo sentido em comparar Game of Thrones com Vikings. É Tipo comparar GoT com The Tudors ou The Borgias simplesmente porque é medieval. Aliás essas talvez sejam mais próximas de GoT (tirando toda a parte fantasiosa) pela jogo de intrigas político. Já Marco Polo realmente mirou o público de GoT, embora com características muito distintas. Acredito que The Shanara Chronicles seja mais parecido, ainda que bem mais leve e menos intrincado.

  • Gilberto Abreu

    Não confio em quem não gosta de GoT!