Primeiras Impressões: Atlanta

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Sonhei que controlava Atlanta e que meu som tocava em todas as estações de rádio.

É com esse sentimento que Childish Gambino (o nome adotado por Glover como rapper) abre sua mixtape,  de 2014. Glover, através de sua carreira musical enaltece a cidade de Atlanta e o estado da Georgia como berços do hip hop sulista. Atlanta promete abordar o mundo do hip hop, mas aparentemente, não apenas ele. Criada e estrelada por Donald Glover, a série nos apresenta Earn, um jovem que abandonou (temporariamente) a universidade de Princeton, e Paper Boi, primo do protagonista e rapper no início de sua carreira. Mas nos dois episódios exibidos pelo FX, Atlanta parece querer ser mais que uma série sobre o que está por trás dos grandes rappers, e de como uma carreira tem seu início.

A cold open do piloto mostra Earn, Paper Boi e Darius em um carro que tem seu espelho arrancado por um homem acompanhado de sua namorada. Depois de uma discussão, vemos através de um plano aéreo um tiro sendo disparado e Atlanta corta para seus créditos, deixando em aberto quem atirou. No decorrer do episódio vemos Earn levando uma vida “normal”. Acorda com uma mulher ao seu lado, pega sua filha no colo, e logo após descobre que Vanessa tem um encontro com outro homem. Vida normal. Em seguida, na casa de seus pais, sequer é convidado a entrar, por medo de que o assunto seja dinheiro. Earn vaga pelo piloto procurando propósito ou alguma maneira de melhorar sua vida.

É ao ouvir que Paper Boi está de volta que a trama da série começa a ficar mais clara. Vale lembrar que em nenhum momento a série explica que a confusão que inicia o piloto ainda não tinha acontecido. Paper Boi está de volta com a intenção de lançar uma mixtape, e Earn vê aí uma oportunidade de progredir na vida, como gestor da promissora carreira de seu primo. Para o bem da trama, a parceria não é instantânea. Paper Boi se vê relutante em aceitar a “ajuda” do primo, afirmando precisar de um Malcolm X como manager, e não um Martin Luther King. A série é sagaz ao mostrar através de algumas interações entre personagens a principal característica de Earn: sua passividade.

Earn, decidido a conquistar a confiança do primo, procura uma rádio que toque seu novo single. E nessa sequência a série mostra como Glover não tem receios de tocar em pontos importantes da cultura negra tão bem representada em Atlanta. Ao encontrar com um conhecido seu, funcionário da rádio, um homem branco, conversam sobre a possibilidade de tocar o single e o radialista ao contar uma história utiliza o termo “nigga” (extremamente ofensivo nos Estados Unidos, uma palavra pejorativa utilizada por brancos durante os anos de escravidão e desde então reconquistada pelos negros e bastante utilizada no mundo do rap). Dessa forma, a série mostra que Earn não é respeitado e é possivelmente esse o ponto de início para a jornada do personagem.

A sagacidade de Earn através do episódio se mostra em um texto bastante humorístico, mas também sombrio e em alguns momentos beirando um sonho lucido. Como na sequência do ônibus em que conversa com um homem que lhe oferece um sanduíche (vestido com trajes similares ao de Malcolm X), e que some rapidamente e é visto entrando em um mato acompanhado de um cachorro que revemos na cena do tiro.

O resultado do piloto é que Earn consegue que o single seja tocado na rádio, utilizando a inteligência de um “aluno de Princeton”, que está dando um tempo de um ano (que já dura três). A comemoração pelo pequeno sucesso acontece no estacionamento de um centro comercial, e nesse momento vemos que a cena que abre a série ainda não tinha acontecido na linha do tempo da série. As implicações desse conflito se desenrolam no segundo episódio.

O sistema prisional americano é uma bagunça: muito burocrático e racista. No segundo episódio de Atlanta, a série separa Earn e Paper Boi, mas antes disso, coloca os primos em custódia, na espera pelo processo de informações após o tiro que encerrou o piloto. Atlanta conduz a série com a lentidão necessária para nos mostrar o tédio que os encarcerados esperando processamento enfrentam. Ao liberar Paper Boi, deixa Earn sozinho, vulnerável e sem muita capacidade de compreender o que se passa na cadeia, porque aparente é a primeira vez que o protagonista enfrenta uma situação dessas.

Com isso, a série se divide em dois arcos, o primeiro mostra Earn e sua experiência enquanto aguarda processamento. De novo, Atlanta utiliza seu tempo para refletir situações do cotidiano e que muitos homens negros enfrentam. Pode-se ver ao decorrer do episódio que todos os homens presos são negros, alguns reincidentes, alguns presos por motivos banais e um homem com claros problemas psicológicos que é tratado com truculência momentos depois de beber água do vaso sanitário sem que nenhum dos encarregados se importe com sua dignidade e segurança.

Toda a sequência da cadeia é uma série de pequenas conversas que Earn enfrenta, ao ser colocado em contato com pessoas que normalmente não fazem parte de seu cotidiano. O desconforto do protagonista é aparente e muito bem transmitido por uma atuação expressiva de Donald Glover. Toda a espera parece um castigo e todos no local pagam juntos. Parece que os enfrentamentos que acontecem são uma forma de aliviar o tédio e a tensão de ser encarcerado. Talvez de agora em diante Earn odeia o lugar tanto quanto seu primo.

Do outro lado da trama, Paper Boi vê no lado de fora as repercussões do conflito. Um rapper precisa de street cred e parece que o “tiroteio” lhe rendeu fama. Mas Paper Boi não parece confortável com a crescente subta de sua fama. As vezes a fama pode ser perigosa no mundo do hip hop. Em determinado momento Paper Boi é questionado como o novo 2pac de Atlanta (rapper assassinado em 96). A fama trazida pela sua nova credibilidade nas ruas (em um “tiroteio” que a série nunca deixa 100% claro) parece não possuir lado positivo, como no reconhecimento repentino com uma mulher claramente com algum interesse no sucesso, em algumas crianças que brincam de atirar umas nas outras, expressando a influência negativa que Paper Boi pode exercer nos jovens, ou no tempero extra no pedido do restaurante, mas com o aviso de que Paper Boi “não pode decepcionar”. A jornada de Atlanta está no começo, mas promete ser recheada de críticas sociais, uma mistura certeira de comédia e drama, dando cara e espaço para a cultura e expressão negra e para a mente criativa de Donald Glover em sua carreira televisiva após Community.

  • Alan

    Tava na minha lista, mas os trailers foram altamente broxantes.

    • Fabi Alves

      Eu não vi ainda por esse motivo ! Rsrsrs esperando comentários positivos pra tomar coragem de assistir

  • rocorby

    Que grata surpresa! Amei o primeiro episódio e o segundo foi de uma puta peculiaridade. O que foram aqueles dialogos e personagens bizarros na cadeia? Sensacional
    Gostei que a série não tem medo de entrar em alguns assuntos mais polemicos, mostrando que ela tambem tem camadas mais complexas que podem ser exploradas.
    Darius como alívio comico foi excelente, cada ideia bizarra movida a maconha que me fez indagar se um dia veremos ele sóbrio.
    Esperava por apenas uma comédia boa do Donald, mas fui fisgado por algo mais complexo e bem produzido, atuado e roteirizado.

  • Dam Ramos

    conhecendo a carreira do CHILDISH GAMBINO como músico, foi tudo que eu esperava.
    Sem se preocupar em ser desconfortável e (aparentemente) sem pressão do canal, essa série tem tudo pra ser o que o donald sempre quis. A cabeça dele.No mais, é isso aí

  • Gisela Oliveira

    Crítica social, questão a cerca da cultura negra, violência policial, racismo todos esses temas, Donald, destrincha perfeitamente pois ele não tenta fazer uma crítica ele faz a crítica e da melhor forma possível: mostrando seu cotidiano em uma comunidade negra e consequentemente, seus problemas decorrentes do racismo. A falta de linearidade é perfeita para expressar as mais complexas relações dentro de uma cultura. Nesse seriado vemos a diferença do que é um negro falando da sua própria cultura,diferentemente da serie the get down, em que personagens aparecem totalmente estereotipados e presos a seus papeis social e profundidade psicológico de 0% pois o principal a ser relatado é a caracterização não o ser negro. Séries com essa me dão esperança.