Por Que o Horror Fascina Seu Público?

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Mark Gatiss (ator, escritor, roteirista e comediante inglês), conhecido pelo trabalho em Doctor Who, começa “A History of Horror”, documentário em forma de minissérie de 2010 da BBC dividido em três partes, com a seguinte afirmação:

“O cinema foi feito para os  filmes de horror. Nenhum outro tipo de filme oferece a mesma antecipação misteriosa como se você entrasse em um auditório escuro. Nenhum outro faz uso tão poderoso do som e da imagem. O cinema é onde nós vamos para compartilhar um sonho coletivo, e filmes de horror são, de todos, os que mais parecem com sonhos; talvez porque se relacionem com nossos pesadelos.”

É uma afirmação presunçosa, mas, depois de um tempo, se percebe que não há como falar de horror sem certa presunção. A arte por si só respira através dessa forma de ousadia. Em todo o caso, não se pode negar que o gênero tenha uma relação direta com a grande tela, e quem já se aventurou a assistir a qualquer horror em cartaz pode concordar em partes com ele. Usando-me como exemplo, chego à conclusão de que a sessão mais divertida na qual já estive foi assistindo a um filme dessa categoria. O cinema não tem compromisso apenas com o entretenimento, eu sei — sou sempre um dos primeiros a falar isso em qualquer roda de conversa. Então, se aceitarmos em concordar, pelo menos, com o lado inquestionável, aceitamos o horror como o gênero capaz de brincar com seu público do modo mais paradoxo existente.

Qual seria, então, a representação do horror na história da tevê?

Em cena: Mark Gatiss no documentário em forma de minissérie A History of Horror da BBC.
Em cena: Mark Gatiss no documentário em forma de minissérie A History of Horror da BBC.

Frank Darabont, criador de The Walking Dead, batalhou por mais de cinco anos para levar a série à tevê depois de diversos projetos envolvendo o horror em sua carreira, por mais que seus trabalhos mais aclamados estejam relacionados ao drama e bem distantes da temática. Ele enxerga a temática zombie com suas devidas metáforas, hoje já óbvias — depois de muito tempo apontadas por George A. Romero, talvez —, e talvez por isso tenha decidido apresentar o programa à AMC. O horror, diversas vezes, é a forma como alguns produtores e diretores conseguem explorar o saudosismo da infância, por mais estranho que isso pareça, como Eric Kripke (Supernatural) e os irmãos Duffer (Stranger Things) já disseram em entrevistas.

Em qualquer situação, no intuito de falar sobre o horror, você deve se manter um estranho. Se você é completamente bem-vindo, eu acho que você perdeu o seu charme.”

— Guillermo Del Toro.

Outros criadores partem justamente do ceticismo pessoal para abordarem o horror, diferente do citado Guillermo Del Toro, que cita uma relação muito próxima com o sobrenatural desde pequeno, quando via e sentia coisas. Chris Carter (The X-Files), no oposto disso, desenvolveu o roteiro para o piloto de sua famosa série com a esperança de que as pessoas tivessem esse contato que tanto lhe faltava. O horror na tevê, um dos objetos mais íntimos dos que se percebem dentro de uma casa, é a maneira perfeita de se falar de assuntos sobre os quais ninguém fala e alcança de forma muito eficaz mesmo os mais despreparados.

O medo que o horror como gênero provoca não precisa ser explicado. É bem fácil entender por que diversas pessoas optam por dizer “eu não assisto, tenho medo” na hora de elencar sua lista de filmes favoritos da categoria. Tarefa difícil é buscar a explicação para o fascínio trazido pelas mesmas obras, muitas vezes em escala maior e mais agressiva. Mais agressivo que o medo? Pois sim, ouso dizer que a obsessão é maior que o medo. Quando pequeno, superei diversas vezes o temor pelo sobrenatural para estabelecer certa conexão com o horror, mas me falta argumentos para fundamentar minha paixão. Alguns profissionais da área, tanto do cinema quanto da tevê, usam a experiência pessoal no ramo para explicarem esse sucesso.

Guilhermo del Toro, responsável pela criação da série The Strain.
Guillermo del Toro, responsável pela criação da série The Strain.

Para John Logan, criador e escritor de Penny Dreadful (possivelmente a maior revelação do gênero nos últimos anos), o horror é sobre abraçar o monstro interior. A criação da série, segundo explicação dada por ele na Comic Con, foi uma forma de conversar com os próprios sentimentos e compartilhar a experiência de, como homossexual, sentir-se diferente dentro de sua família. A busca pelo horror, nesse caso, pode vir através da procura por identificação, mesmo que a empatia seja criada por antagonistas. Wes Craven (um dos meus diretores favoritos não só por ter levado Freddy Krueger às telas, como também pela contribuição ao mundo dos slashers com seus roteiros metalinguísticos) declarou no documentário Masters of Horror que o horror é baseado na autoafirmação da fragilidade do corpo humano. Sendo assim, assistir aos filmes/séries torna-se efetivamente amedrontador porque percebemos o quanto fisicamente (eu diria que psicologicamente também) somos suscetíveis à queda através do ataque alheio, seja ele provindo do sobrenatural ou não. O diretor via o processo de criação dentro do gênero como uma forma de retratar o mundo. Para ele, o mundo sempre foi esse lugar repleto de coisas terríveis, e seus filmes apenas refletiam essa realidade. Dessa forma, é fácil entender a vocação e dedicação que ele tinha.

John Carpenter, responsável por Halloween, viu no horror a oportunidade de se rebelar contra o que vinha sendo produzido em seu tempo no cinema. Mais do que expressão, como também define o trabalho, o horror lhe foi ferramenta de protesto. É bem capaz que estejamos em busca de certa representação da realidade, crítica ou não, por mais que não saibamos conscientemente. É dessa forma que George A. Romero explica muito de sua produção, quando utilizou de críticas quase explícitas ao consumismo, que podem passar despercebidas em razão da quantidade de gore ou do uso de zombies que tão bem representam nossas idas e vindas ao shopping. O horror, nesses casos, abriga a possibilidade de debater diversos assuntos sem a obrigatoriedade de ser óbvio no processo.

John Logan criador e roteirista de Penny Dreadful, à direita, e o ator Rory Kinnear, à esquerda, que interpretou O Monstro na série.
John Logan criador e roteirista de Penny Dreadful, à direita, e o ator Rory Kinnear, à esquerda, que interpretou O Monstro na série.

Voltando à pergunta feita alguns parágrafos atrás sobre a forma como as pessoas se propõem a serem assustadas, descobri diversas formas de respondê-las, muitas emprestadas pelos pesquisadores da área. Noël Carroll, citado na primeira parte, escreveu um livro no qual investigava esse paradoxo. Ele se propõe a responder perguntas que lhe parecem essenciais como:

Por que a audiência de [filmes de] horror é atraída pelo que, tipicamente (na vida real), iria (e deveria) lhe repelir? Como pode esta audiência achar prazer no que, por natureza, é angustiante e desagradável?

Ele chama isso de paradoxo. Em seu livro, o filósofo desconstrói algumas respostas que acabam soando mais genéricas do que críveis. Ele cita Lovecraft, por exemplo, que escreveu, por sua vez, ensaios sobre o gênero do qual fazia parte na Literatura. Para o autor, a experiência do horror através da Literatura (com esforço podemos adaptar o pensamento) era vista como uma experiência religiosa. Nesse caso, o medo tomaria ar de cósmico e seria experimentado na busca pela sensação sagrada que as pessoas tanto buscam nas religiões. Esse gênero, então, explica Nöel através das ideias do escritor de fantasia, eleva nossa sensação e percepção de algo maior, sobrenatural, deixando-nos conscientes e atentos ao desconhecido. Vale a pena o sofrimento para se chegar à conclusão de que há algo além de nossos conceitos ordinários, e é por isso que as pessoas se prestam ao desagradável.

Outra explicação seria que os monstros e criaturas sobrenaturais nos atraem pelo seu poder, pelo medo que provocam, pela sensação de opressão que conseguem nos passar.

Ernest Jones, neuropsiquiatra e psicanalista galês, através de conceitos de Freud, apontava em outra direção. Para ele, o fascínio por vampiros e outras criaturas se dava por conta de desejos reprimidos. Ele utiliza de um conceito do pai da psicanálise conhecido em português como “inquietante” (uncanny em inglês) que explora aquilo que não é somente misterioso, mas familiar a nós de alguma forma.

Rosemary Jackson, pesquisadora, em tese mais contemporânea, assimila o horror e seus monstros ao comportamento social e cultural de seus povos. Para ela, o sucesso se estabelece através da empatia que o público cria com os vilões. Segundo ela:

“O fantástico marca aquilo que não é dito e não é visto em uma cultura: aquilo que foi silenciado, tornado invisível, coberto e ausente.”

Há um documentário canadense de 2014 que dialoga diretamente com a minha pergunta chamado “Why Horror?”, no qual o filósofo citado nos parágrafos anteriores é entrevistado. Nele, o jornalista Tal Zimerman, fã desde criança do gênero horror, busca explicação para a resposta do título através das memórias de infância, da família e de conversas com cineastas. Eli Roth (cineasta conhecido no gênero por dirigir e escrever O Albergue e sua sequência) faz uma analogia interessante ao comparar o horror aos contos de fadas. Ele diz que essas histórias, por mais macabras que sejam, são uma forma que as crianças têm de lidar com o mundo tão assustador quanto lhes parece quando pequenas. Na adolescência, então, muitas crianças transportam esse comportamento para os filmes de horror, afinal, são adolescentes demais para ficarem com a literatura infantil. Há diversas explicações no documentário, e o jornalista se identifica com algumas através de suas viagens.

Tal Zimerman, fã de horror, em imagem de divulgação do documentário Why Horror?
Tal Zimerman, fã de horror, em imagem de divulgação do documentário Why Horror?

Pessoalmente, acredito que não há uma resposta que explique o relacionamento de todas as pessoas com o horror. Assim como há diversas formas de se conectar com a arte, creio que a busca e permanência em algumas esferas de seu campo também são pessoais demais para se compartilhar. Isto é, da mesma forma que temos medo de coisas diferentes, nos cobrimos de medos por motivos diferentes. Não há como chegar a um mesmo consenso se somos pessoas tão diferentes. Podemos até buscar o horror de formas similares, mas nunca estabeleceremos laços utilizando as mesmas linhas. Sem respostas óbvias, resta-nos aproveitar a pergunta e o diálogo aberto por ela.

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#MêsDoHorror

Esta é a terceira e última parte do artigo “Breve Reflexão Sobre O Horror Na Tevê”, no qual foi conversado sobre a história do horror, na primeira parte, e o gênero pelo mundo, sua atualidade e perspectiva, na segunda.

  • Claudia

    Monstros, zumbis etc , isso não me da medo algum, assisto tranquilamente qualquer produção do gênero, o que me causa medo e aflição é o sobrenatural e mesmo assim antes de ser revelado, aquele suspense,os sustos antes de sabermos do que se trata, em AHS por ex, confesso que foi a primeira vez na série em que senti algum medo, no Ep 1 e 2 da temporada atual, mas, assim que Kathe Bates apareceu em cena e o mistério foi se revelando, esse medo caiu por terra.

    • RenanSP

      penso o mesmo, lembro que assisti aquele filme Sobrenatural, e só me deu medo quando não sabia o que era, depois que revela o mundo dos mortos o terror acabou pra mim, tanto que acho que o 2 não funciona, justamente por não ter mais o desconhecido.

      • Claudia

        No filme Sobrenatural comigo foi a mesma coisa, Depois perde o clima de medo

  • netohemp

    Sensacional, obrigado pela leitura! Sem palavras para descrever o que sinto por esse genero, o meu preferido! =)

  • Natanael Lucas

    Ótima análise! Horror é um gênero com público fiel só não sei explicar como. rs

  • lucas

    Ótimo texto. Gostando do destaque que o site vem dado ao gênero nos últimos tempos. É o meu gênero favorito, que anda sendo (injustamente)subestimado nessa últimas décadas.

  • Marcelo

    Ótimo texto, sou apaixonado pelo gênero!

  • Gustavo Nóbrega

    Eu sou fascinado desde os meus 8 anos de idade quando assisti meu primeiro filme de terror,que foi SEXTA-FEIRA 13! E até hoje esse tipo de filme é uma das minhas grandes paixões na vida!

  • Letícia Menezes

    Fiquei curiosa sobre essa sessão de cinema que você foi e se divertiu mais, rs.

  • Fernanda :)

    Excelente texto, parabéns!
    Eu já sou meio-termo, não gosto do terror muito realístico nem explícito, mas adoro o lado que vai mais pra fantasia e pro suspense.

  • João Carlos

    Otimo texto. Parabéns