Oscar Maníacos Especial: Os Melhores Documentários de 2015

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Que tal curtir um filme e se informar ao mesmo tempo?

Como classificar documentários? Em 2015 eu tentei posicioná-los junto aos tantos outros filmes de ficção que assisti durante o ano, mas a comparação não me pareceu justa. Não estamos falando aqui de diferentes gêneros do cinema: terror, comédia, ação, suspense, etc. Os documentários seguem regras próprias e, apesar de também serem longa-metragens, são avaliados de forma completamente diferente de outros filmes, ficcionais. Dessa forma, tanto para honrar a singularidade dessas obras quanto para divulgá-las um pouco mais ao mundo, decidi fazer esse top 10 dos meus docs favoritos de 2015.

Creio que seja imprescindível avisá-los, antes do choro começar, que só incluirei aqui longa-metragens. Apesar de eu amar tanto The Jinx quanto Making a Murderer, o formato serial torna essas obras muito diferentes das que aqui apresentarei. Caso você também esteja apaixonado por esse novo boom de docs criminais, que tal aproveitar a chance e mergulhar um pouco mais em narrativas não-ficcionais através das indicações dessa coluna?

Última informação: as datas que eu sempre considero para determinar se o filme é de 2015 ou 2016, por exemplo, são do lançamento comercial nos EUA. Faço dessa forma para manter coerência com o Oscar e as demais premiações que eu cubro. No caso de filmes brasileiros, sigo a data local. Caso o filme não seja brasileiro e não tenha sido lançado nos EUA, considero a data de lançamento no país de origem do longa.

É isso. Vamos aos escolhidos!

10Cobain: Montage of Heck – Brett Morgen – EUA

Tivemos em 2015 uma boa quantidade de documentários sobre figuras famosas do circuito musical. Dois deles, Amy e What Happened, Miss Simone?, acabaram indicados ao Oscar, com o primeiro inclusive levando o prêmio, mas é a história de Kurt Cobain que mais me chamou atenção. Talvez pela criatividade com a qual o doc é montado: gravações de voz e cadernos de anotação do líder do Nirvana foram acumulados e usados de formas inventivas para contar sua tragédia. O enredo do herói musical que se perde em meio ao alcoolismo e às drogas é (infelizmente) comum, mas Brett Morgen nos apresenta uma miríade de curtas animados e montagens alucinógenas que servem para submergir o expectador na mente insana de Kurt Cobain. Nunca fui fã de Nirvana, ou de nenhum dos outros artistas que receberam documentários esse ano, mas Montage of Heck é com certeza o filme mais engajante desse pacote. Espere por uma quantidade absurda de material inédito, além da necessária e muito bem conduzida exploração do relacionamento turbulento de Kurt com Courtney Love.

9Drone – Tonje Hessen Schei – Noruega/Paquistão/EUA

Na imagem acima, três crianças paquistanesas posam para uma foto ao lado dos destroços causados por um ataque de drones americanos. É uma das diversas imagens das consequências dessa nova tecnologia militar que Drone faz questão de mostrar. O longa do norueguês Schei tem cuidado em analisar os efeitos dessa nova ameaça mundial em várias camadas da população. Temos entrevistas com um dos pilotos americanos de drones que abandonou o serviço após sofrer com as escolhas que fazia todos os dias, além de rotineiras idas ao Paquistão para vivenciar o drama dos moradores de uma das regiões mais afetadas por esses ataques. Há inclusive um time de advogados tentando responsabilizar alguém pelas inúmeras mortes de inocentes, mas as esperanças são baixas: quem opera os drones age como acusador, juíz e executor ao mesmo tempo, ceifando vidas sob a proteção de um governo que os acoberta com a justificativa de combater o terrorismo. Drone se destaca por analisar a questão de forma abrangente e exaustiva, e certamente irá deixar um gosto amargo na boca de seu expectador.

8Cartel Land – Matthew Heineman – México/EUA

Justiça pelas próprias mãos é um tema que te interessa? Cartel Land foi feito para você. O longa de Matthew Heineman se passa em sua maior parte em uma região do México que é dominada pelo narcotráfico. Diferentes gangues lutam por poder, e uma população cansada do banho de sangue e da inércia estatal subitamente se organiza militarmente e resolve revidar. Os Autodefensas vão atrás dos traficantes por conta própria e sem qualquer autorização governamental. O desenrolar da história é fascinante e ao mesmo tempo terrivelmente sombrio. Cartel Land é um dos indicados de 2015 para o Oscar de Melhor Documentário, e certamente merece o reconhecimento. Além de nos mostrar esse poderoso movimento popular no México, o doc faz uma justaposição dessa situação com um grupo de vigilantes americanos que decidem proteger a fronteira EUA-México da entrada legal de estrangeiros. A comparação é justificada? Difícil (e provavelmente polêmico) dizer, mas é nessa brutal análise de uma comunidade civil tomando para si o poder repressor do Estado que Cartel Land brilha mais forte.

Cartel Land está disponível no catálogo da Netflix Brasil.

7Prophet’s Prey – Amy Berg – EUA

Às vezes uma história é tão espetacularmente inacreditável que o documentário não precisa ser muito original ou criativo para se destacar. Prophet’s Prey é um desses casos. O doc nos mostra a história da Igreja Fundamentalista dos Santos dos Últimos Dias, um ramo dissidente dos mórmons que se separou quando a igreja principal abandonou a doutrina mais escandalosa de seu criador: a poligamia. Entranhados nas partes mais inóspitas dos EUA, os chamados FLDS mantém suas tradições até hoje, com consequências chocantes. O documentário de Amy Berg destaca-se pelo incrível acesso que conseguiu a diversos ex-membros da igreja, alguns deles inclusive do alto escalão. As histórias contadas vão progressivamente evoluindo do esquisito ao inacreditável e, finalmente, ao enfurecedor. É o tipo de doc no qual o expectador se beneficia de pouco conhecimento do caso.

6Finders Keepers – Bryan Carberry & Clay Tweel – EUA

Finders Keepers é com certeza o documentário mais mundano dentre todos os meus escolhidos esse ano. Não temos aqui nenhuma crise mundial, nenhuma celebridade, nenhuma história avassaladora. O máximo que se pode dizer é que a premissa é esquisita: John Wood sofreu um acidente de avião e perdeu uma de suas pernas, sendo que seu pai, que o acompanhava, morreu. Wood decide manter a perna amputada como uma recordação do pai, mas uma estranha sequência de eventos acaba a colocando nas mãos de Shannon Whisnant. Esse é o personagem mais absurdo e divertido do filme. Whisnant decide manter a perna e declara que tem direito a ela, já que a comprou em um leilão. O que se segue é uma improvável disputa pela custódia da perna amputada, com seu comprador tentando se aproveitar do circo midiático que ocorre ao redor do caso para lucrar.

Entretanto, o que coloca Finders Keepers nesse top não é sua plot improvável, mas sim o surpreendente pano de fundo emocional da história. Os diretores se importam com os personagens e ouvem ambos os lados da disputa de forma igualitária, ao mesmo tempo que tentam decifrar a psique de cada um deles. Por que Wood decidiu guardar uma perna amputada? Por que Whisnant não desiste de mantê-la em sua custódia e quer lucrar com algo tão mórbido? Subitamente estamos assistindo um estudo de personagens, e isso é mérito total desse maravilhoso documentário.

Finders Keepers está disponível no catálogo da Netflix Brasil.

5Best of Enemies – Robert Gordon & Morgan Neville – EUA

Minha primeira reação ao ler a sinopse de Best of Enemies foi de desinformado preconceito. Um documentário político analisando uma série de debates entre um democrata e um republicano nos anos 60? Não parece ser muito atraente. O que acabei recebendo foi um longa extremamente bem feito que explora importantes temas políticos e históricos através dos debates entre Gore Vidal e William F. Buckley. Não somente isso: temos também um perfil detalhado de dois intelectuais cujo histórico de encontros vai progressivamente evidenciando uma forte e mútua antipatia. O sentimento degenera-se para inimizade e até mesmo puro asco, tudo alimentado por visões políticas extremamente opostas. Vidal era um romancista, dramaturgo e roteirista dotado de um estilo ácido e extremamente transgressor para sua época (ele é responsável pelo roteiro de nada mais nada menos que Caligula). Buckley foi o fundador de uma das revistas mais influentes do conservadorismo americano, além de ter sido âncora de um importante programa de televisão sobre política. Os embates entre esses dois pensadores modernos revelam mais do que possa ser sugerido à primeira vista, e Best of Enemies demonstra isso com extrema habilidade.

Best of Enemies está disponível no catálogo da Netflix Brasil.

4Winter on Fire: Ukraine’s Fight for Freedom – Evgeny Afineevsky – Ucrânia

Normalmente narrativas reais não se adequam com facilidade às conveniências do longa-metragem fictício. Às vezes uma história começa, morre no meio do caminho e toma um rumo completamente inesperado. Entretanto, é possível que histórias como Winter on Fire aconteçam e criem grandes documentários. O relato do início sanguinolento dos protestos na Ucrânia que abalaram o mundo é inesperadamente cinematográfico. Quando o presidente do país quebra sua promessa de campanha e não assina o acordo que tornaria a Ucrânia parte da União Europeia, uma massa de protestantes se reúne no centro da capital Kiev para protestar. A influência russa está próxima, e não é isso que essas pessoas querem. Entretanto, o que era um ato pacífico pedindo pela democracia acaba se tornando numa trágica e cada vez mais intensa batalha por território.

O palco central é a praça Maidan, ponto icônico da capital ucraniana. Para narrar o conflito, o diretor Afineevsky tem uma equipe de pessoas no centro dos acontecimentos registrando tudo. Tal atitude se prova cada vez mais perigosa à medida que a situação fica mais e mais tensa: a polícia usa força de forma indiscriminada, os manifestantes revidam e a pancadaria começa. Depois disso, ela só aumenta. São dias e dias de um protesto que lentamente se metamorfoseia em guerra armada, com dois lados extremamente desiguais. O documentário se posiciona sempre ao lado dos manifestantes, algo que gerou algumas críticas em virtude dele ter ignorado os separatistas de outras partes do país e suas reivindicações de união à Rússia. Entretanto, Winter on Fire não é poderoso em virtude de suas posições políticas. Ao retratar com brutalidade e paixão uma multidão de ucranianos engajados pelo seu país serem massacrados pelas forças policias do governo e mesmo assim manterem-se firmes, o longa de Afineevsky nos passa uma poderosíssima mensagem de esperança. Nossa ideologia é menos importante do que o nosso direito de expressá-la.

Winter on Fire está disponível no catálogo da Netflix Brasil.

Se você é um fã de Tom Cruise ou John Travolta, peço que prepare seu coração antes de assistir Going Clear. Embora a narrativa desse documentário seja similar à do supracitado Prophet’s Prey, o mero fato da Cientologia existir em escala muito maior e envolver diversas figuras icônicas do mundo de Hollywood torna a experiência diferente. Este filme do prolífico Alex Gibney se propõe a examinar essa religião, começando por sua criação pelo escritor de ficção científica L. Ron Hubbard nos anos 50. Desde então, a sucessão de acontecimentos é inacreditável: crenças estapafúrdias, abuso de fiéis, pressão por doações que fazem a Igreja Universal parecer santa em comparação e uma relação sempre próxima com os astros de Hollywood.

Going Clear não se destaca por seus métodos, seguindo a comum narrativa cronológica e exibindo uma tonelada de entrevistas. É a organização e a natureza progressiva de cada revelação inacreditável que fisga o expectador por completo. Novamente temos aqui uma riqueza impressionante de fontes, inclusive com figuras conhecidas de Hollywood que saíram da Cientologia dando seus depoimentos (Paul Haggis, diretor do vencedor do Oscar Crash, é um deles). Quanto aos que permanecem até hoje na organização, como Cruise e Travolta, o documentário não poupa ataques. A natureza de alguns dos acontecimentos em Going Clear extrapola o limite do imaginável, e prefiro deixar que vocês descubram por si mesmos. Boa sorte.

Going Clear está disponível no catálogo da Netflix Brasil.

2The Salt of the Earth (O Sal da Terra) – Wim Wenders & Juliano R. Salgado – Brasil/França

É uma pena que tenha sido necessária a presença de um diretor alemão para dar ao brasileiro Sebastião Salgado o reconhecimento que ele merecia. The Salt of the Earth é um documentário que propicia êxtases infinitos, contando a história do renomado fotógrafo através de suas obras de arte. A experiência de Salgado é infindável, e de forma extremamente sutil e tocante vamos trafegando por cada uma de suas estupendas fotografias enquanto ele mesmo narra os acontecimentos que levaram a elas. A vida do fotógrafo é ampla, e essa impressão fica muito forte no longa. Acompanhamos suas aventuras na Antártida, sua aterrorizante viagem por Ruanda durante o extermínio de 1994, suas fantásticas buscas pelo que há de mais belo da natureza terrestre. O diretor Wenders (acompanhado pelo próprio filho de Salgado) entende muito bem que a maior força de seu filme está nas obras de Sebastião, e deixa a narrativa ser conduzida por elas. Os projetos do fotógrafo duram anos e anos, com viagens intermináveis para todos os cantos do planeta, e sua personalidade é moldada por isso.

Talvez essa seja a maior virtude do filme que não se relacione diretamente às fotografias de Salgado. Wenders enxerga um homem abatido após suas viagens pela África, onde ele registrou algumas das imagens mais perturbadoras que eu já vi (incluindo a fotografia acima). Desanimado com a tragédia incomensurável da fome e da guerra africana, Salgado passa por uma crise existencial. Entretanto, seu retorno é triunfal: seu próximo projeto, chamado Gênesis, é uma ode às belezas naturais. Isso sem contar os seus esforços para reconstruir a Mata Atlântica, algo que resultou no Instituto Terra, um dos maiores exemplos de preservação florestal do Brasil.

Tantos elogios podem fazer parecer com que The Salt of the Earth seja uma obra de infindáveis elogios, exclusivamente dedicada a fazer com que Salgado se mostre uma pessoa sem defeitos e benigna. Não posso negar que terminei de ver o filme com uma enorme apreciação pelo fotógrafo, mas Wenders não pesa a mão de nenhuma forma nesse aspecto. Salgado transmite a todos o seu ser sem ajudas sensacionalistas ou melodramáticas. Em última instância, entretanto, são suas fotografias que importam. É possível que meu amor pela arte da cinematografia tenha influenciado meu julgamento do filme, mas preciso frisar novamente: é impossível descrever o quão belo The Salt of the Earth é. Mas não estaria eu aqui falando na verdade sobre as fotos de Salgado? Sim. O mérito é delas, mas avaliar o filme sem seu maior destaque me parece extremamente injusto. De qualquer forma, assista essa maravilha imediatamente.

1The Look of Silence(O Peso do Silêncio) – Joshua Oppenheimer – Indonésia

Algo precisa ser dito sobre a posição dos dois primeiros colocados nesse top 10: qualquer um dos dois merece estar no topo. Entretanto, eu precisava fazer uma escolha entre o que meu coração (The Salt of the Earth) e meu cérebro (The Look of Silence) me diziam. O primeiro foi uma indelével experiência, mas tenho certeza de que o segundo é, em última instância, o melhor filme.

The Look of Silence é um acompanhamento ao documentário anterior de Oppenheimer, chamado The Act of Killing.

Assistir os dois é essencial, até mesmo porque o primeiro é tão impactante como o segundo. Ambos se passam na Indonésia, e lidam com uma questão de morbidez acachapante: nos anos 60 um golpe militar foi aplicado no país, com apoio dos EUA e tendo como objetivo acabar com a “ameaça comunista”. Usando desse pretexto, estima-se que entre 500 mil e 3 milhões de pessoas foram assassinadas nos anos de 1965 e 1966. Um período ditatorial estendeu-se até os anos 90, e a desculpa do comunismo manteve-se para exterminar qualquer pessoa contrária ao regime.

Essa história seria muito parecida com a experiência brasileira, se não fosse pelo detalhe essencial que é o cerne de The Look of Silence: apesar do fim da ditadura nos anos 90, os mercenários contratados para realizar os massacres dos anos 60 ainda se mantém no poder através de organizações militares. O comunismo ainda é tratado como uma perversão satânica, e os assassinos da época vivem tranquilamente na região, ocasionalmente contando com orgulho sobre os comunistas que eliminaram. Em meio a esse cenário infernal, Oppenheimer acompanha a jornada de Adi Rukun, um indonésio cujo irmão foi morto pelo regime e que não consegue esquecer dessa tragédia nacional. É então que, enfrentando riscos incomensuráveis à sua vida, Adi resolve confrontar aqueles responsáveis pela morte de seu irmão.

As entrevistas entre Adi e os perpetradores de alguns dos crimes mais hediondos da humanidade são o centro de The Look of Silence. Nesses momentos, Oppenheimer opta pelo silêncio do título. O ritmo do documentário é mais lento e reflexivo, várias vezes retornando aos olhos marejados de Adi enquanto ele assiste vídeos nos quais os assassinos de seu irmão descrevem o processo de matança que usaram há muitos anos atrás. A carga emocional dessas estrevistas é diluviana. O significado, tremendo. The Look of Silence força o expectador a observar de perto os exemplos mais escabrosos da sordidez humana. Nada poderá prepará-lo para o impacto desse longa, que certamente será lembrado ao lado de seu companheiro The Act of Killing como uma das obras-primas do século XXI e o melhor documentário de 2015.

E vocês, o que acharam da lista? Gostaram de algum documentário que não entrou no Top 10? Deixo com vocês a lista completa de docs lançados em 2015 que assisti, por ordem de preferência. Até a próxima!

  • crisguilhon

    The Wolfpack.

  • Amanda

    Pra mim o melhor doc de 2015 foi o da Cassia Eller dirigido pelo Paulo Henrique Fontenelle. Maravilhoso.

  • MC

    Adoro listas de documentário! Inclusive seria massa fazer uma só desses docs true crime, tem muita coisa boa por aí.

    Dos de 2015 me falta ver muita coisa ainda, principalmente The Look of Silence já que seu antecessor foi tão marcante pra mim.

    E concordo com a Cris, The Wolfpack tá no meu top 10!

  • Vínicius Mussa

    o peso do Silêncio o melhor disparado. Lista fantastica mesmo eu tendo odiado o sal da terra.. parabéns.