OJ: Made in America – O Documentário do Ano

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Você provavelmente já conhecia a história de O.J. Simpson antes de 2016, ou pelo menos tinha alguma vaga noção a respeito do assunto. Durante esse ano, entretanto, por alguma conjunção bizarra dos astros, o tema voltou com força aos holofotes e é bem provável que seu conhecimento sobre uma das histórias mais fascinantes e inacreditáveis do planeta Terra tenha aumentado exponencialmente.

É claro que estou falando de American Crime Story, a nova e muito bem-sucedida empreitada de Ryan Murphy que dramatizou o julgamento de O.J. Simpson pelo assassinato de Nicole Brown-Simpson e Ronald Goldman. A série alcançou uma recepção imensa tanto dos críticos como da audiência, e me bastou acompanhar de forma superficial os comentários aqui no Série Maníacos para perceber que o fenômeno também chegou no Brasil.

Entretanto, de forma relativamente mais escondida do grande público, a ESPN produziu e distribuiu um documentário de 7 horas e meia de duração, dividido em 5 capítulos, a respeito de O. J. Simpson. Criado e dirigido por Ezra Edelman, conhecido até então por alguns poucos documentários esportivos, o programa acabou se tornando o evento televisivo com as melhores reviews de 2016.

Afinal, qual o motivo de tanta admiração?

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A primeira e mais óbvia distinção que um fã de ACS irá fazer a respeito de Made in America, além é claro do formato documental, é o escopo da minissérie. O projeto de Ryan Murphy tem como objetivo principal mostrar o julgamento de O.J., iniciando-se logo após a consumação do crime.

Made in America aborda toda a trajetória de Simpson, da infância até os anos após o julgamento. É uma minissérie com escopo muito maior, e a perspectiva oferecida pelos dois primeiros capítulos dá uma bagagem incrível para o expectador nos episódios 3 e 4, que acompanham o julgamento. Afinal, a lenda de Simpson começou muito antes de 12 de junho de 1994, e sua construção e desconstrução através do tempo é um dos aspectos mais fascinantes dessa história.

É claro que estamos falando aqui de futebol americano. A contextualização oferecida pela série a respeito do tamanho de O.J. Simpson no esporte é importantíssima, principalmente para brasileiros que não conhecem nada a respeito do tema. Made in America traça a história ascendente de Simpson e consegue nos fazer entender o ídolo. Através de uma sequência de filmagens somos introduzidos ao seu principal atributo: correr com a bola oval por entre um emaranhado de inimigos, mais ágil e veloz do que todos ao seu redor.

Todavia, seu sucesso no esporte é apenas uma faceta de um dos maiores ícones americanos de todos os tempos. O.J. é desde o início da série tratado como um homem ambicioso, sedento de fama e focado em seus objetivos. Segundo vários depoimentos, seu carisma era fenomenal e atraía qualquer pessoa. Sempre querendo mais, o esportista traçou seu caminho após a aposentadoria no futebol através de Hollywood. Comerciais bem-sucedidos, patrocínios, atuações centrais em filmes da época, posto de comentarista esportivo (à la Ronaldo Fenômeno), contatos na alta sociedade, amigos milionários… Simpson nunca parou de perseguir o topo, e lá esteve por vários anos.

Isso acabou tendo um curioso preço para sua reputação, e a forma como Made in America aborda esse tema talvez seja o maior mérito da série.

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A importância dada por Made in America à questão racial em Los Angeles é tão forte que às vezes parece ser exagerada. Por várias vezes paramos de acompanhar a história de O.J. para nos focar nas tensões entre polícia e comunidade negra que definiram a época. O propósito de tudo isso fica mais claro com o tempo e, principalmente, com o julgamento de Simpson. Entretanto, desde o início esse viés racial auxilia a série a nos apresentar a curiosa posição de seu protagonista a respeito da questão.

Na realidade, Simpson nunca se envolveu com a comunidade negra. Seu sucesso astronômico o catapultou para a alta sociedade americana, e seu carisma irresistível atraía qualquer um. Majoritariamente aceito pelas celebridades e grandes figuras do mundo dos negócios, “coincidentemente” todas brancas, O.J. esqueceu-se da cor de sua pele. Made in America faz aqui paralelos espetaculares: enquanto o atleta esbaldava-se em prêmios e jantares sofisticados, as tensões entre a polícia de Los Angeles e a comunidade negra se acirravam.

Por último, o depoimento definitivo do que O.J. pensava a respeito de si mesmo:
I’m not black. I’m O.J..”

Essa alienação extrema de Simpson é contrastada por Made In America aos abusos sofridos pelos negros na época, que culminaram de forma violenta em 1992 com o espancamento de Rodney King por policiais brancos, fato registrado em vídeo e reproduzido nacionalmente para a ira de todos os negros nos EUA (foto acima). A série faz questão de nos contar em detalhes a progressão do movimento, que culminou com revoltas, incêndios e violência generalizada na cidade de Los Angeles após os policiais responsáveis pelo ato serem inocentados em juízo.

O clima de desconfiança e ressentimento estava instaurado. A ira racial dominava Los Angeles na época, e é nesse contexto que um ídolo americano caiu de seu pedestal, subitamente lançando dentro da polêmica da qual ele tentou por toda sua vida escapar.

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O assassinato de Nicole e Ronald aconteceu num momento extremamente peculiar para a sociedade americana. Tensões raciais espalhavam-se pelo país, e no momento em que um homem negro foi preso acusado de homicídio toda a alienação de O.J. para com sua raça foi imediatamente esquecida.

A ironia do caso é merecidamente apontada pela série: erguendo um homem negro acusado de homicídio como exemplo dos conflitos raciais no país, os americanos esqueceram-se de que O.J. era uma celebridade milionária que havia há muito tempo ultrapassado a barreira da raça. Auxiliada por Johnnie Cochran, o advogado de Simpson que mergulhou o julgamento nesse efervescente caldeirão racial, a comunidade negra dos EUA depositou uma importância incomensurável no veredito de seu suposto aliado. Não importa se tal importância era merecida ou não: ela existiu, e isso transformou The People vs. O.J. Simpson num evento crucial da história dos Estados Unidos da América.

A forma como esse evento é tratado pela série envolve uma série de entrevistas profundamente esclarecedoras com personagens chave do julgamento: Carl E. Douglas, F. Lee Bayley e Barr Scheck, advogados de defesa; Marcia Clark (sim, a Sarah Paulson da vida real!) e Gil Carcetti, da acusação; Yolanda Crawford e Carrie Bess, duas integrantes do júri e vários policiais que atuaram no caso, incluindo-se aí o importantíssimo Mark Fuhrman, que foi peça-chave do julgamento em virtude de seu nebuloso passado com casos de racismo.

A forma com que Made in America interliga esses depoimentos uniformemente fascinantes em uma narrativa coesa e complexa é estupidificante. A minissérie é ambiciosa: se propõe a analisar a vida e a personalidade de O.J. em plenitude total, nos mostrar todo o julgamento, exibir o panorama racial da época através da revolta de Los Angeles em 1992 e ainda nos revelar os chocantes acontecimentos que se desenrolaram após o julgamento. Subitamente, 7 horas e meia não parecem ser o suficiente para todo esse conteúdo, mas Ezra Edelman faz mágica com o fabuloso material que tem em mãos. Saímos de Made in America com uma compreensão assustadora da pessoa que é O. J. Simpson, da sua trajetória de extremos altos e baixos e do rancor racial que permeia a sociedade americana. Com certeza uma das jornadas mais espetaculares que já tive o prazer de acompanhar na minha vida. Entre no barco você também.

P.S.: O.J.: Made in America está disponível na íntegra para assinantes do canal ESPN através do serviço online Watch ESPN.

  • Mauro

    Achei o documentario genial. Depois de assistí-lo, fiquei com a sensação que Cuba Golding Jr não conseguiu entregar um bom trabalho como OJ.

    • Alan

      Para mim ele fez um péssimo trabalho como OJ

    • edujakel

      eu sempre achei q o biotipo de Cuba nao era o certo. Cuba é muito pequeno perto de OJ. Enquanto os outros escalados eram extremamente iguais.

  • Mauro

    Achei o documentario genial. Depois de assistí-lo, fiquei com a sensação que Cuba Golding Jr não conseguiu entregar um bom trabalho como OJ.

    • Alan

      Para mim ele fez um péssimo trabalho como OJ

    • edujakel

      eu sempre achei q o biotipo de Cuba nao era o certo. Cuba é muito pequeno perto de OJ. Enquanto os outros escalados eram extremamente iguais.

  • Vivian Murucci

    Eu tô no chão que tem um documentário de 7 horas sobre isso. Preciso ver!!

  • Vivian Murucci

    Eu tô no chão que tem um documentário de 7 horas sobre isso. Preciso ver!!

  • Gleibson Acácio

    tentei assistir mas parei no segundo epi, uma hora e meia cada e fala mais de outras coisas da epoca do q do proprio OJ… mas tentarei continuar e ver tudo rs

    • João Manoel

      Por isso mesmo é que foi ótimo. Ótimo não, sublime.
      O primeiro e segundo episódios são uma verdadeira (breve) aula da história americana nos anos 60, 70 e 80, principalmente no tocante aos conflitos raciais e sociais existentes.
      A carreira dele, bem como tudo o que decorreu depois, são bem retratados. Assista a série completa. Garanto que não vai se arrepender.

    • exdown

      esses dois episodios dos conflitos raciais são retratados para mostrar como se deu a absolvição dele no caso de assassinato ele não foi absolvido por ser inocente ele foi absolvido pq os negros queriam ver um negro ”se dar bem ” por ter feito algo errado assim como os brancos sempre se livravam o 3ª e o 4ª mostram o julgamento e a reação do publico

      • Gleibson Acácio

        vou pular pro terceiro! kkk verei todos entao

  • Gleibson Acácio

    tentei assistir mas parei no segundo epi, uma hora e meia cada e fala mais de outras coisas da epoca do q do proprio OJ… mas tentarei continuar e ver tudo rs

    • João Manoel

      Por isso mesmo é que foi ótimo. Ótimo não, sublime.
      O primeiro e segundo episódios são uma verdadeira (breve) aula da história americana nos anos 60, 70 e 80, principalmente no tocante aos conflitos raciais e sociais existentes.
      A carreira dele, bem como tudo o que decorreu depois, são bem retratados. Assista a série completa. Garanto que não vai se arrepender.

    • exdown

      esses dois episodios dos conflitos raciais são retratados para mostrar como se deu a absolvição dele no caso de assassinato ele não foi absolvido por ser inocente ele foi absolvido pq os negros queriam ver um negro ”se dar bem ” por ter feito algo errado assim como os brancos sempre se livravam o 3ª e o 4ª mostram o julgamento e a reação do publico

      • Gleibson Acácio

        vou pular pro terceiro! kkk verei todos entao

  • edujakel

    verei.

  • edujakel

    verei.

  • Guilherme

    Hoje vou ver o terceiro episódio. Estou vendo aos poucos, acompanhando as legendas que vão sendo disponibilizadas. Ano passado a melhor produção que eu assisti foi “The Jinx”, e pelo jeito esse ano vai será novamente uma série documental a melhor atração que terei acompanhado. É tudo tão bem feito e contado que merecia um destaque inúmeras vezes maior que American Crime Story, que aliás eu não consegui passar do segundo episódio e Cuba é definitivamente um grava erro como escolha para viver O.J. Simpson.

  • Guilherme

    Hoje vou ver o terceiro episódio. Estou vendo aos poucos, acompanhando as legendas que vão sendo disponibilizadas. Ano passado a melhor produção que eu assisti foi “The Jinx”, e pelo jeito esse ano vai será novamente uma série documental a melhor atração que terei acompanhado. É tudo tão bem feito e contado que merecia um destaque inúmeras vezes maior que American Crime Story, que aliás eu não consegui passar do segundo episódio e Cuba é definitivamente um grava erro como escolha para viver O.J. Simpson.

  • Michelle Dykyj

    onde vcs estão baixando?

  • Michelle Dykyj

    onde vcs estão baixando?

  • Fábio Terra

    Uma coisa bem legal que aprofunda muito mais no documentário do que na série é justamente a Nicole Brown

  • Fábio Terra

    Uma coisa bem legal que aprofunda muito mais no documentário do que na série é justamente a Nicole Brown

  • Raquel de Meneses

    Aaron, que dica boa. Maratonei tudo em dois dias e fiquei impressionadíssima com o casting de American Crime History, a semelhança dos personagens chega a assustar. O embasamento histórico e o panorama social é muito bem apresentado aqui, super bem contado, nem senti o tempo passar, recomendo imensamente.

  • Raquel de Meneses

    Aaron, que dica boa. Maratonei tudo em dois dias e fiquei impressionadíssima com o casting de American Crime History, a semelhança dos personagens chega a assustar. O embasamento histórico e o panorama social é muito bem apresentado aqui, super bem contado, nem senti o tempo passar, recomendo imensamente.