[Off-Topic] Mr. Mercedes

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O mestre do terror agora mostrando uma nova faceta.11

Sempre fui um fã incondicional de Stephen King. Mesmo suas piores histórias são capazes de superar facilmente as melhores de outros autores menos talentosos, e que pululam cada vez mais no mercado literário. Então é sempre com muito prazer e expectativa que recebo os novos títulos do autor, pronto para me surpreender com as bizarrices que somente ele parece ser capaz de criar.

A história gira em torno de Bill Hodges, um detetive aposentado, que recebe uma carta de Mr. Mercedes, um assassino que jogou um carro (adivinhem a marca!) em uma multidão de pessoas em uma fila, alguns meses antes da nossa história de fato começar. Lançado recentemente no Brasil, Mr. Mercedes é o primeiro de três livros que juntos se intitulam Trilogia Bill Hodges. Ao mesmo tempo que o projeto soa bastante interessante, alguns cuidados devem ser tomados no caminho.

Não é novidade para King escrever histórias continuadas. Lembremos que a primeira versão de It (A Coisa) foi lançada originalmente em dois volumes, isso sem citar o que é considerado por muitos como o Magnum Opus do autor, a série de sete volumes (que na verdade são oito) de A Torre Negra. O que esta história apresenta de novidade é seu gênero. Já li tantos livros (sem contar os inúmeros contos) que não me lembro se em algum outro ele deixa o sobrenatural completamente de fora de seus enredos como acontece aqui, entregando ao leitor um bom thriller policial, mas é bom ver King saindo do que podemos chamar de sua zona de conforto.

O livro é dinâmico e em nenhum momento o leitor sente monotonia com a leitura, mesmo nos momentos que podem ser considerados mais “parados”. Isso se deve, principalmente, ao recurso de narrativa dividida, separando em quantidades praticamente iguais o ponto de vista de Hodges, nosso esperto protagonista, com a de Hartsfield, o famigerado antagonista. E é nesse recurso tão interessante que jaz o maior problema de Mr. Mercedes: King possibilita uma oportunidade rara de desenvolver com o mesmo peso seu herói e vilão, construindo suas personalidades ao ponto do aguardado clímax. Mas a verdade é que a coisa acaba meio que soando como um tiro no pé.

Isso porque o escritor erra naquilo que a via de regra é sempre seu maior acerto: O desenvolvimento de seus personagens, na maioria das vezes tão bem construídos que a empatia causada por eles é muito difícil de ser superada. Isso acontece até mesmo em histórias bem insossas, como é o caso de Joyland, por exemplo. Se Hodges não compromete como um todo, o mesmo não pode ser dito de Brady Hartsfield. O personagem soa extremamente clichê, parecendo mais aqueles ditos psicopatas de filmes B, que serviram principalmente para mistificar a palavra e instauras uma cultura de medo. O personagem se mostra contraditório, e isso não é uma coisa boa. Ele é vendido como alguém tendo uma inteligência acima da média (como a maioria dos psicopatas ficcionais possuem) mas comete erros bobos e em nenhum momento está em real vantagem quanto Hodges e sua trupe (e chegaremos a eles, aguardem mais um pouco). Brady é frio como gelo, mas em determinados momentos apresenta um arrependimento real por ter matado seu irmão quando ainda era uma criança. As inconsistências são demais para serem ignoradas. Falta profundidade psicológica no que era para ser o mais bem planejado personagem do livro, o que não é típico de King.

Outro ponto que deixa a desejar é algumas informações básicas e simples de nomenclatura. No livro é dito que Brady é um “serial killer”, enquanto, na verdade, ele é um “assassino em massa”. Ele matou um número X de pessoas em um único evento, não saiu por aí matando regularmente em espaços de tempo determinados. Mesmo ele tendo induzido Olivia ao suicídio, não podemos considerá-lo um assassino em série, visto que ele não teve o número mínimo de vítimas necessário dentro do modus operandi dessa categoria de assassino. Enquanto King mostra um trabalho de pesquisa muito bom dentro de procedimentos sistêmicos e informática, além da clonagem de chaves inteligentes, coisas básicas como esta acabam passando despercebidas pelo autor.

Já os coadjuvantes se mostram personagens de personalidade fortes e que marcam a memória do leitor. Jerome Robbins é o faz-tudo de Hodges, prestes a entrar para qualquer grande universidade que o aceite, o que, aparentemente, pode ser qualquer uma delas. Muito mais do que mostrar a esperteza e expertise dos jovens no mundo on-line, Jerome funciona como o clássico alívio cômico, mesmo que King já tenha criado melhores. Ainda assim o personagem é suficientemente carismático para nos importarmos com ele, principalmente quando ele corre algum perigo real. Mas quem mais chama a atenção é Holly, personagem que de longe intriga mais o leitor. Se analisarmos friamente, ela é quase tão clichê quanto Hartsfield, mas o autor coloca nela pequenos detalhes que a vão deixando única, acrescentando camadas, e ela se torna uma das melhores (se não a melhor) personagem do livro. Cheia de maneirismos e até com um certo quê de Carrie, Holly aparece na segunda metade do livro e rouba a cena a ponto de nem lembramos como era a história antes de sua aparição.

Kermit William “Bill” Hodges (porra King, não tinha um nome piorzinho não?) é esforçado em ser um personagem cativante. Dono de uma barriga enorme, o detetive aposentado tem uma linha de raciocínio afiada como uma faca, notando cada armadilha e “pegadinha” que Mr. Mercedes deixa em seu caminho (ponto que favorece bastante o protagonista, mas enfraquece em igual medida seu rival). Essa dinâmica de gato e rato é o que dita boa parte do livro, mas a relação entre eles melhora muito já na reta final da história. Principalmente porque é o único momento que sentimos que realmente Brady é quem pode levar a melhor nessa história.

A trama, como dito mais acima, torna a leitura dinâmica e agradável. Isso se intensifica nos momentos finais do livro. Conforme vamos nos aproximando do explosivo clímax, o ritmo vai crescendo, alternado cada vez mais (e mais depressa) entre o núcleo do herói e do vilão. Os personagens vão todos ganhando mais força, e conforme isso acontece, o próprio enredo também ganha mais força. A conclusão é que se o livro tivesse essa pegada desde o início (não necessariamente em questão de ritmo, mas de conseguir dar a importância necessária a cada núcleo, e, consequentemente, a história), estaríamos diante de mais um grande livro de king. Não que o livro seja ruim, longe disso, mas a impressão que fica é que ele poderia ter alcançado um potencial muito maior.

Outras Informações:

– Uma das coisas que mais gostava nos livros antigos de Stephen King e que se perdeu um pouco na fase pós Torre Negra eram as auto referências e easter-eggs. Em Mr. Mercedes, logo no começo, é revelado que Brady usava uma máscara de palhaço quando usou o Mercedes roubado para atropelar as pessoas. É dito por Pete que a máscara lembra a do palhaço que sai de um bueiro de um filme antigo. É uma referência ao filme It- Uma Obra Prima do Medo, baseado em A Coisa. Apesar de ser uma referência, isso é citado como algo ficcional, que aconteceu em um filme. Antigamente essas referências se passavam como fatos reais, dentro de um mesmo universo.

– Já está confirmado uma adaptação para a TV de Mr. Mercedes em formato de minissérie. Farei as reviews aqui no Série Maníacos. Só resta saber se será realmente uma minissérie, como a recente 11.22.63 ou se eles esticarão para mais temporadas como fizeram com a horrorosa Under the Dome. Não tendo a qualidade desta já estaremos no lucro.

– Foi publicado ano passado o segundo volume da trilogia, intitulado Finders Keepers. O terceiro e último volume está previsto para este ano com o título End of Watch.

– A rede social inventada no livro, Under Debbie’s Blue Umbrella foi muito interessante. Não me importaria de aparecer nos próximos volumes. Já tem até domínio real agora. Será que SK ganha algum em troca?

  • vinland

    Gostei da critica sobre o livro. Apesar de achar que, em meio a tantos livros bons, e classicos, ele tem muita porcaria no meio tambem. Sem falar que seus livros mais antigos, ele tem uma mania de ser muito detalhista, o que pode afastar leitores de primeira viagem.

    • Willian Silva

      Vai muito da sorte de qual o primeiro livro que se lê dele. Eu tive a sorte de ler It. Ainda bem.

      • vinland

        Sim vai da sorte. No seu caso, for sorte ter gostado do livro mesmo, porque IT nao seria um livro que eu indicaria, pra quem nunca leu Stephen King. Primeiro por ser um livro grande, segundo por o escritor detalhar muito os personagens, e ate o livro engrenar, demora bastante. O que ajuda IT, e que apesar do ST ser muito detalhista, a historia flui muito bem, e vc quer saber mais sobre os personagens. Agora, por exemplo, Sob a redoma, o livro foi super cansativo, e eu teria cortado umas 300 paginas daquele livro, porque havia muita coisa sem necessidade no meio. Christine, Rose Madder, e o apanhador de sonhos, foram outros 3 livros, que foram um sacrificio para terminar.

  • Spaceman

    Já estava na minha lista de leitura. Se não me engano foi lançado aqui a pouco tempo aqui, não foi? Nossa e já vamos ter série? Melhor correr e ler logo. E parabéns, ótima crítica.

    • Thiago Pereira

      Sim, foi lançado agora em março. Leia, se você gosta do estilo de King, gostará deste também. E obrigado, fico feliz que tenha gostado B-)