O Lar das Crianças Peculiares

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Continue peculiar.

O mundo criado por Ransom Riggs se localiza numa interseção entre o sombrio e o fantástico. Se utilizando de imagens antigas com criaturas dignas de um freak show e infundindo toda uma mitologia por trás disso, Riggs cria um novo mundo que se esconde em plena vista.  Nada mais natural que um diretor do cacife de Tim Burton para adaptar a obra para a tela grande. “O Lar das Crianças Peculiares” (Miss Peregrine’s Home for Peculiar Children, 2016) é uma fábula sombria, que brinca com as diferenças humanas num contexto fantástico, numa “atípica” obra do diretor.

Quando Jacob (Asa Butterfield) descobre uma pista para um mistério familiar que envolve mundos mágicos e épocas diversas, ele acaba indo parar no Lar das Crianças Peculiares da Sra. Peregrine. Ao conhecer seus residentes e suas “peculiaridades”, ele também aprende sobre a grande ameaça que paira sobre aquele cotidiano perfeito, descobrindo que com toda sua “normalidade”, é mais especial do que imaginava.

Quando classifico como atípica não me refiro a fugir do já conhecido maneirismo de Burton para o esquisito e irreal, mas sim a grande quantidade de referências a outras obras de fantasia, que acabam roubando um pouco o brilho do diretor para o que ele sabe fazer de melhor: o gótico e estranho. O roteiro de Jane Goldman, que escreveu “Kick-ass” e “X-Men: Primeira Classe”, sabe dosar bem essa miríade de fontes presentes na obra de Riggs, mas é impossível não linkar imediatamente certas passagens com outras do gênero (Harry Potter, no local escondido a vista de todos; Spiderwick, na ambientação; X-Men, na questão das habilidades passadas de pai para filho nos genes; Nárnia, na temática de Segunda Guerra Mundial…).

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A construção visual, no entanto, é de tirar o folego. Da ensolarada Flórida a chuvosa Cairnholm, Burton abusa de uma fotografia baseada no cinza para representar o mundo real. Quando Jacob atravessa a fenda e conhece o Lar, as cores ganham vida e preenchem a tela (num artificio que lembra o Mágico de Oz, mais uma referência). A já competente criação de mundos fantásticos do diretor entra em “full mode”, misturando CGI com stop-motion com efeitos práticos em algo totalmente crível. Um dos pontos interessantes é que certas passagens podem aterrorizar os mais pequenos, já que ele não economiza em explicitar algumas sequências, como olhos humanos sendo consumidos pelos Etéreos (os vilões) como iguarias requintadas.

Outro ponto de praxe do trabalho de Burton é o acerto na escolha do elenco. Butterfield pode até aparentar uma certa apatia no decorrer do filme, mas Eva Green rouba cada frame em que aparece na pele da Sra. Peregrine. Samuel L. Jackson faz um vilão megalomaníaco carregado no humor e do grande elenco de peculiares destaco Ella Purnell (Emma), Finlay McMillan (Enoch), Lauren McCrostie (Olive) e a fofa Pixie Davies (Bronwyn).

Na batalha entre Etéreos e Peculiares, quem acaba ganhando é o público, já que “O Lar das Crianças Peculiares” é um bom começo para uma nova franquia adolescente no cinema. Conseguindo apresentar a mitologia ao mesmo tempo que entretém o espectador, a obra consegue ser um exemplar acima dos lançados atualmente, em parte pela equipe responsável pela produção, mas não consegue fugir das limitações referenciais da obra de origem. Burton consegue se recuperar das derrapadas cometidas recentemente (exceto “Granes Olhos”) entregando um filme que carrega a sua assinatura típica em cada poro, mesmo que por vezes ela seja diluída ao ponto do limite. É uma obra sobre abraçar as diferenças, lutar pelo que se acredita e perseverar apesar de todos os obstáculos impostos. Afinal, somos todos peculiares, cada um a seu modo.

* O Série Maníacos assistiu ao filme a convite da Fox Film do Brasil

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  • Tiago Costa

    Quero muito ver! A crítica me animou!

    • Lucas Fernandes

      Comparada as franquias recém lançadas baseadas em livros ela se destaca.

  • Andréa Broto

    Uma pena terem trocado os poderes da Emma e da Olive. No livro a Emma é a mais foda justamente pelo sua peculiaridade, o fogo. Quem pode flutuar é a Olive; nem sua peculiaridade nem ela tem tanto importância, não no primeiro livro pelo menos.
    Pretendo ver o filme, mas detesto quando trocam características importantes dos personagens.

    • Mariana

      Super concordo, ser uma garota em chamas meio que define a personalidade da Emma, bem como todas as suas ações no decorrer da trama. Emma não é “leve”, então essa nova peculiaridade, que a faz flutuar, me pareceu inadequada.

    • Mariana

      Vi o filme ontem. Se ao menos a troca de poderes tivesse sido a única coisa que alteraram do livro… Um bom filme para crianças, apenas isso. Totalmente diferente do livro, dos livros. Aliás, com um final que enterra qualquer esperança em sequencia.

      • Andréa Broto

        To lendo tantas críticas sobre essa adaptação que desanimei de ir ver o filme no cinema. Serio, se for pra me irritar, melhor nem gastar dinheiro. ;(

      • Cristiane Urbinatti

        exato, totalmente diferente dos livros. Mudaram as personagens, mudaram toda a história do meio pro final. Não é uma adaptação, é outra história! Com isso que apresentaram, não há a mínima chance de acontecer o que acontece no terceiro livro.

    • Cristiane Urbinatti

      Concordo contigo Andréa, não vi sentido na mudança das personagens. Li os 3 livros e a história do meio para o final do filme não tem nada a ver com o original, foi criada uma nova história que nem é adaptação. O segundo volume não é tão interessante, mas o terceiro consegue ser ainda mais sombrio que o primeiro e a saga que os personagens vivem é bem mais complicada do que o filme mostra. Entendo que toda adaptação sofre perdas em relação à história original, mas adocicaram demais o filme. Quando li os livros, tinha certeza que Tim Burton faria uma ótima direção, porque a atmosfera tem tudo a ver com ele e sou super fãzaça de seu estilo, no entanto, achei que faltou mais do enredo sombrio que o livro apresenta. Muito mais! No livro não é nada colorida a jornada deles.

  • Sabe o que eu confirmei depois de assistir o filme? Tim Burton hoje é apenas uma sombra de si mesmo. Lembro que no passado o diretor era sinônimo de produções que se destacavam. Mas ficou no passado. Nada do que ele fez recentemente conseguiu me prender, nada. ‘Crianças Peculiares’ foi mais um filme que sinceramente, poderia ter o nome de qualquer outro diretor, não faria diferença. É uma pena, porque quando pego filmes como Beetlejuice, Sleepy Hollow, Big Fish e até Alice in Wonderland, eu consigo sentir um filme do Tim Burton. De Dark Shadows pra cá eu só vejo um suspiro do que ele já foi. E nem seria um problema se os filmes fossem bons, mas o padrão também decaiu e esse é mais um meh para a coleção de mehs de Tim Burton.

    • Lucas Fernandes

      Realmente, e nesse fica até mais evidente pela quantidade de referências, o que acabou deixando um filme sem a cara dele no final das contas.

  • Diego Fernando

    Recomendam em 3D?

    • Lucas Fernandes

      Não há muitos elementos que saltam da tela não, só profundidade mesmo.

      • Diego Fernando

        Vlew.

    • Mariana

      3D super basic, nada demais.

      • Diego Fernando

        Vlew.