O Homem nas Trevas

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Na escuridão, quem é cego é rei.

O imediatismo latente da geração millennial. Esse poderia ser o resumo perfeito de “O Homem nas Trevas” (Don’t Breathe, 2016), mas seria um redutismo muito cruel com a obra de Fede Alvarez. O suspense com toques de terror é na verdade um estudo sobre o ócio e as atitudes decorrentes dele.

Na Detroit pós crise, Rocky (Jane Levy) vive com sua irmã pequena numa família abusiva. Junto com seu namorado Money (Daniel Zovatto) e seu amigo Alex (Dylan Minnette) ela comete furtos em casas abastadas na esperança de um dia conseguir juntar a quantia necessária para fugir dali. Quando uma oportunidade “imperdível” (roubar dinheiro de um homem cego) aparece, ela acaba entrando numa armadilha mortal e sair dali talvez seja mais importante do que o dinheiro que a levou a entrar em primeiro lugar.

Fede Alvarez consegue acertar em diversos pontos da história escrita por ele em conjunto com Rodo Sayagues. A escolha de Detroit como cenário foi de uma sagacidade interessante. Usar os bairros fantasmas e o desesperançoso cotidiano da população local, presa em vidas sem estabilidade, embasam a fundamentação para os atos do trio de protagonistas. Outro ponto de destaque é a capacidade de criar suspense em um ambiente claustrofóbico. A casa do Homem Cego (Stephen Lang) é um labirinto onde em cada aresta um novo perigo espreita. A sonoplastia, aliada a um eficiente uso de luz, sombra e iluminação de set criam naturalmente os jump scares necessários para o entretenimento da plateia. É necessário um certo desprendimento de crença para a metade dos twists do roteiro, mas a capacidade de direção de Alvarez compensa os clichês existentes. O gore típico do diretor continua, um pouco mais comedido do que em “A Morte do Demônio”, mas ainda assim presente.

Levy e Lang é carregam o filme nas costas, num eterno jogo de gato e rato com consequências sem retorno. O título nacional pode até ser logico, mas foge totalmente do que o filme pretende. O “não respire” do original tem muito mais peso na narrativa, já que qualquer suspiro é um localizador da presença na residência e consequentemente de perigo, o que fica evidente nas sequências de fuga no escuro total.

“O Homem nas Trevas” é uma obra competente e que entretém. O final talvez seja um pouco deslocado de todo o resto do filme, mas ainda assim coerente com o que foi apresentado até então. Na busca pelo sonho americano os percursos seguidos não são os ideais, são aqueles que são mais vantajosos. O problema é as consequências não pensadas. Nunca se sabe se aquele vizinho é na verdade um psicopata pronto para transformar sua vida num inferno, se assim for necessário. Na escuridão, quem é cego é rei. Não necessariamente um rei justo, mas ainda assim soberano.

* O Série Maníacos assistiu ao filme a convite da Sony Pictures Brasil

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  • Lucas Alexandre

    Assisti hoje o filme e gostei bastante. Fede Alvarez desponta como um novo talento para um gênero que possui uma base de fãs sólida. O filme trabalha bem com as expectativas de quem o assiste, alinhando takes de câmera com sonolastia eficiente. Também achei o final um pouco deslocado. Ótima crítica!!

  • Fabio Junior

    Seria interessante adicionarem o nome original no titulo pra que fique mais facil achar por uma busca no google ou no proprio site quando não se sabe o nome dele em portugues. Nice review e mt expectativa em assistir esse filme, mais ainda agora.

    • A crítica tem a tag “Don’t Breathe” também. A gente sempre coloca o nome original pra ajudar na busca 😉

      • Fabio Junior

        Ahhh naum sabia q ela no conteudo gerava a pesquisa da mesma forma, pra mim não apareceu. Anyway Tnks o/

        • Você buscou por Don’t Breathe não apareceu nada?

          • Fabio Junior

            Na primeira vez sim, quando no celular e depois que li o post no pc passou a reconhecer a busca.