Nada Será Como Antes 7×07/08: Capítulos 7 e 8

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O encaminhamento da reta final de Nada Será Como Antes está sendo construído com poucas surpresas e com subtramas que pouco empolgam. No capítulo 7 da minissérie, voltamos para os encontros e desencontros de Saulo e Verônica. A tentativa de reconciliação falha quando a atriz flagra o produtor de TV com a moça que supostamente era a sua filha. Essas idas e vindas do casal não estão, a meu ver, integradas à trama principal, principalmente quando pensamos na proposta de apresentar a história da TV.

A ascensão de Beatriz em uma nova novela foi mostrada de uma forma um tanto abrupta. Seria muito interessante que fosse mostrado com detalhes os bastidores, naquela época, da constituição de um enredo que tem a escravidão como foco. Uma das grandes discussões desse episódio foi do espaço do negro da TV. Péricles pede um papel na novela para Aristides e o questiona sobre o fato de uma história ser sobre negros e não possuir negros em papeis de destaque. Aristides rebate dizendo que há uma presença negra, no entanto, ela é silenciada ao colocar os escravos como figurantes e as suas falas serem apenas gritos de dor. Será que evoluímos nesse quesito ou apenas transpomos o negro da senzala para a cozinha ou para o jardim?

Na cena em que a personagem de Péricles está no engenho de açúcar levando chicotadas, a figuração resume a voz do negro ao canto e ao grito, algo que aborrece o ator. Quando ele propõe inserir uma fala na cena, vinda de O mercador de Veneza, de William Shakespeare, Aristides o corta e diz que o texto ficou muito longo. Péricles apresenta uma performance densa e emocionante, mas tira o chicote das mãos do senhor branco. Esse movimento de resistência seria muito estranho para uma produção e para um telespectador ainda preso aos preconceitos raciais, onde as posições de soberania e sujeição ao poder nunca se alteram.

Outro gancho da história foi a subtrama de Odete, mãe de Beatriz, que resolver acompanhar e ajudar a filha no figurino da novela. Ela não consegue sair do lugar de empregada de jeito algum. Na reunião com a família de Otaviano, Odete se coloca no papel de babá de Beatriz, como uma forma, também, de dizer que a filha veio de uma família rica. Acho interessante a forma como o roteiro aborda esse lado da personagem, pois mostra como anos de submissão aos patrões ficaram arraigados em Odete e a fazem sempre se sentir como uma empregada, mesmo quando não é.

O capítulo 8 teve início com o envolvimento de Péricles com Verônica, algo que balançou ainda mais a relação entre ela e Saulo. Esse cruzamento dos caminhos entre as personagens serviu para aprofundar o preconceito racial, já que estamos vendo a união de uma mulher branca com um homem negro. Curti a citação da Lei Afonso Arinos, mas senti que ela foi apenas vociferada. Seria legal uma reflexão histórica mais intensa, até para deixar o momento social apresentado mais verossímil.

A separação de Júlia e de seu futuro noivo reforçou o poder de Beatriz e Otaviano sobre a moça. Apesar de não ser uma mulher frágil, penso que quem irá se dar mal no final dessa história será Júlia. “Nós seremos sempre nós três”, diz Beatriz. O problema é que, nesse triângulo amoroso, Júlia ocupa o lugar do meio, que, geralmente, é sempre o mais atingido. Por fim, a perda da guarda de Thiago expressa como a mulher, como é vista até hoje, só que de outra forma, não pode possuir nenhum deslize quando se torna chefe de família e trabalhadora. Somente pelo fato de Verônica chegar um pouco atrasada em casa, num momento em que um filho estava doente, foi motivo para Saulo utilizar esse acontecimento como uma forma de dizer que ela não era boa mãe. Aqui, o filho é usado como moeda de vingança também. A concordância do juiz mostra como o lado masculino é lido como o detentor da verdade.

Infelizmente, a trama das personagens está pouco integrada ao contexto de exposição da história da TV. Isso está fazendo da série ser apenas mais uma história de amor passada na metade do século passado. E vocês, o que estão acharam desses últimos episódios?

Take 1: A disputa entre as emissoras começou a ser exibida, apresentando essa corrida para ver quem mostra o conteúdo do futebol primeiro. Espero que abordem mais esse tema no capítulo 9.

  • Maria do bairro

    Não to muito empolgada com essa reta final da série não! O que me prendeu nesses episódios foi a participação da maravilhosa, diva e lacradora Virginia Cavendish <3

    • Jord Son

      Assim, o conjunto de produção e elenco não conseguem disfarçar que a história, da forma como se mostra, não desperta o interesse. “Nada Será Como Antes” poderia ser uma primorosa e caprichada série, mas nem ao menos repercute (o máximo de burburinho que causou envolve o vazamento de uma cena quente da personagem de Bruna Marquezine e os possíveis cortes de cenas do relacionamento da mesma personagem com a de Letícia Colin), muito em função de seu enredo cansativo, mostrando-se facilmente esquecível.

    • Jord Son

      Apesar disto, a produção é esmerada e reproduz com qualidade a época em que é ambientada (a segunda metade dos anos 60). O elenco, por sua vez, não deixa por menos.

  • João Carlos

    O mais problema da série foi que tentaram vender como se fosse a história da entrada da TV no Brasil, mas isso passa muito longe, nunca mais foi abordado na série. Se fosse anunciado como uma drama de época seria mais crível.
    Porém estou gostando das trajetórias tanto da Verônica e da Beatriz. A cena da mãe da Beatriz na casa do cara lá foi muito linda de se ver e como a Beatriz defende a mãe.
    E agora estou com ódio mortal de Saulo. Cara mais filha da mãe. Escroto.

    • Jord Son

      Todo este conjunto poderia resultar em uma série excelente, afinal, há elementos da televisão muito comuns até mesmo hoje em dia: o executivo que se acha mais inteligente porque não assiste TV, o público que mistura personagem e atuação e ataca o ator/atriz, o teste do sofá, os rumores de que a TV acabaria com o rádio, entre outros.

    • Jord Son

      Porém, com episódios exibidos até agora (de um total de 12), o que se vê é que o tema não passa de um simples pano de fundo, tirando o sentido da existência da série.

  • Jord Son

    Porém, não há uma maior profundidade nas questões que envolvem o contexto do surgimento do novo veículo de mídia, tornando-se um simples pano de fundo em vez de se integrar à narrativa, que dá mais espaço para os conflitos pessoais dos personagens — assim, esta história poderia se passar em qualquer época.

  • Matheus Ramos

    A série realmente perdeu o foco ao longo dos ep’s. Concordo que privilegiaram o romance água com açúcar, ao invés de mostrar mais a história da tv, que era sua premissa. )=

    • Jord Son

      Concordo. Nada será como ntes é uma das melhores séries que a TV já exibiu e deveria ser diária que é para prender o público. E esperar uma semana faz esquecer da existência da série. Mas acho os figurinos lindos,a ambientação de época também. Poderia ser biscoito fino,mas acho bolacha água e sal.

  • Jord Son

    Nada Será Como Antes é uma série leve e sem a menor pretensão de ser didática. Seu único compromisso é com o entretenimento, o que ela cumpre com satisfação. É um biscoito fino, mas mal servido pela Globo.