Nada Será Como Antes 1×02: Capítulo 2

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Ao contrário da minissérie Justiça, que nos entregou uma primeira semana satisfatória e, em seguida, percorreu caminhos não tão interessantes quanto prometeu, Nada Será Como Antes entregou ao telespectador um desenvolvimento de trama muito interessante, aprofundando-se nos problemas enfrentados nos primeiros passos da história da TV no Brasil.

“Nós estamos escrevendo o futuro”

– Saulo Ribeiro.

A cena inicial do segundo episódio começou com uma decisão acertada de escolher o ator Daniel Boaventura como apresentador de um programa. Ele possui uma aura vintage que deixou bem verossímil o porte e a atmosfera dos anos 50. Os anúncios e os comerciais, desde então, já se mostravam como elementos essenciais para a manutenção da existência da televisão, tão importantes quanto a própria programação. Por outro lado, Saulo Ribeiro esbarrou na necessidade de produzir dinheiro para conseguir subsídios para melhorar a programação, algo que seria feito através da ideia de se fazer a primeira telenovela brasileira.

A partir desse impasse é que entra Pompeu Azevedo Queiroz (Osmar Prado), o empresário dono do grupo Azevedo Queiroz, homem a qual Saulo recorre para conseguir um empréstimo para investir na programação. Porém, ele desacredita do poder da televisão, uma vez que o rádio era um objeto muito mais barato do que o aparelho de TV. Além disso, estamos às vésperas, na minissérie, da chegada do rádio portátil, acirrando ainda mais essa busca por um consumidor e ameaçando a solidificação da TV como não só como um objeto de consumo, como também de desejo. Para Pompeu, quem iria perder tempo para olhar algo quando se pode apenas ouvir? Penso que esbarramos hoje numa problemática semelhante quando comparamos o consumo de músicas no CD comparado ao DVD. Numa vida tão acelerada do século XXI, o indivíduo moderno procura caminhos mais curtos de ter acesso à arte. Logo, é mais rápido ouvir do que ouvir e olhar. Se bem que, quando apenas ouvimos, também olhamos, mas com os olhos da imaginação. É interessante observar como a metade do século XX pode ser lida e relacionada com os das atuais.

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Saulo Ribeiro pensa na novela como um produto de consumo da família: iria passar de segunda a sexta, após o jantar, num momento de descanso, em que os telespectadores estivessem dispostos a um entretenimento. Quando ele está com a sua ideia mais ou menos formada sobre o que deseja fazer, recorre a Aristides com o projeto de realizar “Anna Karenina”, romance do escritor russo Liev Tolstói. É de extrema ambição tentar encaminhar essa ideia, pois, haverá uma demanda de dinheiro muito alta para a construção de cenários e figurino. É aí que entra em cena Júlia Azevedo Queiroz, interpretada pela ótima Letícia Colin. Foi legal ver a atriz em um papel de mulher forte, administradora dos assuntos e negócios do pai e do irmão, já que, na maioria das vezes, ela está na pele de personagens mais frágeis. Júlia dá o sinal verde para Saulo e, assim, a telenovela começa a ser produzida. Esse momento também é o mote de reencontro profissional com Verônica, pois ele deseja que a ex-esposa assuma o posto de protagonista da história. Ela é resistente a aceitar trabalhar na TV e ele insiste dizendo: “você é uma atriz de corpo inteiro. É um desperdício o público não te ver”. Aqui, entramos em uma das apostas mais fascinantes da TV, advinda, é claro, do cinema: a possibilidade de vermos o corpo do dono ou dona da voz que escutamos, algo que, também, seria recurso para exploração da imagem e da sensualidade.

Através da aproximação com Saulo e Otaviano, Beatriz consegue o que tanto queria: uma oportunidade de atuar. Gostei muito da cena em que ela está dividindo o camarim com Verônica e é confundida pela atriz como uma ajudante técnica. Beatriz estava toda animada em estar ao lado de uma atriz de renome e, indiretamente, Verônica não observou o seu possível potencial de estar ali como alguém que estaria em cena como ela. A resistência do beijo na boca de Verônica, em seguida, a fez explodir como uma profissional de recursos limitados, que não estava disposta a fazer esse trânsito de meio de comunicação. Pairou, nesse momento, um certo esnobismo por parte da atriz, reforçado quando ela cobra de Aristides que a câmera deveria ter cortado nela antes da entrada dos comerciais.

Passado esse momento de adaptação a esse novo formato artístico, vamos para a primeira recepção do público, que foi um sucesso, principalmente por conta do beijo, justamente aquilo que Verônica menos queria fazer. Todavia, mediante a repercussão positiva, ela posa como se tivesse tido o maior prazer de feito aquela cena. É então que vemos como a atuação e a performances são utilizadas pelos atores fora do ambiente de trabalho como uma forma de manutenção de imagem. O final do episódio foi bacana, com um gancho simples, mas que me fez ter vontade de continuar acompanhando a série: o embate entre Beatriz e Verônica. “O corpo é um instrumento da atriz”, diz a primeira, fala que é rebatida pela segunda: “mas não pode ser o seu único talento”. Verônica pode se sentir ameaçada por Beatriz: ela topou rápido fazer a cena de nudez e teve tanto destaque quanto a protagonista. A dançarina não deixou ser intimidada por alguém mais experiente e provocou a Verônica ao citá-la como uma pessoa que a ajudou muito a entender a função da cena de nudez nessa sua estreia na TV: “se me atacar, eu vou atacar!”.

E vocês, o que estão achando da minissérie até agora? Estão gostando desse novo repeteco “Lucas e Mel”, “Nina e Tufão”?

Take 1: Saulo quis produzir o seu primeiro trabalho na TV justamente adaptando o romance que ganhou de presente de Verônica e nunca leu. Ironia ou expressão do elo não cortado ainda com a ex-mulher?

Take 2: A relação de Otaviano e Júlia, de cumplicidade e amizade entre irmãos, dará um contorno bem complexo a união dos dois quando esta começar também a se envolver com Beatriz.

Take 3: “Não posso permanecer no mesmo solo de alguém que não gosta de Greta Garbo”, diz Aristides para Saulo. Essa fala já seria engraçada por si só e quando dita pelo sempre risível Bruno Garcia, melhor ainda, não?

Take 4: Alejandro Cleveaux, o Rodolfo, par romântico de Anna Karenina na telenovela, representa uma personagem ainda muito presente hoje no meio televisivo: o ator gay que precisa esconder a sua vida pessoal para conseguir trabalhar. Espero que isso seja mais explorado no decorrer da trama.

Take 5: Coloca mais Letícia Colin que tá pouco”

Take 6: Gostei da cena que Beatriz deixa os dois irmãos para trás e vai dançar sozinha, sem se importar em estar só ou ser interpretada de forma inadequada.

  • Mimis

    AMANDO TUDO, Leticia Colin está espetacular nessa personagem controladora e dominadora, vai ser interessante ver o desenvolvimento desse triângulo amoroso da Júlia com a Beatriz e o irmão. Saulo continua espetacular, adorando o personagem, bem construido. E amando suas reviews, continue assim!!

  • Caio Vinicius Viana Lima

    É aquele ditado:
    Nunca julgue uma série pelo primeiro episódio!
    Esse 2° epi foi maravilhoso, adoro filmes/séries que mostram os bastidores de filmes/séries e fazer uma novela ao vivo é uma verdadeira maratona.
    Verônica inventou o ataque de estrelismo e Beatriz inventou o teste do sofá rsrs
    Ps. Me senti super representado pelos empregados vendo a novela kkkkkk

  • Tiago Costa

    Justiça percorreu caminhos não tão interessantes quanto prometeu? Pra mim percorreu sim…

  • Jord Son

    A gostosona que faz teste do sofá para conseguir trabalho e só consegue ser encaixada numa novela por ser namoradinha de um patrocinador. O galã gay enrustido que cria namoro de mentirinha com mulher só para disfarçar. A atriz veterana que se acha, do tipo que abandona gravação no meio com ataque de estrelismo e ainda tem crise de ciúme com outras atrizes mais jovens e bonitas com medo de ser ofuscada. A disputa de egos. A pressão por audiência. Nada Será Como Antes brinca muito bem com todos os clichês da dramaturgia brasileira mostrando como eles foram construídos. Como diria uma certa cobríula, é o mundinho pantanoso dos famosos!

  • Maria do bairro

    Se eu já tinha gostado do primeiro episódio, o segundo então eu amei! É muito engraçado ver como a TV era feita antigamente. Outro ponto que eu espero que tenha destaque nos próximos episódios é a dificuldade que sofrem atores negros para conseguirem algum papel na TV! Se hj em dia é difícil, imagina antigamente? Ótima série!