Marcella, para deixar passar sem culpa

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Marcella Backland está sendo deixada pelo marido. O casamento fora afetado por algo no passado deles há cinco anos. Ela, afastada de seu trabalho há certo tempo, abalada pela tragédia pessoal, dedicou-se aos filhos e a Jason. Este decide anunciar que a está deixando durante um jantar. Dedicado ao trabalho e indiferente à reação da esposa, ele volta ao trabalho logo após a notícia. Ela, não. Ela, afundada em stress, decide seguir o marido e quebrar seu carro. Decide seguir de novo, e dessa vez descobre que ele tem um caso com Grace Gibson, filha da dona da empresa onde ele trabalha. Ela, afundada em stress, decide estacionar o carro na porta da casa da amante do marido e tocar a campainha. Ela, sem pensar direito, ainda, apresenta-se de forma dramática e entra na residência. No dia seguinte, Marcella acorda em sua banheira, coberta de sangue, machucada, e não se lembra de nada. Não é a primeira vez que isso acontece. Da última, discutiu com o ex-marido e o agrediu.

Grace está desaparecida, ela fica sabendo. Enquanto a polícia investiga o paradeiro dela, Marcella volta ao trabalho. Afastou-se para ajudar o casamento a se cicatrizar de mazelas, mas não possui nada além de si e de uma memória pouco confiável. Seu interesse por ajudar a equipe de detetives é, principalmente, porque o chefe da investigação lhe procurou e lhe avisou que o assassino em série que ela perseguiu no passado, há onze anos, voltou a colecionar vítimas pela cidade. Essa é a sua chance perfeita de ocupar seu tempo e dar um final digno há algo — o final de seu relacionamento foi uma coleção de equívocos. Grace ainda está desaparecida, entretanto. Marcella sabe que seu DNA deve estar pela casa da moça. Marcella se vê do lado de fora, flagrada pelas câmeras de segurança, dirigindo desorientada. É aqui que poderíamos dizer que ela, por mais que não se lembre do que ocorreu, tem certeza de sua inocência… Mas ela não tem.

Em cena: a atriz Anna Friel interpreta Marcella na série.
Em cena: a atriz Anna Friel interpreta Marcella na série.

Marcella (se fala Martchela), é uma série britânica de crime/mistério noir que foi ao ar em abril desse ano e teve seu episódio final exibido em maio pela ITV. Cada episódio, de quase cinquenta minutos, está atualmente disponível no catálogo da Netflix Brasil. A série foi criada pelo escritor Hans Rosenfeldt, que é familiarizado com o gênero e responsável pela criação de The Bridge (ou Bron), que, por sua vez, foi adaptada em uma versão britânica com o título de The Tunnel. Ele assina também o roteiro dos oito episódios que compõem essa primeira temporada. A história se passa em Londres, onde a série foi filmada. A segunda temporada já foi confirmada e terá os roteiros de Hans novamente.

Anna Friel assume a protagonista aqui, assim como o fez em American Odyssey, série da NBC, sobre a qual conversamos por aqui em um texto assinado por mim. A atriz é bem experiente, e uma pesquisa rápida mostra seus diversos trabalhos tanto na televisão quanto no cinema. Em Marcella, é bem perceptível isso, e ela faz o possível com uma papel que não a favorece muito e com o qual tive alguns problemas durante a maratona. Diferente de outras séries, nas quais é possível tomar outras qualidades como justificativa ao público pela permanência na trama, e não o protagonista, a personagem dela é muito importante para nosso relacionamento com a série, mas não nos conquista e não consegue gerar empatia. Não seria tão difícil, deixar e ser deixado são coisas que qualquer telespectador poderia se relacionar, mas aqui é bagunçado demais, desfocado demais e dramático demais.

Em cena: os protagonistas Anna Friel como Marcella Backland e Nicholas Pinnock como Jason Backland.
Em cena: os protagonistas Anna Friel como Marcella Backland e Nicholas Pinnock como Jason Backland.

Uma das coisas que desde o começo desfavorece a trama, mas que chega ao auge do incômodo durante a temporada, é o número de personagens e subtramas. Há justificativa para a existência deles, afinal, está tudo, de alguma forma, conectado à trama principal, mas a sensação é sempre de que muito sobra. Essa desculpa, aliás, é perfeita para que os episódios se estiquem e se enfeitem demais de cenas que não fazem falta. Algo que é utilizado em excesso é o modo como uma personagem é apresentada na série. Primeiro se tem algumas cenas e o cotidiano da pessoa mostrado, aqui e ali, e depois esse cotidiano é ligado à investigação. Não é original, mas faz sentido. O que acontece e chega ao ponto do aborrecimento é que lá pelo episódio cinco ou seis já estamos falando de tanta coisa e a investigação já está ocorrendo há tanto tempo que não conseguimos estabelecer vínculo algum com nenhuma história.

Fora isso, não consigo destacar personagem alguma que tenha me cativado, por mais que todos os atores sejam bons. Nicholas Pinnock interpreta Jason Backland, e não há nada para salvar sobre ele. Jason deixa a mulher, depois de três anos tendo um caso, mas, assim que a amante é assassinada, volta a procurá-la (e Marcella está lá para recebê-lo) e ainda ameaça o detetive que está a ajudando. Os dois homens, aliás, dividem cenas demais e que só os desgastam. Tudo o que envolve o projeto na empresa de Jason e as soluções que ele dá a alguns problemas sobram e daria para produzir um episódio inteiro com essas cenas.

Em cena: elenco de investigadores de Marcella, série britânica.
Em cena: elenco de investigadores de Marcella, série britânica.

Gosto de Sinéad Cusack, como Sylvie, matriarca da família Gibson, e da forma como o texto joga com Stephen Holmes (interpretado por Patrick Baladi) e a visão que tinha da enteada. Os dois possuem algumas cenas incômodas interessantes. Completa a família Henry Gibson, muito apático e dentro de circunstâncias já abusadas pelo estilo. Ele só ganha destaque e fica interessante nos dois últimos episódios, quando é tarde demais para salvar a série e sua personagem.

 Sinéad Cusack, como Sylvie Gibson.
Sinéad Cusack, como Sylvie Gibson.

Eu sempre fico feliz com muitos atores contratados e trabalhando, mas Hans não precisava de tanto para contar a sua história, e o desfecho é a prova disso. Contado em menos episódios, sem tantas reviravoltas, sem tantas cenas paralelas, a série teria se beneficiado. O primeiro episódio nos dá pista de quem desapareceu com a moça em questão. A série brinca com essa percepção e levanta dúvidas, o que favorece seu mistério. Lá pela metade, entretanto, voltamos a confiar em nosso palpite e nos perguntamos como os detetives não viram aquilo.

Marcella, quando não desorientada e fazendo escolhas duvidosas, é inteligente e usa seus colegas como ferramentas durante a investigação. Se me lembro corretamente, absolutamente tudo foi desvendado por ela — mesmo que o roteiro conte com confissões, obviedades e coincidências bem estranhas no processo. Seu chefe, Rav (Ray Panthaki), é de uma inutilidade indescritível. Creio que personagens devam parecer essenciais, e a sensação que perdura conosco é que sem ele a detetive teria desvendado todo mais rápido. Todas as descobertas passam pelo processo de serem desacreditadas por ele até que é provado que Marcella estava certa. Cansativo e dispensável.

Nos primeiros episódios, não me agradou muito a divisão muito estabelecida na personalidade das personagens pelos gêneros, mas isso passou. Florence Pugh faz uma participação como Cara. Era perceptível o potencial da personagem, mas esta é sucumbida pela necessidade do roteiro de que algumas coisas acontecem. O destino dela é tão equivocado quanto o do rapaz que morre asfixiado porque o roteiro precisava que isso ocorresse.

Marcella é bem produzida e vem de um grande canal, então somente quando analisada de forma fria é que se percebe seus defeitos. Nosso vislumbre passa quando percebemos que não há personagens boas, a série é muito longa, não há diálogos interessantes, a trilha não se destaca e o desfecho é óbvio e parece de séries procedurais. O último segredo é desvendado faltando sete minutos para acabar a temporada, mas não há tensão criada para isso. Não nos sentimos como Carrie em Homeland, quando a verdade de estar certa a atinge. Os mistérios de Law & Order me deixam bem mais interessado. Não sentimos a compaixão e tristeza que sentimos por/em River. Aliás, se procura uma recomendação, fique com essa outra. Marcella é um acumulado de defeitos em séries de mistério. Empolga em poucos momentos, e não o suficiente para valer os oito episódios. É daquelas que pausamos para fazer um café, tocar uma música, ver as notificações do Facebook, responder um amigo, checar o e-mail. Quando retornamos, percebemos que estamos há três horas vendo um episódio de quarenta minutos. Que sejamos perdoados: o desinteresse nunca é culpa nossa.

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#MêsDoHorror

Esse post faz parte do projeto #MêsDoHorror que tem como objetivo falar, durante outubro, de séries de horror/mistério/fantasia que não tiveram textos aqui no SM no período de 01/10/2015 a 30/10/2016.

  • Raquel Alves

    Até hoje não sei como acabei essa série.
    Um monte de série inglesa tem essa mania de por personagens do nada e que de repente são bastante importantes a trama, mas Marcella bateu recorde. Até hoje não faço ideia quem seja o homem do cachorro assassinado!
    Incrível como tanta coisa conveniente acontecia nesse roteiro.
    O jeito que o cara do bigode morre é ridículo e o outro não achar o celular dele e a polícia sim, também é. Só era um quarto e o cara podia ter tido todo tempo que queria pra procurar!
    E como falam o nome Martchela!! Deve ter sido umas 20x por episódio.

    Acho que curti só a forma que a depressão dela é abordada e como ela deu a volta por cima.
    Eu não amei, mas verei a segunda temporada sim!

  • Luciana Beltrão

    Cara, cansei só de ler. Mas obrigada pela dica. Vou passar. O povo tá com mania de criar tramas com depressivos, portadores de síndrome de asperger e coisas nesse toada que cansam. Eu quero é rir e não terminar meu dia mais depressiva ainda

  • Luciana Beltrão

    Et: Excelente a qualidade do seu texto Welson Oliveira!

  • ÐiŁmå ÐimiĶå

    Comecei a baixar essa série pra depois ver a maratona, mas li o que a galera das legendas escrevia a respeito, e acabei abandonando tudo sem ver um único episódio.
    Pelo visto, não perdi absolutamente NADA.
    Teu texto foi esclarecedor, Welson. Valeu!

  • Eduardo

    Mudandk um pouco de assunto: já fizeram review de Fortitude?

  • Carolina Favero

    Puts quando colocaram marcella no catalogo pensei wow deve ser boa e chamei minha mae pra assistir comigo nós assistimos uns 4 eps seguidos foram as mais longas horas, nunca fiquei tao entediada confusa e nervosa assistindo algo marcella just dont make sense, eu sei que ate dei uma cochilada e quando acordei tava no mesmo ainda, ate hoje nao terminamos a serie, as vezes vejo ela na netflix e falo opa qualquer dia termino mas depois dessa review nao irei terminar nunca mais hahaha