Mãe Só Há Uma

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Cada qual pode ser um, nenhum, cem mil, mas a escolha é um imperativo necessário.

Luigi Pirandello

Uma narrativa cheia de não ditos, lacunas e fora do padrão do cinema brasileiro comercial. Foi assim que vi Mãe Só Há Uma, novo filme de Anna Mulayert, que retorna às telas depois do sucesso de Que horas ela volta?. Com um elenco de peso, muito entrosado entre si, e um roteiro que traz a figura do não binário e a complexidade das relações familiares como fio condutor da trama, a diretora questiona padrões e normas (através do olhar de um adolescente) que incomodam bastante a tão intocada e não perturbável “família tradicional brasileira”.

Logo na primeira cena, o filme causa um estranhamento ao vermos o protagonista Pierre/Felipe (Naomi Nero) vestido de calcinha em uma relação sexual com uma garota. Um pouco mais adiante, ele é visto numa festa dançando calorosamente com moças e rapazes. Paulatinamente, nós, telespectadores, conhecemos mais a história de Pierre/Felipe, mas desconhecemos quem ele é, ou até mesmo quem ele possa vir a ser. A escolha de Naomi Nero para o papel foi muito sagaz, uma vez que o ator possui uma aparência levemente andrógina, fato que faz que o público o veja em uma espécie de entre-lugar ao pensarmos em questões de gênero.

Anna Mulayert nos oferece uma narrativa ágil, em que a primeira parte do filme mostra, através das entrelinhas, um dos seus principais temas: a relação de um filho com a sua mãe. As cenas de convivência doméstica, a meu ver, escondem um pouco a profundidade do elo entre Pierre/Felipe e Aracy (Daniela Nefussi), um caminho interessante para nos surpreender ao chegarmos à cena do exame de DNA. Aracy, nesse momento, descreve todos os sentimentos do filho para o enfermeiro, como se soubesse dos detalhes do seu corpo ao reagir àquele procedimento, expressando, assim, a intimidade que havia entre eles dois.

De uma forma bem abrupta, assim que é feita a revelação de que Pierre/Felipe é uma criança roubada, temos, praticamente em seguida, a cena do encontro com a família biológica. Assisti ao filme ao lado de uma amiga psicóloga que se sentiu muito incomodada com o apagamento das figuras da Assistente Social e Psicóloga enquanto agentes de promoção dessa transição. Tudo acontece rápido demais, potencializando ainda mais o turbilhão de emoções de Pierre/Felipe. O roteiro, talvez, seguiu esse caminho para dar mais crueza a situação do encontro. E funcionou bem. A propósito, a ida de Jaqueline (Lais Dias) para a casa da família biológica ainda é mais violenta, pois num momento ela está prestes a saber a verdade e em seguida os “novos” pais aparecem, chamando-a de Cristina. Para um adolescente, às vezes, já é difícil se identificar com o nome que lhe foi dado quando nasceu, levando em consideração todas as crises que passamos nesse momento de nossas vidas. Imagine ser chamado por um nome que carrega todo um passado que não foi vivido e que não foi sua escolha não vivê-lo. É uma situação, no mínimo, angustiante a atordoadora.

Uma das cenas mais tensas do filme é, sem dúvidas, a reunião da família no restaurante, que nós não vimos! Espera aí, como assim o momento mais esperado não foi mostrado em tela? No meu ponto de vista, essa foi uma das melhores sacadas de Anna Mulayert: distraiu-nos com o diálogo de Joca (Daniel Botelho) no telefone, colocando-nos num ambiente cômico e adolescente para depois nos lançar, sem aviso algum, numa mesa repleta de dor, estranhezas, silêncios e falta de identificações. A meu ver, essa escolha é própria de cineastas que buscam inquietar o telespectador: a cereja do bolo é deixada na mão do telespectador para que ele decida onde vai colocá-la. O primeiro olhar entre Pierre/Felipe e Glória (Daniela Nefussi) está na nossa imaginação, mudando de tonalidades a toda hora quando o filme é assistido por pessoas diferentes.

Anna Muylaert teve a sensibilidade de saber trabalhar os silêncios de Pierre/Felipe. Na cena em que ele quebra os pratos, quando está prestes a mudar de casa, não há verbalização das suas emoções. Há apenas um instinto externalizado de canalizar o que se sente. Inclusive, na sessão em que assisti ao filme, uma garota comentou que essa atitude de expor os sentimentos não partiu dele, e sim da tia, tal como no exame de DNA que ele ficou calado e a mãe assumiu a sua voz. Esses detalhes constroem a complexidade dessa personagem, que, às vezes, recusa-se a mostrar quem é, seja por característica de sua personalidade, seja por não saber mesmo quem ele é.

A chegada da nova casa, tão abrupta quanto a mudança de escola, deixa Pierre/Felipe mais sufocado, pois Glória não dá espaço para que ele se acostume com essa nova situação. Ao entrar em seu novo quarto, a mãe o entrega um presente da avó, uma peça de roupa aparentemente sofisticada, com uma cor clara e leve, algo completamente fora do gosto do vestuário do garoto. A cena da festa em família para apresentação do seu novo membro é bem triste. O pai, Matheus, interpretado pelo excelente Matheus Nachtergaele, força o filho a cantar uma música na frente de todos, mencionando que já teve uma banda, numa tentativa cega de encontrar semelhanças entre os dois. O irmão mais novo, uma daqueles que, até então, demonstrou ser o mais resistente à inclusão de Pierre/Felipe na família, foi o responsável pela selfie. A necessidade da representação da família feliz, nesse caso, supera o olhar minucioso para o que está ruindo nas relações entre pais e filhos.

A roupa foi um recurso utilizado não apenas para construir do lado não binário de Pierre/Felipe, como também foi um instrumento de exercício de poder e dominação. Os pais do protagonista queriam vesti-lo num padrão de “garoto classe média alta”, algo incompatível ao que ele realmente era. O pai, que se mostrava sempre muito mais empolgado do que a mãe em ter o filho de volta, expôs a sua primeira atitude de caráter opressor: esconder a roupa que Pierre/Felipe tinha escolhido enquanto estava no provador. A demora do garoto gera toda uma expectativa, visto que era esperado que ele usasse esse momento para fazer algum tipo de provocação. Ao surgir de vestido e, diga-se de passagem, ao surgir muito bonito de vestido, causa choque nos pais. A tensão entre pai e filho começa a ser mais atenuada, fato que nos prepara para a cena do boliche.

Mais uma vez, Anna Mulayert nos omite algo. Depois da cena do provador de roupa, pensei que Matheus seria totalmente resistente e contrário ao filho usar vestido. Poucos minutos depois, a família aparece num local público, com Pierre/Felipe usando vestido. Matheus e Glória não estavam confortáveis com a situação, mas pareciam minimamente conformados, visto que estavam sentindo os limites que, uma vez ultrapassados, provocariam uma segunda perda. A vontade de ter o filho de volta, para eles, era algo que os faria suportar esse momento. Todavia, o pai não se conteve e usou o boliche como justificativa para confrontar o filho. Ficou claro ali que a sua insatisfação não era com o boliche, e sim com o fato de ter projetado por anos uma pessoa que não tinha nada em comum com ele além do “laço” biológico.  Matheus estava de frente a um garoto que, com apenas 17 anos, teve a “sua vida roubada duas vezes” (a frase mais impactante do filme), que não poderia mais voltar para onde cresceu e nem tampouco se sentia acolhido pelo lugar que deveria ficar. Nesse momento, quando achei que finalmente Joca iria se aproximar do irmão, a cena acaba, deixando-me indignado. Porém, fui compensado com o final.

A tentativa de ir ao encontro da mãe que o criou foi interrompida por uma atitude intransigente de Glória, que só enfraqueceu ainda mais a relação entre os dois. A batida na porta de Pierre/Felipe foi uma surpresa para mim, tanto quanto a cena que eu tanto esperei. Delicadeza, amor e carinho expressos sem uma única palavra, mostrando que Anna Mulayert soube construir os silêncios do filme em momentos oportunos. Seria de tom melodramático, quiçá hiperbólico, beijos, abraços e tentativas de reconciliação naquele instante. Joca também teve uma parte de sua vida roubada, pois sua história deveria ter cruzado com a de Pierre/Felipe desde quando nasceu. O irmão mais novo, que deu um ar cômico à narrativa, sendo interpretado com muito cuidado pelo jovem Daniel Botelho, também era apagado dentro daquele núcleo familiar. Quantos momentos de afago vocês viram entre Joca e os pais? O garoto estava ali mais para cumprir o papel de um lugar social burguês (esporte, boa escola, quarto com suíte…) do que para ser amado.

O Cine Arte Pajuçara, o único cinema em Maceió que promove ações culturais relacionadas ao discurso audiovisual, promoveu a pré-estreia do filme com uma bate-papo com Anna Mulayert. Uma das coisas que ela falou sobre o filme e que me chamou a atenção foi a forma como chegou a esse tema do não binário. Ela disse que passou vários anos exercendo o papel de mãe, e que agora, com os filhos crescidos, decidiu frequentar a noite paulistana para conhecer a juventude que está nas ruas hoje. Para além de uma realizadora, produtora e roteirista, Anna Mulayert mostrou que o seu cinema está encarnado na responsabilidade social e cidadã, pois deu voz, em seu trabalho, a milhares de jovens que são lidos, no Brasil, pelas amarras do preconceito, falta de informação e intransigência. Outra curiosidade da produção do filme que gostei muito de ouvir foi saber que o roteiro da cena do boliche foi compartilhado com os atores em cena, fato que mostra que a vida que os atores deram às personagens foi apropriada pelo roteiro, refazendo páginas previstas e dando novos contornos frente ao que estava escrito.

Mãe só há uma entra, a meu ver, num território em que Boi Neon (2015), de Gabriel Mascaro, soube caminhar muito bem: fazer distinção entre sexualidade, preferências sexuais e identidade de gênero de forma sutil, através de gestos, objetos e ações. O filme do diretor pernambucano se concentra no plano no desenvolvimento das subversões. Já a narrativa de Anna Muylaert dirige-se a um plano mais difuso, em que um roupa pode produzir vários sentidos, tal como um beijo, unhas pintadas e um abraço acalorado.

Por fim, eu não percebi um dos elementos-chave do filme: a mesma atriz Daniela Nefussi interpretou as duas mães. Anna Muylaert disse que essa escolha foi motivada pelo desejo de manter a indagação de quem seria a mãe de Pierre/Felipe, ironicamente apropriada pela mesma pessoa, que exercitou a expressão de um duplo que desloca o telespectador ao pensar numa resposta. Isso aumenta o rol das colunas da narrativa. E para você, será que mãe só há uma?

Take 1: A capa do filme me lembrou o filme francês C.R.A.Z.Y. (2006), de Jean-Marc Vallée, que traz, por sinal, um protagonista andrógino.

Take 2: Pela primeira vez no cinema, fiquei assustado quando o filme acabou. Sinceramente, achei que ainda estava na metade. Depois, pensando melhor, compreendi que a cena final coube bem como desfecho, porém, acho que alguns elementos do meio do filme poderiam ter sido mais desenvolvidos, como a mãe na cadeia, o destino de Jaqueline e a recepção de Pierre/Felipe na nova escola. Por outra lado, penso que a ausência do aprofundamento dessas passagens pode condizer com a proposta do filme em contar uma história através de alguns vazios.

  • Viviana Galeno

    Muito bom o texto nem sabia que a diretora era a mesma de “Que Horas Ela Volta”, os filmes brasileiros não me chamam mais tanta atenção entretanto essa review desse filme me despertou a curiosidade e vou procurar vê-lo.

    • Diogo Souza

      Obrigado, Viviana. Assista! Vale a pena. Um abraço e bom filme!

  • Viviana Galeno

    Muito bom o texto nem sabia que a diretora era a mesma de “Que Horas Ela Volta”, os filmes brasileiros não me chamam mais tanta atenção entretanto essa review desse filme me despertou a curiosidade e vou procurar vê-lo.

    • Diogo Souza

      Obrigado, Viviana. Assista! Vale a pena. Um abraço e bom filme!

  • Walber Lima

    Pela descrição do filme e dos bastidores, já sou fã dessa diretora. Quero ver o filme apesar de mais ou menos saber tudo que vai acontecer (talvez seja uma critica a review, que tá muito boa mesmo, só podia ter falado sobre os temas de forma que não revelasse claramente)..

    • Diogo Souza

      Obrigado, Walber. Olha que eu omiti ainda muita coisa, viu? Às vezes é inevitável fazer uma reflexão sem narrar ou descrever passagens importantes do filme. Um abraço!

  • Walber Lima

    Pela descrição do filme e dos bastidores, já sou fã dessa diretora. Quero ver o filme apesar de mais ou menos saber tudo que vai acontecer (talvez seja uma critica a review, que tá muito boa mesmo, só podia ter falado sobre os temas de forma que não revelasse claramente)..

    • Diogo Souza

      Obrigado, Walber. Olha que eu omiti ainda muita coisa, viu? Às vezes é inevitável fazer uma reflexão sem narrar ou descrever passagens importantes do filme. Um abraço!