Legends of Tomorrow 2×04: Abominations

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Depois de Abominations, Legends of Tomorrow entrega o seu episódio mais sentimental, com zumbis.

Ter um grupo grande de protagonistas para desenvolver não é um trabalho fácil. Usualmente a produção escolhe por dividir seus núcleos e histórias entre vários pequenos núcleos diferentes, que podem ou não conversar entre si. O grande problema de Legends of Tomorrow desde que começou, é conseguir passar a ideia de um panorama central bem estruturado. É comum que por vezes alguns grupos terminem com a ponta ruim da corda, sem muita história para acrescentar ou quase nada relevante para discutir. O padrão instaurado pela série tratou sempre de colocar Sara a frente do ponto mais relevante, mesmo que sem conexão direta com a história. Abominatios é diferente, especialmente porque mesmo seguindo a norma de dividir para conquistar, cada um dos pequenos times criados aproveitou ao máximo a temática. E não tem como errar com zumbis, certo?

O que o episódio faz, utilizando a imagem de Jax, é demonstrar que existem terrores que apenas quem está envolvido, pode compreender. Legends of Tomorrow tem em seu corpo a oportunidade de desenvolver histórias através do viés de grupos usualmente desprezados pela sociedade, em várias fases do tempo. Com uma líder mulher, outra mulher e negra, e um herói negro, é possível condensar muita discussão relevante enquanto o roteiro brinca das mais diversas formas com outras temáticas de ficção cientifica.

Utilizar alegorias para retratar problemas do mundo real sempre foi uma das características mais fortes da ficção cientifica. Desde que Gene Roddenberry começou Star Trek, com a proposta de entregar um programa progressivo, com debates de cunho social e político, a arte de criar uma produção baseada no fantástico de qualidade não deixou de lado o conceito e a noção do potencial que a alegoria compete para o roteiro, além de seu impacto na sociedade. Legends pode não ser um primor, mas fez muito bem em seu quarto episódio.

Jefferson então é confrontado por um tipo de desumanização muito maior do que qualquer coisa que ele já viveu antes. Escravidão não é simplesmente um preconceito, é a remoção da humanidade de um povo inteiro, baseado na noção de que a cor da pele representa uma casta fixa, abaixo do que é considerado humano. Não existem direitos para aquelas pessoas e muito menos compreensão do que é ser um escravo, a não ser que você realmente se torne um e o roteiro de Abominatios insere o personagem dentro de uma situação que ele jamais precisou lidar.

No começo Jax não está interessado em evitar que uma mulher escapasse da tortura física recebida, afinal, qualquer passo errado poderia resultar em algo catastrófico. Contudo, nenhum daqueles dois personagens, Jefferson e Amaya, consegue escapar do terror que estão inseridos, muito pior do que qualquer zumbi. Claro que as limitações do programa não permitiram uma imersão maior, em um capítulo que deveria ter reunido um grupo verdadeiramente grande para demonstrar o que a escravidão realmente significa em termos do cerceamento da liberdade, da degradação física e psicológica, além do sentimento de inanidade frente imposto pelo tratamento desumano. Mas faz bem com o que lhe é oferecido e entrega mais do que eu esperava um dia ver dentro da série.

DC's Legends of Tomorrow --"Abominations"-- Image LGN204b_0318.jpg -- Pictured (L-R): John Churchill as General Ulysses S. Grant, Nick Zano as Nate Heywood and Caity Lotz as Sara Lance/White Canary -- Photo: Katie Yu/The CW -- © 2016 The CW Network, LLC. All Rights Reserved.
Legends of Tomorrow — Abominations

Enquanto isso, do outro lado, ou melhor, em um dos vários lados, estavam Sara e Nate, apenas passando tempo. O lado mais fraco deste episódio foi exatamente com os dois personagens que mais receberam material para trabalhar anteriormente, o que torna a história menos relevante algo compreensível, especialmente com o ótimo momento de Amaya e Jax, além da divertida interação entre Ray, Mick e Martin Stein. Também é interessante apontar como a série não deixou, em nenhum momento, qualquer impressão de que o lado dos confederados era algo além de uma estirpe de vilões e pessoas más. É uma forma interessante de lidar com este evento histórico, especialmente quando analisamos o período político que os Estados Unidos se encontram no momento. Por isso, ver que o general Grant é um homem com mente aberta o suficiente para reconhecer Sara como uma capitã, além de abrigar o grupo de escravos recém fugidos, apenas solidifica o papel da série em ser relevante historicamente apenas como diversão, neste aspecto.

E do lado que prometeu e entregou apenas diversão, temos Stein e seu medo de zumbis, Ray e o mesmo discurso de sempre e Mick sendo Mick. Ou seja, três personagens sem nenhum compromisso com a história que estava sendo desenvolvida, além de entregar momentos engraçados e um desfecho interessante para um de seus personagens. Ver Mick entregando a arma de Snart para o Ray apenas demonstra quão mudado o antigo vilão está. São pequenas cenas como essa, ou a do Victor Garber podendo se divertir enquanto seu personagem surta com mera menção da palavra zumbi, são detalhes que fazem com que a série continue tão interessante dentro do mundo de super-heróis com obrigações menos “soltas”.

Legends of Tomorrow tem nas mãos a oportunidade que poucas séries tem. A convergência de vários gêneros diferentes, como por exemplo, a ficção cientifica com a viagem no tempo e super-heróis, entrega para o time de roteiristas inúmeras possibilidades. Vê-los brincando com a temática de zumbis, hoje tão valorizada por The Walking Dead, é apenas mais um momento que definitivamente irá consagrar a produção como um agradável contorno por dentro da proposta de uma semana de heróis e adaptações de histórias em quadrinhos do canal The CW.

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Easter eggs e outras informações de Abominations

– Ulysses S. Grant foi, além de general, o 18º presidente dos Estados Unidos. Ele lutou, ao lado de Abraham Lincoln, na guerra da Secessão, ao lado da União e contra os Confederados.

– Uma das mulheres reconhece o amuleto de Amaya e menciona a nação Zambesi. Nas histórias em quadrinhos este é o local que a personagem Mari Jiwe McCabe, a Vixen, cresceu.

– A Sociedade da Justiça da América já enfrentou um exército de zumbis conhecido como a Legião dos Heróis Mortos.

– Existe um personagem da DC chamado Zumbi. Sem nome revelado, ele é parceiro do Bane em um arco de histórias do Batman.

– Mais recentemente, na nona arte, uma força desconhecida no setor 666 utilizou o corpo do vilão Antimonitor para formar uma bateria negra, a fonte de poder da Tropa dos Lanternas Negros, um grupo que mantém seu próprio exército de zumbis.

  • Sthefani Cordeiro

    Gostei bastante desse episódio… LoT tem caminhado bem e esse episódio foi um dos melhores da série em minha opinião. Usar da sua diversidade é uma arma poderosa do show.

  • Vera Tocantins

    Gostei muito do episódio. LoT conseguiu mostrar que pode ir além do que foi apresentado na primeira temporada. Com uma boa representatividade em seu elenco e com um tratamento mais croterioso do tema da semana, LoT conseguiu produzir o seu episódio mais consistente até aqui, em minha opinião.

  • Rodrigo Cardoso

    Quando eu assisti o episódio e vim aqui ver ver sua review, eu sabia que você ia comentar sobre como os núcleos estavam bem separados, acho que inclusive que esse foi o episódio mais bem organizado de LoT. Foi uma delícia de se assistir.

  • tô quase abandonando essa série. fizeram o apanhado dos personagens mais sem graça com os atores mais sem carisma, tentando ganhar “no atacado”, mas, ainda assim, não tá funcionando. roteiro fraco, atuações muito fracas, história de fundo jogada de qualquer jeito… tá dando preguiça!

    • Luis Fernando

      Você é um dos poucos que pensa assim. Essa série deliciosa é um presente para todos que gostam de uma grande aventura no tempo.

      • assista Timeless… roteiro, produção e elenco infinitamente mais competentes.

  • Mari Martins

    Melhor ep dessa temporada. E um dos melhores da série. Só de ter saído aquele vilão de meia tigela da temporada passada foi um ganho para a produção.

  • Vitória Martins Souto

    Lot melhorou e muito nessa temporada!

  • Luis Fernando

    Legends of Tomorrow merecia mais reconhecimento, esta bem melhor que a ”queridinha” The Flash.