The Kettering Incident, o drama de saber e o efeito de não saber

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Anna Macy se lembra das luzes. Se você se esforçar um pouco mais e a pressionar por mais detalhes, ela confessará que se lembra da floresta, de estar de bicicleta, da melhor amiga aos quatorze anos. As luzes, entretanto, se destacam entre as memórias. Depois de caminhar para as luzes na inocência adolescente de abraçar o perigo, Gillian desapareceu, e Anna, assustada e sem se lembrar direito o que ocorreu, foi achada horas depois, coberta de sangue. Quinze anos se passam, e esses blackouts enigmáticos voltam a acontecer, prejudicando seu desempenho profissional e pondo em risco a vida dos pacientes que lhe são responsabilidade. Após exames, ela descobre que não há nada de errado fisicamente. O que a mente lhe diz, e o que finalmente escuta, é que está na hora de voltar à Kettering, cidade que deixou após o incidente com a amiga, confrontar os fantasmas do passado, seu papel no desaparecimento da época e os efeitos deste diante das pessoas que a aguardam.

“Qual é o segredo das pessoas que deixam um lugar que as faz tão mais atraentes que nós, as pessoas que ficam?”

 — Sandra Hull, The Kettering Incident

A Série: Produção e Desenvolvimento

The Kettering Incident é uma série australiana transmitida pela Foxtel entre julho e agosto desse ano e que lida com o retorno de Anna Macy à cidade natal quinze anos depois do desaparecimento de sua melhor amiga. A primeira temporada possui oito episódios, cada um com pouco mais de cinquenta minutos. O drama tem um enredo misterioso e que ganha ares de ficção científica ao seguir por determinado rumo em seu desenvolvimento. Filmada durante seis meses na Tasmânia, ilha australiana, ela conta com uma ambientação que sabe brincar com seu charme, sufocando-nos no processo, principalmente quando assistida em maratona. A série foi produzida pela dupla Vicki Madden (que escreveu os primeiros rascunhos, baseando-se em experiências pessoais) e Vincent Sheehan, que comprou a ideia e ajudou na produção. A criadora da série, inclusive, escreveu cinco dos oito episódios, tendo o apoio de um time de roteiristas que selecionou para os três restantes.

 The Kettering Incident abusa da atmosfera e visual góticos de suas locações na Tasmânia, Australia.
The Kettering Incident abusa da atmosfera e visual góticos de suas locações na Tasmânia, Australia.

O visual do local, explorado entre as cenas, auxilia na missão de criar um ambiente de mistério, mas há certo auxílio da própria cultura local. A Tasmânia é conhecida como um dos lugares de maior presença extraterrestre — ou um dos lugares cuja população mais se inclina à crença e presença disso. Diversas reportagens e lendas da região, algumas inclusive influenciando na criação da série, dão estrutura para o que se vê em tela. Somos apresentados a uma população que lida constantemente com a certeza, ou, no mínimo, a dúvida, de visitantes vindos do espaço.

Nota-se também que a Literatura foi um ponto importante para os criadores da série, algo apontado em diversas matérias e notícias sobre a produção — inclusive no site oficial. O gênero que faz sua transição para a tela é o Gótico Tasmaniano (parte da literatura australiana), que mistura a estrutura tradicional das obras de horror do gênero gótico (Frankenstein, O Retrato de Dorian Grey, O Médico e o Monstro, entre outros) com o ambiente da Tasmânia, as crenças locais e, às vezes, o relacionamento com os povos aborígenes de lá.

No elenco e equipe, segundo a própria showrunner em entrevista, há diversos profissionais tanto levados para a ilha quanto já moradores, o que lhe pareceu justo — pessoalmente concordo. A protagonista é interpretada por Elizabeth Debicki, conhecida por alguns pela participação em filmes como O Agente da U.N.C.L.E. (2015) ou na minissérie The Night Manager (AMC, 2016) na qual interpreta a personagem Jed Marshall. Em Kettering, a atriz está muito bem, mostrando-nos o paradoxo de estar confortável no papel de uma personagem que está desconfortável o tempo todo.

Elenco de The Kettering Incident e a criadora da série (segunda da direita para a esquerda)
Elenco de The Kettering Incident e a criadora da série (segunda da direita para a esquerda)

Voltando ao enredo principal, logo após sua chegada, quinze anos depois, Anna começa a ter problemas com os cidadãos. Ela não só não é bem-vinda, como passa a ser destratada em diversas ocasiões. Isso porque muitos acreditam que ela foi a culpada pelo desaparecimento de sua melhor amiga. O que fica evidente desde o primeiro episódio é que nem a personagem principal se sente tão inocente assim, afinal, não se lembra dos acontecimentos da fatídica noite. Ou seja, ela pode sim ter cometido o crime em questão e apagado da memória em um surto psicótico. Conforme acompanhamos o relacionamento dela com o pai, que era o chefe de polícia da época, percebemos que muito foi feito por ele para acobertar o estranho desdobrar dos eventos daquela noite. Além disso, seu próprio pai tem suas dúvidas…

A forma seca e fria das pessoas combina com a atmosfera do local e reflete na personalidade de diversas personagens. Os que divergem desse aspecto, identificamos, o fazem porque não são dali, tão estrangeiros como Anna se tornou. Essa forma de contar uma história tem um lado bom e o ruim. Explico: não dar profundidade aos personagens ou deixá-los “distantes” do público em séries e histórias de mistério pode servir para focar no mistério em si, não perdendo tempo com coisas que não terão tanta importância no desenrolar da trama. O lado ruim é que há diversos momentos em que a falta de empatia que temos aos personagens não nos deixa sentir algo pelos seus destinos. O roteiro não nos presenteia com ninguém especial — quem poderia assumir o papel desaparece no primeiro episódio.

Algumas personagens que ajudam a compor a história são: o detetive Brian Dutch, aquele velho detetive corrupto que conhecemos de outras histórias, Roy Macy, o pai da protagonista e policial aposentado, Jens Jorgensson, um ativista ambiental que vaga pela floresta e desempenha um papel importante no final da história e Fergus McFadden (interpretado pelo ator Henry Nixon, que eu conheço de um filme muito interessante de 2009 chamado Triangle; vocês já viram esse filme?), atual chefe de polícia da cidade e geralmente o lado honesto e bondoso do seriado.

O Enredo, Os Temas e a Mistura de Gêneros

Na mesma noite em que Anna volta à cidade, há outro sumiço. Dessa vez, a sumida é uma jovem que ficou obcecada pela história da filha pródiga de Kettering. Anna desperta esse encanto, não só pelo incidente, mas pelo fato de ter conseguido escapar da cidade, algo com o qual os jovens sonham muito, mas que poucos conseguem realizar. Esse segundo sumiço, ao contrário do primeiro, entretanto, é logo resolvido e o roteiro decide focar nas consequências e investigações a partir disso.

Chloe, interpretada pela atriz Sianoa Smit-McPhee, desaparece no dia em que Anna volta à cidade.
Chloe, interpretada pela atriz Sianoa Smit-McPhee, desaparece no dia em que Anna volta à cidade.

Cada episódio leva o nome daquilo que será o principal assunto. O primeiro se chama Anna, por exemplo, enquanto o segundo (“The Lights” / “As Luzes”) deixa claro desde o título que relacionará os fenômenos passados e atuais com as estranhas luzes que todos veem na floresta.

Em alguns momentos, como no segundo episódio, a série quase se deixa levar pelo sobrenatural, mas não se compromete com isso, variando de tom e de tópico constantemente — e nem sempre isso lhe favorece. Temos uma disputa envolvendo a serraria da região como pano de fundo, mas isso não parece ser suficiente e ganhamos subtramas que aos poucos vão pesando no número de assuntos abordados pelos episódios.

Kettering decide não investigar o relacionamento de algumas personagens e deixa algumas questões bem subentendidas, algo que seria explorado por outras produções. Um exemplo claro disso é a personagem de Tilda Cobham-Hervey, cujas motivações nunca ficam claras, chegando quase ao desperdício, uma vez que seu flerte com inveja, culpa e manipulação são suficientes para cenas intrigantes. Seu relacionamento com Barbara, mãe da segunda jovem a sumir, também poderia ter sido mais abordado pelo nível de tensão que as duas provocam quando juntas.

Se as personagens não são cativantes, os atores estão muito bem, entregando bons momentos, mesmo que tenham pouca participação, como Katie Robertson, que consegue ser delicada e melancólica com sua Sandra.

Outra coisa que precisa ser avaliada na decisão de assistir à série é o ritmo. Mesmo aqueles que não se importam com séries de uma hora que deixam as coisas acontecerem em seu próprio tempo, como eu, podem se incomodar em alguns momentos. Enquanto o primeiro e segundo episódio, transmitidos juntos, estabelecem bem a trama, e o terceiro é o melhor, depois do quinto, a trama se arrasta e perde nossa atenção. Não há outra palavra: fica chato. Isso ocorre principalmente devido à variação de gêneros na própria série. Acompanhamos marcas e símbolos estranhos, que podem ou não ser resultado de experiências científicas. Acompanhamos as consequências dramáticas da resolução do desaparecimento na cidade. Acompanhamos as intrigas e questões sobre corrupção no meio policial. Há também certo flerte com o sobrenatural. Sim, é muita coisa — a própria criadora disse em entrevista que perto do final se sentiu perdida. Nesse caso, pode não ser a melhor série para se assistir em maratona.

Quando uma série apresenta diversos temas, nem todos atingem seu público, e é o que acontece durante os oito episódios. Aqueles que atingem, entretanto, são eficazes e nos levam à reflexão. Há certo diálogo sobre a crueldade na forma como lidamos com pessoas que perderam alguém. A pena, a indulgência e a condescendência, por mais que nunca pensemos dessa forma, são formas de crueldade. A mãe de Gillian, Renae Baxter, conhece bem isso. Ela vive há quinze anos sendo marcada pelos cidadãos com esse tratamento falsamente cordial, ouvindo palavras de consolo sem vida e sendo alimentada por esperança alheia, mesmo que quem fale não tenha de fato esperança de que sua filha esteja viva.

“Ninguém sabe como é perder um filho, o desamparo desesperador, a perda dolorosa… As pessoas olham para você como se você estivesse contagiado com alguma doença terrível que eles não querem pegar, mas eles não se importam de verdade.”

Renae Baxter, The Kettering Incident.

Há também a crueldade que não se disfarça. Diversas pessoas julgam Renae como louca, principalmente quando ela decide buscar apoio na possibilidade de sua filha ter sido abduzida. Uma das cenas mais agonizantes é quando uma adolescente decide ligar para sua casa e se passar por sua filha, gritando por ajuda, somente para atordoá-la. É nesse ponto que vemos de maneira mais escancarada como a dor do outro nos é, de certa forma, alívio por não ser nossa.

Ranae e Barbara, as grandes mães-vítimas da cidade, dividem algumas cenas e, por mais que seus discursos sejam afiados, fica muito implícito a forma como uma vê a dor da outra. Depois de quinze anos, encontram-se sem filhas, na mesma situação, por mais que uma saiba o destino que a filha levou e a outra não. É aí que vemos como cada uma vai lidar com o fato de saber, mas não gostar da realidade, ou não saber e ter de lidar com o mistério. Os telespectadores podem escolher um partido, mas talvez mesmo quem tenha passado por um desses lados não saiba como é estar no outro.

(Muito funciona porque as atrizes são sensacionais.)

Em cena os atores Dylan Young e Tilda Cobham-Hervey, que interpretam, respectivamente, Dane Sullivan e Eliza Grayson
Em cena os atores Dylan Young e Tilda Cobham-Hervey, que interpretam, respectivamente, Dane Sullivan e Eliza Grayson

O roteiro é indeciso quanto ao desenvolvimento de sua protagonista. Em alguns momentos ela se vê perdida, vítima da doença inexplicável e sofrendo na mão da cidade, enquanto em outros toma diversas iniciativas, é inteligente e decide por si só desvendar os mistérios ligados aos desaparecimentos, sendo interessante somente nesse segundo aspecto.

A resolução da temporada cria ganchos desnecessários e abandona qualquer capacidade de ser intrigante, afogando-se em mais perguntas em vez de solucionar as que já possui — o que chamo de efeito Lost. Nesse caso é pedir demais e um pouco decepcionante. O ar de conspiração prejudica a série principalmente porque ela se sai melhor como thriller. Nesta questão, há respostas para o destino da garota que havia desaparecido e como ela chegara ali: é cruel e surpreendente, mas satisfatório — principalmente porque outras séries demorariam mais tempo. Os últimos episódios, que ora se arrastam, ora decidem que tudo deve acontecer de uma só vez, poderiam ter focado nesta questão, o que, para mim, prevalece como a maior qualidade do roteiro. Também poderiam ter explorado melhor o lado místico da ilha, dado melhor utilidade às luzes, que lá pela metade são esquecidas. Há uma boa exploração da floresta e de como as plantas estão se comportando, mas me soou falso e improvável demais.

Algumas críticas levantadas nesse texto podem se relacionar diretamente à minha experiência pessoal. Gostar ou não da série, portanto, pode ser questão de como a série te envolve e se você consegue criar alguma empatia por algum personagem. Vale dar uma chance e experimentar pelo menos os dois primeiros. A recepção da crítica foi positiva, por mais que a série não seja tão conhecida e comentada em comparação às produções norte-americanas. The Kettering Incident me lembrou um pouco de um livro da Gillian Flynn, e acho que isso já é suficiente para alguns. De qualquer forma, enquanto não sai notícia de uma possível segunda temporada, fica a recomendação cautelosa: não é para todos, mas pode ser apaixonante para alguns.

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#MêsDoHorror

Esse post faz parte do projeto #MêsDoHorror que tem como objetivo falar, durante outubro, de séries de horror/mistério/fantasia que não tiveram textos aqui no SM no período de 01/10/2015 a 30/10/2016.

  • janaína

    Pelo o que soube a série não terá segunda temporada, portanto não entendi nada do final e achei os últimos epis chatos e monótonos, ou seja, não valeu pela série e nem pela “resolução” do mistério. hahaha

    • o pior, Janaina, é que eu acho que aquele final não foi feito para entender, viu? foi só uma ideia bizarra e sem sentido que colocaram para finalizar bem mal a temporada. gostei de saber quem matou a outra garota, entretanto.

      obrigado pelo comentário! 😉

  • Uma das minhas favoritas do ano, mas não vou negar: fiquei frustrado com o último episódio. Não houve respostas, não houve de fato uma finalização. Eu espero que essa conversa de minissérie seja balela e que The Kettering Incident retorne para uma segunda temporada.

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    • olha, Rodolfo, desse período que eu estou cobrindo, eu acho que não colocaria entre as favoritas, principalmente porque fica meio evidente depois de um tempo que a) a pessoa que escreve os primeiros episódios não escreveu os restantes b) a criadora não tinha muito ideia do que fazer, coisa que ela disse em entrevista.

      o último episódio entra em uma zona de ficção científica bizarra e apressada que não casa muito bem com o resto da série. mas no geral, eu gostei, principalmente porque temos uma resolução bem inesperada para um dos mistérios.

      obrigado pelo comentário! 😉

  • Aluiz Henrique Marques Linhare

    Fiquei completamente decepcionado com a finale. Me pareceu algo feito as pressas. Encheram os episódios de mistérios e, provavelmente, não conseguiram aprovação para seguir como série e não havia tempo hábil para concluir tantos plots. Se você não se importar de ficar frustrado no final vale pelo clima de mistério crescente, mas no fim nada acontece.

    • Então, Aluiz, eu também fiquei, principalmente porque deu para perceber que em algumas coisas a série conseguiu ser muito boa. Não só te pareceu, mas foi feito mesmo às pressas, afinal a própria criadora disse que não sabia muito bem como terminar. Pior do que nada acontecer, é inventar de sair fazendo coisas bizarras, achando que é intrigante, né?

      Obrigado pelo comentário. 😉

  • ÐiŁmå ÐimiĶå

    Vi, vi, vi mas larguei. Muita enrolação. Personagens sem carisma algum. Entediante por vezes. Como a maioria esmagadora já havia dito que o final era escroto, me desanimou mais ainda em continuar. Pelo visto, não perdi nada.

    • Pois é, isso é verdade, não há carisma algum em The Ketteting, nem sequer nas personagens. Os primeiros episódios são mais empolgantes, e depois a série começa a se arrastar. O final conta o que aconteceu com a menina que desapareceu, quem foi que a assassinou, e eu tomei isso como suficiente para ficar satisfeito. O resto só ignorando com muita boa vontade… Obrigado pelo comentário! 😉

  • Carolina Favero

    Eu amei a serie o final foi aquilo ne qur a gente sabe mas… li alguns comentarios que pode ser que tenha uma segunda temp pra dar um desfecho ou uma cont pra historia espero que tenho pq acho q deixou muitas perguntas

    • Olha, Carolina, eu não sei se eu gostaria de uma segunda temporada depois daquele último episódio. Fico me pergunto para onde eles levariam a história. A produtora demonstrou interesse em alguns momentos, mas meu medo é que acabem inventando demais, o que já aconteceu no season finale. Obrigado pelo comentário! 😉

  • giovana de oliveira

    Eu gostei da série, gostei de assistir (talvez meus padrões sejam baixos), mas não entendi o final.Ela foi substituída, é isso?
    Eu gostei do clima, mas realmente, ás vezes parece que ficou faltando algo, histórias que deveriam e não foram contadas. Mas valeu a experiência, não me arrependo.