Jogo do Dinheiro

Continue respirando. Continue assistindo

1
25

Se a religião já foi a razão pela ascensão e queda de reinos no passado, hoje em dia esse papel foi assumindo pela mídia. Como uma força tarefa que constrói o pensamento das massas, simples sugestões se tornam a verdade absoluta, fatos são manipulados na edição mais ágil possível e lados são escolhidos em prol do que mais importa: a audiência. Não importa do que se trata, não importa o que se apresente. Prenda a audiência em frente de seu programa e conseguirá o mundo. “Jogo do Dinheiro” (Money Monster, 2016), quarto filme de Jodie Foster na direção, mistura a atenção midiática com o a cobiça da Bolsa de Valores num filme eletrizante e inteligente.

Lee Gates (Clooney) é o homem à frente do “Money Monster” (ou Jogo do Dinheiro), um programa que apresenta as notícias sobre o mercado de ações de modo irônico, carregado no humor que beira o sardônico, dirigido com habilidade por Patty Fenn (Roberts). Quando Gates é feito de refém em cadeia nacional por Kyle Barnes (O’Connell), que perdeu todas as economias apostando numa das dicas do programa, o que era um simples show ao vivo pela atenção se torna um espetáculo com consequências impensáveis que se desenrolam por todo o mundo.

O filme é uma escalada de plot twists urdida com um toque de conspiração que expõe as entranhas do modo de se fazer televisão ao mesmo tempo que demonstra os podres das grandes transações no mercado de ações. Jodie Foster realiza um trabalho competente, organizando o ritmo do filme de modo que até as sequências de humor não atrapalhem o fôlego de ação da trama. Clooney, Roberts e O’Connell carregam grande parte do filme nas costas em atuações que não chegam a ser soberbas, mas que entregam o necessário para se importar com o caminho que se constrói durante a exibição, passando longe do lugar comum de atuar no “automático”.

É perceptível o eco (ou inspiração) em obras que carregam esse fator de denúncia escondido, como “O Abutre” e “A Grande Aposta”, mas a grande qualidade é pegar um tema complexo e tornar palatável de modo que as partes mais teóricas da trama sejam compreendidas sem apelar para hipérboles, quebra de parede e outros artifícios como o filme de McKay. Foster consegue imprimir ainda um tom de paródia mordaz a atual situação da “persona de mídia”, com seus arroubos de egocentrismo galopante e necessidade de atenção nos momentos mais inoportunos, representados na figura de Lee.

O resultado final é um filme acima do normal dessa safra pasteurizada recente, que proporciona uma diversão aliada ao pensamento crítico para um mundo cada vez mais assíduo de Kardashians (e similares) e de atenção tão fugaz quanto um comercial de 30 segundos no Youtube. A mídia em seu papel manipulador não poupa nem os seus na necessidade de ganhar mais e mais atenção. Seja a televisão ou a Bolsa, a ganância é a característica que se destaca. Afinal dinheiro e audiência são dois lados da mesma moeda. E quanto mais dinheiro no caixa melhor.

* O Série Maníacos assistiu ao filme a convite da Sony Pictures Brasil 

  • Alan

    A sinopse do filme achei muito boa e acabei selecionando para ver, mas o trailer foi broxante ao extremo, pareceu ter um roteiro fraco e sem criatividade. Se algum dia sair no Netflix eu talvez veja.