Jekyll and Hyde: o problema em se ignorar a obra clássica

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Strange Case of Dr Jekyll and Mr Hyde do escritor Robert Louis Stevenson é uma novela que faz parte da Literatura Gótica e foi lançada em 1886. Por aqui a conhecemos como O Médico e O Monstro — mesmo quem ainda não teve oportunidade de ler o livro deve reconhecer por esse nome. Em um resumo simples, a história acompanha um advogado chamado Gabriel John Utterson e sua investigação para descobrir o que está acontecendo com seu amigo, o Doutor Henry Jekyll, que desenvolveu uma amizade estranha com um misantropo chamado Edward Hyde. Conforme a história avança, descobrimos que o estranho caso do título refere-se a dualidade do próprio doutor a partir de experimentos que o possibilitaram expandir, de certa forma, seu lado mau a ponto de este assumir uma personalidade em si.

A história curta pode ser interpretada de diversas formas e contém vários temas, sendo sucesso de público e de crítica desde seu lançamento. Para se ter uma ideia, há adaptações que datam da época do lançamento do livro. O enredo já chegou ao rádio, peças de teatro, filmes, animações, séries de tevê, videogames, músicas e livros derivados. A personagem de Hyde já foi homenageada, mudada, parodiada e apareceu em pontas em séries como Penny Dreadful e Once Upon a Time. Seu uso foi responsável pela consagração de atores, que ganharam Oscar pelo papel, e investidas fracassadas, como Do No Harm, série esquecível de 2013, cancelada depois de dois episódios. É o caso também de Jekyll and Hyde, série britânica que demorou mais tempo para alcançar isso: uma temporada de dez episódios.

“Havia em Jakyll mais do que um interesse paternal. Havia em Hyde mais do que um desinteresse filial.”

Robert Louis Stevenson, Jekyll and Hyde.

Jekyll and Hyde é uma série britânica de fantasia que combina diversos elementos de horror e ação para contar sua história. Ela foi ao ar pelo canal ITV entre outubro e dezembro do ano passado, contando com dez episódios de quase cinquenta minutos cada. O escritor e ator inglês Charlie Higson foi responsável pela adaptação e escreveu metade dos episódios. Na produção da série, a concorrente da BBC não é tão sofisticada na ambientação, e muito há de ser relevado.

A série Jekyll and Hyde mistura a maldição de seu protagonista a diversos elementos de fantasia e horror.
A série Jekyll and Hyde mistura a maldição de seu protagonista a diversos elementos de fantasia e horror.

Diferente do que se pode esperar da história dos primeiros parágrafos, não contamos com a participação direta do Doutor Henry Jekyll, mas de seu neto, que fora criado por pais adotivos em Sri Lanka, na Ásia. A primeira cena adapta uma passagem famosa do livro, quando Hyde ataca alguns cidadãos sem razão alguma, mas esse é o máximo que teremos de Stevenson, e, após a abertura, migramos para cinquenta anos no futuro, quando Robert, após parar no jornal por conta de uma ação heroica, é contatado pelo advogado de seu avô para ir a Londres ouvir o testamento.

Robert embarca em viagem, deixando seus pais adotivos e irmão para trás. Ele leva consigo um composto que encara como remédio para controlar os efeitos que o stress tem sobre ele. Acontece que, tal como Henry, ele, assim que estimulado da forma correta, torna-se outra pessoa e dá lugar a Hyde, mais liberto, corajoso e forte. Além de lidar com as descobertas referentes ao passado dos pais biológicos, o protagonista ainda é abordado por duas organizações: a MIO, organização britânica que é responsável por esses casos sobrenaturais, e a Tenebrae, que tem a interesse de usar o sobrenatural para controle e benefício próprio.

Robert é interpretado pelo ator Tom Bateman, que já participou das séries The Tunnel e Da Vinci’s Demons. Ele entrega uma performance crível e sabe utilizar o melhor dos dois lados de sua personagem, por mais que esta não seja o destaque do programa nem mesmo nesse aspecto. O elenco tem carisma de forma geral. Natalie Gumede é Bella, dona de uma casa noturna chamada The Empire e uma das poucas pessoas a não se abalar pela grosseria e agressividade de Hyde. Stephanie Hyam interpreta Lily, estudante de bioquímica que guarda um segredo consigo e conquista Robert rapidamente. Destaca-se ainda Christian McKay como Maxwell Utterson, parente do advogado da história original e típico covarde com quem criamos empatia e nos importamos com seu destino no avançar da história, e Michael Karim como Ravi, irmão adotivo da personagem principal e sobrevivente de uma tragédia que acontece com a família.

Jekyll and Hyde é estrelada por Tom Bateman como Robert Jekyll/Hyde.
Jekyll and Hyde é estrelada por Tom Bateman como Robert Jekyll/Hyde.

A temporada tem seus momentos divertidos, mas está longe de ter o conteúdo poderoso da história clássica ou de suas adaptações. O primeiro episódio apresenta diversas subtramas e conhecemos as organizações e os dois lados de Robert. No segundo, acompanhamos o protagonista em busca de seu passado, quando vai à mansão que herdou, assim como a viagem de Ravi para encontrá-lo. Essa sequência também utiliza de algumas passagens do livro: após acharem o laboratório onde Henry fazia experimentos, Garson, seu ex-assistente interpretado pelo ator Donald Sumpter, explica o que o falecido pretendia em suas excursões pela química.

Em cena: os atores Christian McKay (Maxwell Utterson) e Natalie Gumede (Bella).
Em cena: os atores Christian McKay (Maxwell Utterson) e Natalie Gumede (Bella).

O terceiro episódio começa dando destaque aos grandes vilões da temporada: O Capitão Dance (Enzo Cilenti) e sua companheira Fedora (Natasha O’Keeffe). Juntos, além de controlar e libertar diversas criaturas malignas, ambos protagonizam uma das cenas mais perturbadoras do seriado, quando um de seus agentes tem, como punição, um sapo colocado no lugar de seu olho. É nesse episódio que também encontramos a avó de Robert, Maggie Hope (interpretada pela atriz Sinéad Cusack, conhecida por mim por ter atuado em Marcella, série sobre a qual conversamos recentemente no #MêsDoHorror).

Os vilões da temporada: O Capitão Dance (Enzo Cilenti) e sua companheira Fedora (Natasha O'Keeffe)
Os vilões da temporada: O Capitão Dance (Enzo Cilenti) e sua companheira Fedora (Natasha O’Keeffe)

O quinto episódio, Black Dog, se destaca por ter uma subtrama quase independente aos demais e apresentar um mistério que me lembrou O Cão dos Baskervilles. Nele, a atriz Amelia Bullmore interpreta Renata Jezequiel, uma parente distante, sombria e solitária, que guarda um segredo envolvendo a morte do marido e sua família.

A partir deste, a série caminha para seu desfecho. Há uma estabilidade na qualidade dos episódios, isto é, eles não melhoram nem pioram, o que não faz muito bem a séries como essas, que sempre esperamos que atinjam seu clímax em algum ponto. Quem se arriscar aos primeiros e não gostar, pode deixar de lado, já que a série não surpreende em seu desenvolvimento e tem um último episódio que deixa a história em aberto. A emissora cancelou a série, então não haverá segunda chance para que o criador consiga modificar isso, o que lhe obrigou a xingar muito no twitter. Quem gosta da história, das representações e metáforas, eu aconselharia primeiro o livro, mas a série, de proposta menos pretensiosa, se é que há alguma, trabalha a fantasia da forma como muitos trabalham a comédia: sem profundidade alguma.

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#MêsDoHorror

Esse post faz parte do projeto #MêsDoHorror que tem como objetivo falar, durante outubro, de séries de horror/mistério/fantasia que não tiveram textos aqui no SM no período de 01/10/2015 a 30/10/2016.

  • Libriane

    Gostei bastante da série. Atores charmosos e talentosos.

  • Carolina Alvarenga

    já li o livro é bom