Houdini and Doyle, acreditar fica por sua conta

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Sir Arthur Conan Doyle tem uma extensa obra literária, que se espalha para a poesia, o teatro e os romances históricos, mas é conhecido, acima de tudo, pela aventuras envolvendo sua personagem mais famosa, o detetive Sherlock Holmes, conhecido nosso da aclamada série britânica estrelada por Benedict Cumberbatch, entre outras produções. O detetive trabalhava incansavelmente para explicar casos que tinham ares de sobrenatural, mas que poderiam ser explicados racionalmente através de um olhar atencioso sobre as pessoas relacionadas aos crimes — como o Cão dos Baskervilles (The Hound of Baskervilles, 1902), que está mais destacado em minha memória devido a uma leitura recente, mas há diversos outros exemplos.

“Mas se nós soubéssemos que nossos entes queridos estão logo ali, do outro lado, assistindo-nos, falando conosco, esperando por nós, como nós seríamos capazes de seguir em frente?”

— Adelaide, Houdini & Doyle.

Diferente de sua personagem, Arthur era devoto à crença do sobrenatural e assumiu publicamente que era adepto do espiritualismo, que, como o nome diz, apoia-se na existência de espíritos. Aliás, não só falou sobre isso publicamente, como escreveu diversos livros a respeito, deu palestras e investiu boa parte de sua vida em casos ligados a supostos médiuns. Esse aspecto de sua personalidade tornou improvável sua amizade com Houdini, um ilusionista norte-americano, que à época dedicava-se a expor truques de outros ilusionistas e a comprovar farsas executadas por médiuns charlatões. Entretanto, a amizade aconteceu, por mais que conturbada, e ambos passaram muito tempo a tentar convencer o outro das próprias verdades. Houdini, sempre cético e inteligente, viajou muito com o novo amigo e desmascarou diversas pessoas apontadas como possuidoras de dons extraordinários. Doyle, afundado em suas crenças, estava sempre inclinado a acreditar nas pessoas — ele acreditava também que o próprio ilusionista fosse dotado desses poderes. Com o tempo, as declarações públicas ficaram mais agressivas e ambos se afastaram.

Houdini & Doyle é baseada na amizade real entre o escritor Sir Arthur Conan Doyle (o mais alto) e o ilusionista Harry Houdini.
Houdini & Doyle é baseada na amizade real entre o escritor Sir Arthur Conan Doyle (o mais alto) e o ilusionista Harry Houdini.
A Série: Produção e Trama

Longe de aproveitar toda essa trama interessante, ficando com o básico do que a história fornece, Houdini & Doyle estreou em março desse ano. A produção é uma colaboração entre as produtoras do Reino Unido, o Canadá e os Estados Unidos: Fox, ITV e Global, respectivamente. Destaca-se a boa ambientação e o figurino, antes de mais nada. A primeira temporada foi composta por dez episódios, terminando sua transmissão no começo de julho. Na série, os dois protagonistas se unem à polícia de Londres para investigar casos que parecem ter ligação com o sobrenatural. Enquanto Doyle quer aproveitar a existência desses casos para se certificar de que há sim coisas que não podem ser explicadas, Houdini, por sua vez, quer justamente decifrar os mistérios para mostrar que a ciência pode atestar o contrário.

A série foi criada pelos produtores e roteiristas David Hoselton (House) e David Titcher (da franquia The Librarian). O primeiro, inclusive, assina o roteiro de três dos dez episódios. Michael Weston interpreta Harry Houdini — o ator norte-americano faz participações esporádicas em séries, sendo mais recorrente na quinta e sexta temporada de House, na quarta temporada de Six Feet Under e na sexta temporada de Scrubs. Arthur Conan Doyle ficou com o inglês Stephen Mangan, que talvez seja reconhecido como Sean Lincoln da série Episodes.

“Toda vez que eu me tranco naquele tanque [de água], meu coração está martelando. E cada batida me lembra que eu nunca estive tão vivo quanto quando eu estou mortalmente assustado. Mas, é só quando você admite que está com medo que o medo perde seu poder sobre você.”

Harry Houdini, Houdini & Doyle

As duas personagens que levam o nome da série são interessantes e cativantes o bastante para nos ganhar nos primeiros episódios. A forte química entre os atores é inegável, além do talento para conduzirem as subtramas em que são isolados em conflitos pessoais. Enquanto Michael sabe dar a Houdini um charme e humor que quebram o enfado da fórmula da série, Stephen brinca muito bem com a inocência de Doyle. Para completar o trio e ficar entre os dois entusiastas, temos a policial Adelaide Stratton (interpretada pela atriz Rebecca Liddiard). Ela, que é a primeira mulher em seu cargo na Scotland Yard, precisa saber conter os ânimos dos dois detetives improvisados, além de ter paciência para aguentar a descrença de outros policiais, que duvidam de suas habilidades unicamente pelo preconceito misógino — que eu poderia escrever “da época”, mas que persiste até hoje. Sua personagem é uma das maiores qualidades da série, justamente por nos representar em meio aos protagonistas e equilibrar o nível de crença ou descrença deles.

A atriz Rebecca Liddiard interpreta Adelaide Stratton, primeira policial mulher da Scotland Yard.
A atriz Rebecca Liddiard interpreta Adelaide Stratton, primeira policial mulher da Scotland Yard.
O Sobrenatural em Houdini & Doyle

A história se passa após o período em que Conan decidiu matar sua personagem favorita e antes de voltar a escrever sobre ela com aquele truque quase digno de Dallas. O escritor precisa lidar com a recepção negativa dessa história, com a doença da esposa, Touie, que sofre de tuberculose e está em estado de coma, e com os dois filhos pequenos. Com Houdini, o que mais ganha destaque é o relacionamento próximo com a mãe, enquanto Adelaide tem um passado misterioso, o qual precisará revelar para obter a ajuda dos parceiros de investigação.

Houdini & Doyle faz uma primeira temporada muito divertida. Além de ter acertado na escalação dos atores, a série acertou no tom que toma para si quando decide conversar sobre o sobrenatural. Cada semana temos um caso diferente, e cada episódio começa com a quase afirmação de que aquilo não pode ser explicado racionalmente. Com o passar dos minutos, entretanto, e com a ajuda do ilusionista, percebemos que se trata de truques. Em muitos momentos a série deixa por nossa conta acreditar ou não que há algo além do que está sendo mostrado, sem nunca se posicionar de forma decisiva sobre o assunto principal. A resolução se inclina na maioria das vezes para explicações lógicas, mas há sempre um ou outro momento que retorna com a dúvida e fecha dessa forma a história em questão. A forma como o texto transita entre as duas realidades é eficaz e, de certa forma, respeitosa com o verdadeiro Sir Arthur.

Cena do episódio seis, quando Houdini e Doyle investigam o sequestro de uma mulher por supostos alienígenas.
Cena do episódio seis, quando Houdini e Doyle investigam o sequestro de uma mulher por supostos alienígenas.

Os cinco primeiros episódios são os melhores, sendo o quinto o auge da série e o meu favorito. Entre os casos, temos a aparição de espectros que assassinam freiras, a reencarnação de um homem assassinado em uma criança em busca de vingança, uma morte repentina depois de uma praga lançada por um pastor e o sequestro de uma mulher por supostos extraterrestres. Quase como brinde, temos a participação de Bram Stoker, escritor de Literatura Gótica e conhecido de Arthur na vida real. Há uma exploração dos mitos e histórias ligadas ao criador de Dracula, resultando em um episódio divertido.

Em cena: o ator Paul Ritter interpreta o escritor Bram Stoker no oitavo episódio.
Em cena: o ator Paul Ritter interpreta o escritor Bram Stoker no oitavo episódio.

Por mais que comece muito bem, a temporada não consegue seguir dessa forma. A partir do sexto episódio, a série perde a energia dos primeiros, deixando-se levar por um melodrama que não dialoga muito bem com sua proposta. O sétimo episódio, quando a relação de Doyle com seu pai é explorada, é o que mais sofre com isso. As resoluções são sempre voltadas a explicações racionais, como dito, mas às vezes não dá para engolir o que a série propõe como resolução, como no sexto episódio, quando descobrimos quem são os “alienígenas”. Mesmo assim, os casos seguintes são divertidos e a trama principal, que costura toda a história e está relacionada ao passado da policial do trio, é interessante de acompanhar. O roteiro decide fazer uma revelação com potencial para estragar o final da série no episódio nove, mas que pode ser até perdoada depois de tantos episódios bons. Na reta final, há também uma conversa sobre sonhos e como distingui-los da realidade, que gera bons momentos, principalmente com Houdini.

 “Se você pode ler isso, você não está sonhando.” Artifício usado por Harry Houdini em Houdini & Doyle para diferenciar sonho de realidade.
“Se você pode ler isso, você não está sonhando.” Artifício usado por Harry Houdini em Houdini & Doyle para diferenciar sonho de realidade.

Infelizmente, após essa primeira temporada com índices muito baixos de audiência, a série foi cancelada. Como esse pode não ser um truque (em época de remakes e compras através de outras emissoras nunca sabemos), o décimo e divertido episódio pode ter marcado o final das aventuras desses dois amigos improváveis. Mesmo tendo sobre o que falar em uma possível segunda temporada, a série fecha bem sua trama e tem um final satisfatório. Não se deixe levar pelo fato de ter sido cancelada. Houdini & Doyle poderia ter se baseado com mais fidelidade à amizade verdadeira entre a dupla principal, fazendo uma investida dramática, mas decidiu dar uma abordagem mais despretensiosa, mais criativa — e, acima de tudo, divertida.

ps:

Adelaide: Eu acredito em Deus, por que não acreditaria em Lúcifer?

Houdini: Não é só porque você acredita em um conto de fadas que você precisa acreditar em todos.

#MêsDoHorror

Esse post faz parte do projeto #MêsDoHorror que tem como objetivo falar, durante outubro, de séries de horror/mistério/fantasia que não tiveram textos aqui no SM no período de 01/10/2015 a 30/10/2016.