Horror na TV: Atualidade e Perspectiva do Gênero

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Durante a breve recapitulação da história do horror na tevê, eu me foquei nas produções norte-americanas, canadenses e britânicas, afinal, a maior parte do conteúdo televisivo que consumimos, em questão de séries, provém desses lugares. Deve-se, entretanto, pensar que não somente essas regiões se aventuraram na produção de material tendo este como tema.

“Medo não é tão difícil de entender. Afinal, não éramos todos amedrontados quando crianças? Nada mudou desde que a Chapeuzinho Vermelho enfrentou o lobo mau. O que nos amedronta hoje é exatamente o mesmo tipo de coisa que nos amedrontava antes. É somente um tipo diferente de lobo. O complexo do medo está enraizado em cada indivíduo.”

Alfred Hitchcock na biografia It’s Only a Movie: Alfred Hitchcock.

O Horror pelo Mundo:

A França já se aventurou pelo gênero com Les Revenants (2012-presente), série sobre o retorno de pessoas que haviam falecido. A série possui duas temporadas aclamadas pela crítica, e fez uma das melhores temporadas ano passado. A produção teve como base o filme de 2004 de mesmo nome. Les Revenants foi reconhecida por sua qualidade ao vencer um Emmy Internacional por sua primeira temporada em 2013. Houve uma adaptação americana da trama, que foi ao ar em 2015, mas que foi cancelada após uma temporada. Para não ficar só em dados, resumindo bastante a história da série (há textos sobre as duas temporadas aqui no SM), acompanhamos a rotina de uma pequena cidade francesa, marcada por diversas tragédias, incluindo um acidente de ônibus que tirou a vida de diversos estudantes. O que não se imaginava é que, após alguns anos, diversas pessoas voltariam à cidade, por mais que já tivessem sido enterradas. A série possui uma base dramática muito forte e sabe dosar bem o clima de horror com momentos emocionantes. Entre seus maiores méritos, está lidar com aqueles que retornaram como vítimas de estranhas circunstâncias, tão confusos quanto os demais.

Cena da segunda temporada de Les Revenants (Canal+, 2012-presente)
Cena da segunda temporada de Les Revenants (Canal+, 2012-presente)

A Índia também produz o próprio material, lançando séries como Darr Sabko Lagta Hai (2015-2016), que tem o formato de antologia popularizado na língua inglesa, e narra episódios sobrenaturais na vida de pessoas comuns. Esse é um bom exemplo de como cada país atribui aspectos pessoais ao horror, por mais que seja influenciado pelas fórmulas internacionais. Darr foi apresentado por Bipasha Basu, modelo e atriz conhecida dentro do gênero, e contou com quarenta e nove episódios, distribuídos em duas temporadas. O conteúdo não nos é tão acessível, principalmente em relação à linguagem, mas dá para se ter uma ideia através de vídeos pela internet e episódios disponíveis no site oficial. O formato, entretanto, não é novo no país. Outra antologia, de vida mais duradoura, alcançou público e se manteve por seis temporadas. Trata-se de Aahat (SET India, 1995-2015), outra antologia criticada por se manter dentro dos clichês que a produção do gênero têm no país. Temos, inclusive, um remake do livro It de Stephen King com Woh (1998) e uma série baseada em I Know What You Did Last Summer (Kya Hadsaa Kya Haqeeqat, 2002), entre diversas produções.

Cena da sétima temporada de Aahat, antologia indiana de horror.
Cena da sétima temporada de Aahat, antologia indiana de horror.

O Japão, que sempre nos presenteia com boas investidas no cinema de horror, como Ju-on, popularizado na versão norte-americana, também faz suas investidas. Recentemente, a Hulu do país produziu em seis episódios uma série chamada Crow’s Blood, que foi ao ar no mês de julho desse ano.  A história segue Togawa Maki e os estranhos acontecimentos que a seguem até seu novo colégio. Infelizmente, a série é disponível somente no país de origem. Vale destacar One Missed Call (você lembra daquele filme bem ruim chamado Uma Chamada Perdida?), série de 2005 em dez episódios baseada nos filmes que levam o mesmo nome e que fizeram sua estreia dois anos antes. Há também os animes e seus subgêneros (que fico devendo o entendimento de cada categoria), que lidam com o sobrenatural cada um à sua maneira. Temos diversos exemplos, como Berserk, mais recentemente, adaptada do mangá homônimo e que estreou em julho, continuando diversos arcos, de outras produções e mídias, da história.

A atriz e cantora Miyawaki Sakura em cena na série Crow’s Blood (Hulu Japan, 2016), interpretando a protagonista Maki Togawa.
A atriz e cantora Miyawaki Sakura em cena na série Crow’s Blood (Hulu Japan, 2016), interpretando a protagonista Maki Togawa.

A Espanha, enquanto isso, tem em sua programação séries que dialogam com o tema desde os anos 60, em exemplos como: a premiada Historias Para No Dormir (TVE, 1966-1982), série novamente em forma de antologia e que novamente adapta contos de Edgar Allan Poe, entre outros autores, e algumas histórias originais; e Tras La Puerta Cerrada (mesmo canal, 1964-1965). De conteúdo quase inédito na tevê, o canal TVE tratou de explorar o gênero no começo da década de 90 com as produções Historias del otro lado I (1991), Historias del otro lado II (1996) e Crónicas del mal (1991) e Sabbath (1990). Na década seguinte, o horror se espalhou de vez por outros canais, como a Antena 3, produzindo El Internado (Antena 3, 2007-2010), El Pantano (Antena 3, 2003), e mais recentemente Gran Hotel (Antena 3, 2011-2013). Outros exemplos: Hay alguien ahí (Cuatro, 2009-2010), La Ira (Telecinco, 2009), Amistades Peligrosas (Cuatro, 2006), Balbemendi (ETB, 2006-2008), Motivos Personales (Telecinco, 2005) e Películas Para no Dormir (Telecinco, 2007). Algumas, por mais que não sejam totalmente voltadas ao horror, abusam de diversos recursos dele para contarem suas histórias.

Elenco da série espanhola premiada e de grande sucesso El Internado (2007-2010).
Elenco da série espanhola premiada e de grande sucesso El Internado (2007-2010).

Quer mais exemplos? No México, temos a antologia 13 Miedos (Canal 5, 2007), que ficou conhecida por aqui depois de uma campanha publicitária da Doritos, que me influenciou a assistir à série há certo tempo. Na Coréia do Sul, Master’s Sun (SBS, 2013), mistura de comédia e horror, e Who Are You? (tvN, mesmo ano), ambas sobre pessoas que podem ver fantasmas. Na Argentina, Signos (El Trece, 2015) fala sobre um assassino em série que escolhe suas vítimas baseando-se no signo delas.

O Horror No Brasil:

O horror está presente pelo mundo, percebe-se. Mesmo em países que ainda não tenham se atrevido (afinal, para o horror, é preciso certo atrevimento) já esboçam rascunhos na cabeça de seus artistas. Fico com esses exemplos, mas há diversos outros, de outras regiões e países, sobre os quais posso voltar a falar no futuro. Supermax (2016) testa um público mais seletivo, mas estreia na era da internet, o que acaba lhe popularizando, para o bem ou para o mal. A série pode ser apontada como reflexão direta à produção de filmes de horror atuais, de diretores profissionais ou amadores, que trabalha com baixo orçamento para dar vida a projetos interessantes.

“Mesmo sendo um dos países mais supersticiosos do mundo, o Brasil ignora o terror e a morte em sua produção televisiva.”

José Mojica Marins, o famoso Zé do Caixão, disse em entrevista ao Folha de São Paulo no final dos anos 90.

Isto ainda é verdade, mas creio que estamos passando por um período de adaptação. Há três anos, a Fox Brasil produziu uma série chamada Contos do Edgar (2013), relacionando contos do escritor Edgar Allan Poe com situações do cotidiano paulistano. No final do ano passado, tivemos uma série que foi ao ar pelo canal Space e que investigou a biografia da figura do Zé do Caixão. A atração contou com uma bem recebida interpretação do ator Matheus Nachtergaele e foi dividida em seis episódios. Amorteamo (Globo, 2015) teve seus flertes com o horror também. Isso sem contar que programas jornalísticos (sim, Linha Direta é um exemplo), já usaram e abusaram de elementos de horror para contar suas histórias. Como as novelas têm um grande papel na tevê, elas são, na maioria das vezes, as primeiras a incorporar qualquer novidade na ficção brasileira. Sendo assim, algumas novelas já passearam pelo estilo, colocando pelo menos um personagem, uma situação, ou uma subtrama que lhe fizessem certa referência — O Beijo do Vampiro (2002-2003).  Há, portanto, interesse e um caminho. Tratando-se de horror, devo dizer que há também público. Falta lapidação e investimento. 

Marcus de Andrade em cena na série Contos do Edgar (Fox Brasil, 2013), interpretando o protagonista Edgar. 
Marcus de Andrade em cena na série Contos do Edgar (Fox Brasil, 2013), interpretando o protagonista Edgar.
Perspectiva Para O Gênero:

O horror está novamente em alta na tevê, fato muito comentado pelos pesquisadores do gênero, mas bem óbvio quando reparamos no cenário de séries. Stranger Things, talvez a série mais comentada dos últimos anos, conquistou carisma e continua assunto, mesmo quase três meses depois de seu lançamento — e devemos observar que a temporada foi lançada de forma completa, diferente de outras séries que contam com semanas para se manterem como assunto. Ouso dizer que nem Game of Thrones teve essa permanência entre os assuntos. The Walking Dead levou os zombies às casas americanas e quebra recordes de audiência o tempo todo. Por mais que eu não goste da série, reconheço seus méritos e sua contribuição ao gênero, além da qualidade técnica em alguns aspectos, como sua premiada maquiagem.

Elenco de Stranger Things (Netflix, 2016), uma das séries mais comentadas dos últimos anos.
Elenco de Stranger Things (Netflix, 2016), uma das séries mais comentadas dos últimos anos.

Algumas séries de horror não se sustentam com roteiros originais. As duas citadas, por exemplo, não trazem material original. Muitas são adaptações dos quadrinhos, como as divertidas iZombie e Lucifer (sim, é divertida, acredite),  e as bem produzidas Outcast e Preacher. Outras vêm de filmes, caso de Scream, Bates Motel, Ash Vs Evil Dead e From Dusk Till Dawn. Os livros, por outro lado, são fontes para séries como Wayward Pines, The Strain e a britânica Jekyll and Hyde. Não vejo a adaptação e a busca em outras mídias como problema, afinal, o material, quando vasto, dificilmente se pode se conter em sua forma/mídia original. Além disso, temos exemplos de séries que, por mais que não sejam totalmente originais, façam certo esforço para apresentar conteúdo de origem televisiva, como Supernatural, Braindead, American Horror Story, Penny Dreadful, Scream Queens e The Living and the Dead.

Só de citar algumas, já percebemos o quão presente a fantasia que lida com o sobrenatural está na tevê. O horror, especulo, ainda vai chegar a seu auge e tem um longo caminho. Acreditava-se que o gênero deve se manter em categoria inferior, separado de gêneros consagrados, mas não acho que esse seja mais o caso, mesmo que isso tenha lhe feito muito bem durante um tempo. As séries de horror atuais erram no que as outras, de gêneros cômicos e dramáticos, também erram, mas, no fim das contas, não devem nada — Penny Dreadful não deve nada às grandes produções dramáticas atuais. Há diversas dificuldades, entretanto, em relação ao gênero, como destaca muitos pesquisadores da área. A censura para o material produzido está entre as principais.

As atrizes Jessica Lange (à esquerda) e Anna Paquin (à direita) vencendo, respectivamente, o Emmy em 2014 e o Globo de Ouro em 2008 pelas séries American Horror Story e True Blood.
As atrizes Jessica Lange (à esquerda) e Anna Paquin (à direita) vencendo, respectivamente, o Emmy em 2014 e o Globo de Ouro em 2008 pelas séries American Horror Story e True Blood.

Os críticos enxergam isso e não se fecham totalmente à possibilidade de abraçar produções de horror, como aconteceu com True Blood,  indicada a tantos grandes prêmios (duas vezes por série dramática ao Globo e Ouro, uma na mesma categoria ao Emmy), mas afundada por méritos próprios, e American Horror Story, que vem figurando nas premiações há certo tempo e dá a seu elenco o reconhecimento merecido a partir de atuações aclamadas.  Quem tiver dúvida sobre a boa recepção, pode dar um pulo no site do Metacritic e ver as notas na classificação por gênero.

As séries de horror merecem prêmios, assim como os filmes merecem, e talvez consigam alcançá-los antes das películas. E por que não? Game of Thrones, prima bem distante, já começou a fazer isso com seus elementos de fantasia.

#MêsDoHorror

  • Junior Menezes

    Que review e reviewer sensacionais. Confesso, Welson Oliveira, é a primeira que vez que leio uma review sua, porém, já me apaixonei por elas unicamente por motivos de: Penny Dreadful, BrainDead (não sei se quero ou não uma nova temporada), iZombie e Lucifer. Quanto a The Walking Dead assisto mas não a defendo como defendo 617161 outras séries, obviamente, assim como destacou na review, a mesma tem seus próprios méritos, o que me traz à tona American Horror Story: Roanoke, que, a meu ver, vive sua melhor e mais complexa temporada – apesar de não trazer nada novo ao contexto de fake documentary, coisa que SyFy faz há mais de cinco anos com Paranormal Witness – desde a incrível Asylum, afinal, sabemos o quão tristes e quase inassinaláveis foram Coven, Freak Show e Hotel. Outros fatores que me chamaram a atenção em sua review foi o quão refinado e entendi você é: foi a fundo atrás de materiais em série que eu nunca nem ouvi falar, sobretudo as que não são americanas/britânicas. Bates Motel é ótima, principalmente pela quarta e emocionante temporada. Scream já deu o que tinha que dar. Saudades de True Blood, pena que ao lado de Dexter foi a pior series finale ever. Meus sinceros parabéns a você e que continue assim 🙂

    • Eita, Junior, que você trouxe muita coisa para conversarmos! hahaha

      Penny Dreadful não há o que falar. Tá tudo ali haha agora quanto as outras três, eu gosto delas justamente por conseguirem tirar humor dos lugares mais inusitados.

      Para escrever o artigo (que eu dividi em três partes porque ficou enorme) foi preciso assistir vídeos, séries, documentários, ler livros e teses, então confesso que foi complicado e exigiu tempo, mas valeu a pena.

      Eu abandonei True Blood e Dexter. Possivelmente abandonarei Scream também, por mais que seja completamente apaixonado pela franquia cinematográfica.

      Estou achando divertida essa temporada de AHS, mas ainda não me empolgou. É uma história contada de uma forma interessante, por mais que não original, como você mesmo falou, mas que ainda não utilizou de nada que tenha me feito ficar surpreso, angustiado ou perturbado — quase obrigações do horror.

      MUITO obrigado pelo elogio e por esse comentário lindo! 😉

      • Junior Menezes

        Poxa, mesmo Dexter e True Blood um dos piores finais ever ainda vale a pena acompanhá-las totalmente, hahahaha. Bom, quanto à Scream eu só não consigo abandonar porque assisto tanta coisa ruim que Scream é só mais uma e eu me divirto demais vendo as ‘ótimas’ atuações de lá e as ótimas reviews do Haddefinir, então, né, com mãos juntas oremos para que termine próximo ano. Quanto à Penny Dreadful não há o que falar, apenas sentir. Quanto à AHS: My Roanoke Nightmate estou curtindo demais, mas acho os episódios resumidíssimos, o que não deixa de ser maravilhoso assistir a essa temporada. Imaginando a trabalheira que você teve para formular essa review, então, só tenho a agradecê-lo pelo feedback e nos vemos aí a partir do próximo dia 02/11 com a terceira (última temporada, possivelmente) de Salem.

  • Su

    Parabéns pelo texto e pela iniciativa! Adorei ler e aprender mais sobre o género e sobre produções não exclusivamente norte-americanas 🙂

    • Obrigado, Su. Ao embarcar na pesquisa para os textos, acredite, eu também aprendi bastante — e acabei viciado em documentários, confesso. Para o projeto, eu fui atrás de tudo que poderia ser relacionado ao horror de alguma forma, não importando de onde fosse a produção. Pena que nem tudo a gente consegue assistir. Obrigado pelo elogio e pelo comentário 😉

  • Fernanda :)

    Muito bom! Tá nos meus planos assistir mais séries de outros países além de EUA-CA-UK, mas é complicado de acessar e tal.
    Órfã de hannibal e penny dreadful, tava percebendo que agora só assisto bates motel, stranger things e salem (meu xodó, sempre excelente) do gênero, preciso melhorar isso! Tinha gostado de the whispers, mas pelo jeito foi só eu haha

    • Pois é, Fernanda, nos meus também. Aliás, há diversas séries mesmo nacionais que eu preciso parar para assistir. É bem difícil porque às vezes você se interessa, mas é só você — ou seja não há lugar na internet para encontrá-las.

      Serei órfão para sempre de Penny Dreadful, mas como horror é meu gênero favorito, estou sempre dando chances por aí e vendo no que dá haha Aliás, só vi a primeira temporada de Salém. Preciso assistir à segunda, é boa?

      Obrigado pelo comentário e pelo elogio! 😉

      • Fernanda :)

        Sim, até legenda em inglês é difícil de encontrar pra certas séries.
        Olha, eu gosto muito de Salem, adoro como ela lida com as questões sociais daquela sociedade de forma bem coesa com a parte de fantasia, então eu diria que sim haha Mas depende do teu gosto né, é uma série lenta, a segunda temporada se aprofunda mais no moralismo dos puritanos, no papel das mulheres na época e tem Lucy Lawless como vilã, aí já dá pra ter uma ideia 🙂