A História do Horror na TV

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O horror como o gênero que se conhece, utilizando de todas as ferramentas necessárias para a administração de seu material, é algo novo e poucas são as séries que podemos afirmar como tal. Devo dizer, entretanto, que ele sempre esteve presente, por mais que outros gêneros tomassem a frente. Um dos primeiros programas da televisão norte-americana, por exemplo, The Television Ghost (1931-1933), apresentava em seus episódios fantasmas de pessoas que haviam sido assassinadas narrando a história de suas mortes. George Kelting, ator que interpretava os fantasmas, vestia-se com uma toalha branca e usava maquiagem da mesma cor. A série também ia ao ar pela rádio, e não há vestígios em vídeo de sua existência, restando apenas a documentação relacionada à série e algumas fotografias.

“Uma das grandes contribuições da tevê foi ter trazido o homicídio de volta aos lares, onde ele pertence.”

— Alfred Hitchcock

Desde então, portanto, havia elementos do gênero, por mais que escondidos. Mesmo antes, na programação das rádios, quando o sucesso de séries e novelas feitas especialmente para o aparelho também compreendiam elementos de mistério e do sobrenatural: I Love Mistery (1939-1944), série de rádio que se popularizou tanto que ganhou adaptações ao cinema, é um exemplo que pode ser inclusive conferido no YouTube — outro exemplo que também pode ser conferido no site é o episódio “Sorry, Wrong Number”, da também famosa série Suspense (1942-1962), entre muitos outros. Aliás, há algo mais apavorante do que uma história de horror escrita diretamente para o rádio? Ficar quase que suspenso, contando apenas com os ouvidos para identificar o que está acontecendo, é, no mínimo, agonizante.

Séries criadas diretamente para o rádio fizeram muito sucesso antes da tevê.
Séries criadas diretamente para o rádio fizeram muito sucesso antes da tevê.

Deve-se reconhecer que, mesmo antes do rádio e da tevê, o horror esteve presente na literatura, aparecendo em algumas obras e ganhando força com a Literatura Gótica, movimento literário iniciado pela obra “O Castelo de Otranto” do escritor Horace Walpole. O gênero, arrastado para o cinema em diversos ciclos, influenciou não só cineastas como produtores de tevê, como ainda influencia: John Logan (Penny Dreadful) utiliza de diversos elementos e obras do movimento (Frankenstein de Mary Shelley, O Retraro de Dorian Grey de Oscar Wilde, O Médico e o Monstro de Robert Louis Stevenson e Dracula de Bram Stoker, entre outros) para criar sua série.

A pluralidade do horror em seus subgêneros torna difícil a tarefa de traçar uma cronologia, não só na tevê, como no cinema, fato identificado mesmo em livros sobre assuntos, como o TV Horror: Investigating the Dark Side of the Small Screen, utilizado como consulta para esse artigo, e escrito pela dupla Lorna Jowett e Stacey Abbot, pesquisadoras. Especialistas da área, como o filósofo norte-americano Noël Carroll, que escreveu o livro The Philosophy of Horror, or Paradoxes of the Heart, no qual tenta investigar os motivos para o sucesso do gênero, prefere utilizar de diversos parâmetros para falar sobre o gênero, como a presença de monstros. Estabelecer critérios pode ajudar na pesquisa, mas dificilmente se tornarão satisfatórios.

Lights Out (1934-1947) foi um programa de rádio que já lidava com o assunto, sendo em seguida adaptado para a tevê. Os episódios, que falavam do sobrenatural, eram constantemente adaptados de contos dos escritores norte-americanos Nathaniel Hawthorne e Edgar Allan Poe, este sempre presente no gênero, seja na tevê ou no cinema. Também adaptada do rádio à tevê (como hoje vemos a troca entre tevê e cinema), Mystery Playhouse, que ganhou o nome de The Boris Karloff Mystery Playhouse (1949) foi uma série de mistério que não teve vida longa. A série foi apresentada por Boris Karloff, ator inglês conhecidíssimo no gênero de horror e muito famoso à época por ter interpretado o monstro de Frankenstein na bem sucedida franquia de filmes dirigida por James Whale. Mais tarde, ele também apresentou Thriller, série que durou duas temporadas, entre 1960 e 1962, e tem entre Stephen King entre seus admiradores.

Quando olhamos para a grade de programação da época, percebemos que o horror foi primeiro experimentado através das antologias:

Alfred Hitchcock Presents (CBS/NBC, 1955-1965, mais tarde intitulada The Alfred Hitchcok Hour), apresentada pelo célebre diretor, que não só apresentava as histórias, como dirigiu diversos episódios; The Twilight Zone (CBS, 1959-1964), sucesso de público e de crítica, é considerada por muitos como a primeira série, de fato, do gênero de horror por ter seus episódios voltados essencialmente à missão de levar ao público o horror como forma de entretenimento, por mais que usasse ficção científica no processo. A antologia foi apresentada por Rod Serling, criador da série e que também escreveu diversos episódios, na CBS. Seu trabalho no projeto lhe rendeu diversos prêmios, incluindo dois prêmios Emmy Awards, entre quatro nomeações. No futuro, o ator também apresentou uma antologia muito conhecida chamada Night Gallery, sem que tivesse o mesmo controle artístico. Ainda se destaca The Outer Limits (1963-1965), que teve foco maior na ficção científica. Outras antologias (algumas somente produzidas, mas que nunca ganharam exibição na tevê, como The Veil, cujo anfitrião foi o já citado Karloff) da época: 13 Demon Street (1959-1960), Alcoa Presents: One Step Beyond (ABC, 1959-1961), Way Out (CBS, 1961) e Great Ghost Tales (NBC, 1961)..

The Twilight Zone (1959-1964)
The Twilight Zone (1959-1964)

Com o sucesso da fórmula, outras séries ganharam vida anos depois, utilizando de diversos elementos de antologias. Kolchak: The Night Stalker (ABC, 1974-1975), espécie de procedural, conta a história de um repórter de Chicago, investigando estranhos casos de assassinato que derivam ao sobrenatural. A série, que só durou uma temporada, influenciou o criador de Arquivo X, outra que também apresentou a tendência de “casos da semana”.

Um formato de programa que fez muito sucesso nos anos cinquenta, enquanto as antologias ganhavam forma, foi a apresentação de filmes já lançados através de anfitriões que conversavam com o público antes e após a exibição dos filmes. Conhecidos como “horror hosts”, as figuras carismáticas ficaram famosas pelo país e se multiplicaram. The Vampira Show (1954-1955), apresentado pela personagem Vampira (criada e interpretada pela atriz Maila Nurmi) é conhecido como aquele que deu origem à categoria. Há inclusive um documentário de 2006 muito interessante que relata a época em questão e dialoga sobre a importância dessas figuras que marcaram diversas pessoas, principalmente os mais jovens, chamado American Scary.

Maila Nurmi em The Vampira Show (1954-1955)
Maila Nurmi em The Vampira Show (1954-1955)

Enquanto os Estados Unidos exploravam o formato da antologia, o Reino Unido testava seu público com séries de ficção voltadas ao gênero de ficção científica (da forma como Twilight Zone fazia, ou seja, provocando a audiência adulta através do mistério), através de The Quatermass Experient (1953), que contava a história de astronautas se comportando de maneira bem estranha após retornarem à Terra. Sucesso de audiência, a série que iniciou sua primeira temporada com 6 episódios ganhou sequência em 1955.

O Reino Unido também contou com suas séries de antologia, entretanto. Mystery and Imagination foi ao ar através da ITV de 1966 a 1970, contando com cinco “séries” (lê-se temporadas) e 24 episódios. Os episódios eram baseados em obras de grandes escritores. Armschair Theatre (mesma emissora, 1956-1974), seguiu a inspiração.

O horror escapou do formato de antologia para dialogar com a comédia através de duas sitcons: The Munsters (CBS) e The Addam’s Family (ABC), ambas com duas temporadas, indo ao ar de 1964 a 1966. Logo depois, foi a vez das novelas ganharem a influência do gótico, quando Dark Shadow estreou na ABC em 1966. Após alguns meses no ar, a novela ganhou o apoio do vampiro Barnabas Collins (vivido pelo ator canadense Jonathan Frid) no elenco, o que alavancou a sua audiência. Além de vampiros, outros seres sobrenaturais fazem participações, como fantasmas, lobisomens, bruxas e zombies. Seguindo até 1971, o programa contou com 1.245 capítulos.

The Addam’s Family (ABC, 1964-1966)
The Addam’s Family (ABC, 1964-1966)

Durante um tempo, o horror passou a ser representado na tevê com os filmes feitos diretamente para ela, além das conhecidas antologias. Como não é o meu objetivo falar de absolutamente todas as antologias, vou aos poucos listando os destaques. George A. Romero (respeitado diretor de horror responsável pelo filme Night of the Living Dead de 1968, Dawn of the Dead de 1978, entre outros)  fez sua contribuição para o formato com a série Tales From the Darkside (1984-1988), que contou com 89 episódios. Aproveitando o sucesso de suas respectivas franquias, foram lançadas Friday the 13th: The Series (1987-1990), mesmo não sendo relacionada em nada com a personagem Jason Voorhees, e Freddy’s Nightmare (1988-1990), esta última apresentada pelo próprio Freddy Krueger, não só a personagem, como o ator Robert Englund que se imortalizou através dela. A nova onda de antologias ainda reviveu os primeiros sucessos do formato Alfred Hithcoch Presents (quatro temporadas, entre 1985 e 1989) e The Twilight Zone (três temporadas durante o mesmo período).

Uma série que é sempre citada e que faz parte do formato é Tales from the Crypt da HBO (1989-1996). Como a série foi transmitida através do canal de tevê a cabo, os produtores não precisaram se preocupar com questões relacionadas à censura, o que lhes proporcionou a liberdade necessária ao gênero, que muitas vezes foi limitada em outras produções. Ou seja, há muito conteúdo gráfico presente na série e que satisfez os fãs de horror à época. A maquiagem foi tão bem produzida que rendeu aos profissionais indicações ao Emmy por seu trabalho. Estabelecendo através de humor negro, a antologia contou com 93 episódios e 7 temporadas. Há rumores de que será revivida pelo diretor M. Night Shyamaln no próximo ano.

Alguns canais, então, decidiram abrir espaço para um tipo diferente de horror: antologias voltadas a jovens. Fazendo parte desse grupo, destaco Are You Afraid of the Dark? (1990-2000), que nós conhecemos como Clube do Terror, série exibida na Nickelodeon. Os contos estão bem frescos para mim porque eu decidi maratonar as sete temporadas ano passado, rodeado por muito saudosismo.  Tales from the Cryptkeeper (1993-1999), foi uma versão animada para o público infantil da antologia da HBO citada há pouco. Esteve disponível no catálogo da Netflix Brasil há alguns meses, e é divertida e despretensiosa.

Are You Afraid of the Dark? (1990-2000)
Are You Afraid of the Dark? (1990-2000)

Chegando aos anos 90, alcançamos Twin Peaks (1990-1991) e The X-Files (1993-2002), séries que dispensam apresentações. De forma tímida, os canais abertos e a cabo foram abrindo espaço para histórias de horror e fantasia, que aos poucos foram preenchendo a programação, não mais limitadas a fórmula consagrada de histórias curtas. Dá para fazer um texto só sobre as séries dos anos noventa, e não desejo me alongar muito mais. . Antes da virada do milênio, temos Buffy the Vampire Slayer (1997-2003) e seu sucesso que perdura até hoje. Dá para fazer outro sobre os anos 2000 também. Como o objetivo era contar um pouco da história, termino a linha do tempo desse texto por aqui.

The X-Files (1993-2002)
The X-Files (1993-2002)

Como toda forma de arte e entretenimento reflete muito de sua época, a liberdade dos anos dois mil tornou possível que algumas preocupações não fossem mais levadas a sério e que o horror abrisse espaço, mesmo misturado em outros gêneros. O horror atual é duramente criticado, mas há sempre filmes e produções para revigorar o gênero, como Penny Dreadful fez em suas três temporadas. O horror e a fantasia possuem, ainda, papel social importante, gerando discussão e incômodo com assuntos dos quais outros gêneros mantêm distância — mas isso também é papo para outro texto.

> Clássicos de Hitchcock serão transformados em nova série de TV

Uma vez que conquistou seu espaço e reconquistou seu público, cabe aos profissionais da área aperfeiçoarem as técnicas que estão presentes na indústria do entretenimento por quase setenta anos.

ps:

Esta é a primeira parte do artigo que abre o especial #MêsDoHorror aqui no SM. Durante o mês do Outubro, o site abrirá espaço para diversos artigos que propõem conversar sobre as séries de horror, mistério e fantasia atuais ou já consagradas. Pretendo, então, focar em séries que não tiveram textos aqui no SM durante o ano (por ano se entende 01/10/2015 a 30/09/2016), eleger os melhores episódios, entre outras surpresas.

O objetivo era escrever somente um texto, mas com a vastidão do assunto, o número de laudas me obrigou a dividir em três partes, transformando-as na trilogia Breve Reflexão Sobre o Horror na Tevê. Nessa primeira, uma breve história do horror. Na segunda, uma reflexão sobre o futuro do gênero e sua presença em diversos lugares. Na terceira, uma reflexão sobre o horror em geral e o paradoxo envolvendo o fascínio que ele desperta.

pps:

Esse projeto todo é inspirado no canal literário do YouTube chamado Tiny Little Things, comandado pela Tatiana Feltrin, que faz um ótimo trabalho na internet ao dividir suas impressões de leituras com seu público, que conta com mais de 200 mil inscritos. Todo ano, no mês de outubro, ela abre espaço para a literatura que lida com o sobrenatural, horror e mistério e faz o já tradicional Mês do Horror, que eu acompanho morrendo de amores. Entrei em contato com ela e verifiquei a possibilidade de adaptar o projeto para as séries e para o blog do SM e, com a permissão concedida para usar o nome, aqui vamos nós! Se você gosta de Literatura, ou deseja encontrar um bom incentivo para ler mais, não deixe de conferir o canal.

  • vinland

    Realmente esse gênero está sendo duramente criticado, mas ele faz por merecer as más críticas. Mas como vc disse, sempre aparecem coisas diferentes pra dar um Up no gênero. No cinema, The Witch, e The Neon Demon, foram bons exemplos de coisas diferentes e boas recentemente. E PD, e The living and The Dead na TV. Uma pena que quando surgem idéias diferencias, o público não responda de uma forma muito positiva, como foi o caso de PD que tinha uma audiência muito baixa, ou The Neon Demon, Que foi vaiado em Cannes.

    • Olha, acho que demora para que algo que sobressaia porque o horror é produzido em menos quantidade. Há dezenas e dezenas de séries de drama e comédia ruins todo o ano, mas são produzidas TANTAS de ambos os gêneros que esquecemos disso. Com o horror fica mais marcado.

      The Witch não é sensacional? Não sei como foram inventar de me dizer que era ruim. Assisti, adorei e recomendo. Agora The Neon Demon ainda não vi, por mais que esteja muito ansioso.

      O problema com o horror se estende a vários fatores, mas, realmente, o público acaba se tornando um deles. Em outros casos, a culpa é do próprio canal. The Living and the Dead, por exemplo, com sólida audiência (pelo que li), acabou nem sendo renovada.

      Enfim, obrigado pelo comentário. 😉

  • Alan

    Hoje em dia não gosto do gênero. Gosto de suspense e gosto de terror, sem monstros ou espíritos. Já fui muito fã do gênero, ainda gosto de ver alguns slashers, principalmente os da década de 70 e 80.

    • Para a matéria e para o projeto, Alan, eu considerei terror como sinônimo de horror. Eu simplesmente não consigo abandonar o gênero, por mais que às vezes ele me decepcione. Desviei do trajeto indo para os dramas, mas sempre acabo voltando haha Obrigado pelo comentário! 😉 (adoro slashers também)

  • Fernando Alves

    Ficou faltando falar de uma antologia que passou na tv tambem,mas apenas durou uma temporada e saiu em dvd faz um tempao Hammer House of Mystery and Suspense..Muito legal a materia.

    • Então, Fernando, na verdade, ficou faltando muitas! Durante minha pesquisa, eu li sobre essa, além de ler sobre muitas outras. Não deu para encaixar absolutamente todas, eu teria mesmo é que fazer um texto só sobre antologias haha Obrigado pelo comentário e pelo elogio! 😉

  • LunaB

    Excelente matéria. Contextualizar um gênero como o de horror, trazendo referências históricas inseridas em uma linha de tempo, é algo que dá uma dimensão de profundidade que é, sem dúvida alguma, um ótimo diferencial para o site. Parabéns.

    • Obrigado, Luana! O horror tem uma profundidade e dimensão enorme (e não só o gênero, né?) que ignoramos, mas que compreendemos quando nos propomos a pesquisar a respeito. O SM tá cada vez mais envolvido em trazer matérias inéditas, e fico feliz que esta tenha te agradado. Obrigado pelo comentário. 😉

  • RenanSP

    como eu queria que a HBO voltasse com Tales from the Crypt.

    • Pois é, Renan! Mas com o horror cada vez mais presente, é capaz de daqui a pouco eles decidirem se aventurar novamente no gênero. Obrigado pelo comentário. 😉

  • Fernanda :)

    Que texto e que ideia linda!

    • Oi, Fernanda, obrigado pelo elogio e pelo comentário! É uma ideia cozinhando há muito tempo como colaborador do SM, estreando especialmente nesse mês e ano.