Heteronormatividade na TV

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Viado, bicha, biba… Se uma dessas palavras te incomoda você precisa ler esse texto.

Acontece sem que você ao menos perceba, acredite. Você tem cinco ou seis anos (em alguns casos menos que isso) e está se divertindo com os amiguinhos da sua idade. Pode ser numa festa, num encontro do parquinho ou até na escola. Você não nasce com preocupações, mas elas vão sendo incutidas conforme você vai crescendo. Ali, com cinco ou seis anos de idade elas são muito pequenas, podem até mesmo não existir. Porém, enquanto você está ali brincando, algo está acontecendo e você nem sabe. De súbito, alguém te puxa pelo braço e te leva para um canto (no meu caso foi minha irmã do meio), com uma cara bem zangada, fazendo o possível para que ninguém mais ouça o que você está prestes a ouvir. Quase sussurrando, aquele adulto te diz: “Você tá parecendo um mariquinha, se comporte que nem homem”. Pronto, acabaram de lhe premiar com a primeira grande preocupação da sua vida e é uma que vai te seguir para todo o sempre.

Me lembro que quando eu assistia Dawson’s Creek, lá nos anos 90, também achava que Jack estava certo em achar que ser gay “não poderia ser muito óbvio”. Em uma cena da quarta temporada do show ele diz para Jen que não quer ficar com o Tobey porque “quando é óbvio demais corta o tesão”. Lá, naquela época, Jack ainda era (por uma quantidade honrosa de razões) a melhor referência que nós tínhamos da homossexualidade na TV. Contudo, era uma referência bastante calculada. Jack não tinha absolutamente nenhuma característica comportamental clássica do universo gay. Sua busca por aceitação incluía sentir-se o mais “hetero” possível e isso lhe causou grandes problemas. Mas, era legal dizer lá naquela época (e também agora) que retratar gays na TV adequadamente é fazê-lo sem “estereótipos”. Ainda que aquele que esteja dizendo isso seja um imenso exemplo do mesmo.

Dawson's Creek. Heteronormatividade na TV.
Dawson’s Creek. Heteronormatividade na TV.
O Certo é Não Parecer

Demorou um pouco para que a palavra “heteronormatividade” começasse a ganhar a mídia e demorou mais ainda para que o estabelecimento dela enquanto forma válida de ser gay fosse questionado. Me lembro que quando Miguel Falabella interpretou um homossexual afeminado lá na longínqua Mico Preto (1990), eu já ouvia dentro de casa a associação entre afetação e palavras pejorativas como bicha e viado. Naquele momento da nossa história, essas palavras não tinham valor cômico e eram associadas ao mais absoluto e completo ridículo. Ao mesmo tempo, nos setores intelectuais da imprensa, a atuação de Falabella era julgada como estereotipada, caricatural, longe do que deveria ser um homossexual na TV: aquele que não pareça um.

De heteronormatividade o Jack McPhee de Dawson’s Creek entendia muito bem. Ele era o gay menos gay da televisão americana (embora assumisse que não era menos gay por isso). Jogava futebol, não gostava de música pop, não tinha hobbies característicos e se não fosse pelo seu gosto por arte (que só apareceu em uma temporada), ele seria invicto. Ele também já tinha ficado com meninas (acreditem, isso faz diferença na forma como a sociedade monta seu ranking de qual é o modelo mais adequado de homossexualidade). Para a audiência heterossexual que gostava de Jack, era muito fácil lidar com ele, porque em boa parte do tempo, ele refletia o jovem masculino americano regular, salvando-se aquele pequeno detalhe que – por tratar-se de uma série teen dos anos 90 – não tinha tanto tempo de tela assim.

Aqui no Brasil, em novelas como Suave Veneno (1999), a existência dos personagens afetadíssimos de Diogo Vilela e Luiz Carlos Tourinho era uma afronta até para a comunidade gay. Aquele indivíduo erudito, intelectual, que até tem boas intenções quando fala, acaba repetindo um discurso supostamente sensato sem nem saber. Coisas como “um horror essa atuação afetada dos dois” ou “porque em novela só pode ter gay estereotipado?eram comuns. De fato, parece que lutar contra a estereotipação te tornava imediatamente mais bacana, e ninguém levava um minuto raciocinando se o estereótipo não acaba sendo como o clichê: uma verdade retratada com exagero, mas ainda assim uma verdade. Mesmo recentemente, em Verdades Secretas, a atuação afeminada de Rainer Cadete virou motivo de “posicionamento político” dessa galera que acha que estereótipos de afetação precisam ser combatidos. O que acaba tocando no ponto mais delicado dessa questão: é o próprio direito de ser gay parecendo gay, que vem sendo massacrado histórica e midiaticamente há muitos e muitos anos.

Suave Veneno. Heteronormatividade na TV.
Suave Veneno. Heteronormatividade na TV.
Bicha Bichérrima

Na plateia do Ferdinando Showtalk show comandado pelo ator Marcus Majella no Multishow –  mulheres e homens (gays ou não) seguem à risca a cartilha do personagem: em algum momento é pedida uma “salva de pinta” para o convidado e todos gritam em uníssono: viaaaadooo. É evidente que o humor “perdoa” posicionamentos morais e mesmo homofóbicos podem acabar rindo de personagens gays. Porém, o que Majella faz em seu programa (e junto com Paulo Gustavo no Vai Que Cola) é histórico para a televisão brasileira. Vamos esquecer a qualidade dos programas do ponto de vista dramatúrgico ou comercial, o que importa é que no meio de tanta luta pela heteronormatização da homossexualidade, qualquer produção que exalte a expressão afeminada merece o meu respeito. E Majella e Paulo Gustavo fazem isso: uma exaltação a diferença clara, direta, desavergonhada.

Lá fora também houve quem tivesse coragem de dizer que ser gay parecendo gay é OK. Max Mutchnick e David Kohan fizeram de Will & Grace um sitcom dos mais transgressores da programação americana e não tiveram problemas em criar um Jack McFarland que como dizia Grace “era gay até mudo, imóvel, sem respirar”. McFarland era o outro Jack dessa linha de caracterizações. Mesmo em Glee, mais recentemente, os roteiros se orgulhavam da expressão cheia de feminilidades de Kurt e mostravam como ele se ressentia do quanto Blaine ganhava mais espaço simplesmente porque conseguia ser um “gay menos gay”. Encontrar exemplos reais, dentro das nossas relações, é a coisa mais fácil do mundo. Está a nossa volta o tempo todo. Não é uma questão de estereótipo, é uma questão de essência.

Looking. Heteronormatividade na TV.
Looking. Heteronormatividade na TV.

É claro que nem toda heteronormatividade é nociva. Também existem os gays que condenam séries como Looking porque elas “não são tão gays”. Isso é uma questão de perspectiva… Numa produção que não é direcionada aos gays (como Modern Family), é importante que os roteiros se posicionem de modo correto e deixem que a expressão afeminada seja vista com naturalidade. Já numa produção voltada para os gays (como Looking), a percepção do que é mais gay ou menos gay se torna desnecessária, sobretudo porque TUDO está envolto em nuances e sutilezas homossexuais. A música, o olhar, o toque, o beijo, a linguagem… Looking é extremamente real na sua ótica justamente porque ela é inteira uma pulsação homoafetiva.

Hoje em dia é correto dizer que a sociedade conservadora está muito menos desejosa da heteronormatividade do que a própria comunidade gay. Na Finale da oitava temporada de RuPaul’s Drag Race, a participante Kim Chi cantou uma música enaltecendo o fato de ser gorda, afeminada e asiática, porque no circuito das salas de bate-papo, dos aplicativos e boates, só aparece uma exigência constante: não sou e não curto afeminado. Junto dela, o lembrete cretino: sou gay com jeito de macho e voz de macho. Muitas vezes nada disso é verdade, mas mascarar-se sob a tutela da heteronormatividade pode ser a única forma possível de continuar tendo vida sexual. Se você trabalhou para ser menos afeminado ao longo da vida, por qualquer razão, o fato é que tudo se torna mais fácil. Quando você pode caminhar e falar sem ter sua orientação sexual imediatamente identificável, o mundo te recebe melhor.

No meu caso, lá atrás ainda, saindo da adolescência, tentar parecer menos gay virou uma questão de segurança. Eu já estava cansado da violência física do bullying escolar e da violência verbal até dentro da minha própria casa. Deveria ser direito universal poder existir segundo a própria essência (como é para os heterossexuais, que também são essência, só que uma essência permitida pelos códigos culturais estabelecidos), mas algumas vezes a mutilação é necessária e você a executa, só para parar de doer tanto. Passa a doer de outro jeito, mas você se acostuma. Quando você é gay a necessidade de sentir-se menos diferente é tão grande, que a heteronormatividade pode ser sedutora. Não há problema algum em parecer menos gay, desde que você não seja aquele que acha que só existe um jeito certo de ser gay. O valor da aceitação precisa ser pleno e não só restrito ao que incomoda menos. No fim de tudo, só há um jeito de ser realmente feliz: sendo louco, histérico, estridente e desesperadamente livre.

  • MARCOS

    Esse texto me remeteu a uma frase do filme MIB2 : ” Somos o Somos , mesmo quando nos esquecemos disso … ”

  • Jorge

    Maravilhoso texto. Só acho que uma série merecia estar aí também: The Fosters. A série trata as feminilidades de Jude como algo normal (como deveria ser) e não como indicativos diretos de homossexualidade. E mais tarde (SPOILER), quando ele e Connor se aproximam, é Jude, o afeminado, que mais reluta com os rótulos e fins.

    Parabéns!

    • henriquehaddefinir

      Eu sempre vejo a galera falando de The Fosters. Preciso ver.

  • Douglas Pinheiro

    Q texto maravilhoso. Querer acrescentar qlq coisa a ele seria chover no molhado. Tenho 32 anos e lembro claramente o qto eu me vigiava para n dar pinta qdo chegava num colégio novo, por exemplo. Hj em dia eu só tento ser eu, mas todos esses “valores” do passado ainda me seguem, Mesmo q Meus pais e amigos próximos saibam de mim.

    • henriquehaddefinir

      Essa é a maior tristeza da nossa geração, Douglas. Sempre seremos perseguidos por esse medo.

  • Marcelo

    Texto maravilhoso e sobre o final é uma das coisas mais chatas vc entrar nesses apps onde reinam os másculos discretos e que isso seja cobrado até pelos gays, como se não bastasse a própria sociedade heteronormativa, mas hoje ao menos isso é discutido e deva melhorar no futuro.

  • Clébio Cabral

    Hoje eu me pergunto o quanto eu deixei de “desmunhecar” pelo fato de ter ouvido tantas vezes quando criança que “isso não é coisa de homem”, “larga de de ser bicha” etc etc etc… Parabéns pelo texto. Hoje temos muitos mais exemplos de tipos de gays na televisão, ainda bem…

  • Enelio G. Bittencourt

    ótimo texto.

  • Juliano Guilherme

    Não tenho vergonha em dizer que sou um homossexual heteronormativo. Não acho que preciso ser afeminado para ser gay e muito menos chamar meus amigos de amiga. Porém não significa que exista um respeito menos por aqueles que assim são. Cada um é de seu jeito. Assim como existe uma pressão pelo gay afeminado “ser homem” existe uma pressão da própria comunidade homossexual em relação aos heteronormativos. Todos passamos por problemas de aceitação não importa como se porta. Eu mesmo sou fã de RuPauls e me identifico com diversos candidatos por sua história, pela sua humanidade e pela verdade que passam e jamais os rejeitaria por trazer uma feminilidade para sua pessoa. Falta entendermos que cada um é cada um e que não existe formula para um ser humano ser e se portar assim como não existe a máxima homem que nasce homem deve morrer homem e se relacionar com uma mulher e vice e versa.

    • henriquehaddefinir

      Juliano, o problema está na frase “Não acho que preciso ser afeminado para ser gay”. CÊ não precisa, mas muito menos aqueles que são o são porque querem. É uma questão de essência.
      E note como na sua frase já tem um tom de pejoratividade. Cê pode nem ter percebido, mas tem.

      • Juliano Guilherme

        Henrique o motivo da frase é justamente por ser excluído e satirizado por amigos gays que acham estranho eu ser gay e não ser afeminado. Lembro que em uma rodinha de amigos começaram a falar que não entendia do assunto pois não passei pelo sofrimento que eles passaram por não parecer gay. Me senti ofendido pois ninguém pode diminuir minha pessoa por não ser afeminado. Sofri e sofro bastante por ser quem sou e não acho que meu valor seja menor por não transparecer.

        • henriquehaddefinir

          Sim, isso você precisa resolver com seus amigos mesmo, acho que eles estão sendo cegos aos seus sentimentos. O texto em momento algum condena gays heteronormativos, ele aponta um problema geral, não individual.

          • Juliano Guilherme

            Mas os meus sentimentos não são só meus, são de gays heteronormativos ou não que de alguma maneira julgam que seus problemas são maiores que de outros. Seu próprio texto afirma que é mais fácil ser um tipo que outro só ai já existe um discriminação.
            Porém não vou começar uma discussão. Sou seu fã e de seus texto mas acredito que você perdeu a oportunidade de enobrecer a diversidade mesmo dentre de um grupo e foi infeliz na escolha de algumas palavras que deram a impressão que você levantou uma bandeira segregada escolhendo somente algumas das cores do arco iris. Não cheguei a me sentir ofendido pelo texto pois todos temos o direito de opinião assim como os héteros que julgam mais fácil ver um casal de gays afeminados que como muito já escutei dois barbados se pegando.
            mas segue a vida, o importante é ter sempre a discussão e mais textos como esse por aqui. Abraço!

          • henriquehaddefinir

            Juliano, eu fico impressionado que não haja um raciocínio mais empático a quem realmente está sofrendo o julgo do preconceito de formas muito mais duras. Gays afetados, travestis, não tem comparação, cara. E eu não falo em segregação heteronormativa em momento nenhum do texto e esse trecho aqui deixa isso muito claro:

            “Não há problema algum em parecer menos gay, desde que você não seja aquele que acha que só existe um jeito certo de ser gay. ”

            Eu não estou falando de relações pessoais, estou falando de mensagem midiática, de reação social generalizada. Me choca que gays heteronormativos apareçam aqui pra dizer: você está segregando. Pelo amor de Deus. Esse texto é uma louvação a diversidade, justamente porque diz para toda essa galera que acha que afetação é estereótipo, que ser afeminado não é escolha e que é uma expressão válida.

            É realmente constrangedor pra mim que vocês não entendam que o texto fala de questões culturais. Imagina se num texto sobre empoderamento feminino um homem vem e escreve: “esse texto está segregando homens, a gente também sofre”. Sofre, mas a cultura, as diretrizes sociais estão muito mais abertas aos homens, aos brancos, aos gays heteronormativos. Isso é FATO. Pelo amor de Deus…

          • Juliano Guilherme

            Relaxa querido. “Discordamos” em “concordar”. Mas ai está a graça da vida, conviver com as diferenças! Quando estiver solteiro me avisa! Beijos!

          • henriquehaddefinir

            HAHAHAAHAAHAHAAH

          • henriquehaddefinir

            Juliano, eu fico impressionado que não haja um raciocínio mais empático a quem realmente está sofrendo o julgo do preconceito de formas muito mais duras. Gays afetados, travestis, não tem comparação, cara. E eu não falo em segregação heteronormativa em momento nenhum do texto e esse trecho aqui deixa isso muito claro:

            “Não há problema algum em parecer menos gay, desde que você não seja aquele que acha que só existe um jeito certo de ser gay. ”

            Eu não estou falando de relações pessoais, estou falando de mensagem midiática, de reação social generalizada. Me choca que gays heteronormativos apareçam aqui pra dizer: você está segregando. Pelo amor de Deus. Esse texto é uma louvação a diversidade, justamente porque diz para toda essa galera que acha que afetação é estereótipo, que ser afeminado não é escolha e que é uma expressão válida.

            É realmente constrangedor pra mim que vocês não entendam que o texto fala de questões culturais. Imagina se num texto sobre empoderamento feminino um homem vem e escreve: “esse texto está segregando homens, a gente também sofre”. Sofre, mas a cultura, as diretrizes sociais estão muito mais abertas aos homens, aos brancos, aos gays heteronormativos. Isso é FATO. Pelo amor de Deus…

      • Edinho

        Mas se ser acetinado é da essência do indivíduo, pq ser “heteronormativo” não poderia ser? A expressão é tão pejorativa para diminuir o gay que não apresenta as características que se estipulou na comunidade gay para ser um verdadeiro gay, quanto a definição de afeminino. Existem gays afeminados ok, existem gays que não o são é estão bem com isso, não é nenhuma imposição, ok também.

        • henriquehaddefinir

          Mas o texto diz isso, Edinho.

          • Edinho

            Eu particularmente não gosto dessa expressão heteronormativo, ela está se espalhando como o novo não curto afeminados . Já vi até em aplicativos, se vc é heteronormativo passe adiante, ou não curto heteronormativo. É quase como uma revanche. Eu tenho um acervo de uns 800 filmes e séries com temática lgbt, há algum tempo comecei a colecionar, então tenho uma visão bem ampla das produções de filmes e séries do mundo todo. A única coisa que se encaixa nisso tudo é que realmente o gay afeminado não é retratado na sua interioridade. Mas culpar a condição do heteronormativo é um tanto equivocada, quando vemos que o perfil do homem desejado por 90% dos gays é o estereótipo heterossexual, o tão aclamado boy magia, mas por outro lado a comunidade gay tem cada vez mais atacado o homossexual que não dança conforme a música.

          • henriquehaddefinir

            Edinho, eu entendo o que você está dizendo, mas a rejeição que gays heteronormativos sofrem em aplicativos ou encontros é mínima comparada a questão cultural em torno da afetação. E eu me refiro – novamente dizendo – não a questões pessoais, mas a um estabelecimento cultural que se reflete na sociedade.
            Acho que aqueles que viveram sendo afeminados a vida toda tem uma perspectiva bem diferente da sua. É uma questão séria e que existe.
            E não, não estou culpando a condição heteronormativa, estou dizendo que deveria ser fácil para todos, não só para eles. Tem que ter cuidado cara, esse discurso do “heteronormativo não tem culpa”, “heteronormativo também sofre” é muito redutivo. Parece homem querendo refutar a luta do feminismo ou branco querendo refutar racismo. A forma como gays afetados e travestis são tratados amplamente na mídia e na sociedade é uma questão séria, maior que só só defender individualmente.

          • Edinho

            Só acrescentando eu adorei Looking, sim não representava 100% do universo gay, mas isso não tirou o seu mérito. Me apaixonei pelo Russell Tovey.

    • Rafael

      Problemas de aceitação transcendem gênero / orientação. É praticamente inerente a nossa natureza social. Não sou gay e acredito que seja muito mais difícil pra quem está num grupo que é erroneamente definido por uma parcela significativa da sociedade como sendo diferente do “normal”. Como se alguém tivesse direito de definir o que é certo ou normal…
      Sou professor e vejo nas escolas onde trabalha que (ainda que muito lentamente) está ocorrendo uma mudança, onde existe uma liberdade maior pra ser quem se é realmente, embora isso ocorra a passos muito lentos. É muito diferente da minha geração (tenho 41), onde amigo meu bastante próximo levou anos pra assumir que era gay, sendo que eu até sabia quem era o namorado dele, e francamente, não fazia (ou faz) a menor diferença pra mim.

  • Vinicius

    Excelente texto.

    Engraçado que a gente vive por meio dos modelos que temos. Hoje, um jovem gay tem muitos modelos no qual pode se espelhar e ter um representante de si mesmo na TV.
    No final dos anos 90, quando me identifiquei como um homossexual, era extremamente complicado para mim me sentir representado, porque eu tinha “”””””””qualidade”””””””””” de não parecer ser. Obviamente que uns anos após isso passei por um boa de uma desconstrução e vi que isso não era uma qualidade. Entretanto, quando Suave Veneno passava na TV (Sdds Maria Regina) eu não me sentia representado pelos personagens gays da novela. E achava, naquela época, que a culpa de eu ter que esconder da sociedade era dos afeminados.

    Quando o Jack se assumiu gay em Dawsons Creek, algo que eu não previa e não esperava, encontrei o meu espelho na TV, e foi justamente ele que me fez aceitar que eu era um homossexual. Eu tinha 15 anos quando assisti ao episódio, em 2001, e me lembro que só por existir alguém como ele, que passa a ter orgulho de ser quem é, me fez tirar sozinho o peso de ser gay e nunca mais ter uma crise por causa da minha sexualidade. Obviamente não me assumi aos 15 anos, mas Jack, por ser um gay higienizado, me fez aceitar quem eu sou, que eu poderia ser gay e “normal” e ser feliz.

    Não sei se estou sendo claro aonde quero chegar. Mas, personagens como ele, às vezes é bom, não só para os héteros aceitarem, mas também para alguns gays que estão no armário, talvez em 2001, hoje eu não sei. Mas acho que Jack McPhee foi um grande passo na TV para alguns gays.

    Quando eu fiz um rewatch de Dawsons Creek, que eu nunca consegui terminar, Jack não era mais o meu espelho, nem me representava mais, mas mesmo assim foi um personagem extremamente importante para mim, que eu tive um carinho imenso, já que mudou a minha vida. E gostei muito de vê-lo citado aqui.

    Só pra deixar claro: Já tem alguns anos que não acho que ser gay heteronormativo seja uma qualidade e muito menos o certo. Alguém na TV assim, só foi a porta de entrada para eu aceitar, entender e adorar ser gay. E sim, é maravilhoso ser bicha bichérrima, mas infelizmente a gente precisa se descontruir muito pra chgar nesse estado. Sorte de quem não… E um personagem bichíssima pode ser uma voadora muito forte na cara não só da sociedade conservadora, mas do gay que não se aceita ainda.

    Acho que hoje tá mais fácil, mas não sei… sdds Looking

    • henriquehaddefinir

      Que comentário especial, Vinícius. MUITO OBRIGADO por ter dividido sua história. Eu também tive no Jack uma grande forma de aceitação pessoal e entendo você. Comentários como esse fazem valer o meu trabalho.
      Um grande beijo.

  • Otávio

    Que texto maravilhoso! <333

  • Alex Silva Santos

    O gay afeminado só é mostrado na TV brasileira quando é retratado na comédia. Agora quando querem retratar a homossexualidade de forma séria, aí tem que ser um personagens heteronormativos. como se só os discretos pudessem passar seriedade. Assim, ambos acabam ficando estereotipados.

    • Luciano Assis

      Isso é um problema que a própria televisão brasileira criou, colocando tantos personagens afeminados como alívio cômico acabaram por transformar-los em caricaturas.Portanto se tornou mais fácil e, preguiçoso, colocar personagens gays sérios como sendo mais “discretos”.

    • lucas

      Não só a brasileira, infelizmente.

  • petunia

    Senti falta de sitar How To Get Away With Murder onde um dos personagens mais queridos pelo público é gay heteronormativo. E que forma um casal com um tb gay heteronormativo…

  • O que me incomoda mesmo é o nome desse termo. “Heteronormatividade”. Pra mim denota que não ter qualidades femininas é coisa de hétero ou que hétero não pode ser afeminado. Também problematiza desnecessariamente gays que não tem qualidades femininas porém não tem problema algum com elas. Como se “homonormatividade” automaticamente significasse feminismo absoluto – apagando toda a maravilhosa diversidade da comunidade.

    Entendo o significado real e apoio, mas ainda incomoda a conotação com todas as classificações que citei.

    • henriquehaddefinir

      Kaique, o termo só existe porque é uma realidade. E o termo não se refere a nenhum dos problemas que você colocou, porque heteros afeminados respondem a outro tipo de problemática. Gays que não tem qualidades femininas não sofrem o julgo da heteronormatividade porque assim já o são. Se eles não tem problema com afeminados, então também não há problemática nenhuma. E é você que está dizendo que “homonormatividade” seria o mesmo que feminismo absoluto. De fato, esse termo seria impossível, porque as características gays jamais fariam parte de uma norma permitida para o convívio seguro em sociedade.

      • Sim, estou ciente de tudo isso. É um problema pessoal que tenho / minha opinião sobre o nome do termo, nada vinculado ao significado real.

        Só discordo de que não há “problemática” nenhuma com gays heteronormativos. Eles também sofrem o preconceito externo do público que não crê em sua personalidade e relacionamentos e acha que estão sempre fingindo e emulando um relacionamento hétero quando na verdade estão perfeitamente bem, os apagando completamente. Típico do povo que acredita que todo gay tem que ser extravagante e sempre, o extremo oposto da heteronormatividade. Claro que esse problema é infinitamente menor do que o oposto, mas existe.

        • henriquehaddefinir

          Olha aí de novo, Kaique: “Típico do povo que acredita que todo gay TEM que ser extravagante sempre”. Não é uma questão de escolha. É uma expressão essencial.
          E considerando que os gays heteronormativos encontram não só na sociedade regular quanto no mundo gay uma infinidade de privilégios, eu compreendo que qualquer problema soe eclipsado por isso. Porém, acho que a problemática heteronormativa pode ser uma questão de indivíduo, de como ele se expressa nas suas relações. Já a questão da condição afeminada é muito mais ampla e complexa.

          • Bruno Sousa

            “E considerando que os gays heteronormativos encontram não só na sociedade regular quanto no mundo gay uma infinidade de privilégios, eu compreendo que qualquer problema soe eclipsado por isso.”

            Uau.

            Continua não percebendo.

            “Porém, acho que a problemática heteronormativa pode ser uma questão de indivíduo, de como ele se expressa nas suas relações. Já a questão da condição afeminada é muito mais ampla e complexa.”

            Uaaau.

            Bom, fico por aqui.

          • henriquehaddefinir

            Bruno, vai estudar interpretação de texto. Beijo.

      • Bruno Sousa

        “Gays que não tem qualidades femininas não sofrem o julgo da heteronormatividade porque assim já o são. Se eles não tem problema com afeminados, então também não há problemática nenhuma.”

        Note como tem um tom de pejoratividade na sua fala. Cê pode nem ter percebido, mas tem.

        • henriquehaddefinir

          Cê sabe o que significa pejoratividade? ACho que não.

          • Bruno Sousa

            É… Você não percebeu mesmo.

          • henriquehaddefinir

            É… acho que você não sabe mesmo.

          • Bruno Sousa

            Em vez de tentar perceber o tom pejorativo (e preconceituoso) na sua fala, você tenta diminuir falando “vai estudar interpretação de texto”.

          • henriquehaddefinir

            Bruno querido, você não está entendendo o que eu disse, isso é fato. Se estivesse não estaria dizendo uma bobagem dessas. Aponte pra mim o que eu disse de errado, argumente, não fique aí se achando gênio vendo cabelo em ovo ao invés de se expressar.

          • Bruno Sousa

            Agora vem o sarcasmo. Não me chame de querido, por favor. Não sou seu querido.

          • henriquehaddefinir

            É, não dá mesmo. Fica com Deus.

          • Bruno Sousa

            Fale mais sobre gays heteronormativos, por favor. Está pouco.

            “E considerando que os gays heteronormativos encontram não só na sociedade regular quanto no mundo gay uma infinidade de privilégios, eu compreendo que qualquer problema soe eclipsado por isso.”

            “Porém, acho que a problemática heteronormativa pode ser uma questão de indivíduo, de como ele se expressa nas suas relações. Já a questão da condição afeminada é muito mais ampla e complexa.”

          • henriquehaddefinir

            Olha como você está atacando sem necessidade: eu disse que gays heteronormativos tem privilégios e que isso pode eclipsar os problemas deles (porque sempre vamos achar que eles tem privilégios demais e não acreditaremos em suas mazelas).

            E se você quer lutar contra a EVIDÊNCIA de que a questão do gay afeminado é mais complexa e menos individual, aí eu desisto mesmo. É como dizer que homens precisam de mais atenção porque agora tudo é empoderamento feminino. Discussão perdida.

          • Bruno Sousa

            Atacando? Aponte exatamente onde estou lhe atacando. Não foi eu que comecei falando “vai estudar interpretação de texto”, “você não sabe o significado dessa palavra”.

            Você fala que gays heteronormativos “tem uma infinidade de privilégios” e que a problemática do gay heteronormativo pode ser uma questão individual do gay, “de como ele se expressa em sua relações”.

            Meu Deus.

            Henrique, para você evidenciar a luta dos gays afemininados nessa sociedade preconceituosa, você não precisa falar esses absurdos sobre gays heteronormativos.

            Você não precisa desmerecer “um lado” para elevar “o outro”.

            Ver preconceito e pré-julgamento dentro da própria comunidade gay é assustador.

            “E se você quer lutar contra a EVIDÊNCIA de que a questão do gay afeminado é mais complexa e menos individual, aí eu desisto mesmo.”

            Em nenhum momento falei sobre gays afeminados. As falas suas que destaquei são todas discorrendo sobre gays heteronormativos.

          • henriquehaddefinir

            Quem está desmerecendo o quê aqui, criatura? Vou colar uma parte do texto (que pelo jeito você não leu).

            “Não há problema algum em parecer menos gay, desde que você não seja aquele que acha que só existe um jeito certo de ser gay.”

            É o FIM DA PICADA que você feche os olhos para o o quadro geral de uma questão e fique batendo nessa tecla do “preconceito contra heteronormativos”. Sempre vão existir problemas de qualquer espécie para qualquer tipo de pessoa, mas ainda assim, o heteronormativo que encontre discriminação por sê-lo, estará ainda vivendo o reflexo direto de uma postura defensiva de quem passou a vida inteira sendo mal tratado. Heteronormatividade pode ser essência ou defesa e o texto diz isso e deixa muito claro que estou falando aqui de mídia, de aspectos sociais amplos. O problema é cultural, muito maior. O ideal é que todo mundo possa ser o que quiser sem julgo e é isso que o texto está dizendo.

            Eu hein…

          • Bruno Sousa

            Guarde suas adjetivações para si, por favor. Não desejo seus “beijos”, também, obrigado. Guarde-os para quem necessita.

            “É o FIM DA PICADA que você feche os olhos para o o quadro geral de uma questão e fique batendo nessa tecla do “preconceito contra heteronormativos”.”

            Quando foi que eu fechei os olhos para o que os gays afemininados sofrem? Você está ressoando a dicotomia de que por falar de “um lado” eu estou necessariamente fechando os olhos para “o outro”.

          • henriquehaddefinir

            Quem fez isso foi você e você nem enxerga isso. DEUS….

          • Bruno Sousa

            Mostre exatamente como fiz isso.

            Não cheguei se quer a falar sobre gays afeminados. Comentei suas falas absurdas sobre gays heteronormativos.

            E não é porque não estou falando sobre gays afemininados que estou “fechando os olhos” para eles, como você alega. Essa é a dicotomia boba.

            – Vamos falar sobre A.
            – Por quê você não quer falar sobre B?
            – Não é que não queira falar sobre B, é que agora quero falar sobre A.
            – Por que você está fechando os olhos para B?
            – …

          • henriquehaddefinir

            Você veio TÃO defensivo e irônico sobre minhas falas sobre heteronormatividade (assunto do texto), que acho que posso considerar que você se aplica ao tipo.

            E disse que você fecha os olhos para O QUADRO GERAL, não falei nada de afeminados. Olha aí…. Não lê, não interpreta, só faz como todo comentarista defensivo> recorta aleatoriamente.

          • Bruno Sousa

            Suas falas foram sobre gays heteronormativos e você sabe muito bem.

            “E considerando que os gays heteronormativos encontram não só na sociedade regular quanto no mundo gay uma infinidade de privilégios, eu compreendo que qualquer problema soe eclipsado por isso.”

            “Porém, acho que a problemática heteronormativa pode ser uma questão de indivíduo, de como ele se expressa nas suas relações.”

          • henriquehaddefinir

            Bruno, você fica destacando esses trechos e não explica como se sente. Tem a porta para isso e não o faz, fica achando que seus argumentos vão sair magicamente de uma transcrição que eu mesmo já expliquei. Eu sei muito bem o que eu disse, você que não sabe dizer como você se sente.

            E sim, vou morrer dizendo que gays heteronormativos tem privilégios e que seus problemas – que existem – tem uma dimensão muito menos amplificada em comparação com os que não são. E eu digo porque EU tenho experiência. Aproveite e fale sobre suas experiências, compartilhe com os outros que pensam como você. Larga mão da ironia e se coloque. A questão é importante e pede. Se vc acrescentar algo ao tema, será válido mesmo que eu não concorde. Agora, ficar recortando textinho como se sua opinião sobre ele fosse exalar como mágica, não dá.

            Agora chega, porque argumentar com quem não se expressa é cansativo demais.

          • Bruno Sousa

            Não recortei trechos, recortei parágrafos. Parágrafos que mostram muito sobre o você pensa sobre gays heteronormativos.

            Larga mão de ironia? Larga mão de ironias, sarcasmos, adjetivações, ataques, acusações e diminuíções. Você não consegue discutir meio parágrafo sem isso.

          • henriquehaddefinir

            E parágrafos não são trechos?

            E sim, considerando que a ironia, ataque e as diminuições começaram com você, eu me sinto no direito de responder com sarcasmo e adjetivação.
            Vocês nos comments… Sempre agindo com unilateralidade.

            O que eu penso sobre heteronormatividade (e não sobre indivíduos heteronormativos, como o texto BEM DIZ),eu defendo com unhas e dentes.

            Agora eu vou lavar uma louça que eu ganho mais. Bye.

          • Bruno Sousa

            Começaram comigo? Sério? Foi eu que falei “vai estudar interpretação de texto, querido. Beijos!”?

            Não quis discutir o que você pensa sobre heteronormatividade, quis discutir suas opiniões sobre gays heteronormativos (indivíduos).

            Tanto que não destaquei um parágrafo do seu texto falando sobre heteronormatividade, destaquei um parágrafo seu nos comentários falando sobre gays heteronormativos.

          • henriquehaddefinir

            Trecho esse onde DEFENDO que por terem privilégios (E TÊM), não se dá muita atenção aos problemas deles.

            E de agressividade passiva eu entendo, Bruno. Agora tá bom, né? Vamos viver.

          • Bruno Sousa

            “Trecho esse onde DEFENDO que por terem privilégios (E TÊM), não se dá muita atenção aos problemas deles”

            Ah por favor, Henrique. Tudo menos hipocrisia. Não tente mudar seu discurso no meio da “jogada”.

            Você disse que gay heteronormativo tem uma infinidade de privilégios e que seus possíveis problemas são questões de indivíduo, de como o gay heteronormativo se expressa nas suas relações.

          • henriquehaddefinir

            EXATAMENTE. Ahhh JESUS DAI-ME PACIÊNCIA.

          • Bruno Sousa

            Exatamente. Não defendeu MESMO.

          • henriquehaddefinir

            Concordo Bruno. Beijo no coração e até mais.

          • Bruno Sousa

            Guarde seus “beijos”, por favor. Já lhe pedi. Falsa modéstia não me agrada.

          • henriquehaddefinir

            SMACK

          • Bruno Sousa

            ¯_(ツ)_/¯

          • vinland

            Nem discute com esse ser cara. Ele não aceita opinião contrária de ninguém, Nem mesmo quando está errado. Até evito as colunas dele ultimamente. Não sei como um site desses, pegar uma pessoa dessas pra trabalhar com público.

          • Bruno Sousa

            Como ousa um mero mortal discordar do grande henrique a definir, o Camões do Série Maníacos.

            Para discordar dele, deve ser porque “você não entende o significado das palavras” ou até porque “você não sabe interpretar texto”.

            Que burro! Vai estudar interpretação de texto para entender as nuances dessa complexa obra literária chamada “Textão do henrique a definir”.

            Pfff

  • Niobe S

    Que pena que o vitimismo tomou conta do site… Me avisem quando resolverem parar com discurso populista barato. No mundo real só queremos educação, saúde e comida na mesa. Beijos do povão para vocês da esquerda caviar!

  • André

    Só tenho que dizer uma coisa,eu sinceramente nâo consigo me sentir representado por um personagem somente pelo fato dele ser gay,pois sinceramente isso é o que menos importa. Sim,eu sou gay isso nâo significa que automaticamente os gays da tv ou de qualquer lugar me rapresentam,eu sou mais eu…
    Sempre me incomodou isso de colocar as mesmas pessoas num circulo ou num grupo somente por causa de sua opçâo sexual porque vamos combinar cada um de nos é diferente e eu nâo consigo me sentir rapresentado somente porque alguém gosta da mesma fruta que eu.
    Assim como existem gays de todo respeito,existem também gays machistas,existem gays que sâo extremamente futeis,eu sempre circulei nesse meio gls de festas eletronicas e naquele lugar eu percebi que nossa comunidade nâo é uma coisa só,ali enxerguei que cada pessoa era um individuo diferente.

    • henriquehaddefinir

      Beleza, André. Só toma cuidado com o termo “opção sexual”. Não se usa mais e é importante afastar a ideia de que sexualidade é uma questão de escolha.

    • DarkAngelblue

      concordo com vc sou branca mas tenho muitos idolos negros, Denzel, Viola, Foxx, Forrest Witaker,Morgan freeman, Samuel l Jackson, eddi murphy woopy goldberg etc

  • Edinho

    Devo fazer parte de uma corrente diferente, já que encontrar personagens gays não estereotipados sempre foi fascinante. Mas na minha infância a única representatividade da homossexualidade era o gay caricato que era o chaveirinho da comédia. Eu nunca me identifiquei com essa caracterização, Dawson’s Creek pra mim, foi uma verdadeira redenção me senti representado como gay. Mas hoje em dia estão criando um livro de normas de como ser gay, se você não for assim, então você é heteronormativo e isso é pecado mortal. Um cara gay se sentir mais familiarizado, e quero dizer com isso a vontade, com o universo do chamado homem heterossexual, não vejo problema nenhum.

    • henriquehaddefinir

      O problema é que por trás disso há uma certo senso de superioridade. Se não é o seu caso beleza, mas é o caso da maioria.

  • Luciano Assis

    Henrique, ótimo texto como sempre, porém lendo os comentários senti uma rivalidade entre gays afeminados e os que por qualquer motivo que seja,não tenham características femininas, apesar de achar o tema válido, acho um assunto meio perigoso, deveríamos estar Unidos nessa luta contra o precocento e não criando separações entre nós mesmos.Somos um povo livre, evoluído, que sabe muito bem o que é não se sentir aceito. Vamos continuar a ser livres e felizes porque a vida é curta e sofrida demais pra ficarmos perdendo tempo pensando em quem da pinta ou não. Abraço.

  • lucas

    Na minha visão, poucas são as retratações da homosexualidade que não são problemáticas, mesmo hoje em dia. Não importa a mídia nem nacionalidade do programa: o afeminado sempre tá lá pra servir como alívio cômico e apenas isso. Eu tenho uma quantidade enorme de programas no meu “currículo” e não consigo lembrar de nenhum personagem afeminado que tenha sido de importância vital para uma trama sem necessariamente servir ao propósito da comédia. E isso vem embutido com uma série de outros estereótipos nocivos: esses personagens são escritos como sendo pessoas fúteis, que geralmente só tão ali pra servir como acessório de uma personagem feminina hétero (aquela coisificação do amigo gay). Inclusive, a própria afeminação desse tipo de personagem é vista como algo digno de risos e piadas. Eu realmente quero ver o homosexual afeminando sendo retratado dignamente (como qualquer outro personagem), mas não vejo como esse retrato deles nas produções de hoje em dia possa ser algo digno de ser celebrado.

    Com os heteronormativos, o buraco é igualmente lá em baixo. Sendo eles aqueles que os LGBTs amam e se espelham, os personagens normativos são a própria personificação de alguns dos maiores problemas que se dão dentro da própria comunidade: caras de classe média, branquinhos padrãozinho, com corpos perfeitos e muita “masculinidade” pra dar. E mais importante: nenhum afeminação digna de risada do público. Assim, eles são amados e desejados por todos, enquanto vendem um padrão que não representa a realidade da maioria.

    • henriquehaddefinir

      Kurt, de Glee é um personagem afeminado sem propósitos de comédia.

      • lucas

        De fato. Mas Glee era uma série com uma temática de aceitação bastante voltada aos LGBT. Não dá pra dizer que era uma série nicho igual Looking, porém era bastante voltada pros LGBTs sim. Fora que o Ryan Murphy, apesar de todos os defeitos dele, é um diretor que pelo menos sempre faz um esforço pra incluir minorias nas produções dele. Agora, é muito raro ver uma série mais “neutra” retratando afeminandos sem fins cômicos, infelizmente.

        • henriquehaddefinir

          Mas será que não é simplesmente porque eles são engraçados? Não é assim na nossa vida? Eu entendo que eles acabam sendo retratados só na parte engraçada, mas de fato é complicado fugir da comédia.

    • lucas

      True Blood também tinha o Lafayate, que servia de alívio cômico, porém os outros secundários também. E ele teve bastante destaque. Mas novamente, o criador da série era gay, o que ajuda a pensar um pouco fora da bolha da heteronormativodade (porém não é garantia de nada, visto que muitos preferem optar por retratar só os gays masculinizados também).

      • henriquehaddefinir

        E lembrando que o Alan Ball criou Six Feet Under em que o Keith era um exemplo cabal de heteronormatividade. E se sentia ligeiramente superior ao David por causa disso.

        • lucas

          Ah, só queria comentar que o Jack, de Dawson’s Creek, também foi importante pra caraca pra mim, lá no auge da minha pré-adolescência. Assim Willow e Tara, de Buffy, que eu vi antes. E olha que eu só assisti essas séries beeeem depois do término delas.

        • Vinicius

          Mas sobre o Keith, acho que essa “superioridade” era mais pelo parceiro estar no armário e ele ser assumido. E ao longo dos episódios essa dinâmica entre eles muda muito. Isso acontece apenas na primeira temporada.

      • André

        Lafayette sempre foi bastante amado,junto com Eric,Pam e Jessica foi um dos personagens mais queridos de toda a série.

        • DarkAngelblue

          Connor no how to get away with murder discputa com o Frank de mais amado, e vence até.

          • André

            O que isso tem a ver com True Blood?
            Sem contar que a Laurel e Annalise sâo mais amadas que Frank e Connor

          • DarkAngelblue

            “Lafayette sempre foi bastante amado”

            igual o Connor do htgawm

          • André

            O Connor tem bastante fâs mas tem bastante gente que o detesta também. Eu diria que na primeira temporada ele era o favorito junto com Annalise,depois foi perdendo o lugar pra Laurel mais ainda sim logo depois dela é o que tem mais fâs mesmo

          • DarkAngelblue

            tem mais gente que ama do que odeia

  • lucas

    Nossa, também seria legal um texto falando sobre visibilidade lésbica e da falta de personagens homosexuais nos grandes blockbusters (apesar da cinema não ser o foco do site).

  • Gustavo Nagipe

    Acho que o grande problema na TV não é o uso do alívio cômico, afinal é fato que em nossas vidas usamos o humor como mecanismo de defesa contra as dificuldades de se viver em uma sociedade machista. Mas o maior erro, na minha opinião, é a “dessexualização” dos gays mais femininos. Parece que, para mídia, se tu é heteronormativo tu tem direito a se relacionar afetiva/sexualmente, mas se tu é afeminado, só pode ser amigo de estimação de alguma dondoca.
    Agora, é sério mesmo que tem comentário aqui criticando o texto como se o Henrique tivesse desmerecido alguma característica de gays? Gente, leiam o texto, depois reflitam, leiam novamente e tentem entender. Por favor, não sejam comentaristas de G1, e tentem desconstruir essa imagem dicotômica. Gays heteronormativos também sofrem preconceito mas, obviamente, bem menos que aqueles com atitudes e comportamentos considerados mais femininos. Só isso já é um privilégio.
    O texto foi corretíssimo. E, visto alguns (des)entendimentos, extremamente necessário. Parabéns, Henrique!

  • Castiel The Angel

    Vou abrir um parênteses no seu texto, se me permite. Na parte que tange as críticas de alguns movimentos LGBTs sobre estereotipação de gays no Brasil – de criticarem o personagem gay afeminado. Eu acredito que grande parte dessa critica se dava em épocas outroras, em que personagens gays realmente só eram retratados como peça cômica afeminada, como se fossem personagens unidimensionais ali – tudo bem você ter personagens assim em programas de humor, em que praticamente nenhum personagem tem qualquer profundidade mesmo, mas essa personificação era levada para novelas e seriados, em que grande parte do elenco de outros personagens tinham profundidade e drama (o gay não, o gay era sempre o alivio cômico pelos seus trejeitos). Tanto que tais órgãos pararem de reclamar justamente porque, nos últimos anos, tivemos diversos personagens gays na Tv brasileira que não estavam ali apenas para ser engraçadinhos. Então eu acredito que não era a heteronormatividade agindo neste caso, porque eu sentia que a crítica era muito mais pelo personagem gay ser unidimensional, SEMPRE, do que por ele ser afeminado. Tanto que Félix e Niko eram mais afeminados que Eron, que era mais masculino e até chegou a se deitar com mulher depois do Niko, mas, mesmo assim, Eron simplesmente foi ofuscado pelos dois primeiros – e a química entre os atores era tanta que a novela mudou de rumo e investiu num romance com os dois (mesmo que tenha gerado absurdos como Félix saindo impune de ter jogado um bebê na lixeira, em prol do protagonismo e final feliz para ele).

    Mas sobre os personagens serem estereotipados, a maioria dos autores fazia personagem assim (e alguns ainda fazem), porque consideram que esses personagens são mais fáceis de serem assimilados pelo público. Se você bota ele como veia cômica, unidimensional, as pessoas gostam porque ele é engraçado. Se colocam com profundidade, com dramas, as pessoas se afastam porque se lembram que o personagem representa uma pessoa real, e a grande maioria, infelizmente, ainda não admite, totalmente, que estas pessoas são perfeitamente normais. Félix é o clássico exemplo do afeminado engraçado que foi ganhando profundidade.

    No geral, eu acredito que não exista tanto essa batida de heteronormatividade na Tv BRASILEIRA, porque um gay afeminado e engraçadinho é melhor aceito do que um voltado para o drama. Mas na Tv americana, sim, isso existe, inclusive pela própria comunidade Gay – um exemplo disso é que os maiores estúdios pornográficos americanos possuem, em seu catálogo de atores, uns 90% héteros Gay for Pay.

    • henriquehaddefinir

      Castiel, o casal de Amor a Vida é um bom exemplo, mas Felix se redimiu, ficou mais engraçado, menos mal e isso precisa ser considerado. Além disso, dois passos que andamos pra frente retrocederam nas produções seguintes. Então, estou LONGE de achar que as questão foram meramente superadas.
      Além disso, seus posicionamentos são ótimos, embora o foco do texto não seja esse. Sem dúvida a assimilação do público em comédia é melhor (e o Félix era cômico, mesmo em sua vilania, então não é 100% aplicável), mas eu me refiro mais a como esse lugar segregado do afeminado se reflete em questões heteronormativas na própria comunidade gay e na recepção da sociedade como um todo.
      Beijão.

      • DarkAngelblue

        A questão aí é o ator que além de carismatico é acima da média. ele roubou a cena/novela pra ele e ainda conseguiu o primeiro bj gay no horário nobre da rede globo

    • DarkAngelblue

      eu acho que Felix, e o carneirinho roubaram a cena do casal principal, que nem lembro quem era pra ser sincera.

  • Excelente texto. Eu acredito que ainda falta chegar o respeito para com o jeito que o outro é do jeito que ele é. Mas sou o primeiro a admitir que quando você é mais “heteronormativo” o mundo te aceita com mais facilidade (não que eu não tenha meus momentos pintosos, mas meu jeito de ser é naturalmente menos chamativo e eu percebo a diferença com amigos que são mais afeminados). E concordo com o a críica do Castiel the Angel aí embaixo também. No acho que final das contas é entender que não tem problema ser desse ou daquele jeito, desde que se esteja bem como se é.

    • henriquehaddefinir

      Sim, ele falou coisas importantes, mas dá uma olhada na minha resposta pra ele. Temos que considerar outros fatores.

  • Luis Fernando

    Um emocionante texto. Parabéns.

  • DarkAngelblue

    no Brasil o que mais gosto é do Felix.

  • DarkAngelblue

    eu não sou nem ao mar nem a terra por exemplo não gosto de ver mts histórias tristes como Brockeback Mountain, nem gay engraçadinho, porque alé de repetitivo não tem graça. eu prefiro um meio termo.

  • Su

    Gostei imenso de ler o texto e queria parabenizar o autor pela coragem em partilhar algo tão pessoal. Imagino que não seja nada fácil. Penso que é muito importante existir essa partilha pois muitas vezes nem imaginamos o que é estar no lugar do outro ou o que é passar por uma situação que nos é alheia, então ler sobre isso faz-nos parar para pensar e isso acaba por ser o primeiro passo para sermos pessoas melhores e menos preconceituosas.

    Não imagino sequer o que é passar por essa experiência, então não quero que pareça que o que vou dizer seguir está a comparar ou diminuir a situação retratada, longe de mim fazê-lo. Queria apenas dizer que penso que todos, sem excepção perdemos com rótulos de género, sejamos mulheres ou homens, seja qual for a orientação sexual, então todos devíamos fazer um esforço consciente para não os perpetuar. Todos somos diferentes e únicos, não faz sentido nenhum forçar as pessoas a seguir uma norma daquilo se considera como masculino ou feminino. Dizer que menino tem que gostar de jogar à bola e andar à porrada, menina tem que gostar de brincar às casinhas e com bonecas, ou então há algo de errado com a criança. E claro, o mesmo tipo de expectativas na idade adulta, em que um homem não deve querer seguir certo tipo de carreira que exige mais sensibilidade porque não é coisa de homem ou uma mulher não pode gostar de algo mais tecnológico ou pesado porque vai ser vista como menos feminina. Temos todos interesses e personalidades tão variadas, por que não valorizar essa diversidade como algo que nos torna únicos e especiais?

  • Gleidson Oliveira

    Já faz bastante tempo, mas uma vez eu comentei em um post de alguma review sua aqui no Sériemaníacos (era sobre alguma série, mas não lembro qual) justamente sobre isso. Sobre o medo que as pessoas têm de encarar os estereótipos. Que se é estereótipo, é porque foi baseado em pessoas, mesmo que estas sejam diferentes do que você se considera ser. Eu acho bastante egoísta pensar dessa forma e achar que o mundo se molda a partir de ações que você considera ser vergonha para um todo, por algum motivo. Também lembro que esse comentário causou uma discussão absurda e fui bastante criticado pelo Brasil inteiro (você interviu e deu sua opinião, que era a mesma apresentada no texto acima). Mas é uma discussão muito importante que esclarece o quão heteronormativo é uma pessoa, incluindo os afeminados (Já vi muitos). Parabéns, Henrique. O texto tá incrível e eu não vou cansar de dizer o quanto eu amo qualquer coisa que você escreve.