A Garota no Trem peca por ser algo muito longe do inédito ou virtuoso

2
1028

Quantos de nós não criamos histórias para estranhos que avistamos em nossa rotina diária? O que leva aquela pessoa que corre na rua a exercer tal feito? Porque aquele casal brigaria no apartamento vizinho? O que levaria aquele desconsolado homem a se sentar em posição de derrota no banco do metrô? Somos impelidos pelo senso de compleição da narrativa, precisamos completar as lacunas com aquilo que sabemos. E quando não sabemos completamos com o que imaginamos sobre, mesmo que tais impressões possam ser totalmente diferentes da realidade.

“A Garota no Trem” (The Girl on the Train, 2016) tenta trabalhar justamente com essa dualidade dos pontos de vista na narrativa, de brincar com o que parece ser real e aquilo que é real, nublando o senso de julgamento entre um extremo e outro. Baseado no livro de Paula Hawkins, o filme troca Londres por Nova York, mantendo a protagonista que coloca em xeque sua capacidade de discernimentos dos fatos que presencia pelo fator do alcoolismo e sua constante perda de memória de momentos importantes da sua vida.

O que ela viu?

A história acompanha três narradoras: Rachel (Emily Blunt), desempregada que passa os dias andando de trem, bebendo e idealizando noções da vida alheia; Megan (Haley Bennett), uma esposa perfeita que esconde o desejo de sair da sombra do marido, além de manter a salvo os segredos sombrios do passado e Anna (Rebecca Ferguson), outra dona de casa que vive a mercê do marido e foi o motivo do rompimento do antigo casamento dele. Conectando todas elas há um crime hediondo.

A Garota no Trem
A Garota no Trem

Essas três personagens guiam o roteiro de Erin Cressida Wilson em caminho de algo que passa longe do chocante que a divulgação em trailers e pôsteres aponta, mas que ainda assim incomoda pelo fácil reconhecimento da situação retratada com o cotidiano atual. Abuso de poder, violência física e psicológica contra mulher, alcoolismo, problemas mentais, relações possessivas, tudo isso é embalado numa roupagem que remete aos clássicos hitchcockianos (Janela Indiscreta é o que salta à vista) misturado ao voyeurismo de Brian de Palma (Dublê de Corpo) e o modo frio e calculista que David Fincher emprega em suas películas (Garota Exemplar, numa comparação mais óbvia).

A Garota no Trem
A Garota no Trem

Apesar de ter como fonte a inspiração em tais clássicos (modernos e atuais) o filme dirigido por Tate Taylor (do infinitamente melhor Histórias Cruzadas) não é esse mar de rosas. A primeira metade torna tudo complicado demais ao mesclar cortes rápidos com saltos temporais tornando a compreensão um exercício de paciência para na segunda metade tornar tudo “mastigado” em excesso, sendo possível adivinhar quem é o responsável pelo chocante crime muito antes do filme terminar. Blunt carrega a atuação feminina de mais peso, com um personagem que passa longe do carismático e que atrai o mínimo de empatia, no qual não se pode confiar, mas que mesmo assim torcemos por ela. Bennett e Ferguson, cada qual a sua maneira, dão profundidade aos personagens que interpretam. O que fica evidente aqui é o protagonismo feminino do filme, já que os atores são em algumas partes meros artifícios cênicos para atiçar o desejo alheio, vide Luke Evans que passa boa parte do filme sem camisa ou fazendo cenas de sexo, uma leve alteração no padrão hollywoodiano vigente. Edgar Ramírez e Justin Theroux estão comuns, atuam bem, mas nada que seja o ponto de virada da carreira ou algo que se torne memorável no futuro.

Mesmo que insira tudo numa esfera de planos perfeitos de câmera, jogo de luz e sombra inteligente e uma trilha comedida que quase não se percebe no decorrer do filme, “A Garota no Trem” peca por ser algo muito longe do inédito ou virtuoso. Uma trama com potencial, mas que morre por se render demais ao referencial proposto. Não é ruim, mas não passa por nada além de bom. Na ganância de emular o estilo alheio, o filme (e, por conseguinte o livro) acaba perdendo sua alma original. Já está na hora de parar de imaginar e idealizar obras alheias e focar na originalidade que é muito mais que bem-vinda. Talvez assim tenhamos coisas mais interessantes num futuro próximo…

* O Série Maníacos assistiu ao filme a convite da Universal Pictures Brasil 

O papo sobre cinema não acaba aqui. Se você tem Telegram e quer continuar a conversa sobre cinema em todas as suas vertentes entre no Lounge Cinemaníacos! Você pode entrar em contato com a equipe de cinema do SM e com bastante gente legal que curte cinema! Nos encontramos lá!

 

  • vinland

    O livro tambem nao ajuda, pra sair muita coisa boa desse filme. Tento entender ainda porque esse livro fez tanto sucesso. Acho que o Marketing dele foi muito bom. O livro ja era ruim, o filme achei pessimo.

  • Evandro Roberto

    “Na ganância de emular o estilo alheio, o filme (e, por conseguinte o livro) acaba perdendo sua alma original.”

    Não entendi o que o livro tem a ver com isso mas ok. Eu li e adorei o livro, achei muito melhor inclusive que Garota Exemplar que tanto comparam. Mas infelizmente o filme não foi uma boa adaptação.