Frontier 1×02: Little Brother War

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Semana passada enfatizei que Frontier sofria de um problema conhecido do universo televisivo, a exposição excessiva de seu piloto prejudicava severamente o desenvolvimento de seus personagens, a credibilidade de seu universo e, em última instância, o engajamento fiel de seu público, que deve ser prioridade máxima do cartão de visitas das séries de TV. ‘Little Brother War’ é, felizmente e em todos os aspectos, um episódio consideravelmente superior, notavelmente porque essa semana a história que se desenrola na tela parece fruto de seus personagens, de seus instintos e motivações, e não de uma writers’ room qualquer em alguma sala de reuniões em Montreal.

No lugar da preguiçosa exposição do capítulo inicial, ‘Little Brother War’ aposta em bastante ação e desenvolvimento de plot, e o resultado é majoritariamente eficaz, um episódio dinâmico e bastante bem estruturado, e dessa vez guiado por uma presença bem maior do Declan Harp de Mamoa, destaque absoluto do elenco e que tem tempo de tela justo e suficiente para provar que é realmente um dos atores mais promissores da indústria hoje (o ator vai interpretar Aquaman nos cinemas em breve, e recentemente entrou para o projeto do remake de The Crow). Seria fácil para o americano cair numa zona de conforto e reciclar o adorado Khal Drogo de Game of Thrones, personagem que partilha bastante pontos em comum com Harp, mas Mamoa recusa o caminho fácil, e cria trejeitos detalhados, pacientes, e constrói um personagem verdadeiramente cativante, driblando com bastante sutileza os momentos de roteiro falho ou direção apelativa.

Por dar mais atenção ao núcleo de Harp, e como era inevitável após o gancho da semana passada, o episódio desse domingo dedica mais atenção aos nativo-americanos, nos apresenta novos personagens, desenvolve outros, e faz um trabalho eficiente em balancear as cenas desse núcleo com a dos numerosos outros: os “empreendedores” escoceses em busca de compradores, Benton e os ingleses, e também o estabelecimento de Grace, outra personagem promissora do piloto e que recebe muito mais atenção em ‘Little Brother…’, não desapontando ao se provar como uma sagaz conhecedora das dinâmicas da colônia. A sugestão de um passado afetivo entre ela e Harp pode ser interessante para os episódios futuros, se revelar-se como outra de suas relações estratégicas, ou negativa, caso subordine uma personagem outrora forte e independente. Ainda gritantemente ausentes, devo citar, são os negros, sejam escravos, libertos ou funcionários da Hudsons Bay Company (a Inglaterra aboliu o tráfico no início dos anos 1800 e a escravidão em meados da década de 30. Frontier se passa no fim do século anterior)

Frontier, entretanto, ainda não é só flores, definitivamente, e muitos problemas são herdados do piloto e estarão no cerne dos episódios seguintes, pois a maioria deles é de natureza fundacional, isto é, estão na própria concepção da série e mais alarmantemente na criação de seus personagens, dentre os quais Michael Smyth e Lord Benton são os mais incômodos. Este primeiro mantém-se um herói radicalmente clássico, mas também problemático em termos de roteiro, um exemplo clássico das “Mary Sue” hollywoodianas, que sabe o que dizer na hora certa, tem planos militares estratégicos na ponta de língua e sabe libertar um prisioneiro de suas correntes sem as chaves em questão de segundos. Sua atitude frente ao Novo Mundo é também estranha, e falta à Frontier um elemento importantíssimo da era colonial: a do deslumbramento, o encontro de europeus e nativos que era um choque de universos diferentes, opostos, o que não se vê na Hudson’s Bay, em que as tribos e os europeus parece operar numa mesma chave, embora sejam inimigos. Por último, são questionáveis algumas de suas escolhas, como nos momentos finais do episódio, em que auxilia Harp no resgate de Kitchi, arriscando ser descoberto e botando a vida de sua namorada em perigo. O caso de Benton é mais simples, trata-se de um vilão fraco, feito com o arroz e feijão dos livros de roteiro, que é tão esquecível que não sentimos por ele nem empatia e nem deprezo.

O saldo de ‘Little Brother War’ é positivo. Alguns problemas persistem e são intrínsecos à série, mas muitos foram corrigidos ou simplesmente abandonados pelos novos rumos revelados por esse segundo episódio. A escala da história, por exemplo, mostra-se muito mais reduzida e concentrada do que sugere o piloto e a premissa. É uma escolha importante, pois distancia a série das megalomanias das produções contemporâneas e dá mais atenção à roteiro, atuações e personagens. A cena final, um outro gancho igualmente eficaz ao de semana passada, prepara o plano de fundo para mais um episódio conturbado e ágil, e é nesses momentos de energia que Frontier triunfa.