Fleabag: a jornada do luto compartilhada com o público

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Se você perguntar, ela responderá que não é viciada em sexo, mas fica pensando em possíveis parceiros sexuais enquanto está no banheiro. Não entenda errado, ela não é obcecada por isso, só não consegue parar de pensar a respeito, na prática do ato, na estranheza em volta do ato, no drama em volta do ato… Naquele momento em que você percebe que alguém quer seu corpo. Nem tanto em como se sente a respeito. São suas palavras, não minhas, ditas na conversa que tivemos enquanto ela estava… Bem… No banheiro.

“Ela é impudica e ela é indesculpável.”

Phoebe Waller-Bridge sobre a protagonista de Fleabag em entrevista a Decider.

Desde sua estreia, em julho do ano passado, Fleabag tem colecionado elogios, sendo mais tarde selecionada nas listas de diversos críticos entre as melhores do ano. Ela, ainda, apareceu timidamente em alguns prêmios, Critics’ Choice, por exemplo. Navegando pelos sites de avaliação nos períodos de dezembro e janeiro, é bem possível que se esbarre em seu pôster, no qual uma mulher se desfaz em lágrimas. A comedia, dividida em seis episódios de pouco mais de vinte minutos, não tem a grandiosidade que vemos em algumas produções britânicas. Na verdade, é bem tímida no que diz respeito a isso. Talvez esse seja o motivo para não ter feito tanto barulho quanto os dramas de seu canal de exibição original. Sendo assim, para que não passe despercebida pelos maníacos por séries, chegou a hora de falarmos sobre Fleabag — e não se preocupe com o período, a série vai se manter relevante e atual durante muito, muito tempo.

Em cena: a atriz Phoebe Waller-Bridge como Fleabag.
Em cena: a atriz Phoebe Waller-Bridge como Fleabag.

A produção dividida entre a Amazon e a BBC é uma adaptação de uma peça curta criada pela atriz Phoebe Waller-Bridge em 2013. A partir de um desafio, como lembra nas entrevistas de divulgação, ela criou uma esquete com a história. Depois da produção do Piloto, foi preciso esperar mais um ano e meio de negociações para que o restante da série fosse encomendada e o projeto tomasse forma. Phoebe, além de criar e estrelar, assina o roteiro de todos os episódios.

A protagonista é nomeada como Fleabag (algo como saco de pulgas), uma jovem londrina que precisa gerenciar sozinha seu café, uma vez que sua amiga, com quem fundou o estabelecimento, faleceu pouco antes em um acidente. Segue a história: a amiga, de nome Boo, descobriu que o namorado a estava traindo; para se vingar, decidiu que o faria sentir remorso do ato. O plano era ser atropelada por uma bicicleta na ciclovia, quebrar algo, fazer muito drama no hospital. O problema é que não aconteceu como se esperava, e ela não só causou sua morte, como a de outras pessoas. Saiu no jornal: gerente de café local morre depois de ser atingida por uma bicicleta, e um carro, e outra bicicleta.

Em cena: as atrizes Phoebe Waller-Bridge como Fleabag e Jenny Rainsford como Boo em Fleabag.
Em cena: as atrizes Phoebe Waller-Bridge como Fleabag e Jenny Rainsford como Boo em Fleabag.

Não pensemos nisso, entretanto. Fleabag faz de tudo para não pensar, e talvez não devamos também. No lugar disso, ela se aventura pela cidade em encontros descompromissados e recorrendo sempre ao sexo como forma de ocupar o tempo e explorar a sexualidade e os relacionamentos com outras pessoas. Debochada, sempre com um comentário inapropriado para fazer e uma definição bem própria sobre feminismo, assim como sua intérprete, ela não se apega muito às consequências de seus próprios atos. A personagem pode ser vista como reflexo de outras personagens que protagonizaram diversas séries nos últimos anos, como a Hannah de Lena Dunham: tão imatura e carente de ajuda quanto — mas não tão irritante, eu prometo!

“As pessoas cometem erros. É por isso que colocam borracha no final dos lápis.”

Boo, Fleabag.

A rotina de Fleabag abriga um relacionamento estranho com a irmã, Claire (interpretada pela atriz Sian Clifford), e Martin (Brett Gelman), seu cunhado bizarro, que sempre deixa no ambiente aquela sensação de desconforto. Além disso, às vezes bêbada, a protagonista recorre ao pai (Bill Paterson), que mora com a madrasta e madrinha dela, vivida pela premiada atriz Olivia Colman, recentemente indicada ao Globo de Ouro por seu papel em The Night Manager, que aqui constrói uma das personagens mais irritantes e deliciosas do ano passado. Todas as cenas divididas entre ela e sua enteada barra afilhada têm uma tensão bem construída e são engraçadas de um modo bem constrangedor.

Em cena: as atrizes Phoebe Waller-Bridge como Fleabag e Sian Clifford como Claire são irmãs em Fleabag.
Em cena: as atrizes Phoebe Waller-Bridge como Fleabag e Sian Clifford como Claire são irmãs em Fleabag.

Aproveitando que esbarramos no adjetivo, não poderia pensar em outro que melhor definisse as situações vivenciadas pela personagem. Enquanto vai ignorando o momento de sentar e refletir sobre a falta da melhor amiga e as consequências de sua morte, ela se joga em cenários bizarros, desde convenções feministas, passando por retiros espirituais para mulheres e terminando na exibição dos trabalhos artísticos de sua madrasta. Nós nos sentimos parte de tudo, porque Phoebe conversa com a câmera o tempo todo, recurso popularizado por  Kevin Spacey e seu Frank, herança da técnica usada na versão original de House of Cards, e presente em produções recentes, como a também britânica Chewing Gum, no que chamamos de quebra da quarta parede, assunto que merece texto separado. Em Fleabag, a conversa com o público é tão natural e contínua, seja por caretas ou por falas inteiras, que, quando não ocorre, sentimos falta.

Em cena: a atriz Phoebe Waller-Bridge como Fleabag.
Em cena: a atriz Phoebe Waller-Bridge como Fleabag.

A relação com o público de se deixar invadir foi pensada pela atriz e escritora. Ela queria explorar essa sensação de exposição quando muito é dividido com o ouvinte, algo que permeia sua vida pessoal, como ela confessa. Fleabag é, além de tudo, uma série inteligente, que não só pensa em onde está as piadas, mas o que funciona para sua protagonista, o que funciona para a câmera e na melhor forma de explorar o relacionamento com o público. A atriz está entregue e crê em cada vírgula do que vivencia, o que reafirma o poder de trabalhar com aquilo que é criação própria.

Em cena: as atrizes Olivia Colman e Phoebe Waller-Bridge vivem madrasta e enteada em Fleabag.
Em cena: as atrizes Olivia Colman e Phoebe Waller-Bridge vivem madrasta e enteada em Fleabag.

Diferente da esquete, na qual Phoebe interpretava todas as personagens, aqui presenciamos apenas uma mulher caminhando pela vida de outras pessoas, em uma jornada pessoal que parece artificial se olharmos depressa, mas que vai se aprofundando. A brincadeira de invasão entre público e atriz chega ao clímax no último episódio, quando a personagem, em vez de flertar com a câmera, passa a temê-la. É quando a série abre espaço para o drama que apenas toca os primeiros episódios, mas que abraça a produção em seu desfecho.

Não só a direção e a manipulação de ângulos são boas, como o texto da série é inteligente e se firma relevante. O enredo debate de forma muito sutil assuntos polêmicos, sem nunca se posicionar autoritário sobre qualquer um deles. A série fala sobre luto, mas fala, mesmo que indiretamente, das conquistas das mulheres de nossos tempos e no poder de manipular os relacionamentos a seu redor.

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Além de uma produção para ver e rever, Fleabag é uma ótima estreia para Phoebe, que demonstra desde agora seu potencial. Só consigo comparar sua performance e entrega como atriz e personagem ao feito por Julia Louis-Dreyfus em Veeep — ou, sejamos francos, em tudo o que ela faz. A história é concluída, mas há rumores de segunda temporada, fortalecidos pela recepção aclamada da crítica. Enquanto isso, fiquemos de olho em Phoebe Waller-Bridge e absolutamente tudo o que ela faz. Depois de assistir uma vez e reassistir para escrever esse texto, a vontade é largar minhas pendências no que diz respeito às maratonas e recomeçar tudo, principalmente porque é piscar e já termina: tendo menos de três horas de duração no total, Fleabag é o resgate perfeito para uma tarde chata.

Em cena: a atriz Phoebe Waller-Bridge como Fleabag.
Em cena: a atriz Phoebe Waller-Bridge como Fleabag.
  • willian_as

    Assisti a pouco mais de um mês atrás, e digo: série/minissérie(?) sensacional. Acho q se encaixa mais em comédia com momentos de drama. Os diálogos são inteligentes e engraçados. Algumas(várias) cenas são hilárias e extremamente constrangedoras. rs
    Nunca tinha visto nenhum trabalho da protagonista, e a achei ótima, pretendo acompanhar seus futuros trabalhos. E como foi dito, são só seis episódios com pouco mais de vinte minutos cada, dá pra assistir numa tarde. Enfim, recomendo bastante.

  • diogopacheco

    Parabéns pelo texto Welson. Vi Fleabag em algumas listas de melhores do ano e maratonei na semana passada. Que série boa. Adoro comédias dramáticas deste jeito. O humor é uma forma bem interessante de se enxergar o mundo e gosto dele feito com tanta classe como a Phoebe faz.

  • Andreza Soares

    Eu amo essa série de um jeito. Foi uma das melhores surpresas de 2016. Ela é viciante. Em seis episódios, faz muito melhor do que uma série com vinte episódios. O roteiro é inteligente, mas que tem suas preocupações. As tiradas da personagem principal, te faz rir, mas ao mesmo tempo refletir. Eu tenho um amor pelas séries britânicas, elas quebram uns tabus incríveis. Fleabag me lembra My Maad Fat Diary. Por causa mais das protagonistas que tinham uma coisa em comum: As narrações que te tiravam de si como se fosse um tapa na cara.

  • Paulo Garrido

    Uma grata surpresa!