[Flashback] Freaks and Geeks 1×10: The Diary

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Clarice Lispector escreveu um conto chamado Felicidade Clandestina que, aliás, se tornou o título da coletânea na qual ele aparece. Em resumo profano, mas sempre aconselhando a leitura, a história fala sobre uma garota que deseja muito ler um livro, mas há vários obstáculos colocados entre os dois. Um dia, entretanto, ela consegue pegar o livro em mãos e passa a saborear o ato de tê-lo. Ela o guarda, finge que não sabe onde está para depois achá-lo, carrega-o pela casa, abraça-o. Entre as coisas que faz para saborear a clandestinidade de sua felicidade, está adiá-lo. Adia a felicidade na arrogância de já possuí-la e poder manipulá-la. Pois bem, devo confessar que eu sou uma pessoa que guarda séries. Devo confessar também que sou uma pessoa que guardou Freaks and Geeks por muito tempo. Que os fãs consagrados me perdoem — e na ausência deles, fico com o perdão e entendimento da escritora.

Antes de me render à série, acreditava que havia algo de profundo e reflexivo sobre ela, afinal, era a favorita de tanta gente. Aqui devo confessar também que eu associo o drama à qualidade de forma que não faz muito sentido — não em sua totalidade. Não acreditava que a série fosse, de fato, comédia, mas que se entregasse a questões filosóficas e de cunho muito sério. Faço parecer que não me interesso por esse tipo de produção, mas não é o caso. É bem o contrário, e isso justificou meu amor por Skins e seu exagero. Com Freaks, entretanto, resolvi adiar com essa certeza tirada de lugar nenhum e com argumento fundado apenas em pressentimento. Depois desse episódio dez, contudo, vejo que não estava totalmente errado.

The Diary brinca de abrir portas e levar seu público a lugares desconfortáveis e de reflexão. O roteiro não se compromete totalmente, deixando sempre à nossa responsabilidade o ato do exercício reflexivo ou abdicar da oportunidade. O episódio começa se aproveitando da boa estrutura firmada pelos dez anteriores. As relações entre as personagens foram bem apresentadas, então, cabe ao restante dos episódios tirar proveito disso. O exemplo mais evidente é o relacionamento entre Lindsay e Kim Kelly, esta que encontrou seu lugar na série e se tornou parte necessária ao enredo e à composição do elenco, coisa que outros secundários ainda não conseguiram. A personagem de Busy Philipps, que eu tanto critiquei nos primeiros textos, achou seu lugar, sua razão de existir dentro da trama e rende ótimos momentos.

O foco deixou de ser, pelo menos por enquanto, a vida amorosa de Lindsay e se tornou a amizade que a moça desenvolveu com Kim, de quem é amiga sem que isso faça muito sentido até para ela — o que tem pouca importância, pois na vida real é isso mesmo. Gosto dessa desviada de atenção no texto da série, mesmo que as investidas da protagonista em relacionamentos sejam divertidas de acompanhar. Há uma ausência nas séries, e isso se entende ao cinema, da exploração no relacionamento entre as mulheres e no questionamento da amizade entre elas: o Teste de Bechdel que o diga. Virginia Woolf, coautora (digamos assim) do teste, teria muito o que dizer a respeito, mas deixemos para outra hora e para alguém mais aprofundado no tema. Certo é que fiquei feliz com a escolha do roteiro.

O episódio trouxe diversos questionamentos, e questionar é sempre bom, principalmente na idade das personagens. Kim é criticada por ser exatamente aquilo que quer, o que nunca tem uma reflexão positiva para a mulher no geral, mesmo hoje em dia. As escolhas aparentemente duvidosas da personagem, seu comportamento ousado e a liberdade de se expressar são questionados pela mãe de Lindsay da mesma forma como ocorre fora das telas, muitas vezes de maneira mais enfática. Essa é o tipo de discussão que vale a pena ser levantada e que rende não só bons momentos, mas um bom desenvolvimento para a interação das personagens em questão.

Bill, no lado dos geeks, ganha destaque nesse episódio e também toca em assuntos relevantes para o olhar sobre a juventude que a série tem. Por mais que haja de forma controvérsia, é possível entender suas motivações. É interessante como a reflexão sobre a oportunidade de melhorar, que cabe tão bem a outros setores da vida adulta, partiu de uma situação que poderia não ter relevância, mas que foi devidamente investigada até resultar nas cenas com o treinador e no reconhecimento da discussão.

É sempre difícil escolher minha cena favorita do episódio, mas nesse talvez seja a discussão em sala a respeito da obra de Kerouac. Kim levanta um ponto interessante, que é aprofundado pelo apoio de Lindsay e diz muito sobre o quanto valorizamos um artista e uma obra consagrada sem discuti-la e questioná-la. Isso me lembrou muito de algumas figuras que correram pela internet e que demonstravam um pensamento intelectual em tradução intralingual para o bom e velho português — ou devo dizer bom e contemporâneo? Fica, enfim, a lição de que não se deve desvalorizar a opinião de ninguém sobre certo assunto e que toda forma de interpretar a arte deve ser considerada.

Não posso deixar de comentar sobre a questão do diário. Além de colocar os pais dos protagonistas mais uma vez em uma história divertida de acompanhar, essa subtrama é a representação da porta sobre a qual eu falei antes. Em outras palavras, ela pode despertar epifanias desavisadas se você deixar. A resolução é divertida, mas covarde e óbvia. Não há de se culpa a série, entretanto, pois, para ser diferente, seria preciso que a série fosse outra.

Lindsay e Kim seguem amigas, e a série segue consolidada da mesma maneira que eu já esperava antes mesmo de começar a assisti-la. Estou economizando os episódios restantes de maneira irresponsável, fingindo que há qualquer caráter clandestino na felicidade atribuída à experiência de assistir a Freaks and Geeks. Não há, é tudo legítimo.