[Flashback] Freaks and Geeks 1×07: Carded and Discarded

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Talvez durante o colégio seja a época em que mais acreditamos em destino. Não naquele quase mito tão explorado pela ficção, mas no propósito e futuro das coisas, ou em pequenas regras imutáveis da vida. Perguntamo-nos onde pertencemos, e o pertencimento sempre está bem perto da definição de destino. Indagamos sobre o futuro, sobre o que faremos — e sobre o que deveríamos fazer. Para os que deram sorte de se encontrar durante a transição do ensino fundamental para o ensino médio, o período contemplou os primeiros passos em direção à profissão escolhida. Suspeito, misturando essa e outras situações, de que na vida tudo é preparo para alguma coisa.

Essa obsessão pelo destino, por mais que velada em alguns indivíduos, também se revela na forma como aceitamos nosso suposto lugar entre os outros. Às vezes, chegamos a conclusões malucas de que certa pessoa (ou nós mesmos) estamos condicionados a certos lugares, certos amigos e não podemos fazer transição alguma, pois isso seria contra as regras. Regras? Quais regras? Ora, as regras! Freaks and Geeks aborda essas definições, esses medos e nosso diálogo individual e coletivo com o destino. Não faz isso somente nesse episódio, mas, dessa vez, há uma conversa mais direta com o tema.

Eu digo sempre por aqui que Lindsay não pertence aos freaks, e ela sabe disso. A própria conotação do grupo já implica em não se encaixar em outros grupos e ser rejeitado. Freaks nada mais é do que o grupo daqueles que foram rejeitados por grupos pré-definidos. Parece deprimente, mas a verdade é que nem eles se importam com isso. Não há esforço para ser freak, é quase por acidente. A prova de que a garota não faz parte do grupo está justamente aí, nesse esforço de ser compreendida como eles. Eles a deixam por perto, principalmente agora que ela talvez namore com um deles, mas isso não quer dizer muita coisa. Lindsay é como aquele estrangeiro que assimilou o sotaque do lugar de chegada, até parece com esse povo, até se veste igual, mas desliza na pronúncia de uma palavra e todos percebem não ser nativo.

Entre as coisas mais bizarras feitas por Lindsay em nome da aprovação na série, com certeza o uso do fundo da faculdade para comprar identidades falsas tem destaque. Seria aflitivo, se não fosse comédia; se não fosse constrangedor demais para não rir da situação.  As duas tramas do episódio trazem situações que ainda são bem atuais, com suas devidas atualizações. Ambas estabelecerão uma relação mais forte com o público da idade correspondente, como pode ter acontecido na época. Para nós, adultos chatos, toda a trama de identidade falsa soa distante e saudosista, divertida. Hoje em dia, eu me lembro da confusão e sofrimento que foi assistir ao último Sexta-Feira 13 no cinema, por ter sido cruelmente classificado como dezoito anos. Há, entretanto, quem ainda esteja passando por isso, e esse contraste dá à série o poder de ser vista de diversos ângulos e em diversas fases da vida.

Carded and Discarded não foca em um freak, como outros episódios focam. Todos têm seu espaço, por mais que alguns sejam privilegiados por limitações claras de protagonistas e coadjuvantes, o que a série poderia ter alterado durante as semanas.

Ganhamos alguns momentos mais valiosos com os pais de Lindsay e Sam, e gostei desse acréscimo. Os atores são muito bons, e tê-los em cenas que não se limitam aos jantares dos Weirs sempre rende situações engraçadas.

Enquanto isso, os geeks lidam com a realidade de pertencerem ao seu canto quando Maureen, a garota nova, vai de um grupo ao outro sem se importar muito com as regras que todos seguem. Seria interessante ver uma garota entre os geeks, principalmente como amiga. Tratando-se da falta de tato dos garotos, entretanto, era inevitável que ficassem apaixonados por ela. A história entre eles marcou de forma mais incisiva o que considero o tema do episódio. Diferente do que acontece com os freaks e de seu final tragicômico, os garotos enfrentam verdades agridoces sobre a escola como resolução. Dizem que ensino médio nunca acaba, então não será a última situação em que sofrerão pela ciência absoluta de saberem seus lugares ao mundo.

O sétimo episódio de Freaks and Geeks aproxima a série da contagem regressiva que a espera. É incrível perceber que, por mais que a série tenha tentado alcançar e ambientar a década anterior, seus temas estão bem próximos de nós, ou estiveram. Claro que aqui é tudo descontraído e leve, afinal, de duro e difícil já basta a nossa não-ficção de cada dia.

  • Laís F.

    Ótima resenha! Comecei a assistir Freak and Geeks na sexta-feira e já estou quase alcançando as resenhas, que são bem escritas.
    Já estou começando a ficar com o coração pesado sabendo que temos poucos episódios pela frente. Agora eu entendo pq virou um clássico. Os Freak são legais, mas minha identificação fica com os Geeks mesmo, ainda bem que eu estou vivendo em uma época em que ser Geek is the new black (não consigo imaginar como era terrível os anos 80 e 90), mas mesmo assim, na escola (olha que eu nem faz tanto tempo que eu me formei) eu sempre tive esse olho torto por ter uma paixão pela cultura pop.

  • Laís F.

    Ótima resenha! Comecei a assistir Freak and Geeks na sexta-feira e já estou quase alcançando as resenhas, que são bem escritas.
    Já estou começando a ficar com o coração pesado sabendo que temos poucos episódios pela frente. Agora eu entendo pq virou um clássico. Os Freak são legais, mas minha identificação fica com os Geeks mesmo, ainda bem que eu estou vivendo em uma época em que ser Geek is the new black (não consigo imaginar como era terrível os anos 80 e 90), mas mesmo assim, na escola (olha que eu nem faz tanto tempo que eu me formei) eu sempre tive esse olho torto por ter uma paixão pela cultura pop.