Fim Do Mundo: o realismo fantástico invade o nordeste brasileiro

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Uma vez, disseram que o mundo estava prestes a acabar. A crença no acontecimento movimentou a cidade de uma forma tão grande que diversos moradores foram à porta de suas casas ver o mundo acabar. Se é para acabar, que seja visto! Depois de alguns minutos, entretanto, ficou claro que o mundo não acabaria. Pelo menos não na superfície, no plano físico: as pedras continuavam por ali, as paredes também, as árvores também. A impressão, depois disso, porém, é que o mundo acabara sim. Acabou como acabara vezes antes — o mundo acaba às vezes. A cidade, sentinela do fim do mundo, viu o tempo passar sem que nada alterasse sua paisagem, suas pessoas e a forma como as coisas eram feitas ali: por que algo mudaria se o mundo para aquelas pessoas já havia acabado?

“É difícil sair, e é difícil voltar.”

— Vitória, Fim do Mundo.

Vitória, que mais para frente é definida como “cheia de opinião e vazia de homem”, volta à cidade natal com o filho, Cristiano, para tentar recomeçar a vida com ele. O jovem fora condenado a partir de crimes cometidos longe dali, e ela acredita que o lugar é perfeito para aproximá-los e deixar o passado para trás. Não sabemos muito da vida deles longe de Desterro, seu novo lar, mas a sensação é de que não importa muito a vida que levaram até o momento que entraram na cidade. Ambos contam com a ajuda de Balbino, irmão da pródiga, cujas atitudes em geral são bem questionáveis. A cidade se esconde no interior do nordeste, e é lá, entre conflitos pessoais, que mãe e filho vão desvendando as histórias e segredos do lugar.

As pessoas que ficaram de pé para ver o mundo acabar na série Fim do Mundo.
As pessoas que ficaram de pé para ver o mundo acabar na série Fim do Mundo.

Fim do Mundo é uma minissérie exibida no Canal Brasil entre 19 de novembro e 17 de dezembro desse ano, dividida em cinco episódios (o último é um epílogo) com quarenta minutos cada. A série ficou sobre a responsabilidade de Hilton Lacerda, famoso cineasta e roteirista do cinema nacional e que aqui faz sua primeira investida nos seriados e na televisão. Além de criar e roteirizar todos os episódios, ele divide a direção com Lírio Ferreira, com quem já trabalhou também como co-diretor em Cartola – Música Para Os Olhos, documentário de 2007. A dupla também já se juntou em Árido Movie de 2005 e Baile Perfumado de 1997. Por mais que a trama principal se desenvolva conforme os episódios passam, cada um fora baseado em um conto de um escritor nordestino escolhido a dedo pelo escritor e dramaturgo cearense Ronaldo Correia de Brito, curador dessa parte do projeto e criador do conto no qual se baseia o primeiro episódio. Os outros três nomes por trás das histórias seguintes são: Hermilo Borba Filho, escritor pernambucano, o cearense Sidney Rocha e o premiado sergipano Antonio Carlos Viana, que faleceu em outubro. O conto que rege o epílogo é do próprio Lacerda.

“Tudo aqui em Desterro parece que é para sempre.”

— Cristiano, Fim do Mundo.

Vitória, que parece ter esse nome por ironia, afinal, voltar à cidade é prova de que não venceu coisa alguma, é interpretada pela atriz Hermila Guedes, sempre associada por mim ao premiado O Céu de Suely, de 2006, e que passeou recentemente pela Globo na novela Amor Eterno Amor. O rosto de Cristiano é ainda mais reconhecível: o ator pernambucano Jesuíta Barbosa, que só nesse ano esteve em Ligações Perigosas, Justiça e Nada Será como Antes. O ator, que aqui está assustador de tão bom, havia trabalhado com o diretor antes em Tatuagem — filme que você precisa assistir para entrar para o clube dos que louvam o cinema nacional. Para coroar o casting, Marcélia Cartaxo é Mazé, uma personagem que começa tendo pouca contribuição à trama, mas que cresce conforme os episódios.

Em cena: os protagonistas Jesuíta Barbosa como Cristiano e Hermila Guedes como Vitória. É preciso relevar que os atores parecem mais irmãos que mãe e filho.
Em cena: os protagonistas Jesuíta Barbosa como Cristiano e Hermila Guedes como Vitória. É preciso relevar que os atores parecem mais irmãos que mãe e filho.

A série pode aparentar simplicidade, mas está longe disso. Seu enredo não tem complicações, mas o modo como é elaborado não facilita a quem assiste. Como dito em entrevista pelo diretor, sua missão não foi copiar e utilizar da fórmula de séries internacionais, mas criar algo nosso. Nesse sentido, sua tarefa foi bem cumprida e temos um projeto que na estrutura de sua narrativa lembra poucas coisas que eu já tenha assistido em termos de seriado. As maiores semelhanças são com os próprios trabalhos de Lacerda: há uma cena, por exemplo, em que duas personagens caminham pelo mesmo diálogo em diversos cenários, recurso já utilizado em Febre do Rato, de 2011, filme que tem roteiro assinado por ele.

Hilton mostra um domínio surpreendente sobre a história e seu visual: pode ser imaturo no que diz respeito à linguagem televisiva, mas entende de manipulação de câmera, de elenco e de roteiro. A produção passeia por diversos elementos que compõem outras linguagem, como o teatro — algo também feito em Tatuagem. O cineasta tem domínio de seu enredo e parece levá-lo sempre para longe do público, tendo este que acompanhá-lo em sua jornada muitas vezes pavimentada por lirismo e abstrações. Nesse caso, o resultado muitas vezes não é acessível e a sensação é de uma obra incompleta. Não por falta de capacidade, mas por não se sentir obrigada a curvar-se a nada além da própria proposta. Isto é, muitas vezes os diálogos não nos tocam, ficando no universo de quem fala: suas personagens são cobertas de razão, mas uma razão que só se aplica a si.

“Desobedecer é a única forma de manter a liberdade.”

Cristiano, Fim do Mundo.

Sou apreciador da arte que não cumpre todo o caminho do entendimento e que não se mastiga demais em favor de quem se propõe a apreciá-la, então não reclamo. Gosto da reflexão que vem por conta própria. Sendo assim, Fim do Mundo me oferece muito para vasculhar em seus episódios. A primeira coisa que questiono é sobre a cultura dos lugares que abandonamos: qual destino que tem quando partimos? Há muito mais.

Em seu terceiro episódio, Fim do Mundo explora o casamento entre uma moça muito nova e um homem bem mais velho.
Em seu terceiro episódio, Fim do Mundo explora o casamento entre uma moça muito nova e um homem bem mais velho.

Como a escrita da série só passou por homens, temos uma visão distinta sobre a mulher e a forma como é retratada: às vezes símbolo, às vezes ferramenta narrativa. O roteiro contemplativo demora a estabelecer sua proposta, devo dizer. O primeiro episódio, que conta a história de uma mulher que sofre com a violência do marido, prepara o terreno; o segundo, sobre a relação conflituosa entre a filha de Balbino e um rapaz da região, constrói o palco; mas é a partir do terceiro que percebemos o que está sendo exibido. O terceiro, sobre o casamento de uma moça muito jovem com um homem bem mais velho, é cruel, pois pode nos tirar de nossa realidade; o quarto é doloroso, principalmente para artistas: conta a história de um cantor que já foi muito, muito famoso e decide entrar em um concurso, passando-se por sósia de si mesmo; o quinto/epílogo é o clímax da história e ensaia um destino para suas personagens, se bem que nada é muito bem concluído.

“Um homem não pode ser a imitação de si mesmo.”

Fim do Mundo.

Outra personagem que se destaca é Joaninha, interpretada pela atriz Larissa Leão, que vive uma relação bizarra com Balbino, na qual é explorado o grotesco que tanto aparece no teatro contemporâneo. Há dois amigos que Cristiano faz pela cidade, Pedro e Liana, e ambos servem de ponte para as transformações que o jovem sofre na série.

Em cena: as atrizes Marcélia Cartaxo como Mazé e Larissa Leão como Joaninha protagonizam uma das melhores cenas da série.
Em cena: as atrizes Marcélia Cartaxo como Mazé e Larissa Leão como Joaninha protagonizam uma das melhores cenas da série.

A nudez é utilizada de um modo singular: sempre bem justificada e rendendo momentos visualmente deslumbrantes. Os atores estão bem conduzidos e protagonizam cenas emblemáticas e inspiradas — parecem tanto despidos do figurino quanto do ideal de atuação fora da produção: Jesuíta principalmente; fez valer muito o prêmio que ganhou há pouco. Como disse em entrevista, Hilton não sabe produzir arte que não tem opinião e não questiona, então muito entra em questão e aqui debatemos desde a violência doméstica ao papel tradicional do homem do interior, passeando pelo misticismo de lugares isolados e a sensação de prisão e pertencimento a locais e pessoas. A trilha sonora também é um destaque, principalmente o tema que abre os episódios.

Às vezes a série se entrega a delírios visuais, principalmente porque as personagens passam por jornadas de autoconhecimento. Nesses momentos, a realidade abre espaço para uma condução mais fantasiosa da história, modelo pouco adotado nas narrativas tradicionais. A série parece regar a semente de uma magia já existente na região para que ela consiga transbordar a tela e chegar a outros estados.

Em cena: Jesuíta Barbosa como Cristiano na série Fim do Mundo.
Em cena: Jesuíta Barbosa como Cristiano na série Fim do Mundo.

Nada está fora do lugar, e se não nos identificamos com os elementos em cena é somente isso mesmo: falta de identificação. Sentimos certas provocações, principalmente nessa relação tensa entre mãe e filho, quase incestuosa, mas algumas entrevistas com o diretor demonstram que isso também está ali em favor da história e foi proposital. Ele sabe o que mostrar e o que não mostrar: eu fiquei incomodado com a falta de cenas pela cidade com pessoas e automóveis, mas ele esclarece em entrevistas que foi uma decisão pensada. No eterno presente de sua cidade, Hilton cria, antes de mais nada, uma obra brasileira, com gosto de produto nacional e que se entrega ao experimento e ao delírio, sem nunca subestimar o próprio material ou engrandecê-lo demais. Afinal, como diz uma de suas personagens: no fim, nada sobra.

Em cena: Jesuíta Barbosa como Cristiano na série Fim do Mundo.
Em cena: Jesuíta Barbosa como Cristiano na série Fim do Mundo.

> O Melhor Do SM Play em 2016!

ps: Outras frases:

“Tédio só se tornou uma coisa desprezível no século XX.”

“O importante é se desequilibrar das coisas que não sustentam.”

pps: a série está disponível na GloboSat.

  • Vera Tocantins

    Eita que ainda estou assistindo, mas essa minissérie está maravilhosa, Welson!
    Excelente texto, miguxxxx!

  • Fernando d.S.

    essa já está na minha lista para assistir em breve

  • César

    Ótimo texto, me interessei mesmo pela série. Curto muito o Realismo Fantástico e o Desterro da minissérie parece mesmo ser uma Macondo brasileira. Kkkkkk

  • Caio Vinicius Viana Lima

    Onde é que eu tava que não fiquei sabendo dessa série kkkk
    Parece ser ótima.

  • João Carlos

    Meu pai comentou de um programa que estava passando em tal canal. Vi umas cenas, mas nao cheguei a acompanhar. Uma pena, pois pelo texto para tercido uma boa obra.