Dois Caras Legais

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Dupla (in)Perfeita.

A trama é meio batida. Dois homens com temperamentos e comportamentos opostos terão de unir forças em prol de um bem em comum. No decorrer do processo, a similaridade entre ambos vai ficando óbvia, chegando na constatação de que eles não são tão diferentes assim. O cinema é repleto de casos desse tipo, do western a comédia, do drama a ação. “Dois Caras Legais” (The Nice Guys, 2016) não foge a fórmula, mas se destaca por criar um misto de comédia e noir em meio a caótica e efervescente Hollywood dos anos 70.

Holland March (Ryan Gosling) é um detetive particular contratado para desvendar o misterioso suicídio de uma famosa estrela pornô. As pistas indicam o caminho em direção de Amelia Kuttner (Margaret Qualley), que contrata Jackson Healy (Russell Crowe), também detetive, mas sem o mesmo “profissionalismo” de March. Quando Amelia desaparece fica claro que há muito mais gente envolvida no complicado caso, revelando uma conspiração repleta de reviravoltas insanas.

Shane Black sabe bem construir esse ambiente insólito e ao mesmo tempo real. Desde “Máquina Mortífera” ele vem construindo esse tipo de personagens diferentes que se veem presos em um objetivo mútuo. Este exemplar, porém, guarda mais semelhanças com “Beijos e Tiros”, na construção irreverente e acelerada de fatos. As Hollywood de 1977 serve então de cenário perfeito para a demonstração do humor de situações que é a marca registrada do diretor. A cada novo desenvolvimento, uma galeria de personagens exóticos. Essa quantidade absurda de plot twists no entanto funciona muito bem, construindo o clima noir (ou neo-noir) em meio aos arroubos de comédia que o roteiro proporciona, como uma espécie de “Chinatown” ainda mais irônica. O humor aqui é de um nível mais próximo do farsesco, com piadas e gags baseadas na sugestão e na repetição de elementos cômicos de modo inventivo e inusitado (Misty Mountains que o diga).

A dinâmica entre Gosling e Crowe é palpável, mas quem rouba a cena é Angourie Rice no papel de Holly March. A garota consegue se destacar, crescendo no decorrer da trama, servindo com uma espécie de âncora para o pai e uma bússola moral para Healy, isso quando não está dirigindo e colhendo pistas, sendo talvez uma das cabeças da investigação, uma Nancy Drew precoce e muito mais esperta. Outros destaques vão para Matt Bomer (fugindo do habitual), Beau Knapp (o histérico capanga Blueface) e Kim Basinger, como uma juíza esquiva.

O resultado obtido é de um filme que se aproveita de uma época definida e de suas idiossincrasias, para construir uma tapeçaria de elementos excêntricos e guinadas acentuadas. A comédia aqui vem do absurdo das relações humanas. “Dois Caras Legais” mostra que por baixo da perfeita harmonia da superfície hollywoodiana há sempre algo de estranho ocorrendo na cidade. Seja nos mais requintados ambientes de Bel Air ou nas inúmeras esquinas e ruelas mal iluminadas da cidade, a realidade é tão estranha quanto a ficção.

* O Série Maníacos assistiu ao filme a convite da Diamond Films Brasil 

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  • Alan

    Esse está na minha lista, devo assistir hoje ou amanhã, no começo estava mais empolgado, hoje nem tanto

  • Alan

    Esse está na minha lista, devo assistir hoje ou amanhã, no começo estava mais empolgado, hoje nem tanto